A Copa do Mundo de 2026 começou sob tensão política nos Estados Unidos. A política migratória do governo Donald Trump, aplicada com mais rigor às vésperas do torneio, criou obstáculos para atletas, árbitros, comissões técnicas, jornalistas e torcedores de diferentes países. O caso mais sensível envolve a seleção do Irã, que recebeu autorização para jogar nos Estados Unidos, mas não poderá permanecer hospedada no país entre as partidas. Outro episódio de repercussão internacional foi o veto ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan (considerado um dos melhores do mundo), que tinha visto válido, havia sido escolhido para trabalhar no Mundial e poderia se tornar o primeiro representante da Somália a atuar em uma Copa do Mundo. A combinação desses casos deslocou parte da atenção do futebol para um debate sobre soberania, segurança nacional, xenofobia, seletividade migratória e uso político de grandes eventos esportivos.

A Copa de 2026 é sediada por Estados Unidos, México e Canadá e foi anunciada pela Fifa como a maior da história, com mais seleções, mais jogos e maior circulação internacional de torcedores. A promessa de integração, no entanto, passou a conviver com a lógica de controle de fronteiras do governo Trump. Segundo a CNN Brasil, a origem das restrições está associada à Proclamação 10998, medida que ampliou barreiras a cidadãos de dezenas de países considerados por Washington pouco cooperativos no compartilhamento de informações sobre solicitantes de visto. Entre as informações exigidas pelos EUA estão antecedentes criminais e eventuais conexões com terrorismo. Três seleções classificadas — Irã, Haiti e Senegal — foram diretamente afetadas por esse ambiente de restrição.

O caso do Irã é o mais delicado porque combina política migratória e conflito internacional. A seleção iraniana recebeu vistos para disputar partidas nos Estados Unidos, mas não poderá permanecer no país entre os jogos. O plano prevê que a equipe fique baseada em Tijuana, no México, e viaje aos EUA apenas nos dias imediatamente anteriores às partidas, retornando depois dos jogos. Para a delegação iraniana, a medida produz desgaste logístico e simbólico. Em entrevista em Tijuana, o embaixador iraniano Alireza Hashemi Sanjar Pasandideh afirmou que longas viagens, voos extras, problemas de coordenação e perda de tempo poderiam afetar o desempenho da equipe. Ele também disse que Teerã estava preocupada com a recusa dos EUA em conceder vistos a alguns integrantes da comissão técnica e da delegação oficial. 

O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou em pronunciamento que “Nós não temos problemas com os atletas, como já dissemos, ou o estafe de apoio. Mas nós não vamos permitir que eles juntem na delegação deles pessoas que sabemos que não tem nada a ver com os atletas e têm ligação com a Guarda Revolucionária do Irã ou coisas do tipo. Então vamos acompanha-los bem de perto, e vamos continuar fazendo isso”. A Embaixada do Irã em Ancara declarou que “os EUA estão privando a seleção nacional do Irã do seu direito de participar da Copa do Mundo em condições normais e sem pressão e estresse desnecessários”. A representação iraniana também afirmou que essa seria “a pior forma possível de interferência política no esporte”

O episódio do árbitro somali Omar Artan ampliou a percepção de que as barreiras migratórias atingem não apenas seleções, mas também profissionais do futebol internacional. Artan foi barrado no aeroporto de Miami apesar de possuir visto válido e credenciamento da Fifa. Segundo a Agência Brasil, ele foi considerado “inadmissível” pelas autoridades norte-americanas devido a “preocupações com a verificação de antecedentes”, sem detalhamento público das razões. A Reuters informou que Artan foi retido por horas, depois enviado de volta a Istambul, e recebeu apoio público ao retornar à Somália. Ele era considerado um dos principais árbitros africanos, havia sido eleito o melhor do continente em 2025 e poderia fazer história como o primeiro árbitro somali em uma Copa.

A Fifa adotou postura cautelosa. A entidade afirmou que não controla decisões migratórias dos países-sede. Segundo a Associated Press, Gianni Infantino declarou que a Fifa não tem poder para se sobrepor a decisões políticas e migratórias de governos nacionais. Essa posição, porém, foi criticada por especialistas. A advogada internacional Marta Mitico Valente, ouvida pela Agência Pública e pelo Brasil de Fato, afirmou que a Fifa poderia ter negociado regras especiais antes da escolha da sede. Para ela, “não deveriam ter feito Copa nos Estados Unidos considerando essas restrições”. A especialista argumentou que a entidade deveria ter criado, em acordo com os países-sede, uma espécie de zona ou regime especial de circulação para jogadores, árbitros, delegações e profissionais credenciados. A mesma advogada destacou que, do ponto de vista jurídico, países têm soberania para definir critérios de entrada. No entanto, ela criticou a falta de planejamento político e diplomático. “Cada país é soberano para estabelecer suas condições de entrada”, afirmou. Mas, segundo ela, quando a Fifa escolheu os Estados Unidos como uma das sedes, deveria ter condicionado a realização do torneio a garantias de trânsito livre para os participantes.

A política migratória também afeta torcedores, jornalistas e integrantes de delegações. A Agência Brasil informou que o Iraque enfrentou problemas no desembarque: o atacante Aymen Hussein ficou retido por várias horas antes de ser liberado, enquanto o fotógrafo Talal Saleh teve a entrada negada. O Haiti também relatou dificuldades na obtenção de vistos, e jornalistas iranianos e africanos comunicaram problemas à Associação Internacional de Imprensa Esportiva.

O episódio também confirma uma ideia conhecida da história das Copas: futebol e política sempre caminharam lado a lado. Em 2026, essa relação aparece menos nos discursos oficiais da Fifa e mais nos controles de fronteira impostos pelo país-sede. Irã, Iraque, Somália e Haiti não estão sendo afetados apenas por questões esportivas ou burocráticas. São países atravessados por conflitos, instabilidade política, migração forçada, presença de grupos armados ou disputas diplomáticas com os Estados Unidos. Por isso, a Copa passou a ser tratada por Washington também como um problema de segurança nacional.

No caso do Irã, o peso político é evidente. O país vive uma guerra aberta com os Estados Unidos e mantém relação histórica com grupos classificados por Washington como terroristas, entre eles o Hezbollah, no Líbano. Para o governo norte-americano, permitir a circulação livre de membros da delegação iraniana em território dos EUA, em meio ao conflito, representa risco político e de segurança. Para Teerã, a medida é discriminação e interferência política em uma competição esportiva. A seleção iraniana poderá jogar nos Estados Unidos, mas não poderá transformar o país em sua base de hospedagem entre as partidas. A equipe foi aceita pela lógica esportiva, mas restringida pela lógica geopolítica.

O Iraque também aparece nesse quadro por razões históricas e estratégicas. O país foi invadido pelos Estados Unidos em 2003, viveu anos de ocupação militar e ainda convive com grupos armados, milícias associadas ao Irã e remanescentes do Estado Islâmico. Mesmo quando atletas e profissionais iraquianos possuem visto ou credenciamento esportivo, a percepção de risco construída pelas autoridades norte-americanas pesa sobre o processo de entrada. O caso do atacante Aymen Hussein, detido e interrogado por horas antes de ser liberado, é um exemplo dessa dinâmica.

A Somália é outro exemplo da fusão entre esporte e geopolítica. O país enfrenta há anos a atuação do Al-Shabaab, grupo jihadista de orientação sunita aliado à Al-Qaeda e classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos. O árbitro Omar Abdulkadir Artan, mesmo com visto válido e credenciamento da Fifa, foi barrado ao tentar entrar nos EUA.

O Haiti se encaixa em outra dimensão do problema. Não se trata de associação direta com terrorismo internacional, mas de migração, crise social e repulsão populacional. O país vive instabilidade política, violência de gangues e uma crise econômica grave, o que o torna um local de repulsão populacional. Na leitura das autoridades norte-americanas, grandes eventos como a Copa podem ser usados por parte dos viajantes como porta de entrada para permanência irregular nos Estados Unidos. Essa percepção ajuda a explicar a rigidez nos vistos, embora também produza suspeição generalizada sobre torcedores, atletas e profissionais haitianos que pretendem participar regularmente do torneio.

A questão migratória deve ser pensada pelos brasileiros no contexto de classificação do PCC e do CV como grupos terroristas pelos EUA. Para além da Copa do Mundo, cidadãos do Brasil serão afetados com dificuldade para a obtenção de vistos, sobretudo aqueles que habitam em áreas controladas por essas organizações. As populações mais pobres, que via de regra moram onde o poder das facções se faz presente no cotidiano, serão as mais afetadas.

Victor Maurício (12.06.2026)

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