Opção Inglês

1 – B

O conectivo “however” exerce a função de estabelecer uma oposição argumentativa entre duas ideias apresentadas no texto. Inicialmente, os espaços verdes urbanos são descritos a partir de uma percepção superficial, segundo a qual parques e jardins comunitários seriam apenas elementos estéticos inseridos em áreas densamente construídas. Em seguida, o termo however, equivalente a “porém”, “contudo” ou “entretanto”, introduz uma perspectiva que contraria essa visão inicial. A partir desse ponto, o texto passa a apresentar evidências de pesquisas ecológicas que atribuem funções concretas e relevantes às áreas verdes, como a redução das temperaturas urbanas, a mitigação da poluição atmosférica e a melhoria da saúde mental. Dessa forma, o conectivo não apenas liga duas orações, mas organiza o raciocínio ao marcar a passagem de uma ideia considerada limitada para uma interpretação mais ampla e sustentada cientificamente. Esse contraste é importante porque prepara a conclusão do texto, segundo a qual a natureza urbana deve deixar de ser vista como luxo e passar a ser reconhecida como infraestrutura essencial à qualidade de vida. Em termos discursivos, however atua como um marcador de contraste, sinalizando ao leitor que a informação seguinte modifica ou corrige a expectativa criada anteriormente. Assim, sua função é introduzir um contraponto baseado em evidências científicas, fortalecendo a argumentação do autor e conduzindo à defesa de uma nova concepção de planejamento urbano. 

2 – A

O principal recurso argumentativo empregado no texto é a analogia, isto é, a aproximação entre dois fenômenos distintos para destacar características semelhantes entre eles. Ao pedir que o leitor pense no smartphone como um “cassino digital” que cabe no bolso, o autor estabelece uma comparação entre o funcionamento das redes sociais e os mecanismos utilizados pelos jogos de azar para manter a atenção dos usuários. A referência às máquinas caça-níqueis é especialmente importante porque esses equipamentos trabalham com recompensas variáveis e imprevisíveis, estimulando o jogador a repetir continuamente a mesma ação na expectativa de receber uma nova recompensa. O texto associa esse mecanismo ao funcionamento das plataformas digitais, nas quais notificações, curtidas, novos conteúdos e a rolagem infinita aparecem de maneira intermitente e incentivam o usuário a permanecer conectado. Dessa forma, a comparação com o cassino torna mais concreto e compreensível um processo tecnológico e comportamental relativamente abstrato. A analogia também possui forte caráter crítico, pois sugere que determinadas características das plataformas são planejadas para maximizar o tempo de permanência e o engajamento dos usuários. A afirmação de que o indivíduo não é apenas usuário, mas também “produto”, reforça essa crítica ao indicar que sua atenção, seus dados e seus padrões de comportamento possuem valor econômico para as empresas digitais. Assim, o texto não depende de estatísticas, depoimentos especializados ou normas jurídicas para construir sua persuasão. Sua força argumentativa resulta principalmente da associação entre duas experiências conhecidas — jogos de azar e uso de redes sociais —, destacando mecanismos semelhantes de recompensa, repetição e estímulo à permanência. 

3 – B

O efeito de humor da charge é construído por meio da ironia, recurso pelo qual uma expressão assume um sentido crítico diferente de sua interpretação literal. O idoso acredita estar assistindo ao programa Fantasy Island, série cujo próprio título remete a um universo de fantasia, enquanto a mulher esclarece que a transmissão exibida na televisão corresponde aos debates democráticos. A aproximação entre esses dois elementos estabelece a crítica política da imagem: aquilo que está sendo apresentado pelos participantes do debate parece tão distante da realidade que pode ser confundido com uma narrativa fantasiosa. Dessa maneira, a referência ao programa televisivo funciona como uma metáfora para propostas, promessas ou discursos políticos percebidos como pouco realistas ou de difícil concretização. A charge não critica a existência do debate democrático em si, mas explora humoristicamente a distância que pode existir entre determinadas promessas apresentadas durante disputas eleitorais e as condições concretas para sua realização. Esse tipo de construção é comum nas charges políticas, que combinam acontecimentos públicos com referências culturais conhecidas para produzir uma leitura crítica da realidade. O humor depende também da quebra de expectativa: inicialmente, o leitor pode interpretar a fala do idoso como um simples comentário sobre programação televisiva, mas a resposta da mulher revela que ele está, na verdade, observando um debate político. A expressão Fantasy Island passa então a adquirir um segundo significado, deixando de designar apenas uma obra de ficção e tornando-se uma caracterização irônica do conteúdo político transmitido. Assim, a crítica resulta da associação entre fantasia e discurso eleitoral, sugerindo que algumas propostas apresentadas ao público podem possuir caráter idealizado, exagerado ou desconectado das possibilidades concretas de execução. 

4 – E

A crítica central do trecho está na inversão da relação entre seres humanos e máquinas. Em vez de apenas desenvolver tecnologias capazes de reproduzir certas capacidades humanas, como cálculo, linguagem ou tomada de decisão, a sociedade passou também a adaptar comportamentos humanos à lógica técnica dos sistemas digitais. Isso aparece no texto quando são mencionadas práticas como otimizar tudo por métricas, consumir conteúdos em fragmentos curtos e valorizar a velocidade em detrimento da profundidade. A crítica, portanto, não está dirigida apenas à inteligência artificial, mas à forma como os próprios indivíduos passam a organizar sua atenção, seu tempo e suas escolhas segundo padrões cada vez mais mecanizados. A expressão “think like machines” funciona como uma metáfora para esse processo de racionalização excessiva da experiência humana. 

5 – A

O texto defende que a comunicação sobre as mudanças climáticas se torna mais eficaz quando aproxima um problema global da experiência concreta das comunidades. Estatísticas sobre aumento da temperatura média, elevação do nível dos oceanos ou concentração de gases de efeito estufa são importantes, mas podem parecer abstratas e distantes da vida cotidiana de muitas pessoas. Por isso, a proposta apresentada consiste em transformar esses dados em narrativas capazes de mostrar como as mudanças ambientais afetam diretamente a saúde, a moradia, o acesso à água, a segurança alimentar, o trabalho e as condições de vida das populações. Essa estratégia amplia a capacidade de identificação do público com o problema climático, porque estabelece uma ligação entre processos ecológicos e experiências humanas concretas. Ao relacionar a preservação ambiental à dignidade humana, o texto também amplia o debate para além de uma perspectiva exclusivamente naturalista. A crise climática passa a ser compreendida como uma questão social, econômica e política, que afeta de maneira desigual diferentes grupos e territórios. 

Opção Espanhol

1 – B

Os conectores “Por el contrario” e “En suma” exercem funções discursivas distintas e complementares na organização argumentativa do texto. A expressão por el contrario introduz uma ideia que corrige ou se opõe à interpretação apresentada anteriormente. No trecho, primeiro se afirma que o patrimônio cultural imaterial não se restringe a monumentos ou coleções de objetos; em seguida, o conector conduz o leitor para a perspectiva considerada adequada, destacando tradições, expressões orais e saberes ancestrais. Trata-se, portanto, de um contraste corretivo, pois a segunda informação substitui uma visão limitada por uma definição mais ampla do conceito. Já a expressão en suma desempenha função de síntese conclusiva. Depois de apresentar os elementos que compõem o patrimônio cultural imaterial, o texto resume a ideia ao afirmar que ele constitui “a alma viva da diversidade humana”. Esse articulador não acrescenta um novo argumento independente, mas reorganiza e condensa o conteúdo anterior em uma formulação final. Em termos de coesão textual, o primeiro conector orienta uma mudança de direção argumentativa, enquanto o segundo sinaliza fechamento e resumo. Assim, a progressão do texto ocorre em duas etapas: primeiro, corrige-se uma concepção restrita de patrimônio; depois, sintetiza-se a nova definição construída ao longo do enunciado. 

2 – A

O efeito de humor e de crítica política da tirinha é construído a partir de uma situação de pressão econômica exercida pelo setor empresarial sobre o governo. O personagem que representa a indústria de pneus afirma que, caso determinadas medidas de proteção ao setor sejam retiradas, 920 famílias ficarão sem trabalho, transformando a possibilidade de demissões em instrumento de pressão sobre a decisão presidencial. A fala apresenta uma lógica típica de chantagem econômica: a manutenção dos empregos é colocada como consequência direta da adoção de uma política favorável aos interesses da empresa ou do segmento industrial. O governante inicialmente escuta a ameaça, mas sua reação muda quando percebe que a argumentação empresarial utiliza trabalhadores e suas famílias como forma de constrangimento político. A divisão da palavra “No… me… vas…” em diferentes quadros cria suspense e intensifica progressivamente a reação do personagem, culminando na acusação de “extorsão”. O recurso gráfico exagerado, com perseguição e violência caricatural, amplia o caráter cômico da cena. Ao mesmo tempo, a charge problematiza a relação entre Estado, empresas e emprego, mostrando como setores econômicos podem mobilizar o risco de desemprego para pressionar governos em disputas envolvendo tarifas, proteção de mercado ou outras políticas econômicas. 

3 – E

A expressão “Sin embargo” exerce, no parágrafo, a função de introduzir uma oposição em relação à ideia apresentada anteriormente. O texto começa destacando um aspecto positivo da leitura digital: a ampliação do acesso a bibliotecas e conteúdos disponíveis em escala global. Em seguida, a conjunção adversativa rompe essa sequência favorável e apresenta uma ressalva, mostrando que a digitalização também pode produzir efeitos problemáticos sobre a forma como os indivíduos leem e processam informações. Nesse caso, o contraste ocorre entre acessibilidade e profundidade da leitura. Embora os meios digitais facilitem o contato com uma enorme quantidade de textos, a hiperconectividade pode fragmentar a atenção e dificultar a concentração prolongada necessária à compreensão de conteúdos complexos. A expressão sin embargo, equivalente a “no entanto”, “entretanto” ou “contudo”, atua justamente como marcador dessa mudança de direção argumentativa. Sua função não é negar completamente o benefício inicial, mas relativizá-lo ao acrescentar um aspecto crítico que torna a análise mais equilibrada. Esse tipo de construção é frequente em textos argumentativos, pois permite ao autor reconhecer uma vantagem antes de apresentar uma limitação ou consequência adversa. 

4 – A

O texto estrutura sua crítica a partir de um paradoxo entre modernização tecnológica e desigualdade social. De um lado, destaca-se a ideia de “aldeia global”, associada à expansão das redes digitais, à circulação quase instantânea de informações e à capacidade de conectar diferentes regiões do planeta. De outro, permanece uma parcela da população urbana sem acesso satisfatório a condições elementares de cidadania, como água potável, escolas adequadas e serviços de saúde. O contraste revela que o avanço técnico não produz automaticamente uma distribuição equivalente de bem-estar social. Uma sociedade pode apresentar elevada capacidade de comunicação, infraestrutura digital sofisticada e rápida circulação de informações enquanto mantém profundas desigualdades no acesso aos serviços básicos. A expressão “No obstante” é fundamental para organizar essa oposição, pois desloca o argumento da celebração da conectividade para a persistência da exclusão. Da mesma forma, a metáfora final — “a modernidade tecnológica avança veloz, enquanto a justiça social caminha com muletas” — sintetiza a crítica ao apresentar dois processos que evoluem em ritmos muito diferentes. 

5 – C

O texto atribui ao grafite e à arte mural uma função que ultrapassa o aspecto puramente estético, compreendendo essas manifestações como instrumentos de apropriação simbólica do espaço urbano e de expressão coletiva. Ao ocupar muros, fachadas e outras superfícies da cidade, grupos sociais que muitas vezes possuem pouca representação nos espaços institucionais de produção cultural conseguem tornar visíveis suas experiências, identidades, reivindicações e memórias. Nesse sentido, a ideia de “democratizar o espaço público” está relacionada à possibilidade de diferentes sujeitos participarem da construção dos significados atribuídos à cidade. O espaço urbano deixa de funcionar apenas como cenário físico e passa a constituir também um território de comunicação e disputa simbólica. A expressão “direito à cidade” reforça essa perspectiva ao indicar que os habitantes não devem apenas utilizar passivamente os espaços urbanos, mas também participar de sua produção, transformação e ressignificação. 

Linguagens

6 – B

O texto parte de dados pontuais da realidade de Minas Gerais (155 mortes de janeiro a agosto) e dos alertas locais dos Bombeiros para discutir o problema da desatenção cognitiva/biológica causada pelas telas e redes sociais. Isso configura a progressão temática estrutural do texto de opinião/editorial.

7 – D

O trecho final tem como objetivo central orientar/persuadir o comportamento do interlocutor (pais/responsáveis/cuidadores), apelando para a proteção da vida das crianças. Essa orientação persuasiva sobre o receptor caracteriza a função conativa (ou apelativa) da linguagem.

8 – A

O editorial constrói sua consistência argumentativa ancorando-se no argumento de autoridade: cita dados de O TEMPO, recomendações do Corpo de Bombeiros e da Sociedade Brasileira de Pediatria, e pesquisas da Bain & Company e da Universidade Texas A&M.

9 – C

O texto ressalta que o estímulo contínuo à dopamina e à gratificação imediata acarreta lentidão reflexa e sobrecarga cognitiva, prejudicando a atenção no mundo real e facilitando tragédias.

10 – B

A expressão “Isso acarreta, paralelamente,” retoma o estímulo à dependência de dopamina citado no período anterior para introduzir o seu efeito/consequência: a queda na concentração.

A locução “Esse tempo é mais que suficiente para” estabelece uma relação de proporção/adequação temporal, mostrando que os 4 segundos de distração (dado científico apresentado) são suficientes para gerar o desfecho trágico (o desaparecimento da criança na água). A alternativa B descreve com precisão a função desses articuladores na progressão das ideias.

11 – C

A presença dos símbolos Adinkra em portões e gradis de ferro do Brasil evidencia a resistência cultural e a materialização da cosmovisão e ancestralidade dos povos Akan (África Ocidental) no patrimônio e urbanismo brasileiro, sendo hoje resgatados, valorizados e ressignificados.

12 – A

A campanha visa combater o capacitismo. Ao esclarecer o conceito e convidar o público à reflexão a partir dos enunciados, a linguagem do anúncio atua na mitigação de um problema social, estimulando a igualdade e a inclusão social e laboral.

13 – B

O texto jornalístico e a peça informativa cumprem papel essencial de utilidade pública: esclarecer a confusão relatada pelos responsáveis a respeito de quem tem direito à dose da nova vacina Pneumo 20, detalhando o escalonamento etário e o histórico prévio necessário no SUS.

14 – C

O catira (ou cateretê) é uma manifestação corporal e folclórica intrinsecamente ligada à rotina e aos encontros sociais sertanejos. Os movimentos ritmados de pés e palmas originam-se da necessidade comunitária de confraternização, celebração e transmissão de costumes locais.

15 – C

O anúncio emprega uma argumentação dupla para mobilizar o comportamento do leitor: no plano ético, apela para a responsabilidade de “valorizar quem o cria” e “respeitar o trabalho de todos os profissionais”; no plano coercitivo/jurídico, adverte enfaticamente com “Pirataria é CRIME!” e lembra que a legislação prevê sanções civis, perdas e danos e punições penais.

16 – D

O uso de jogos e tecnologias só é produtivo e humanizado quando há intencionalidade pedagógica clara, integrando o lúdico sem cair no excesso ou no aprisionamento passivo diante de telas.

17 – A

O texto constrói a comicidade justamente ao satirizar o uso pretensioso de jargões. O narrador simula erudição criando termos hilários e absurdos para dar ordens de marinheiro (“traquineta”, “vela bimbão”, “sanfona de Abelardo”, “cabo de Eustáquio”), evidenciando o uso paródico da linguagem especializada.

18 – B

A alta estatura (1,92 m aos 13 anos), que antes motivava risos, preconceito e desejo de se esconder, encontrou na prática do esporte coletivo e nas exigências técnicas do vôlei um território de excelência, pertencimento e ressignificação de suas potencialidades corporais.

19 – B

No texto, o autor (Olívio) escreve uma carta a uma autoridade máxima do município e tenta manter a deferência e a seriedade exigidas pelo gênero. Contudo, por não ser um redator oficial profissional, deixa transparecer na escrita marcas da sua oralidade cotidiana (como iniciar frases com pronome oblíquo ou construções como “Me chamo Olívio” e “não só eu como toda a minha família fomos criados”). Essa dinâmica reflete perfeitamente a tensão entre a norma-padrão requerida pela esfera pública e os hábitos linguísticos coloquiais do falante.

20 – A

A campanha foca a violência psicológica velada, caracterizada pelo recurso da intimidação e chantagem: ameaçar retirar os filhos caso a companheira rompa o relacionamento. A linguagem verbal agressiva aliada à composição visual (o homem gesticulando em tom acusatório e a mulher acuada cobrindo o rosto) denuncia explicitamente a coerção psicológica.

21 – C

O texto demonstra que termos comuns do quotidiano (como bálsamo, azulejo, tarifa, jarra, leilão ou oxalá) derivam da presença e convivência dos povos árabes na Península Ibérica durante a Idade Média. Isso comprova que as línguas se transformam dinamicamente por meio de intercâmbios históricos, preservando nas suas palavras a memória, os encontros culturais e a identidade partilhada.

22 – A

O trecho evidencia a apropriação das terras pela família Peixoto, que as havia herdado das sesmarias, enquanto os trabalhadores têm sua história vinculada à chegada de Damião, em 1932. A referência às sesmarias remete ao sistema colonial de concessão de terras, marcado pela concentração fundiária e pela exclusão de diferentes grupos sociais do acesso à terra. Dessa forma, o texto sugere uma relação desigual com o território, na qual a posse da terra está associada a processos históricos de apropriação e dominação. A referência à chegada dos trabalhadores e à recuperação das histórias das famílias também evidencia a importância de compreender esse passado para entender as relações sociais estabelecidas naquele espaço.

23 – B

O trecho de Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, retrata o processo histórico de expulsão, violência e marginalização dos povos indígenas desde a colonização do Brasil. A narrativa menciona que os indígenas foram afastados de suas terras, mortos ou submetidos ao trabalho forçado, evidenciando a persistência de conflitos relacionados à ocupação e à posse dos territórios indígenas. Além disso, o texto destaca que os personagens recorrem à identidade indígena como forma de tentar proteger suas terras, reconhecendo a existência de leis que garantem direitos territoriais a esses povos. 

24 – D

O Texto I apresenta a ancestralidade como um princípio fundamental da cultura de matriz africana, responsável por organizar valores, práticas e representações religiosas, especialmente no candomblé. No Texto II, essa ancestralidade manifesta-se na prática do jarê, religião de matriz africana tradicionalmente presente na região retratada em Torto Arado. Entretanto, o trecho evidencia uma tentativa de deslegitimar essa tradição religiosa quando o pastor critica as imagens de santos e afirma que os moradores precisam ouvir a palavra de Deus. Essa atitude revela um conflito religioso no qual as crenças de matriz africana são desvalorizadas e pressionadas a ceder espaço ao cristianismo. Assim, a ancestralidade no Texto II é evidenciada justamente pelo processo de apagamento e desvalorização de uma tradição religiosa que integra a identidade cultural da comunidade.

25 – A

No Texto I, extraído de São Bernardo, de Graciliano Ramos, predomina uma visão de mundo orientada por interesses financeiros. O narrador, Paulo Honório, utiliza empréstimos e estratégias calculadas para se aproximar de Luís Padilha e, posteriormente, conseguir vantagens relacionadas à aquisição da fazenda São Bernardo. Dessa forma, as relações humanas são apresentadas sob uma perspectiva econômica e material. No Texto II, extraído de Os sertões, de Euclides da Cunha, predomina um olhar voltado aos aspectos naturais e biológicos da paisagem sertaneja. O autor descreve elementos como o clima, a vegetação, as raízes, o solo e a ação das águas, destacando as dificuldades impostas pelo ambiente e a resistência da flora. Portanto, os textos apresentam perspectivas distintas: enquanto o primeiro enfatiza os interesses monetários e materiais, o segundo privilegia a descrição dos fenômenos naturais e das características biológicas e geográficas do sertão.

26 – B

A composição do samba-enredo A Ópera dos Malandros, do Acadêmicos do Salgueiro, constrói a identidade do malandro por meio de expressões características da cultura popular urbana e do universo do samba. Termos como “malandro”, “ginga” e “batuqueiro” remetem à sociabilidade das comunidades ligadas ao samba, enquanto expressões como “Laroyê”, “mojubá” e “axé” apresentam referências religiosas e culturais de matriz africana. Esses recursos linguísticos aproximam a composição da oralidade e valorizam as tradições culturais que constituem a identidade da personagem. Assim, a variedade linguística empregada funciona como uma marca de pertencimento social e cultural, reforçando a ligação do malandro com o samba, a vida noturna e a cultura popular carioca.

27 – E

A peça publicitária do Ministério da Saúde tem como objetivo incentivar a vacinação de reforço contra a COVID-19 entre os grupos prioritários. O texto verbal destaca expressamente o “reforço da vacina bivalente para grupos prioritários” e esclarece, em letras menores, que a dose é destinada a quem já tomou duas doses de vacinas monovalentes contra a COVID-19. Além disso, a frase “Vacina é vida. Vacina é pra todos.” reforça o caráter coletivo da imunização, enquanto a linguagem visual, com cores vibrantes e um personagem sorridente, busca tornar a mensagem acessível e atrativa. Portanto, o público-alvo prioritário são as pessoas pertencentes aos grupos prioritários que já completaram o esquema básico de vacinação e precisam receber a dose de reforço.

28 – A

A obra de Vik Muniz utiliza as cinzas do incêndio que destruiu o Museu Nacional para reconstruir artisticamente a imagem do crânio de Luzia, um dos vestígios humanos mais importantes da história do povoamento da América do Sul. Ao empregar os próprios resíduos da tragédia como matéria-prima, o artista transforma os vestígios da destruição em um símbolo de resistência e reflexão sobre a preservação da memória histórica e científica brasileira. A obra evidencia que a perda de um acervo não representa apenas a destruição de objetos, mas também o risco de apagamento de parte da identidade e da história coletiva do país. Assim, a produção artística ressignifica a tragédia e chama a atenção para a importância da preservação do patrimônio cultural brasileiro.

29 – C

Na obra Carnaval em Madureira (1924), Tarsila do Amaral combina elementos da cultura popular brasileira, como o carnaval e a presença de pessoas comuns nas ruas, com um símbolo cosmopolita, a Torre Eiffel. Essa composição aproxima referências culturais distintas e rompe com a ideia de que a arte nacional deveria reproduzir exclusivamente os padrões estéticos europeus. A artista valoriza manifestações populares e espaços suburbanos, transformando-os em temas centrais da pintura moderna brasileira. Ao mesmo tempo, incorpora elementos estrangeiros de maneira criativa, sem abandonar as referências à realidade nacional. Dessa forma, a obra contribui para a construção de uma identidade artística brasileira moderna, que reconhece a cultura popular como fonte legítima de expressão estética e questiona a hierarquia tradicional entre a cultura europeia e a nacional.

30 – A

No poema A rua dos cataventos, de Mário Quintana, o eu lírico expressa sentimentos de sofrimento, perda e resistência diante das experiências que metaforicamente o “assassinaram”. A repetição dos versos “Da vez primeira em que me assassinaram” e “Depois, a cada vez que me mataram” sugere feridas emocionais sucessivas, que provocam a perda de partes de sua identidade. A função emotiva manifesta-se na expressão subjetiva dos sentimentos e das experiências do eu lírico. Já a função poética destaca-se pelo emprego de metáforas, paradoxos e imagens simbólicas, como a “luz de um morto”, que representa a permanência de uma força interior mesmo diante da destruição. A articulação dessas funções constrói a tensão central do poema: embora o sujeito se sinta cada vez mais despojado de si mesmo, sua luz interior permanece acesa, simbolizando a resistência existencial.

31 – A

A linguagem corporal constitui uma importante forma de comunicação e expressão humana, permitindo que os indivíduos transmitam sentimentos, ideias, valores e experiências por meio de gestos, posturas, movimentos e expressões faciais. Na xilogravura Carollers Woodcut, de Albert Huie, a representação dos cantores evidencia a dimensão coletiva das manifestações artísticas, destacando a interação entre os participantes durante uma atividade musical compartilhada. As diferentes posições dos corpos, os movimentos das mãos e as expressões dos rostos demonstram que a comunicação não se limita à linguagem verbal, mas também se estabelece por meio de recursos corporais que ampliam as possibilidades de interação social. Nesse contexto, o canto coletivo representa uma prática cultural capaz de fortalecer os vínculos comunitários, promover o sentimento de pertencimento e favorecer a construção de identidades compartilhadas. A gestualidade dos participantes contribui para a transmissão de emoções e para a articulação entre os indivíduos, transformando a atividade artística em uma experiência de sociabilidade. Além disso, manifestações culturais dessa natureza desempenham um papel importante na preservação e na transmissão de tradições, conhecimentos e valores entre diferentes gerações. Sob a perspectiva da linguagem corporal, o corpo deixa de ser compreendido apenas em sua dimensão biológica e passa a ser reconhecido como um instrumento de produção de significados culturais e de estabelecimento de relações sociais. Dessa forma, a obra evidencia que as práticas expressivas coletivas ultrapassam a dimensão estética, constituindo espaços de convivência, comunicação e valorização da diversidade cultural. Portanto, a alternativa correta é a letra A, pois reconhece a linguagem corporal como um vetor de integração social e de compartilhamento de experiências culturais no espaço comunitário. 

32 – C 

O texto mobiliza marcas nítidas de variação diatópica e diafásica (como “Nóis”, “num”, “mode” e a construção sintática popular). Na perspectiva da sociolinguística e da Matriz do ENEM, as variações linguísticas não devem ser tratadas sob a ótica do “erro”, mas como manifestações legítimas de identidade cultural e social. Na literatura regionalista, o uso dessas marcas busca a verossimilhança — ou seja, dar voz autêntica aos sujeitos retratados, respeitando sua bagagem cultural e combatendo qualquer forma de preconceito linguístico. A alternativa C consolida perfeitamente essa compreensão ao associar a variante à construção identitária.

33 – C

A poesia do movimento Pau-Brasil, liderado por Oswald de Andrade na década de 1920, buscou a reconstrução da identidade nacional por meio de um olhar antropofágico e desmistificador. O texto justapõe elementos da modernidade urbana (“o bonde elétrico”) com imagens da terra (“o índio de taparrabo”, “a goiabeira”), satirizando o “bacharel” e o “índio de casaca” — símbolos do formalismo e do ranço colonial acadêmico. A alternativa C traduz com precisão esse projeto modernista de conciliação crítica entre o progresso técnico e as raízes autênticas do país, combatendo a cópia servil dos modelos europeus.

34 – B

O gênero textual de campanha de utilidade pública utiliza verbos no imperativo (“pare”, “cheque”, “interrompa”) e apelos diretos à consciência do leitor para modificar comportamentos sociais nocivos. No texto, o Ministério da Saúde alerta sobre os perigos da infodemia e convoca o cidadão a atuar como um agente de contenção da desinformação, destacando que a responsabilidade pela veracidade do que circula na rede recai também sobre quem repassa o conteúdo. 

35 – E

A questão exige a articulação e comparação de textos de diferentes épocas sobre um mesmo eixo temático. O Texto I (do início do século XX) retrata a impessoalidade e a frieza da metrópole industrial (“homens caminham cabisbaixos… o progresso material sepultou a alma coletiva”). O Texto II (do século XXI) atualiza esse mesmo mal-estar urbano para o cenário da cibercultura, onde a solidão se manifesta por meio da hiperconexão tecnológica (“fantasma digital perdido no próprio labirinto de dados”). 

36 – B

Esta questão exige o reconhecimento das características estilísticas do jornalismo informativo (notícia). O texto em questão prioriza a impessoalidade e a objetividade, marcas fundamentais do gênero: utiliza a terceira pessoa, relata fatos de interesse público e baseia-se em dados quantitativos precisos (“14% de sua capacidade”, “últimos dez anos”) e fontes institucionais oficiais (“ONS”, “ANA”). A alternativa correta valida essa conduta estilística focada na transmissão fidedigna da informação factual.

37 – B

A questão propõe que os estudantes interpretem a crítica e o humor gráfico presentes em charges. O cartunista utiliza a personificação de graves crises ecológicas (“Mudanças Climáticas” e “Desmatamento” vestidas como a Morte) para responder à dúvida simplória de um cidadão comum sobre o encarecimento da fatura de energia. A fala irônica (“Sabe de nada, inocente!”) aponta que o consumidor ignora a macroeconomia e a relação de causa e efeito entre a degradação ambiental (que afeta o regime de chuvas e os reservatórios das usinas hidrelétricas) e o encarecimento da eletricidade no país. 

38 – B

Os vestibulandos precisam saber distinguir as variações linguísticas e rejeitar o preconceito linguístico, compreendendo que a língua é heterogênea. O texto de Marcos Bagno enfatiza que nenhuma variante é intrinsecamente “errada”, pois todas possuem lógica interna e atendem às demandas comunicativas de suas comunidades. A alternativa B traduz perfeitamente essa premissa ao defender o respeito às variações e a rejeição aos preconceitos hierarquizantes.

39 – C

A questão contempla o uso de recursos estilísticos como a ironia e a antítese na argumentação. O editorial do jornal constrói seu argumento crítico confrontando a promessa utópica de união e acesso irrestrito ao conhecimento da “era da informação” com o cenário distópico real de polarização e isolamento nas “tribos digitais”. Essa contraposição engenhosa caracteriza o uso da ironia e da antítese, validando a alternativa C.

40 – B

O Romantismo brasileiro, impulsionado pelo desejo de construir uma identidade nacional autônoma após a Independência (1822), recorreu à idealização do índio (o nativo heroico, livre da corrupção europeia) e à exaltação hiperbólica da natureza pátria. A alternativa B descreve essa associação entre a estética literária romântica e o projeto histórico de afirmação da soberania cultural do período.

41 – B

Nesta questão é preciso reconhecer a presença de valores sociais e humanos universais nas grandes obras literárias. Vidas Secas é um marco da literatura de denúncia social (fase de 30 do Modernismo), expondo criticamente a vulnerabilidade humana, a desumanização dos marginalizados pelo meio inóspito e a exploração a que são submetidos os retirantes nordestinos. A alternativa B sintetiza o valor humanístico e social preservado por essa matriz literária.

42 – C

Nesta questão os estudantes devem reconhecer as variedades linguísticas e a sua adequação aos contextos de uso, combatendo o preconceito contra registros populares ou regionais. O texto traz marcas típicas da oralidade e da cultura caipira (“a gente fumo”, “brenhas”, “peito dos pé”). Sob a ótica da sociolinguística moderna, essas variações não constituem “erros” de gramática, mas sim sistemas legítimos de comunicação que cumprem perfeitamente sua função expressiva e identitária no cotidiano de seus falantes. 

43 – E

A questão exige que os estudantes saibam relacionar o impacto das tecnologias de comunicação e informação (TICs) ao desenvolvimento social e cognitivo. O texto de Pierre Lévy destaca que o hipertexto rompe com a leitura linear tradicional e estimula rotas personalizadas, mas traz o ônus de exigir novos letramentos e filtros críticos diante da enxurrada de dados. A alternativa E resume adequadamente essa nova dinâmica digital.

44 – A

A questão avalia a compreensão das linguagens corporais e sua inserção na cultura e na história. O texto contextualiza a capoeira como uma expressão polivalente (luta, dança, música e jogo) intrinsecamente ligada à resistência histórica dos afro-brasileiros contra a escravidão. A alternativa A expressa essa simbiose entre corporalidade, arte e resistência social.

45 – A

O cartunista explora a contraposição entre a proibição dos smartphones no ambiente escolar e a total falta de familiaridade de um aluno nativo digital com o suporte impresso tradicional. Ao tentar “ligar” o livro como se fosse um dispositivo eletrônico (“E agora? Onde que liga?”), a charge ironiza a distância geracional entre o suporte analógico (o livro didático) e a hiperconectividade cotidiana dos estudantes, gerando uma reflexão crítica sobre os novos letramentos e a relação dos jovens com os meios físicos de estudo.

Ciências Humanas

46 – E

A distribuição espacial dos deslocamentos populacionais projetados pelo Banco Mundial evidencia uma das principais contradições da crise climática contemporânea: as populações que historicamente menos contribuíram para o aquecimento global estão entre as mais vulneráveis às suas consequências. Essa desigualdade está relacionada ao conceito de justiça climática, que considera as diferenças de responsabilidade pela emissão de gases de efeito estufa e as distintas capacidades econômicas, políticas e tecnológicas das sociedades para enfrentar os impactos ambientais. O gráfico demonstra que a África Subsaariana apresenta a maior projeção de deslocamentos, com 86 milhões de pessoas até 2050, seguida pelo Leste Asiático e Pacífico, com 49 milhões, e pelo Sul da Ásia, com 40 milhões. Somadas, essas três regiões representam aproximadamente 81% dos deslocamentos previstos para as seis regiões analisadas. O relatório Groundswell, publicado pelo Banco Mundial em 2021, destaca que a redução da disponibilidade hídrica, as perdas de produtividade agrícola e a elevação do nível do mar podem comprometer as condições de permanência de milhões de pessoas em seus territórios. Essa distribuição revela que os efeitos das mudanças climáticas não são determinados exclusivamente pela intensidade dos fenômenos naturais. A vulnerabilidade também depende de fatores socioeconômicos, como pobreza, insegurança alimentar, dependência da agricultura de subsistência, precariedade habitacional e acesso limitado a infraestruturas de proteção. Em muitas regiões africanas e asiáticas, a combinação desses fatores reduz a capacidade de adaptação das comunidades, tornando a migração uma possível estratégia de sobrevivência. Historicamente, os países industrializados concentraram parcela expressiva das emissões acumuladas de dióxido de carbono, especialmente em decorrência da utilização de carvão mineral, petróleo e gás natural. Entretanto, parte significativa dos impactos recai sobre sociedades que apresentam menor responsabilidade histórica pelo problema. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece que comunidades vulneráveis, apesar de terem contribuído menos para o aquecimento global, sofrem consequências desproporcionais.

47 – B

O conceito de vontade geral ocupa posição central na teoria política de Jean-Jacques Rousseau e está diretamente relacionado à ideia de soberania popular. Para o filósofo, a legitimidade das leis não deriva da vontade particular de um governante, de uma elite ou da simples soma dos interesses individuais existentes na sociedade. A vontade geral representa aquilo que corresponde ao interesse comum do corpo político, isto é, aquilo que pode beneficiar a coletividade considerada como um todo. Por essa razão, Rousseau distingue a vontade geral da chamada “vontade de todos”, que seria apenas a soma de preferências particulares e interesses privados. O contrato social estabelece uma comunidade política na qual cada indivíduo participa da formação da vontade coletiva e, ao obedecer às leis, obedece a normas das quais também é autor. É nesse sentido que Rousseau procura conciliar autoridade política e liberdade. A obediência à lei não deveria significar submissão a uma vontade externa, mas participação em uma ordem construída coletivamente pelos cidadãos. A soberania, portanto, pertence ao povo e não pode ser alienada ou transferida de maneira definitiva para um governante. Esse princípio também fundamenta a ideia de que as decisões políticas legítimas devem buscar o bem comum, e não favorecer grupos específicos ou interesses particulares. A vontade geral não exige que todos tenham exatamente a mesma opinião, mas que a deliberação política seja orientada pela preservação dos interesses comuns da comunidade. Dessa forma, a legitimidade do Estado democrático, na perspectiva rousseauniana, resulta da correspondência entre as leis e o bem-estar do conjunto da sociedade.

48 – B

O ponto central da Constituição de 1824 foi a concentração de poder político nas mãos do imperador, especialmente por meio da criação do Poder Moderador. Esse quarto poder colocava D. Pedro I em posição superior aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, permitindo-lhe interferir diretamente no funcionamento das instituições imperiais. Na prática, o monarca podia dissolver a Câmara dos Deputados, convocar novas eleições, nomear senadores a partir de listas tríplices e escolher ministros, além de exercer ampla influência sobre a administração do Estado. Essa estrutura reduzia a autonomia efetiva do Parlamento, pois a representação política existente ficava subordinada às prerrogativas da Coroa. A Constituição de 1824 preservava formalmente instituições representativas, como a Câmara dos Deputados e o Senado, mas estabelecia mecanismos que limitavam sua capacidade de atuar de maneira independente. O Senado, por exemplo, era vitalício, e seus integrantes eram escolhidos pelo imperador entre os nomes mais votados nas províncias. Além disso, o sistema político imperial era fortemente centralizado, com reduzida autonomia provincial, sobretudo antes do Ato Adicional de 1834. Essa configuração refletia o esforço da monarquia para evitar a fragmentação territorial e controlar as disputas políticas existentes após a Independência. Ao mesmo tempo, porém, produziu conflitos com setores das elites que defendiam maior participação parlamentar e descentralização administrativa. O Poder Moderador transformou-se, assim, no principal instrumento jurídico da centralização política imperial. Por meio dele, a Coroa conseguia limitar a autonomia das instituições representativas e manter o imperador como elemento decisivo na organização do Estado. Dessa forma, embora o Império brasileiro possuísse Parlamento e Constituição, a arquitetura institucional de 1824 estabeleceu uma relação profundamente assimétrica entre representação política e autoridade monárquica. 

49 – B

A pirâmide etária apresentada é a da Índia, mas não seria necessário identificar o país para resolver a questão. Trata-se de um país que encontra-se no momento do bônus demográfico, onde a proporção da população em idade ativa é significativamente maior do que a de dependentes (jovens e idosos). Esse período é uma janela de oportunidades para o país enriquecer antes de envelhecer, pois representa um momento em que há um potencial maior de mão de obra disponível para impulsionar o desenvolvimento econômico. Portanto, investir em qualificação profissional durante o bônus demográfico é ideal porque, além de aumentar a produtividade dos trabalhadores, viabiliza o surgimento de uma mão de obra capaz de produzir itens com mais valor agregado (produtos que envolvem tecnologia, como softwares e sistemas operacionais, por exemplo). Os países ricos são grandes exportadores de tecnologia. Hoje, o bem físico tem um valor muito pequeno quando comparado ao valor da tecnologia que ele utiliza para funcionar. 

50 – C

O conceito apresentado pela questão é o nacionalismo, entendido como uma ideologia política que atribui centralidade à nação, à soberania nacional e à defesa dos interesses considerados próprios da comunidade nacional. Em suas vertentes mais excludentes, o nacionalismo pode estabelecer uma oposição rígida entre aqueles considerados integrantes legítimos da nação e os grupos identificados como externos ou estrangeiros. É nesse contexto que discursos anti-imigração podem ganhar força, sobretudo quando os imigrantes passam a ser apresentados como ameaça à segurança, à identidade cultural, ao mercado de trabalho ou à coesão social. A literatura política utiliza também o conceito de nativismo para descrever uma forma específica de nacionalismo que privilegia os grupos considerados “nativos” e enxerga elementos estrangeiros como potencialmente ameaçadores à homogeneidade nacional.Essa lógica costuma sustentar propostas de endurecimento das fronteiras, limitação dos fluxos migratórios, deportações e preferência por cidadãos nacionais na distribuição de determinados direitos ou oportunidades. É importante distinguir nacionalismo de patriotismo: o patriotismo pode envolver apego e identificação positiva com o próprio país sem necessariamente implicar hostilidade a estrangeiros, enquanto determinadas formas de nacionalismo desenvolvem uma percepção competitiva ou hierárquica entre a própria nação e grupos externos. Estudos sobre atitudes migratórias mostram justamente que concepções mais excludentes de identidade nacional apresentam associação mais forte com posições contrárias à imigração. Assim, o discurso descrito na questão integra uma tendência política mais ampla em que a defesa da soberania, das fronteiras e de uma identidade nacional definida de forma restritiva é mobilizada para justificar políticas de contenção da imigração.  

51 – C

O ponto central da teoria política de Thomas Hobbes está na ideia de que a autoridade do Estado nasce de um pacto realizado entre os próprios indivíduos, e não de uma origem divina do poder. No estado de natureza, segundo Hobbes, não existe uma autoridade comum capaz de estabelecer regras e garantir seu cumprimento. Como todos possuem liberdade para buscar a própria conservação e defender seus interesses, instala-se uma situação permanente de insegurança, desconfiança e possibilidade de conflito, sintetizada na ideia de uma “guerra de todos contra todos”. O medo da morte violenta e a necessidade de preservar a própria vida levam os indivíduos a reconhecer racionalmente que essa liberdade irrestrita é incompatível com uma convivência estável. Surge, então, o contrato social, pelo qual cada pessoa concorda em renunciar a parte de sua liberdade natural e transferir seu poder de decisão a uma autoridade soberana. Essa transferência só produz estabilidade porque os demais participantes realizam o mesmo movimento, criando uma ordem política comum. O soberano recebe amplos poderes para formular leis, punir transgressões, organizar a defesa e impedir o retorno da sociedade à situação de conflito generalizado. Por isso, embora Hobbes seja um importante defensor de um poder soberano forte, sua justificativa não se apoia no direito divino dos reis. A legitimidade política deriva do consentimento original dos indivíduos, motivado pela necessidade de garantir segurança e paz. O Estado passa a exercer o monopólio da coerção para assegurar o cumprimento das normas e preservar a ordem coletiva. Assim, o absolutismo hobbesiano possui uma fundamentação contratualista: os súditos reconhecem uma autoridade soberana porque consideram sua existência necessária para proteger a vida e evitar a desagregação social. A estabilidade política, portanto, resulta da submissão consentida a um poder comum capaz de conter a violência e garantir a convivência social.

52 – B

A modernização conservadora da agricultura brasileira, intensificada a partir das décadas de 1960 e 1970, promoveu profundas transformações técnicas no campo sem alterar de maneira significativa a estrutura historicamente concentrada da propriedade da terra. A incorporação de máquinas agrícolas, fertilizantes químicos, agrotóxicos, sementes selecionadas e sistemas de crédito rural elevou a produtividade de diversos cultivos e ampliou a integração da agricultura com a indústria e o mercado. Entretanto, o acesso a essas inovações ocorreu de forma desigual. Grandes e médios proprietários apresentavam maior capacidade de obter financiamento, adquirir máquinas e incorporar os novos pacotes tecnológicos difundidos pela Revolução Verde. Pequenos produtores, por outro lado, muitas vezes não dispunham do capital necessário para acompanhar esse processo de modernização, podendo enfrentar endividamento, perda de competitividade e até abandono ou venda de suas propriedades. Esse mecanismo favoreceu a incorporação de pequenas unidades produtivas por estabelecimentos maiores, contribuindo para o aumento da concentração fundiária. Além disso, a mecanização reduziu a necessidade de trabalhadores em determinadas atividades agrícolas, estimulando o êxodo rural e a transferência de parte da população para as cidades ou para novas áreas de fronteira agrícola. O processo brasileiro é denominado conservador justamente porque modernizou as técnicas produtivas sem promover uma reforma agrária capaz de democratizar o acesso à terra. Dessa forma, eficiência tecnológica e crescimento da produção coexistiram com a permanência de latifúndios, desigualdades sociais e conflitos fundiários. A Revolução Verde brasileira, portanto, não significou apenas transformação tecnológica do campo, mas também uma reorganização territorial que fortaleceu segmentos empresariais mais capitalizados e aprofundou desigualdades na distribuição da propriedade rural.  

53 – B

O conceito de Indústria Cultural, formulado por Theodor Adorno e Max Horkheimer, descreve a transformação da cultura em mercadoria produzida segundo a lógica econômica das sociedades capitalistas industrializadas. Para os autores da Escola de Frankfurt, cinema, rádio, música, revistas e outras formas de entretenimento passam a ser organizados por grandes empresas e submetidos aos mesmos princípios de padronização, repetição e busca pelo lucro presentes na produção industrial. Nesse processo, as obras culturais tendem a perder parte de sua capacidade de provocar reflexão, estranhamento e questionamento da realidade social. Em vez de estimular uma consciência crítica, os produtos culturais padronizados oferecem formas previsíveis de diversão, facilmente consumidas e reproduzidas em grande escala. É nesse sentido que o entretenimento pode funcionar como um mecanismo de neutralização do potencial contestatório do pensamento. Para Adorno e Horkheimer, a diversão não rompe necessariamente com a rotina do trabalho e com as relações de dominação existentes; muitas vezes, ela funciona como continuidade dessa própria lógica, oferecendo uma distração que permite ao indivíduo retornar posteriormente às mesmas condições sociais sem questioná-las profundamente. A padronização cultural também cria uma aparência de diversidade, pois diferentes produtos podem apresentar pequenas variações enquanto reproduzem estruturas semelhantes de consumo e comportamento. O público é, assim, tratado prioritariamente como consumidor e integrado ao funcionamento da ordem econômica vigente. Isso não significa que toda produção cultural de massa produza automaticamente indivíduos passivos, mas corresponde à crítica dos autores à maneira como a cultura é incorporada à lógica mercantil. A Indústria Cultural transforma, portanto, a produção simbólica em parte do sistema de reprodução social, enfraquecendo a possibilidade de a arte atuar como espaço autônomo de crítica e de negação da realidade existente. Dessa forma, a padronização do entretenimento contribui, na análise frankfurtiana, para adaptar os indivíduos à ordem social em vez de estimular sua transformação.

54 – E

O processo de abolição da escravidão no Brasil deve ser compreendido a partir da agência histórica dos próprios escravizados, isto é, da capacidade desses sujeitos de atuar politicamente, resistir e interferir diretamente na transformação da ordem social. Durante muito tempo, interpretações tradicionais apresentaram a abolição como resultado quase exclusivo de decisões tomadas por autoridades políticas ou por setores das elites. A historiografia mais recente, porém, demonstra que fugas, revoltas, formação de quilombos, sabotagens, negociações cotidianas e recusas ao trabalho constituíram formas concretas de enfrentamento ao sistema escravista. Na década de 1880, essas ações ganharam intensidade e contribuíram para desorganizar o funcionamento econômico das grandes propriedades, sobretudo nas regiões cafeeiras. As fugas coletivas reduziam a disponibilidade de mão de obra e ampliavam os custos de vigilância e repressão, enquanto redes abolicionistas urbanas auxiliavam no acolhimento e deslocamento dos fugitivos. O Quilombo do Jabaquara, em Santos, tornou-se um exemplo importante desse processo ao reunir milhares de pessoas que escapavam do cativeiro. A resistência escrava também produzia um efeito político, pois evidenciava a crescente incapacidade do Estado imperial e dos proprietários de preservar a ordem escravista apenas pela coerção. A escravidão passava, assim, por uma crise de legitimidade e de governabilidade. Nesse contexto, a Lei Áurea de 1888 deve ser entendida como a formalização jurídica de um processo de desagregação que já estava em curso. A liberdade não foi simplesmente concedida de cima para baixo, mas conquistada também por meio de ações individuais e coletivas dos próprios escravizados. Dessa forma, a mobilização dessa população atuou como força decisiva na desestabilização da estrutura econômica, social e política que sustentava o cativeiro no Brasil. 

55 – C

O imperialismo europeu do século XIX foi acompanhado pela construção de discursos que buscavam apresentar a dominação colonial como algo natural, necessário e até benéfico. Um dos principais instrumentos ideológicos utilizados nesse processo foi o chamado darwinismo social, que aplicava de maneira indevida conceitos da teoria biológica da evolução às sociedades humanas. A noção de seleção natural, elaborada por Charles Darwin para explicar transformações nas espécies, foi distorcida por autores que passaram a defender a existência de povos, raças e civilizações supostamente superiores e inferiores. Essa interpretação pseudocientífica permitia justificar desigualdades sociais e relações de dominação como se fossem consequência inevitável de leis naturais. Ao mesmo tempo, o grande desenvolvimento tecnológico promovido pela Segunda Revolução Industrial reforçava entre as potências europeias a percepção de superioridade material e cultural. Ferrovias, navios a vapor, armas de maior poder destrutivo, telégrafos e avanços na medicina ampliaram a capacidade europeia de conquistar e administrar territórios na África e na Ásia. A combinação entre superioridade militar e teorias racialistas criou uma ideologia que legitimava a expansão colonial. Nesse contexto, a chamada missão civilizadora afirmava que os europeus teriam o dever de levar progresso, cristianismo, educação e modernização aos povos considerados atrasados. Na prática, esse discurso ocultava interesses econômicos relacionados ao controle de matérias-primas, mercados consumidores, áreas de investimento e posições estratégicas. A naturalização das hierarquias sociais e raciais transformava relações históricas de exploração em supostas diferenças biológicas ou culturais inevitáveis. Dessa forma, o imperialismo não se apoiava apenas na força militar e econômica, mas também em construções ideológicas que conferiam aparência de legitimidade científica à dominação. O determinismo racial e o darwinismo social cumpriram, portanto, papel fundamental na tentativa de justificar a desigualdade entre colonizadores e colonizados e de apresentar a expansão imperialista como expressão natural do progresso europeu. 

56 – D

O processo de racionalização ocupa posição central na análise de Max Weber sobre a formação da modernidade ocidental. Para o sociólogo, as sociedades modernas passaram a organizar parcelas cada vez maiores da vida social com base em critérios de cálculo, previsibilidade, eficiência e adequação entre meios e fins. Essa tendência aparece de forma clara no conceito de ação racional com relação a fins, uma das modalidades de ação social definidas por Weber. Nesse tipo de conduta, o indivíduo estabelece determinado objetivo e avalia conscientemente quais são os meios mais eficazes para alcançá-lo. A decisão deixa de ser orientada principalmente por costumes herdados, impulsos emocionais ou crenças tradicionais e passa a envolver planejamento e cálculo estratégico. Esse padrão de racionalidade pode ser observado em diferentes instituições modernas, como empresas, administrações públicas, sistemas jurídicos e organizações burocráticas. A burocracia, por exemplo, estrutura-se a partir de regras formais, divisão de funções, especialização técnica e procedimentos previsíveis, buscando maior eficiência administrativa. No campo econômico, a expansão do capitalismo moderno também depende de práticas como contabilidade, planejamento de investimentos, cálculo de custos e organização racional do trabalho. Weber associa esse movimento a um processo mais amplo de desencantamento do mundo, no qual explicações mágicas e tradicionais perdem espaço diante de formas de interpretação e organização fundamentadas na racionalidade instrumental. Isso não significa que emoções, tradições ou valores desapareçam das sociedades modernas, mas que o cálculo racional ganha importância crescente na orientação das condutas e das instituições. Dessa maneira, a modernidade ocidental se caracteriza pela expansão de comportamentos voltados à seleção consciente dos meios considerados mais adequados para alcançar objetivos previamente definidos. 

57 – C

O movimento representado corresponde a uma convergência de placas tectônicas com subducção, processo em que uma placa oceânica mergulha sob uma placa continental. No caso ilustrado, a Placa de Nazca, de natureza oceânica e maior densidade, desloca-se em direção à Placa Sul-Americana, sendo forçada a penetrar no manto terrestre. Essa compressão produz intensa deformação da crosta continental, provocando dobramentos e elevação progressiva do relevo. Ao longo de milhões de anos, esse processo deu origem à Cordilheira dos Andes, um dos principais exemplos mundiais de dobramentos modernos. Essas estruturas recebem essa denominação porque foram formadas em períodos geológicos relativamente recentes, durante a Era Cenozoica, e ainda apresentam intensa atividade tectônica. A subducção também provoca fusão parcial de materiais em profundidade, originando magma que pode ascender através da crosta e alimentar numerosos vulcões. Por essa razão, a região andina apresenta forte associação entre grandes cadeias montanhosas, vulcanismo e ocorrência frequente de terremotos. O atrito e a acumulação de tensões na zona de contato entre as placas explicam a elevada sismicidade encontrada ao longo da costa ocidental da América do Sul. Diferentemente dos antigos escudos cristalinos, os dobramentos modernos apresentam altitudes elevadas, relevo acidentado e instabilidade geológica significativa. Assim, a convergência entre a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana provoca a compressão e o soerguimento da crosta, sendo responsável pela formação de extensas cadeias montanhosas tectonicamente ativas, como os Andes. 

58 – D

A estratégia artística desenvolvida por Cildo Meireles baseava-se na apropriação e subversão de circuitos já existentes de circulação de mercadorias e informações. Em vez de produzir uma obra destinada exclusivamente a museus, galerias ou espaços institucionais, o artista utilizava objetos cotidianos, como garrafas retornáveis de Coca-Cola, para inserir mensagens políticas em um sistema comercial que alcançava milhares de pessoas. O gesto artístico consistia justamente em interferir nesse circuito sem interrompê-lo: a garrafa continuava sendo recolhida, reabastecida, transportada e vendida normalmente, mas passava a carregar uma mensagem de contestação. Dessa forma, o próprio mercado de consumo tornava-se meio de difusão da obra e, ao mesmo tempo, alvo de crítica. Em plena Ditadura Militar, especialmente após o endurecimento repressivo provocado pelo AI-5, essa estratégia permitia contornar formas tradicionais de censura e vigilância. A circulação anônima e descentralizada dificultava o controle estatal, pois a mensagem política não dependia de uma exposição pública formal ou de um veículo de comunicação convencional. O projeto também dialogava com a arte conceitual ao deslocar a importância do objeto artístico para a ideia, para o processo e para a intervenção no cotidiano. A obra não se limitava à garrafa em si, mas envolvia todo o sistema de circulação no qual ela estava inserida. Ao reutilizar um símbolo do consumo de massa e convertê-lo em suporte para a dissidência, Cildo Meireles questionava simultaneamente a repressão política, os meios tradicionais de comunicação e a própria lógica mercantil. Assim, a força da obra estava justamente em transformar um circuito comercial ordinário em um canal alternativo de protesto e de circulação de mensagens críticas. 

59 – B

O conceito central desenvolvido por Celso Furtado é o de que o subdesenvolvimento não representa uma fase temporária que todos os países necessariamente atravessariam antes de alcançar o desenvolvimento econômico. Para o autor, ele constitui uma estrutura histórica produzida pela forma desigual de inserção das economias periféricas no capitalismo mundial. Desde o período colonial, o Brasil foi organizado para atender prioritariamente às demandas externas, especializando-se na produção e exportação de produtos primários enquanto importava bens manufaturados e, posteriormente, tecnologias de maior complexidade. Essa posição na divisão internacional do trabalho criou relações de dependência econômica e tecnológica em relação aos países centrais. Mesmo com o avanço da industrialização brasileira no século XX, parte dessas características permaneceu. A industrialização ocorreu de maneira concentrada espacialmente, sobretudo no Sudeste, e não foi acompanhada por uma distribuição equilibrada da renda, dos investimentos e das oportunidades entre as diferentes regiões do território. Para Furtado, isso contribuiu para uma heterogeneidade estrutural, na qual setores altamente modernos e produtivos coexistem com atividades de baixa produtividade e populações submetidas a condições sociais precárias. As desigualdades regionais brasileiras, portanto, não seriam simples consequências naturais das diferenças territoriais, mas resultado da própria dinâmica histórica de acumulação econômica. A concentração de investimentos nas regiões mais dinâmicas reforçava sua capacidade de crescimento, enquanto áreas periféricas forneciam mão de obra e recursos para esses centros. Esse processo também estimulou intensos movimentos migratórios, especialmente do Nordeste em direção às regiões industrializadas. Assim, desenvolvimento e subdesenvolvimento aparecem como fenômenos relacionados dentro de uma mesma estrutura econômica. A concentração de renda e as disparidades territoriais resultam, nessa interpretação, de uma inserção internacional subordinada combinada com mecanismos internos que concentram capital, tecnologia e oportunidades em determinados grupos sociais e regiões do país. 

60 – C

A leitura do climograma permite identificar a localização hemisférica e latitudinal da cidade a partir da variação anual das temperaturas. O principal elemento de análise é a curva térmica, que apresenta os menores valores nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro e as temperaturas mais elevadas entre junho e agosto. Esse comportamento demonstra que o verão ocorre no meio do ano e o inverno no início e no final do calendário, característica típica do Hemisfério Norte. Além disso, observa-se uma amplitude térmica anual elevada, com temperaturas próximas ou inferiores a 0 °C no inverno e valores próximos de 20 °C no verão. Essa forte diferenciação entre as estações é característica das médias latitudes, onde a variação da incidência solar ao longo do ano produz estações térmicas bem definidas. Nas baixas latitudes, próximas à Linha do Equador, as temperaturas costumam permanecer elevadas durante praticamente todo o ano, apresentando amplitude térmica anual relativamente pequena. Já nas médias latitudes, a diferença entre a quantidade de energia solar recebida no verão e no inverno é muito maior. O climograma também apresenta precipitações distribuídas ao longo de todos os meses, com total anual de aproximadamente 807 mm, sem indicar índices excepcionalmente elevados. Por isso, a quantidade de chuva não constitui o principal critério para determinar a localização representada. A altitude relativamente baixa, de 267 metros, também indica que as baixas temperaturas do inverno não são explicadas principalmente pelo relevo, reforçando a influência da latitude. Assim, a combinação entre inverno rigoroso, verão relativamente quente e elevada amplitude térmica anual caracteriza uma área de clima temperado situada nas médias latitudes do Hemisfério Norte. 

61 – E

O princípio de que “a existência precede a essência” constitui o núcleo da filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre. Isso significa que o ser humano não nasce com uma natureza previamente definida, um destino fixo ou um modelo ideal estabelecido antes de sua própria existência. Diferentemente de um objeto fabricado, cuja função é concebida antes de ser produzido, o indivíduo primeiro existe no mundo e somente depois constrói aquilo que será por meio de suas escolhas e ações. Essa concepção rejeita a ideia de uma essência humana universal previamente determinada por Deus, pela natureza ou por qualquer princípio transcendental. O sujeito, portanto, não encontra fora de si uma definição pronta que determine de maneira absoluta como deve viver. Essa ausência de essência prévia é justamente o fundamento da liberdade em Sartre. O indivíduo é obrigado a escolher e, ao escolher, constrói a si mesmo. Entretanto, essa liberdade não significa ausência de responsabilidade. Pelo contrário, como não existe um modelo externo capaz de justificar plenamente suas decisões, o sujeito torna-se responsável pelas consequências de seus próprios atos. É nesse sentido que Sartre afirma que o homem está “condenado a ser livre”: ele não pode escapar da necessidade de escolher. Mesmo a recusa em decidir já representa uma forma de escolha. A liberdade existencialista, portanto, está diretamente associada à responsabilidade moral. O indivíduo não pode atribuir integralmente suas ações ao destino, à natureza humana ou a uma vontade divina previamente estabelecida. Ele se constitui historicamente por aquilo que faz. Assim, a recusa de um modelo ideal anterior à existência humana permite compreender por que, para Sartre, cada pessoa constrói sua própria trajetória e identidade a partir das escolhas realizadas ao longo da vida. 

62 – A

A Conferência de Bandung expressou a tentativa de diversos países afro-asiáticos recém-independentes de construir uma política externa autônoma diante da bipolaridade da Guerra Fria. Naquele contexto, o sistema internacional estava fortemente organizado em torno de dois grandes blocos de poder: o liderado pelos Estados Unidos e o comandado pela União Soviética. Para muitos Estados que haviam acabado de superar o colonialismo europeu, aderir automaticamente a uma dessas esferas significaria substituir uma antiga relação de dependência por outra forma de subordinação internacional. Por isso, Bandung valorizou princípios como soberania nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção e coexistência pacífica. Essa orientação contribuiu posteriormente para a formação do Movimento dos Países Não Alinhados, institucionalizado em 1961. O não alinhamento não significava neutralidade absoluta ou ausência de relações com as superpotências, mas a defesa do direito de cada Estado estabelecer sua política externa sem submissão automática a Washington ou Moscou. Ao mesmo tempo, esses países buscavam ampliar sua capacidade de negociação coletiva e fortalecer a luta contra o colonialismo e o imperialismo. A cooperação afro-asiática também pretendia dar maior peso político internacional a Estados que possuíam menor capacidade econômica e militar individualmente. Dessa forma, a articulação iniciada em Bandung procurava modificar uma ordem internacional dominada pelas grandes potências, criando um espaço diplomático próprio para os países do chamado Terceiro Mundo. O princípio fundamental era, portanto, romper com a ideia de que todos os Estados deveriam necessariamente integrar uma das duas órbitas de influência que estruturavam a Guerra Fria.

63 – D

O solo urbano, no contexto das cidades capitalistas, funciona como uma mercadoria cujo valor varia de acordo com sua localização e com as condições de uso do espaço. Diferentemente de outros bens, a terra urbana não pode ser reproduzida livremente, pois cada parcela possui uma posição específica na cidade. Seu preço depende de fatores como proximidade dos centros de emprego, disponibilidade de infraestrutura, acesso a transporte, oferta de serviços públicos, presença de equipamentos urbanos e expectativas de valorização futura. Por isso, áreas com melhor localização e maior infraestrutura tendem a alcançar preços mais elevados, enquanto regiões periféricas e menos atendidas costumam apresentar valores inferiores. Esse mecanismo está diretamente relacionado à especulação imobiliária, que ocorre quando terrenos ou imóveis são mantidos fora de uso ou subutilizados na expectativa de valorização futura. A expansão de infraestrutura pública, a construção de vias de circulação, a implantação de estações de transporte ou a chegada de novos empreendimentos podem elevar significativamente o preço da terra sem que seu proprietário tenha realizado investimentos proporcionais. Essa valorização desigual contribui para a segregação socioespacial, pois grupos de maior renda conseguem ocupar áreas mais valorizadas, enquanto parcelas de menor renda são frequentemente deslocadas para regiões periféricas ou espaços com infraestrutura precária. O déficit habitacional e a expansão de assentamentos informais também se relacionam a essa lógica, já que o acesso à moradia depende da capacidade de pagamento pelo solo urbano. Dessa forma, a cidade passa a ser estruturada não apenas pelas necessidades sociais de habitação, mas também pela lógica de valorização imobiliária. Assim, compreender o solo urbano como mercadoria de valor variável permite explicar por que diferentes áreas da cidade apresentam preços muito distintos e como essa diferenciação contribui para reproduzir desigualdades sociais no espaço urbano. 

64 – B

A uberização do trabalho corresponde a uma reorganização das relações laborais marcada pela intermediação de plataformas digitais e pela transferência de parte significativa dos riscos e custos da atividade econômica para o próprio trabalhador. Nesse modelo, empresas de aplicativos apresentam os prestadores como autônomos, evitando, em muitos casos, o reconhecimento das relações tradicionais de emprego e das obrigações associadas a elas. Com isso, direitos historicamente vinculados ao trabalho formal, como férias remuneradas, décimo terceiro salário, descanso remunerado, contribuição previdenciária patronal e outras formas de proteção social, podem deixar de ser garantidos da mesma maneira. Ao mesmo tempo, o trabalhador passa frequentemente a arcar com despesas indispensáveis à prestação do serviço, como veículo, combustível, manutenção, equipamentos, conexão à internet e seguros. Essa transferência caracteriza um processo de externalização dos custos produtivos, reduzindo os encargos diretos das empresas. A aparente autonomia também convive com novas formas de controle. Algoritmos podem organizar a distribuição de tarefas, estabelecer critérios de remuneração, monitorar desempenho, utilizar avaliações dos usuários e influenciar os horários e ritmos de trabalho. Assim, a ausência de supervisão presencial não significa necessariamente diminuição do controle sobre a atividade laboral. O fenômeno está relacionado a processos mais amplos de flexibilização e precarização do trabalho, nos quais vínculos estáveis são substituídos por relações mais individualizadas e menos protegidas. Dessa maneira, a expansão das plataformas digitais pode ampliar formas de ocupação e geração de renda, mas também provocar a desregulamentação de salvaguardas sociais e jurídicas historicamente associadas ao emprego formal. É justamente essa transferência de responsabilidades e enfraquecimento das garantias institucionais que caracteriza a transformação das relações de trabalho descrita no texto. 

65 – B

O fascismo europeu do período entre guerras ganhou força ao explorar crises econômicas, sociais e políticas que produziram medo, insegurança e sensação de desordem em amplos setores da população. A experiência traumática da Primeira Guerra Mundial, o desemprego, a inflação, a instabilidade institucional e o avanço dos movimentos socialistas e comunistas criaram um ambiente propício para discursos que prometiam restauração da ordem e recuperação da grandeza nacional. Os movimentos fascistas transformaram essas tensões em instrumentos de mobilização política, apresentando-se como alternativa tanto ao liberalismo parlamentar quanto à revolução socialista. A arregimentação de apoio popular foi favorecida pelo uso intenso de propaganda, símbolos, uniformes, desfiles, discursos de massa e pela construção de uma relação emocional entre os seguidores e a figura do líder. Esse tipo de mobilização não dependia apenas das instituições estatais tradicionais, mas também da atuação de organizações civis e paramilitares que ocupavam as ruas e intimidavam adversários. A violência era apresentada como meio legítimo de regeneração nacional, e o conflito político passava a ser tratado como uma luta contra inimigos internos. Ao mesmo tempo, o fascismo oferecia uma identidade coletiva fundada na ideia de unidade nacional e pertencimento a uma comunidade supostamente ameaçada. Dessa forma, ressentimentos produzidos por crises concretas eram canalizados para projetos autoritários e nacionalistas. O apoio de parcelas das elites econômicas e políticas também foi importante, mas a consolidação desses regimes exigiu capacidade de mobilizar setores sociais mais amplos. Assim, o sucesso político do fascismo esteve relacionado à transformação das crises estruturais em combustível para a mobilização de massas, para o enfraquecimento das instituições democráticas e para a construção de regimes autoritários baseados no culto ao líder e na supressão do pluralismo.  

66 – B

O enfrentamento da insegurança alimentar depende não apenas do aumento da produção de alimentos, mas também da ampliação do acesso da população a uma alimentação adequada e da sustentação de setores capazes de abastecer o mercado interno. Nesse sentido, a agricultura familiar possui papel importante na produção de alimentos consumidos cotidianamente pela população, especialmente produtos diversificados destinados ao abastecimento regional e local. Políticas de subsídios, crédito, assistência técnica e apoio à comercialização podem reduzir custos de produção e ampliar a capacidade desses agricultores de permanecerem economicamente ativos. Esse apoio também contribui para fortalecer circuitos alimentares mais próximos dos consumidores, diminuindo a vulnerabilidade de pequenos produtores diante das oscilações de preços e das dificuldades de acesso ao mercado. Além disso, programas públicos de aquisição de alimentos podem articular a produção da agricultura familiar com escolas, equipamentos de assistência social e outras instituições públicas, ampliando simultaneamente a renda dos produtores e o acesso da população vulnerável à alimentação. A insegurança alimentar é um fenômeno multidimensional, associado à renda, ao preço dos alimentos, ao emprego e às condições de acesso físico aos produtos. Por isso, políticas voltadas apenas ao crescimento das grandes monoculturas de exportação não garantem necessariamente maior disponibilidade de alimentos básicos para a população. O fortalecimento da agricultura familiar pode contribuir para diversificar a produção agrícola e reduzir a dependência de sistemas produtivos orientados predominantemente para commodities. Dessa maneira, ampliar subsídios e outros instrumentos de apoio aos pequenos produtores pode integrar uma política mais ampla de segurança alimentar, articulando produção, geração de renda, abastecimento interno e acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas. 

67 – C

O conceito de biopoder elaborado por Michel Foucault descreve uma transformação profunda nas formas de exercício do poder nas sociedades modernas. Em vez de atuar prioritariamente por meio da ameaça de morte, da punição pública ou da violência espetacular típica da soberania absolutista, o poder passa a se concentrar cada vez mais na administração da vida. Isso significa organizar, disciplinar e regular os corpos e as populações de maneira a torná-los mais úteis, previsíveis e produtivos. Foucault identifica dois grandes eixos desse processo. O primeiro é a anatomopolítica do corpo, presente em instituições como escolas, quartéis, fábricas, hospitais e prisões. Nesses espaços, horários, regras, vigilância, treinamento e avaliação são utilizados para disciplinar os indivíduos e ampliar sua eficiência. O segundo eixo é a biopolítica da população, voltada ao acompanhamento de fenômenos coletivos como natalidade, mortalidade, doenças, higiene, expectativa de vida e crescimento demográfico. Nesse caso, instrumentos como estatísticas, políticas sanitárias e medicina social permitem ao Estado conhecer e administrar grandes contingentes populacionais. A importância econômica desse processo está justamente no fato de que corpos mais disciplinados e populações mais controladas podem ser integrados de modo mais eficiente às necessidades do sistema produtivo. O trabalhador moderno não é apenas submetido pela força, mas treinado, normalizado e inserido em rotinas que procuram maximizar sua capacidade produtiva. Dessa maneira, o poder atua de forma difusa e cotidiana, atravessando instituições, práticas e saberes aparentemente técnicos. O objetivo não é simplesmente reprimir, mas agenciar as forças vitais dos indivíduos, tornando-as economicamente úteis e politicamente administráveis. Assim, a consolidação das sociedades modernas envolveu a passagem de um poder centrado na soberania sobre a morte para formas de controle voltadas à gestão, disciplina e otimização da vida. 

68 – C

A principal especificidade da Conjuração Baiana de 1798 foi a combinação entre um projeto de ruptura com a ordem colonial portuguesa e propostas de transformação social muito mais profundas do que aquelas presentes em outros movimentos emancipacionistas do período. Enquanto a Inconfidência Mineira de 1789 esteve vinculada sobretudo a setores das elites locais e concentrou suas críticas na exploração fiscal e na dominação metropolitana, a Conjuração Baiana mobilizou segmentos populares urbanos, incluindo soldados, artesãos, trabalhadores livres, negros e escravizados. Essa composição social influenciou diretamente o conteúdo político do movimento. Os conjurados defendiam a independência, a implantação de uma república e a liberdade de comércio, mas também apresentavam reivindicações associadas à igualdade social e racial e à abolição da escravidão. Nesse sentido, a ruptura política não era concebida apenas como substituição da autoridade portuguesa por um novo governo local. Ela estava articulada à transformação das próprias relações sociais que estruturavam a sociedade colonial. A circulação das ideias iluministas e, sobretudo, das formulações mais radicais da Revolução Francesa contribuiu para essa orientação. Princípios como liberdade e igualdade adquiriram, no contexto baiano, um conteúdo social concreto diante de uma sociedade marcada pela escravidão, pela pobreza urbana e pelo alto custo de vida. A defesa da abertura dos portos também se relacionava às dificuldades econômicas enfrentadas pela população de Salvador. Assim, a Conjuração Baiana ganhou caráter mais popular e socialmente radical, pois questionava simultaneamente a dominação colonial e hierarquias internas da sociedade escravista. É justamente essa articulação entre emancipação política e transformação da ordem social que diferencia o movimento baiano de outras conspirações coloniais do final do século XVIII. 

69 – C

O conceito de racismo estrutural indica que as desigualdades raciais não resultam apenas de atitudes preconceituosas praticadas por indivíduos isolados. Elas também são produzidas e reproduzidas pelo funcionamento rotineiro das instituições, das normas sociais e dos mecanismos de distribuição de oportunidades. Isso significa que escolas, empresas, sistemas de justiça, mercados de trabalho e órgãos públicos podem perpetuar padrões históricos de exclusão mesmo quando não existe uma intenção explicitamente discriminatória em cada decisão particular. Por essa razão, o enfrentamento das desigualdades raciais exige mudanças que ultrapassem a punição de comportamentos individuais e atinjam o próprio desenho institucional. Um dos caminhos é a reformulação dos mecanismos de alocação de recursos, oportunidades e posições sociais, de modo a corrigir desvantagens historicamente acumuladas. Políticas de ação afirmativa, critérios de inclusão, ampliação do acesso à educação, revisão de procedimentos de seleção e medidas de redistribuição podem atuar justamente nesse nível estrutural. A lógica é compensar desigualdades que foram construídas ao longo do tempo e que continuam produzindo efeitos no presente. Nesse sentido, tratar todos os indivíduos de maneira formalmente idêntica não garante necessariamente igualdade substantiva, porque os pontos de partida são desiguais. A perspectiva estrutural procura, portanto, identificar como determinados padrões sociais produzem vantagens recorrentes para alguns grupos e obstáculos persistentes para outros. A superação dessas assimetrias depende de ações institucionais conscientes, capazes de modificar regras, práticas e formas de distribuição de recursos. Assim, o combate ao racismo não se limita à mudança de atitudes pessoais, mas envolve a transformação das estruturas que reproduzem desigualdades raciais de maneira continuada. 

70 – B

A salinização dos solos ocorre quando há acúmulo excessivo de sais na camada superficial ou próxima à zona explorada pelas raízes das plantas. Esse processo é particularmente comum em regiões áridas e semiáridas, onde a evaporação é elevada e as chuvas são insuficientes para promover a remoção natural desses sais para camadas mais profundas. Em áreas irrigadas, o problema pode se intensificar quando a água aplicada contém sais dissolvidos e o manejo não garante drenagem adequada. À medida que a água evapora, os sais permanecem no solo e vão se acumulando progressivamente. Esse mecanismo é ainda mais intenso quando se utiliza uma quantidade de água superior à capacidade de infiltração ou quando o sistema de drenagem é deficiente, elevando o lençol freático e favorecendo a ascensão capilar da água carregada de sais. No semiárido nordestino, essas condições naturais já criam uma predisposição à salinização, mas o uso inadequado dos sistemas de irrigação pode acelerar fortemente o processo. A presença excessiva de sais altera o equilíbrio osmótico das plantas, dificultando a absorção de água pelas raízes mesmo quando há umidade no solo. Como consequência, ocorre redução da produtividade agrícola, degradação da estrutura do solo e, em casos extremos, abandono das áreas cultivadas. A salinização pode ainda comprometer cultivos sensíveis e exigir técnicas específicas de manejo, como drenagem eficiente, controle da lâmina de irrigação e escolha adequada da qualidade da água utilizada. Portanto, em ambientes de elevada evapotranspiração e baixa precipitação, a irrigação sem planejamento adequado transforma-se em um importante fator de degradação dos solos, pois favorece a concentração de sais e reduz progressivamente a capacidade produtiva das terras agrícolas. 

71 – C

O princípio da antropofagia cultural formulado por Oswald de Andrade propunha que a construção de uma arte autenticamente brasileira não dependia da rejeição das influências estrangeiras, mas de sua apropriação crítica e transformação em algo novo. A metáfora antropofágica parte da ideia de “devorar” simbolicamente aquilo que vem de fora para absorver sua força e reelaborá-la segundo as condições históricas, culturais e sociais do Brasil. Nesse sentido, o Modernismo brasileiro dialogou intensamente com as vanguardas europeias, como o cubismo, o expressionismo e outras experiências estéticas do início do século XX, sem simplesmente reproduzi-las. Obras como Abaporu, de Tarsila do Amaral, sintetizam essa proposta ao combinar procedimentos formais modernos com referências ao território, à cultura e ao imaginário brasileiro. A figura humana de proporções incomuns, a simplificação das formas e a composição não realista demonstram a influência das experiências de ruptura estética das vanguardas, mas esses elementos são reorganizados dentro de um projeto artístico voltado à criação de uma identidade nacional própria. A antropofagia rejeitava tanto a cópia passiva dos modelos culturais europeus quanto a ideia de que uma cultura nacional deveria permanecer isolada de influências externas. Seu objetivo era superar a posição colonial de dependência cultural por meio de uma relação ativa com aquilo que vinha do exterior. Dessa forma, o artista brasileiro deveria selecionar, absorver e transformar referências estrangeiras, combinando-as com elementos indígenas, africanos, populares e modernos presentes na sociedade brasileira. A identidade nacional resultaria, portanto, de uma síntese criativa e crítica, e não de uma suposta pureza cultural. O Movimento Antropofágico converteu, assim, a influência estrangeira em matéria-prima para a invenção de uma linguagem artística própria, afirmando a capacidade brasileira de reelaborar referências externas em vez de simplesmente imitá-las. 

72 – E

A ética epicurista fundamenta a felicidade na busca de um estado de equilíbrio marcado pela ausência de sofrimento físico e de perturbação da alma. Para Epicuro, o prazer é de fato o bem fundamental da vida humana, mas esse prazer não deve ser confundido com excesso, luxo ou satisfação indiscriminada de todos os desejos. O filósofo distingue diferentes tipos de desejos e defende que o indivíduo deve avaliá-los racionalmente, escolhendo aqueles que contribuem para uma vida estável e evitando os que produzem ansiedade, dependência ou sofrimento. Essa orientação exige moderação, prudência e capacidade de cálculo das consequências das próprias escolhas. O prazer mais elevado é aquele que conduz à ataraxia, isto é, à tranquilidade da alma, e à aponia, entendida como ausência de dor corporal. Por isso, uma vida simples, com necessidades limitadas e desejos controlados, pode ser mais feliz do que uma existência orientada pelo consumo excessivo e pela busca constante de novos prazeres. A prudência ocupa posição central nesse processo porque permite distinguir aquilo que realmente contribui para o bem-estar daquilo que apenas oferece satisfação momentânea seguida de perturbação. Epicuro também procura libertar os indivíduos de medos que considera irracionais, como o temor excessivo dos deuses e da morte, pois essas crenças podem impedir a serenidade. A felicidade, portanto, depende menos da acumulação de bens ou da intensidade dos prazeres e mais da capacidade de administrar racionalmente os próprios desejos. Nesse sentido, a ética epicurista propõe uma espécie de hedonismo moderado, no qual o prazer é alcançado por meio do equilíbrio, da autossuficiência e da redução das necessidades. Assim, a estabilidade emocional resulta de uma conduta racional capaz de limitar desejos desnecessários e preservar a tranquilidade diante das incertezas da existência. 

73 – A

A matriz de transportes brasileira apresenta forte predominância do modal rodoviário, característica particularmente problemática quando considerada a grande extensão territorial do país. O gráfico indica que aproximadamente 61% do transporte brasileiro está concentrado nas rodovias, proporção superior à observada em outros países ou espaços econômicos representados. Em territórios continentais, como Brasil, Estados Unidos, China e Canadá, o deslocamento de grandes volumes de cargas por longas distâncias tende a ser mais eficiente quando existe maior participação de modais como o ferroviário e o hidroviário. As ferrovias possuem elevada capacidade de carga e apresentam custos unitários relativamente menores em trajetos extensos, sendo especialmente adequadas ao transporte de commodities agrícolas e minerais. O transporte hidroviário também apresenta vantagens semelhantes quando existem rios navegáveis e infraestrutura portuária adequada. O modal rodoviário, por sua vez, possui grande flexibilidade e desempenha papel fundamental nos deslocamentos de curta e média distância, mas apresenta custos mais elevados quando utilizado de forma predominante em trajetos muito extensos. Gastos com combustível, manutenção dos veículos, pedágios e conservação das estradas aumentam o custo final da circulação das mercadorias. A comparação com Estados Unidos, China e Canadá evidencia uma distribuição mais equilibrada entre diferentes modalidades de transporte nesses países, com maior participação de ferrovias, hidrovias, cabotagem ou dutovias. Essa maior intermodalidade permite utilizar cada modal de acordo com suas vantagens técnicas e econômicas. No Brasil, a elevada dependência das rodovias também torna o sistema logístico mais vulnerável às condições das estradas, às variações no preço dos combustíveis e aos congestionamentos. Dessa maneira, a configuração apresentada contribui para elevar os custos de deslocamento de cargas em um território de dimensões continentais, reduzindo a eficiência logística e aumentando os custos associados à circulação da produção nacional. 

74 – A

A questão exige a identificação dos impactos sociais da globalização no espaço urbano das grandes metrópoles a partir da ótica de Saskia Sassen. Conforme o texto-base demonstra, as cidades globais concentram o comando da economia mundial, mas essa riqueza não se distribui de forma equitativa. Há uma dualização da estrutura social: uma elite corporativa de alta renda coexiste com uma massa de trabalhadores informais ou precarizados (setor de serviços básicos). Esse contraste direto gera uma profunda fratura e exclusão dentro do próprio espaço urbano (polarização social e assimetria).

75 – E

A política econômica do governo Juscelino Kubitschek consolidou uma etapa importante da industrialização brasileira baseada na associação entre Estado, capital privado nacional e capital estrangeiro. Por meio do Plano de Metas, o governo buscou acelerar a modernização econômica, sobretudo nos setores de energia, transportes e indústria de transformação. Nesse processo, empresas transnacionais receberam incentivos para instalar unidades produtivas no Brasil, especialmente em atividades relacionadas aos bens de consumo duráveis, como automóveis, eletrodomésticos e equipamentos industriais. A indústria automobilística tornou-se um dos principais símbolos dessa transformação, com a chegada e expansão de grandes montadoras estrangeiras. Essa entrada de capitais contribuiu para diversificar o parque industrial brasileiro e ampliar a produção interna de mercadorias que anteriormente dependiam fortemente das importações. Ao mesmo tempo, a internacionalização significou maior participação de empresas estrangeiras em segmentos economicamente estratégicos e tecnologicamente mais complexos. O Estado teve papel decisivo nesse processo ao investir em infraestrutura, ampliar a oferta de energia, construir rodovias e estabelecer condições fiscais e cambiais favoráveis aos investimentos externos. A industrialização também intensificou a urbanização, especialmente no Sudeste, atraindo trabalhadores para as regiões metropolitanas em expansão. Entretanto, esse modelo não produziu autonomia tecnológica plena, pois parcela importante das decisões empresariais, do capital e das tecnologias permanecia vinculada às matrizes estrangeiras. Além disso, a necessidade de importação de máquinas e equipamentos e a entrada de capitais externos contribuíram para ampliar vínculos financeiros com o exterior. Assim, o desenvolvimentismo de JK aprofundou a industrialização nacional ao mesmo tempo que consolidou a presença de corporações transnacionais em setores fundamentais da produção de bens de consumo duráveis, característica decisiva da estrutura industrial brasileira formada naquele período.

76 – A

A alteração dos rios voadores pode produzir efeitos econômicos importantes porque esse sistema atmosférico participa da distribuição de umidade da Amazônia para áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. A floresta amazônica libera grandes volumes de vapor d’água para a atmosfera por meio da evapotranspiração, e parte dessa umidade é transportada pelos ventos para outras regiões. Com o avanço do desmatamento, há redução da evapotranspiração e possibilidade de alteração dos padrões de precipitação. Uma diminuição mais persistente das chuvas pode afetar o nível dos rios e dos reservatórios utilizados para geração de energia hidrelétrica, ainda muito importante na matriz elétrica brasileira. Quando a disponibilidade hídrica diminui, pode ser necessário ampliar a utilização de fontes termelétricas, geralmente mais caras para o sistema elétrico. Esse processo pode elevar os custos de geração e, dependendo das condições do setor energético e das políticas tarifárias, pressionar as tarifas pagas por consumidores e empresas. O aumento dos gastos com energia pode repercutir sobre os preços de diferentes produtos e serviços, já que a eletricidade integra os custos de produção, transporte, armazenamento e comercialização. Para as famílias, especialmente as de menor renda, uma elevação persistente das despesas básicas reduz a parcela do orçamento disponível para outros tipos de consumo. Nesse sentido, uma consequência socioeconômica indireta da alteração dos rios voadores pode ser a redução do poder de compra da população, por meio do encarecimento da energia e de seus efeitos sobre outros preços da economia. A questão estabelece, portanto, uma cadeia de relações entre desmatamento amazônico, diminuição do transporte de umidade, alterações pluviométricas, comprometimento da geração hidrelétrica e possíveis impactos sobre o custo de vida. 

77 – B

A reivindicação central dos povos originários envolve a garantia do território como condição indispensável para a continuidade de seus modos de vida. Nessa perspectiva, a terra não é compreendida apenas como um bem econômico ou uma propriedade passível de compra e venda, mas como espaço de reprodução social, cultural, espiritual e material das comunidades. É no território que se desenvolvem práticas de subsistência, relações de parentesco, rituais, conhecimentos tradicionais, formas próprias de organização política e a transmissão de línguas e memórias coletivas entre gerações. Por isso, a perda ou a fragmentação das terras indígenas pode comprometer diretamente a continuidade cultural desses povos. A demarcação territorial funciona, nesse sentido, como instrumento de proteção das condições necessárias para sua existência coletiva. Ela também se relaciona à defesa da sociobiodiversidade, pois muitos desses territórios preservam formas de manejo ambiental construídas historicamente a partir da interação entre comunidades e natureza. As mobilizações indígenas, portanto, não se limitam à disputa pela posse física de determinada área, mas expressam uma luta mais ampla pelo reconhecimento de direitos históricos, culturais e políticos. Marchas, organizações comunitárias e articulações entre lideranças constituem formas de participação política voltadas à defesa da autonomia dos povos originários diante de pressões provocadas por mineração, exploração madeireira, expansão agropecuária e outras atividades econômicas. Assim, assegurar o território significa garantir a possibilidade de reprodução das práticas culturais, dos conhecimentos tradicionais e das relações comunitárias que estruturam essas sociedades. A proteção territorial torna-se, dessa forma, um elemento fundamental para a preservação da identidade e da continuidade histórica dos povos indígenas. 

78 – E

O principal ponto de convergência entre o Salazarismo português e o Franquismo espanhol foi a adoção de uma concepção corporativista de organização social e econômica. Nesse modelo, o conflito entre trabalhadores e empresários não deveria ser reconhecido como parte legítima da vida política, mas substituído por uma suposta colaboração entre as classes sob a supervisão do Estado. O corporativismo rejeitava tanto o liberalismo econômico e político quanto a luta de classes defendida pelas correntes socialistas e marxistas. Em seu lugar, propunha que patrões e trabalhadores fossem enquadrados em organizações profissionais controladas pelo poder público. Sindicatos independentes, greves e formas autônomas de mobilização operária eram restringidos ou proibidos, porque poderiam romper a ideia de unidade nacional defendida pelos regimes. Dessa forma, o Estado assumia o papel de mediador obrigatório das relações de trabalho, subordinando interesses sociais distintos a uma estrutura hierárquica e autoritária. Em Portugal, essa lógica esteve diretamente ligada ao Estado Novo de Salazar e à defesa de uma sociedade disciplinada, tradicionalista e católica. Na Espanha franquista, o mesmo princípio apareceu na organização sindical vertical, que integrava trabalhadores e empregadores em estruturas oficiais sob controle estatal. Em ambos os casos, o corporativismo ajudava a neutralizar a autonomia política das classes trabalhadoras e a impedir a formação de organizações capazes de contestar o regime. Assim, a aparente conciliação entre os grupos produtivos não significava igualdade entre eles, mas sua submissão a uma ordem autoritária definida pelo Estado. O corporativismo funcionava, portanto, como instrumento de controle social, político e trabalhista, contribuindo para a manutenção da estabilidade dos regimes e para a repressão de conflitos considerados ameaças à unidade nacional. 

79 – E

O terraceamento é uma técnica de conservação do solo utilizada principalmente em áreas inclinadas para diminuir a velocidade do escoamento superficial da água da chuva. Ao criar uma sequência de patamares ou terraços ao longo da encosta, o agricultor reduz o comprimento efetivo da vertente e, consequentemente, a energia da água que se desloca sobre o terreno. Isso é importante porque, em áreas com declive acentuado, a água da chuva tende a ganhar velocidade e capacidade de transportar partículas do solo, intensificando processos erosivos. Com os terraços, parte dessa água é retida ou tem seu percurso desacelerado, favorecendo maior infiltração no solo e reduzindo a perda de material superficial. Dessa forma, a técnica contribui para combater erosões laminares, formação de sulcos e ravinas. Em determinadas condições, também ajuda a diminuir a instabilidade das encostas, pois reduz a concentração do fluxo superficial e a remoção contínua de material. Por isso, pode contribuir para a prevenção de movimentos de massa associados à degradação e ao encharcamento inadequado de vertentes agrícolas. O terraceamento, no entanto, não elimina completamente o escoamento superficial, mas procura controlá-lo. Também não atua sobre agentes internos do relevo, como tectonismo e vulcanismo, pois seu objetivo está relacionado aos processos externos de modelagem da superfície. Assim, sua função fundamental é conservar o solo agrícola, reduzir a perda de sedimentos e minimizar processos erosivos em terrenos inclinados, favorecendo maior estabilidade da encosta e melhor aproveitamento da água da chuva. 

80 – B

A reflexão política de Nicolau Maquiavel marca uma ruptura importante com a tradição medieval ao defender a autonomia da política em relação à moral cristã e às virtudes tradicionais. Em vez de avaliar o governante a partir de critérios abstratos de bondade, justiça ou piedade, Maquiavel procura compreender quais ações permitem conservar o Estado, garantir a ordem e preservar o poder. Essa perspectiva introduz uma análise mais realista da política, centrada no modo como os homens efetivamente agem e não em como deveriam agir segundo modelos ideais. Por isso, o príncipe pode ser obrigado a adotar medidas consideradas moralmente condenáveis, como a crueldade, a dissimulação ou o uso da força, caso essas ações sejam necessárias para impedir a desordem e assegurar a estabilidade política. Isso não significa que Maquiavel defenda a violência gratuita, mas que julga a ação política por seus efeitos concretos. O governante deve desenvolver a virtù, entendida como capacidade de agir com prudência, habilidade e adaptação diante das circunstâncias. Essa virtù permite enfrentar a fortuna, isto é, os elementos imprevisíveis da realidade política. A ética do governante passa, portanto, a ser orientada pela eficácia e pela preservação do Estado, e não pela submissão automática a princípios morais religiosos. Nesse sentido, Maquiavel contribui para a secularização do pensamento político moderno, separando a análise do poder das prescrições teológicas. A política adquire regras próprias, determinadas pelas relações de força, pela estabilidade institucional e pela necessidade de conservar a autoridade. Assim, a originalidade de sua teoria está em reconhecer que as exigências da vida política podem entrar em conflito com as virtudes morais convencionais, conferindo à esfera política uma lógica relativamente autônoma. 

81 – E

A Primeira Guerra Mundial consolidou um modelo de economia de guerra no qual o Estado passou a coordenar de forma muito mais intensa os recursos produtivos nacionais. O conflito assumiu proporções tão amplas e prolongadas que a capacidade militar dos países passou a depender diretamente da organização da economia e da sociedade civil. Por isso, governos europeus ampliaram sua intervenção sobre setores antes conduzidos com maior autonomia pelo mercado. Indústrias foram direcionadas para a produção de armas, munições, uniformes e equipamentos militares, enquanto matérias-primas estratégicas passaram a ser controladas e distribuídas de acordo com as necessidades do esforço de guerra. O Estado também interveio na formação de preços, no abastecimento de alimentos, no racionamento de produtos e na organização dos transportes. Esse processo demonstrou que a guerra moderna não era travada apenas pelos soldados nas trincheiras, mas por toda a estrutura econômica e social do país. A chamada frente interna tornou-se essencial para sustentar os exércitos e manter o funcionamento das economias nacionais. A mobilização de mulheres para atividades industriais e administrativas também se ampliou, ocupando funções anteriormente desempenhadas predominantemente por homens enviados ao front. Dessa maneira, a guerra acelerou transformações nas relações entre Estado, economia e sociedade. A lógica liberal de mínima intervenção governamental perdeu espaço diante da necessidade de planejamento, controle e centralização das forças produtivas. A experiência de 1914-1918 mostrou que a sobrevivência militar dependia da capacidade estatal de organizar recursos humanos, industriais e financeiros em escala nacional. Assim, o conflito contribuiu para fortalecer a presença do poder público na condução da economia e para consolidar mecanismos de coordenação produtiva que seriam retomados em outras crises e guerras do século XX. 

82 – D

A crítica central do texto dirige-se ao princípio da igualdade de oportunidades, entendido como a suposição de que todos os indivíduos iniciariam sua trajetória social em condições equivalentes e que, por isso, suas posições futuras dependeriam sobretudo do mérito, do esforço e das escolhas pessoais. A análise sociológica apresentada contesta essa ideia ao demonstrar que os indivíduos partem de situações profundamente desiguais. A origem familiar interfere no acesso à renda, à educação, à moradia, à saúde, às redes de contato e a diferentes formas de capital econômico e cultural. Essas vantagens ou desvantagens são transmitidas entre gerações e influenciam diretamente as possibilidades de mobilidade social. Assim, dois indivíduos submetidos à mesma competição formal podem possuir condições materiais muito distintas para disputar oportunidades escolares, profissionais e econômicas. O discurso meritocrático tende a ocultar essas diferenças ao transformar resultados socialmente produzidos em atributos exclusivamente individuais. Desse modo, o sucesso pode aparecer como resultado apenas de talento e dedicação, enquanto situações de pobreza ou exclusão podem ser interpretadas como consequência de incapacidade pessoal. A crítica sociológica evidencia que a desigualdade não se reproduz somente pela diferença de renda, mas também pela transmissão de patrimônio, conhecimentos, hábitos, redes sociais e possibilidades de acesso às instituições mais valorizadas. Nesse sentido, a mobilidade social é condicionada por estruturas que antecedem as escolhas individuais. Portanto, o texto questiona precisamente a ideia de que haveria equivalência nos pontos de partida, mostrando que as condições iniciais são desiguais e exercem forte influência sobre os destinos sociais. 

83 – C

Os Complexos Agroindustriais são caracterizados pela forte articulação entre diferentes etapas e setores da produção, formando uma cadeia integrada que vai muito além da atividade agrícola propriamente dita. Nesse sistema, a produção no campo está diretamente conectada às indústrias que fornecem máquinas, fertilizantes, defensivos, sementes, rações e outros insumos necessários à atividade agropecuária. Depois da etapa produtiva, entram em cena as agroindústrias responsáveis pelo beneficiamento, processamento e transformação das matérias-primas agrícolas em mercadorias destinadas ao consumo ou a outras atividades produtivas. Esse processo também envolve armazenamento, transporte, distribuição, comercialização, crédito, pesquisa e assistência técnica. Por isso, a principal característica dos complexos agroindustriais é o elevado nível de integração setorial, já que agricultura, indústria e serviços passam a funcionar de maneira articulada e interdependente. A produção agropecuária deixa de ser compreendida como uma atividade isolada e passa a integrar circuitos econômicos mais amplos, organizados por fluxos de capital, tecnologia e informação. Essa integração também modifica a dinâmica do espaço rural, pois o produtor passa a depender cada vez mais de insumos industrializados e de canais de processamento e comercialização externos à propriedade. Ao mesmo tempo, a agroindústria depende do fornecimento regular de matérias-primas produzidas no campo. Forma-se, assim, uma rede produtiva na qual diferentes setores atuam de maneira coordenada. Essa lógica está presente em cadeias como soja, carnes, leite, açúcar, celulose e diversos outros segmentos do agronegócio. Portanto, os Complexos Agroindustriais expressam a crescente articulação entre os setores primário, secundário e terciário, consolidando uma estrutura produtiva marcada pela integração entre agricultura, indústria e serviços.  

84 – A

O processo de descolonização africana ocorreu em um contexto internacional profundamente marcado pela Guerra Fria, o que fez com que conflitos internos de muitos países recém-independentes passassem a se articular com a disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Em Angola, essa sobreposição foi particularmente evidente. A independência não eliminou as divergências entre os diferentes movimentos nacionalistas, que possuíam bases sociais, regionais e orientações políticas distintas. Ao contrário, a retirada portuguesa abriu espaço para uma intensa disputa pelo controle do novo Estado. Nesse cenário, o MPLA, a UNITA e a FNLA passaram a buscar apoio externo para fortalecer suas posições internas. A rivalidade entre esses grupos foi, então, incorporada à lógica bipolar do sistema internacional. O apoio soviético e cubano ao MPLA e o apoio norte-americano e sul-africano à UNITA e à FNLA transformaram a guerra civil angolana em um exemplo clássico de conflito por procuração, no qual grandes potências evitavam o confronto direto, mas apoiavam forças locais alinhadas aos seus interesses estratégicos. Dessa maneira, disputas nacionais por poder, controle territorial e definição do projeto político do país foram intensificadas pela competição geopolítica global. Esse fenômeno ocorreu também em outros processos de descolonização da África e da Ásia, nos quais a independência formal não significou plena autonomia diante das pressões internacionais. A fragilidade institucional de vários Estados recém-formados, somada à existência de rivalidades internas e fronteiras herdadas do colonialismo, favoreceu a intervenção de potências estrangeiras. Assim, a experiência angolana demonstra como a descolonização esteve frequentemente marcada pelo entrelaçamento entre conflitos locais e interesses estratégicos das superpotências, prolongando guerras e dificultando a consolidação de Estados politicamente estáveis. 

85 – A

A visão utilitarista da natureza entende o meio natural principalmente a partir de sua capacidade de fornecer recursos e sustentar projetos econômicos considerados estratégicos. Nesse tipo de perspectiva, florestas, rios, solos e minerais são avaliados sobretudo por seu potencial de exploração, produção e geração de riqueza. No caso da Amazônia, essa interpretação esteve associada a políticas de ocupação territorial que enxergavam a floresta como um espaço a ser incorporado à economia nacional por meio da abertura de estradas, expansão agropecuária, mineração, exploração madeireira e implantação de grandes projetos de infraestrutura. O desmatamento, nesse contexto, podia ser apresentado como sinal de progresso, modernização e integração territorial, e não necessariamente como um problema ambiental. A natureza adquiria valor principalmente quando transformada em recurso econômico. Essa concepção está relacionada a uma lógica de domínio e aproveitamento intensivo do território, na qual os limites ecológicos tendem a ocupar posição secundária diante dos objetivos de crescimento econômico. Por isso, a retirada da cobertura vegetal podia ser incentivada pelo próprio poder público por meio de projetos de colonização, concessão de créditos, construção de rodovias e estímulos à instalação de grandes empreendimentos privados. A crítica contemporânea a esse modelo demonstra que ele produziu consequências como perda de biodiversidade, conflitos fundiários, pressão sobre povos indígenas e comunidades tradicionais, além de alterações nos ciclos hidrológicos e climáticos. Assim, o elemento central não é apenas o nacionalismo presente em determinados discursos governamentais, mas a compreensão do espaço natural como instrumento a ser apropriado e utilizado economicamente. É essa concepção que caracteriza uma visão utilitarista do meio ambiente. 

86 – C

A Guerra de Canudos deve ser compreendida no contexto das profundas desigualdades sociais e fundiárias do sertão nordestino durante os primeiros anos da República. A comunidade organizada em torno de Antônio Conselheiro atraiu milhares de sertanejos pobres, trabalhadores rurais e ex-escravizados que buscavam condições de sobrevivência fora das relações tradicionais de dependência estabelecidas nas grandes propriedades. Ao se deslocarem para o arraial de Belo Monte, esses grupos deixavam de fornecer mão de obra barata aos grandes proprietários e passavam a integrar uma comunidade com formas próprias de organização econômica, religiosa e social. Esse movimento atingia diretamente uma das bases do coronelismo, sistema de poder local sustentado não apenas pela propriedade da terra, mas também pelo controle político e econômico exercido sobre populações dependentes. Os grandes proprietários utilizavam relações de favor, emprego e submissão para manter sua influência sobre trabalhadores rurais e sobre a vida política regional. O crescimento de Canudos ameaçava essa estrutura porque oferecia uma alternativa concreta de organização comunitária fora da autoridade dos coronéis. Ao mesmo tempo, a jovem República interpretou o arraial como ameaça política, difundindo a acusação de que seus habitantes seriam monarquistas interessados em destruir o novo regime. Essa representação contribuiu para legitimar sucessivas expedições militares contra a comunidade. A repressão a Canudos, portanto, combinou defesa da ordem republicana com interesses das elites regionais ameaçadas pela perda de trabalhadores e pela autonomia conquistada pelos sertanejos. Assim, a destruição do arraial em 1897 revela como a consolidação da Primeira República esteve associada à manutenção de estruturas sociais marcadas pela concentração fundiária, pelo poder dos coronéis e pela exclusão política das populações sertanejas. 

87 – D

O fundamento jurídico central da acusação apresentada está na definição de genocídio estabelecida pela Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, de 1948. O artigo II da Convenção determina que o crime pode ocorrer não apenas pelo assassinato direto de integrantes de determinado grupo nacional, étnico, racial ou religioso, mas também pela imposição deliberada de condições de vida destinadas a provocar sua destruição física, total ou parcial.  É precisamente esse dispositivo que aparece no processo movido pela África do Sul contra Israel perante a Corte Internacional de Justiça. A argumentação sul-africana sustenta que restrições ao acesso a alimentos, água, medicamentos, combustível, abrigo e assistência humanitária, quando analisadas em conjunto com outras condutas, podem integrar esse tipo de ato previsto pela Convenção. A caracterização jurídica do genocídio, contudo, exige também a demonstração de intenção específica de destruir, no todo ou em parte, o grupo protegido, elemento que diferencia esse crime de outras violações graves do direito internacional humanitário. A Corte Internacional de Justiça não havia, nas decisões cautelares iniciais, declarado definitivamente que Israel cometeu genocídio; ela determinou medidas provisórias destinadas a proteger direitos considerados plausíveis enquanto o mérito do processo permanecia em julgamento. Entre essas medidas, ordenou que Israel prevenisse atos abrangidos pelo artigo II da Convenção e adotasse providências para permitir a entrada de serviços básicos e assistência humanitária urgentemente necessários à população palestina de Gaza. Portanto, a lógica da questão está na associação entre o bloqueio de recursos indispensáveis à sobrevivência e a hipótese jurídica de submissão deliberada de um grupo a condições capazes de produzir sua destruição física, desde que acompanhada da intenção específica exigida pela definição internacional de genocídio. 

88 – D

O reordenamento industrial iniciado a partir da década de 1970 (desconcentração industrial) esteve ligado à busca das empresas por novas vantagens locacionais, favorecida pela expansão das redes de transporte, comunicação e pela maior fragmentação internacional da produção. Nesse processo, partes da atividade industrial puderam ser deslocadas dos países centrais para territórios que ofereciam condições mais competitivas, como custos salariais menores, ausência de sindicatos, incentivos fiscais, infraestruturas industriais (disponibilidade de energia, estruturas portuárias, ferrovias etc) e políticas favoráveis à instalação de empresas estrangeiras. Os chamados Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura), tiveram papel importante nessa reorganização ao ampliar rapidamente sua produção industrial e sua participação nas exportações de manufaturados. Esses países combinaram forte atuação estatal, investimentos em educação, infraestrutura e tecnologia com estratégias voltadas à inserção nos mercados internacionais. No mesmo contexto, a  China tornou-se ainda mais decisiva nesse processo. É importante destacar que não houve abertura política chinesa, o que elimina a alternativa (A). A partir de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, ocorreu uma abertura econômica controlada, mantendo-se o regime político de partido único. Essa abertura foi marcada pela criação das Zonas Econômicas Especiais em áreas litorâneas, destinadas a atrair capitais estrangeiros, receber indústrias exportadoras e experimentar mecanismos de mercado (modelo de Plataforma de Exportação). A combinação entre baixos custos de produção, grande disponibilidade de mão de obra, infraestrutura crescente e incentivos estatais transformou essas áreas em importantes polos industriais. Com isso, a Ásia Oriental passou a ocupar posição cada vez mais central nas cadeias globais de produção. Portanto, o processo descrito não pode ser reduzido apenas à existência de mão de obra barata. O elemento mais abrangente foi a busca empresarial por vantagens locacionais em novos territórios, o que favoreceu o crescimento da China e dos Tigres Asiáticos. 

89 – C

A socióloga Heleieth Saffioti analisa como o patriarcado e o capitalismo se articulam para manter a divisão sexual do trabalho, sobrecarregando as mulheres com o trabalho reprodutivo e de cuidado não remunerado (limpeza, alimentação, cuidado com crianças, idosos e enfermos). Essa dinâmica restringe a inserção feminina em empregos qualificados, reduz seus rendimentos e limita sua presença em espaços decisórios. Para reverter essa desigualdade estrutural, a teoria sociológica feminista aponta a necessidade de o Estado assumir seu papel garantidor por meio da implantação de redes públicas de cuidado — como creches em tempo integral, lavanderias comunitárias, restaurantes populares e centros de apoio a idosos —, desonerando as mulheres do encargo exclusivo da reprodução social. 

90 – A

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, “a estrutura de um solo compreende várias camadas horizontais diferentes em cor, textura, composição etc. Cada uma dessas camadas é um horizonte do solo e seu conjunto constitui o que se chama de perfil do solo”. Essas camadas são divididas da seguinte forma:

Horizonte O – parte superficial formada basicamente por matéria orgânica em vias de decomposição. 

Horizonte A – zona com mistura de matéria orgânica e substâncias minerais, com bastante influência do clima e alta atividade biológica.

Horizonte B – horizonte caracterizado pela cor forte e pela acumulação de argilas procedentes dos horizontes superiores e também de óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio.

Horizonte C – mistura de solo pouco denso com rocha-matriz pouco alterada.

Horizonte D – rocha matriz sem alteração.