(Por Victor Maurício)
As tarifas de Trump completaram um ano em 2 de abril de 2026 sob um balanço marcado por custos mais altos para consumidores e empresas, instabilidade nas cadeias produtivas e dúvidas sobre os ganhos prometidos para a indústria dos Estados Unidos. Um ano após o chamado “Liberation Day”, o governo Donald Trump defende que a política comercial fortaleceu a produção doméstica, mas especialistas ouvidos por veículos internacionais apontam que os efeitos mais visíveis foram inflação importada, insegurança regulatória e desgaste na credibilidade comercial americana.
O “Liberation Day” foi o nome dado por Trump ao pacote tarifário lançado em 2 de abril de 2025. A medida criou uma tarifa global de 10% e elevou barreiras contra parceiros estratégicos, com impacto imediato sobre mercados, importações e decisões empresariais. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA decidiu que a maior parte dessas tarifas era ilegal, mas a Casa Branca reagiu com novas bases jurídicas para manter parte da política em vigor. Em 2 de abril de 2026, Trump voltou a anunciar novas tarifas sobre medicamentos e ajustes sobre metais, sinalizando que o tarifaço segue no centro de sua agenda econômica.
Tarifas de Trump elevaram o custo de vida nos Estados Unidos
O ponto de maior convergência entre as reportagens é o efeito sobre preços. A Al Jazeera informou que os lares americanos pagaram cerca de US$ 1.000 a mais em 2025 pelos mesmos produtos, com impacto mais forte sobre famílias de menor renda. O veículo também destacou, com base em estudos do Federal Reserve de Nova York, que quase 90% do peso econômico das tarifas recaiu sobre empresas e consumidores dos Estados Unidos, e não sobre exportadores estrangeiros.
No Council on Foreign Relations, o economista Benn Steil, diretor de economia internacional da instituição, resumiu esse diagnóstico ao afirmar que “as tarifas são impostos pagos por importadores dos EUA”. A frase ajuda a explicar por que tantos estudos e reportagens passaram a tratar a política tarifária como um fator de pressão interna sobre preços.
A Reuters registrou reação semelhante do setor empresarial. Em declaração reproduzida pela agência e traduzida para o português, Neil Bradley, diretor de política da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, afirmou que “um novo e complexo esquema tarifário sobre produtos farmacêuticos elevará os custos de saúde para as famílias americanas”. A crítica se soma à avaliação de que o tarifaço deixou de atingir apenas o comércio exterior e passou a atingir também despesas do cotidiano.
Indústria e cadeias produtivas seguem sem a estabilidade prometida
Outro ponto comum entre as fontes é a dificuldade de transformar o tarifaço em um ciclo estável de reindustrialização. O Los Angeles Times afirmou que as tarifas mudaram de forma tão imprevisível ao longo do ano que muitas empresas ainda lutam para construir cadeias de suprimento estáveis e de longo prazo. O jornal resumiu 2025 e o início de 2026 como um período de turbulência, com planejamento travado e crescimento limitado por incerteza. :contentReference[oaicite:5]{index=5}
Na mesma reportagem, a professora Kimberly Clausing, da UCLA School of Law, declarou, em tradução para o português, que “um ano depois, as tarifas de Trump só produziram preços mais altos, disrupção econômica, alianças desgastadas e perda de empregos na manufatura”. A avaliação é relevante porque dialoga com uma cobrança recorrente nas fontes: a promessa de reconstrução industrial apareceu mais no discurso político do que nos indicadores concretos de emprego.
Também ao Los Angeles Times, Aaron Klein, presidente de estudos econômicos da Brookings Institution, afirmou, em tradução para o português, que “a obsessão tarifária de Trump injetou incerteza nas cadeias globais de negócios”. Em seguida, ele acrescentou que a combinação entre tarifas intermitentes e judicialização destrói a capacidade de planejamento das empresas e enfraquece a confiança global nos Estados Unidos.
Credibilidade comercial dos EUA ficou mais frágil
O dano mais duradouro, segundo parte dos especialistas, pode estar menos nos números imediatos e mais na confiança internacional. No Council on Foreign Relations (CFR), Edward Alden, pesquisador sênior da instituição, avaliou que “os Estados Unidos incendiaram sua credibilidade comercial”. A formulação resume a percepção de que Washington passou a ser visto como um parceiro menos previsível, mais sujeito a mudanças bruscas de regra e menos comprometido com o sistema multilateral que ajudou a construir.
O efeito dessa perda de previsibilidade também aparece no diagnóstico do economista Sung Won Sohn, ex-comissário do Porto de Los Angeles, ouvido pelo Los Angeles Times. Em tradução para o português, ele afirmou que “o resultado líquido é uma eficiência econômica menor” e que o dano real não aparece apenas no PIB, mas em decisões mais lentas, produtividade mais baixa e uma névoa permanente sobre o cenário econômico.
Casa Branca insiste que o melhor ainda está por vir
Apesar das críticas, o governo Trump mantém a defesa da política. À Reuters, o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou, em tradução para o português, que “o melhor ainda está por vir, à medida que o programa tarifário do presidente Trump incentiva a produção doméstica, eleva os salários dos trabalhadores e reforça nossas cadeias críticas de suprimento”. A fala traduz a posição oficial da Casa Branca: as tarifas seriam um instrumento de proteção estratégica e de reconstrução industrial.
Essa aposta, porém, ainda enfrenta dúvidas. No CFR, Allison J. Smith, diretora associada de geoeconomia, observou que houve muitos anúncios de investimento ao longo do último ano, mas também muitas dúvidas sobre a capacidade desses compromissos saírem do papel. Em síntese, há promessas e comunicados corporativos, mas menos evidência de que o tarifaço tenha produzido uma virada estrutural clara na economia americana.
Tarifas de Trump passaram a se somar à crise geopolítica
O debate sobre as tarifas de Trump também mudou de escala porque passou a se combinar com a guerra contra o Irã e com choques de energia e suprimentos. A Reuters mostrou que os novos anúncios tarifários ocorreram em meio a um ambiente de pressão adicional sobre indústrias, saúde e custos de produção. No CFR, Michael Werz, pesquisador sênior da instituição, alertou que a combinação entre tarifas e conflito no Oriente Médio pode agravar a insegurança alimentar e se transformar em ameaça sistêmica à estabilidade global.
Esse contexto reforça a avaliação de que o “Liberation Day” não produziu apenas uma disputa sobre importações. Um ano depois, o tarifaço passou a afetar inflação, alianças políticas, cadeias logísticas e o papel dos Estados Unidos na economia mundial. A consequência é um cenário em que os custos já aparecem com nitidez, enquanto os benefícios seguem sendo defendidos mais como promessa do que como consenso empírico.
O que restou um ano após o “Liberation Day”
O saldo mais consistente das reportagens é que as tarifas de Trump remodelaram o comércio global, mas ainda não entregaram de forma inequívoca a reindustrialização prometida pela Casa Branca. Houve arrecadação tarifária, proteção adicional para setores específicos e discurso político voltado ao nacionalismo econômico. Em contrapartida, cresceram os preços, a incerteza para empresas, a litigiosidade e o desgaste da imagem dos EUA como parceiro comercial confiável. Um ano depois, o custo do tarifaço está mais claro do que seus ganhos.
Leia também: https://chadehumanas.com.br/trump-impoe-tarifas-de-50-sobre-produtos-brasileiros/
Referências
- BBC News Brasil – artigo enviado pelo usuário
- Deutsche Welle – artigo enviado pelo usuário
- Al Jazeera – Trump’s tariffs one year on
- Council on Foreign Relations – A Year After Liberation Day
- Reuters – novas tarifas e ajustes em metais
- France 24 – artigo enviado pelo usuário
- Politico – artigo enviado pelo usuário
- Los Angeles Times – um ano de tarifas
- Financial Times – artigo enviado pelo usuário