Este gabarito é referente ao terceiro simulado do Projeto UERJ 2027 – 2ºExame de Qualificação

Questão 1: [C]

A posição latitudinal é o fator climático que melhor explica, entre as alternativas apresentadas, as diferenças na amplitude térmica anual observadas entre Monterrey, Kansas City e Toronto. As três cidades estão localizadas em latitudes distintas do Hemisfério Norte: Monterrey encontra-se mais próxima das baixas latitudes, enquanto Kansas City ocupa uma posição intermediária e Toronto está situada mais ao norte. Essa diferença interfere diretamente na quantidade de radiação solar recebida e, principalmente, na variação sazonal da insolação ao longo do ano. À medida que se avança para latitudes mais elevadas, aumenta a diferença entre a quantidade de energia solar recebida no verão e no inverno. Isso ocorre devido à inclinação do eixo terrestre e ao movimento de translação da Terra. Durante o verão do Hemisfério Norte, as áreas de médias latitudes recebem radiação solar com maior ângulo de incidência e apresentam dias mais longos. No inverno, ocorre o inverso: os raios solares atingem a superfície de maneira mais inclinada e a duração dos dias diminui. O resultado é uma sazonalidade térmica mais acentuada, com maior contraste entre as temperaturas das estações quentes e frias. Nesse sentido, Monterrey, localizada em latitude mais baixa, apresenta invernos relativamente mais amenos e menor contraste sazonal. Kansas City, situada em latitude mais elevada, registra maior diferença entre as temperaturas de verão e inverno. Toronto, ainda mais ao norte, apresenta forte sazonalidade, sobretudo pela ocorrência de temperaturas muito baixas durante o inverno. Assim, a comparação entre as cidades permite relacionar a variação das temperaturas à sua posição em diferentes latitudes. A alternativa (A), massa de ar, não é a mais adequada porque as massas de ar ajudam a explicar episódios de aquecimento ou resfriamento e as características das diferentes estações. Massas de ar de origem polar, por exemplo, podem provocar fortes quedas de temperatura em Kansas City e Toronto. Entretanto, sua atuação não constitui o fator geográfico fundamental utilizado para explicar a diferença sistemática de sazonalidade térmica entre cidades posicionadas em diferentes faixas latitudinais. A alternativa (B), altitude média, está incorreta porque a altitude interfere principalmente nos valores absolutos de temperatura. Em geral, quanto maior a altitude, menor tende a ser a temperatura, devido à redução da pressão atmosférica e ao resfriamento do ar em expansão. Esse fator, porém, não estabelece uma relação coerente com a sequência apresentada pelas três cidades nem explica diretamente o contraste entre temperaturas de verão e inverno. A alternativa (D), correntes marítimas, também está incorreta. As correntes oceânicas podem aquecer ou resfriar áreas costeiras e desempenham papel importante na configuração climática de diversas regiões do planeta. Contudo, Monterrey e Kansas City encontram-se no interior do continente, sem influência direta significativa das correntes marítimas, enquanto Toronto também não está situada em um litoral oceânico. Portanto, esse fator não explica adequadamente as diferenças térmicas apresentadas.

Questão 2: [C]

A alternativa C está correta porque a crise econômica e energética cubana também deve ser compreendida no contexto das sanções e restrições econômicas impostas pelos Estados Unidos a Cuba ao longo de décadas. O embargo norte-americano dificulta o acesso cubano a determinados mercados, bens, tecnologias, investimentos e formas de financiamento internacional, contribuindo para agravar dificuldades de abastecimento e de manutenção da infraestrutura. A questão, portanto, exige que o estudante relacione um problema contemporâneo — os apagões e a escassez de combustível — a uma característica histórica das relações externas de Cuba, marcada pela pressão econômica exercida por uma potência estrangeira. É importante, contudo, evitar uma explicação monocausal: problemas internos de infraestrutura, dificuldades de financiamento e a própria crise econômica cubana também contribuem para a situação energética. A alternativa A está incorreta porque uma disputa comercial regional não explica adequadamente a natureza das relações externas que historicamente mais afetaram a economia cubana. A principal referência nesse caso é o longo conflito econômico entre Cuba e Estados Unidos, marcado pelo embargo e por outras medidas restritivas. A alternativa B está incorreta porque a dependência de fontes externas de energia pode contribuir para a vulnerabilidade do sistema cubano, mas não corresponde ao aspecto histórico das relações externas destacado pela questão. Além disso, a alternativa não identifica o instrumento de pressão econômica utilizado contra Cuba. A alternativa D está incorreta porque o problema não pode ser caracterizado simplesmente como isolamento diplomático pós-Guerra Fria. Cuba mantém relações diplomáticas com diversos países e participa de organizações internacionais. O principal elemento histórico relacionado à pressão externa é o conjunto de sanções e restrições econômicas, especialmente aquelas impostas pelos Estados Unidos. Assim, a alternativa C é a mais adequada por relacionar a crise energética contemporânea a uma dimensão histórica das relações internacionais de Cuba: a utilização de medidas econômicas coercitivas por uma potência estrangeira, que contribuem para limitar o acesso do país a recursos, mercados e mecanismos de financiamento.

Questão 3: [D]

O trecho do acordo entre Mercosul e União Europeia estabelece a redução ou eliminação de direitos aduaneiros incidentes sobre mercadorias comercializadas entre as partes. Essa característica corresponde ao estágio de integração econômica denominado área de livre comércio, no qual os países ou blocos participantes diminuem ou eliminam tarifas alfandegárias e outras barreiras aplicadas ao comércio realizado entre eles, mas preservam autonomia para definir suas próprias políticas comerciais em relação a terceiros. O próprio texto evidencia essa característica ao determinar que cada parte realizará concessões tarifárias sobre os “bens originários” da outra parte. Esse aspecto é importante porque, em uma área de livre comércio, torna-se necessário estabelecer regras de origem, destinadas a identificar quais produtos efetivamente foram produzidos nos países integrantes do acordo e, portanto, podem usufruir das preferências tarifárias. Sem essas regras, mercadorias provenientes de países externos poderiam entrar pelo membro com menor tarifa e, posteriormente, circular para os demais, beneficiando-se indevidamente das reduções estabelecidas. A alternativa (A), união aduaneira, está incorreta porque esse estágio exige algo além da eliminação das tarifas internas: os membros devem estabelecer uma Tarifa Externa Comum, adotando uma política tarifária conjunta em relação aos produtos provenientes de países que não participam do bloco. O acordo entre Mercosul e União Europeia não transforma os dois blocos em uma única união aduaneira nem estabelece uma tarifa externa comum compartilhada entre eles. Cada parte continua mantendo sua própria estrutura tarifária e sua política comercial externa A alternativa (B), mercado comum, corresponde a um estágio mais aprofundado de integração. Além da livre circulação de mercadorias, pressupõe a redução de barreiras à circulação de serviços, capitais e fatores de produção, especialmente trabalhadores. O dispositivo apresentado trata fundamentalmente da liberalização do comércio de bens e da redução de direitos aduaneiros, não estabelecendo uma integração dessa amplitude entre Mercosul e União Europeia. A alternativa (C), integração monetária, representa um nível ainda mais elevado de integração econômica, caracterizado pela coordenação das políticas monetárias e, em sua forma mais avançada, pela utilização de uma moeda comum ou pela adoção de instituições monetárias compartilhadas. O exemplo mais conhecido é a zona do euro no interior da União Europeia. O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia não prevê a criação de moeda comum nem a unificação de suas políticas monetárias.

Questão 4: [B]

A alternativa B está correta porque o bipartidarismo instituído pelo AI-2, em 1965, criou uma estrutura política que permitia a existência formal de uma legenda governista, a ARENA, e de uma oposição consentida, o MDB. Essa organização dava ao regime militar uma aparência de funcionamento institucional e de disputa política, mas a atuação dos partidos permanecia submetida às regras e aos limites estabelecidos pela própria ditadura. Dessa forma, a existência de oposição parlamentar não significava a vigência de uma democracia plena, já que o regime restringia a participação política, controlava as instituições e mantinha mecanismos autoritários de exercício do poder. A alternativa A está incorreta porque, embora o MDB realmente tenha constituído uma oposição controlada, essa formulação não expressa de maneira tão completa o efeito político destacado pela questão. O ponto central é que o bipartidarismo permitia ao regime apresentar uma estrutura institucional com situação e oposição, contribuindo para produzir uma aparência de normalidade democrática. A alternativa C está incorreta porque o AI-2 não recuperou a autonomia dos partidos oposicionistas. Pelo contrário, o ato extinguiu os partidos existentes e estabeleceu um sistema partidário submetido às regras impostas pelo regime militar. A alternativa D está incorreta porque a criação do bipartidarismo não teve como objetivo ampliar a participação eleitoral das camadas populares. A medida esteve relacionada à reorganização e ao controle da atividade política, dentro do processo de consolidação da ditadura. Portanto, a alternativa B é a mais adequada porque identifica a principal contradição do sistema criado pelo AI-2: a existência formal de partidos e de oposição conferia ao regime uma aparência institucional e democrática, enquanto as condições efetivas de participação política permaneciam submetidas a fortes restrições autoritárias.

Questão 5: [B]

A Guerra do Yom Kippur, iniciada em outubro de 1973, foi o acontecimento geopolítico que desencadeou a chamada Primeira Crise do Petróleo. O conflito começou quando Egito e Síria atacaram Israel, buscando recuperar territórios perdidos para os israelenses na Guerra dos Seis Dias, de 1967, especialmente a Península do Sinai e as Colinas de Golã. A guerra rapidamente adquiriu uma dimensão internacional por ocorrer em pleno contexto da Guerra Fria: enquanto a União Soviética apoiava países árabes, principalmente com fornecimento de armamentos, os Estados Unidos reforçaram o apoio militar e financeiro a Israel. Em resposta ao apoio norte-americano e de outros países ocidentais ao governo israelense, os países árabes exportadores de petróleo decidiram utilizar o controle sobre a produção petrolífera como instrumento de pressão política internacional. Países árabes articulados na OAPEC — Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo — reduziram progressivamente sua produção e estabeleceram restrições ou embargos às exportações destinadas a países considerados aliados de Israel, com destaque para os Estados Unidos. O petróleo transformou-se, portanto, em uma verdadeira “arma geopolítica”. Como as economias industrializadas dependiam fortemente das importações de petróleo do Oriente Médio para abastecer transportes, indústrias e sistemas energéticos, a redução da oferta provocou uma rápida elevação dos preços internacionais. Entre 1973 e o início de 1974, o preço internacional do barril aumentou aproximadamente quatro vezes, passando de cerca de três dólares para valores próximos de doze dólares.

Questão 6: [D]

O texto destaca a mudança na forma como manifestações culturais de matriz africana passaram a ser tratadas pelo poder público ao longo do século XX. Durante as primeiras décadas da República, práticas como o samba, a capoeira e as religiões afro-brasileiras eram frequentemente reprimidas por autoridades policiais, que as associavam à marginalidade e ao atraso, em consonância com teorias raciais e projetos de modernização inspirados em padrões europeus. Na Era Vargas, especialmente durante o Estado Novo (1937–1945), essa postura foi parcialmente modificada. O governo passou a incorporar o samba ao projeto de construção da identidade nacional, utilizando-o como instrumento de integração cultural e de propaganda oficial, sobretudo por meio do rádio, do carnaval e da atuação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Dessa forma, a alternativa D está correta por identificar essa mudança de política cultural, marcada pela apropriação estatal de uma manifestação antes reprimida. A alternativa A está incorreta porque não ocorreu a proibição definitiva das festas populares. Ao contrário, diversas manifestações passaram a ser regulamentadas e, em alguns casos, incentivadas pelo próprio Estado durante a Era Vargas. A alternativa B está incorreta porque o período varguista não promoveu a substituição das referências culturais afro-brasileiras por modelos europeus. Pelo contrário, elementos da cultura popular de origem africana foram incorporados ao discurso oficial sobre a identidade brasileira, ainda que de forma seletiva e controlada. A alternativa C está incorreta porque, embora mencione a valorização oficial de manifestações antes marginalizadas, trata-se de uma afirmação genérica. O enunciado solicita a identificação da transformação histórica exemplificada pelo texto, e a Era Vargas teve como característica específica a adoção do samba como símbolo da identidade nacional, aspecto expresso de maneira mais precisa pela alternativa D.

Questão 7: [B]

A alternativa correta é canalização fluvial, uma intervenção recorrente no processo de urbanização de grandes cidades. Ela consiste na alteração artificial dos cursos d’água, que podem ser retificados, revestidos com concreto, confinados em canais ou até mesmo cobertos para permitir a construção de avenidas e outras estruturas urbanas. A canalização modifica profundamente o funcionamento natural dos sistemas hidrográficos. Em condições naturais, rios e córregos apresentam leitos mais irregulares, margens vegetadas e áreas de várzea capazes de armazenar temporariamente parte da água durante períodos de chuva intensa. Quando esses elementos são eliminados ou reduzidos, diminui a capacidade do sistema de reter e acomodar os volumes excepcionais de água. Além disso, superfícies impermeáveis e canais revestidos dificultam a infiltração e favorecem um escoamento mais rápido. Em uma metrópole como São Paulo, marcada por extensa impermeabilização do solo, a ocorrência de chuvas muito concentradas em poucas horas faz com que grandes volumes de água cheguem rapidamente aos rios e córregos urbanos. Quando esses cursos foram canalizados e tiveram suas áreas naturais de expansão ocupadas ou eliminadas, sua capacidade de absorver aumentos bruscos de vazão torna-se limitada, contribuindo para transbordamentos, alagamentos e enchentes. A situação descrita no texto torna esse problema ainda mais relevante. O aumento da frequência de episódios de precipitação extrema significa que a infraestrutura urbana precisa receber, em intervalos muito curtos, volumes de água excepcionalmente elevados. A combinação entre eventos climáticos mais intensos e profundas alterações antrópicas nos sistemas hidrográficos amplia o risco de enchentes nas grandes cidades. A alternativa (A), poda intensiva, está incorreta porque, embora a redução excessiva da cobertura vegetal possa diminuir a interceptação da água da chuva e produzir outros impactos ambientais, a poda de árvores não constitui uma intervenção sobre os sistemas hidrográficos capaz de explicar diretamente a intensificação das enchentes urbanas. A alternativa (C), especulação imobiliária, refere-se ao processo de valorização e apropriação econômica do espaço urbano. Ela pode contribuir indiretamente para formas de ocupação que ampliam problemas ambientais, mas não representa, em si, uma intervenção física nos rios capaz de modificar diretamente o escoamento das águas. A alternativa (D), ocupação de áreas de baixa renda, também não corresponde ao mecanismo apresentado. A condição socioeconômica de uma área não determina a ocorrência de enchentes. Populações de menor renda podem apresentar maior vulnerabilidade socioambiental quando vivem em locais sujeitos a inundações, mas isso diz respeito principalmente à exposição da população ao risco, e não a uma intervenção responsável pela alteração da dinâmica fluvial.

Questão 8: [B]

A alternativa B está correta porque a história recente do Brasil registra diversos casos de deslocamento forçado de povos indígenas associados a projetos de ocupação econômica e territorial, especialmente durante a ditadura militar. Grandes obras de infraestrutura, expansão de atividades agropecuárias, exploração de recursos naturais e políticas de integração nacional provocaram a retirada de comunidades de seus territórios tradicionais. Essa realidade é importante para compreender a discussão sobre o marco temporal, pois muitos povos foram expulsos de suas terras antes de 1988 e, portanto, poderiam enfrentar dificuldades para comprovar uma ocupação física contínua na data estabelecida pelo critério. O problema evidencia que a ausência de um povo em determinado território não significa necessariamente ausência de vínculo tradicional com aquela área. A alternativa A está incorreta porque, embora a expansão da fronteira agrícola tenha contribuído historicamente para conflitos e perda de territórios indígenas, a expressão “territórios demarcados” torna a alternativa inadequada. Durante grande parte do período mencionado, justamente muitos desses territórios ainda não estavam formalmente demarcados ou reconhecidos pelo Estado. A alternativa C está incorreta porque os deslocamentos promovidos durante o período não podem ser caracterizados predominantemente como uma política de transferência de comunidades indígenas para áreas urbanas. As remoções estiveram frequentemente relacionadas à abertura de estradas, à expansão de fronteiras econômicas, à construção de grandes empreendimentos e a outras formas de ocupação territorial. A alternativa D está incorreta porque a transferência de povos indígenas para áreas de preservação ambiental não corresponde à principal dinâmica histórica discutida. Ao contrário, muitas comunidades foram retiradas de seus territórios para viabilizar projetos econômicos e estratégias de ocupação territorial. Assim, a alternativa B é a mais adequada por estabelecer a relação entre a discussão contemporânea sobre o marco temporal e os deslocamentos compulsórios promovidos no passado, especialmente aqueles relacionados aos projetos de ocupação e desenvolvimento implementados pelo Estado brasileiro. Essa perspectiva é fundamental para compreender por que a história das expulsões indígenas constitui elemento importante no debate sobre a comprovação da ocupação territorial.

Questão 9: [A]

A representação apresentada é uma anamorfose cartográfica, técnica em que o tamanho dos territórios deixa de corresponder à sua área real e passa a ser redimensionado proporcionalmente a uma variável estatística. Nesse tipo de mapa, portanto, o que importa não é a extensão territorial efetiva de cada país, mas o peso que ele possui no indicador escolhido. No mapa apresentado, o critério utilizado é o Produto Interno Bruto (PIB). Isso pode ser percebido pela forte ampliação dos países que concentram as maiores economias mundiais e pela redução daqueles que possuem menor participação na produção global de riquezas. Os Estados Unidos, por exemplo, aparecem enormemente ampliados, ocupando uma superfície cartográfica muito superior àquela que apresentariam em um mapa convencional. Isso ocorre porque o país possui uma das maiores economias do mundo. A China também aparece bastante ampliada, refletindo seu enorme peso na produção mundial de bens e serviços. O mesmo raciocínio ajuda a explicar o destaque de Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Coreia do Sul, países que não estão entre os maiores territórios do planeta, mas possuem economias de grande dimensão. O caso da Europa Ocidental é especialmente revelador. Países territorialmente relativamente pequenos, como Alemanha, França e Reino Unido, aparecem muito maiores do que suas dimensões reais. Isso indica que a variável representada não pode ser simplesmente a extensão territorial: suas áreas foram infladas em razão de sua elevada participação na economia mundial. A deformação também pode ser percebida no sentido contrário. Grande parte da África aparece extremamente reduzida. O continente possui enorme extensão territorial e população numerosa, mas muitos de seus países apresentam participação relativamente pequena no PIB mundial. Como a anamorfose dimensiona os territórios de acordo com sua produção econômica, numerosas áreas africanas ficam comprimidas. O próprio contraste entre Estados Unidos e Índia ajuda a identificar o indicador. A Índia possui população muito superior à dos Estados Unidos, mas aparece consideravelmente menor na representação. Se o critério fosse a população absoluta, a Índia teria dimensões cartográficas muito maiores e próximas ou superiores às da China. A enorme ampliação dos Estados Unidos, portanto, é coerente com seu peso econômico, e não demográfico. A alternativa (B), IDH global, está incorreta porque o Índice de Desenvolvimento Humano não representa um valor absoluto acumulável da mesma maneira que o PIB ou a população. Além disso, se o tamanho dos territórios representasse IDH, países com índices semelhantes de desenvolvimento apresentariam dimensões muito mais próximas, o que não acontece. Estados Unidos, Alemanha, Canadá e outros países possuem IDH elevado, mas aparecem com tamanhos bastante distintos porque suas economias possuem dimensões diferentes. A alternativa (C), população absoluta, também está incorreta. Se esse fosse o critério, países muito populosos, como Índia, Indonésia, Paquistão, Nigéria e Bangladesh, deveriam adquirir enorme destaque. A Índia, por exemplo, deveria aparecer com dimensão comparável à China, enquanto os Estados Unidos seriam significativamente menores. A configuração apresentada não corresponde à distribuição mundial da população. A alternativa (D), densidade demográfica, não explica a representação porque países com elevadíssima concentração populacional em pequenas áreas, como Bangladesh, Coreia do Sul ou diversos países europeus, deveriam apresentar forte expansão. Além disso, países territorialmente extensos e pouco densamente povoados, como Canadá e Austrália, tenderiam a ficar muito reduzidos. O mapa não apresenta esse padrão.

Questão 10: [B]

A alternativa B está correta porque a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã estava inserida na lógica da contenção da expansão do comunismo, princípio associado à Doutrina Truman, formulada em 1947. No contexto da Guerra Fria, os Estados Unidos passaram a considerar o avanço de governos e movimentos comunistas em diferentes regiões como uma ameaça à sua influência internacional. No Sudeste Asiático, essa perspectiva contribuiu para o apoio norte-americano ao Vietnã do Sul e, posteriormente, para a intervenção militar direta no conflito. Assim, a Guerra do Vietnã pode ser compreendida como parte da disputa geopolítica entre os blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética. A alternativa A está incorreta porque o Plano Marshall, lançado em 1947, foi um programa de auxílio econômico destinado principalmente à reconstrução dos países da Europa Ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Embora também estivesse relacionado à contenção do comunismo, não corresponde à política que fundamentou diretamente a intervenção norte-americana no Vietnã. A alternativa C está incorreta porque a Doutrina Monroe, formulada em 1823, pertence ao contexto da política externa dos Estados Unidos no século XIX e estava relacionada principalmente à oposição à intervenção das potências europeias no continente americano. Portanto, não explica a atuação estadunidense no Sudeste Asiático durante a Guerra Fria. A alternativa D está incorreta porque a coexistência pacífica esteve associada sobretudo a uma tentativa de reduzir as tensões entre Estados Unidos e União Soviética, especialmente durante determinados momentos da Guerra Fria. A intervenção militar norte-americana no Vietnã, ao contrário, expressou uma política de enfrentamento à expansão de movimentos comunistas. Portanto, a alternativa B é a mais adequada, pois a Doutrina Truman estabeleceu uma orientação fundamental da política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria: conter a expansão da influência comunista em diferentes partes do mundo, princípio que esteve presente na atuação norte-americana no conflito vietnamita.

Questão 11: [C]

O processo socioespacial descrito no texto corresponde à gentrificação, fenômeno associado à valorização de determinadas áreas urbanas após intervenções do poder público e/ou do capital privado, seguida pela substituição progressiva da população de menor renda por grupos com maior poder aquisitivo. No caso do Porto Maravilha, a reestruturação da zona portuária do Rio de Janeiro envolveu grandes investimentos em infraestrutura, novos empreendimentos imobiliários, implantação do VLT, remodelação da orla e valorização paisagística da região. Essas transformações aumentaram a atratividade econômica da área e estimularam a atuação de investidores e incorporadoras imobiliárias. Ao mesmo tempo, porém, parte dos moradores tradicionais, principalmente trabalhadores de baixa renda, passou a enfrentar maior pressão sobre a permanência no local. Esse é justamente um dos elementos centrais da gentrificação: a valorização econômica de uma área anteriormente degradada ou desvalorizada pode elevar preços de imóveis, aluguéis e custos de vida, tornando progressivamente mais difícil a permanência das populações que historicamente ocupavam aquele espaço. Dessa forma, a renovação urbana não significa necessariamente democratização do acesso à cidade. Ao contrário, quando ocorre sem políticas de proteção aos moradores, pode produzir substituição social da população e apropriação seletiva dos espaços valorizados. O trecho oferece uma evidência direta desse processo ao afirmar que a chegada de investidores e incorporadoras ocorreu “às custas dos moradores mais pobres”, enquanto a região passou a ser direcionada para grupos de maior renda. Portanto, não se trata apenas de uma transformação física da paisagem, mas de uma mudança na composição social do território. A alternativa (A), remoção, está incorreta como resposta principal. As remoções efetivamente ocorreram e aparecem explicitamente no texto, com a retirada de centenas de famílias. No entanto, a remoção é um mecanismo ou uma manifestação concreta do processo, e não o conceito socioespacial mais abrangente que explica o conjunto das transformações. A questão procura identificar o processo caracterizado pela valorização imobiliária seguida da substituição de moradores de baixa renda, isto é, a gentrificação. A alternativa (B), segregação, também é plausível, mas é mais ampla. A segregação socioespacial corresponde à distribuição desigual dos diferentes grupos sociais no espaço urbano, produzindo áreas ocupadas predominantemente por populações de diferentes níveis de renda. A gentrificação pode aprofundar a segregação, pois afasta moradores pobres de áreas valorizadas, mas o texto descreve um mecanismo específico de transformação de um bairro, marcado pela valorização e pela substituição de sua população. Por isso, gentrificação é o conceito mais preciso. A alternativa (D), periferização, refere-se ao deslocamento ou à concentração das populações de menor renda em áreas periféricas, frequentemente mais distantes dos centros urbanos e com menor oferta de infraestrutura e serviços. Esse fenômeno pode ser uma consequência da gentrificação, caso os moradores expulsos de áreas valorizadas sejam obrigados a buscar habitação em regiões mais afastadas. Contudo, o texto não enfatiza o destino das famílias removidas, mas o processo de valorização e mudança social da própria zona portuária.

Questão 12: [C]

A alternativa C está correta porque o pensamento de Frantz Fanon articulava a luta pela emancipação dos povos colonizados à crítica das estruturas raciais produzidas pelo colonialismo. Para Fanon, a dominação colonial não se restringia ao controle político e econômico: ela também estabelecia hierarquias raciais e culturais que contribuíam para a inferiorização dos povos colonizados. Sua atuação na Argélia e seus escritos sobre colonialismo, racismo e libertação expressam justamente essa compreensão da descolonização como um processo simultaneamente político e social. Assim, a independência das sociedades africanas deveria estar acompanhada da superação das relações de dominação construídas pelo sistema colonial. A alternativa A está incorreta porque a valorização das identidades locais e das articulações panafricanas pode ser associada aos movimentos de afirmação dos povos africanos, mas não sintetiza o aspecto central da concepção fanoniana apresentado na questão. O pensamento de Fanon enfatizava sobretudo a relação entre colonialismo, racismo e emancipação. A alternativa B está incorreta porque a crítica de Fanon não pode ser reduzida à superação das hierarquias produzidas pelo capitalismo. Embora sua análise estabelecesse relações entre exploração econômica, colonialismo e racismo, o foco de sua reflexão sobre a descolonização estava nas estruturas coloniais e raciais que organizavam a relação entre colonizadores e colonizados. A alternativa D está incorreta porque Fanon não defendia a rejeição das manifestações culturais produzidas pelas próprias sociedades africanas. Sua crítica dirigia-se principalmente às formas de dominação colonial e à imposição de valores e hierarquias que inferiorizavam os povos colonizados. Portanto, a alternativa C é a mais adequada, pois estabelece a relação entre duas dimensões fundamentais do pensamento de Fanon: a luta pela libertação política dos povos colonizados e a crítica às estruturas raciais do colonialismo. Para o autor, a descolonização representava uma transformação profunda das relações sociais e políticas produzidas pela dominação colonial, e não apenas a substituição de uma administração estrangeira por um governo local.

Questão 13: [B]

África e Ásia concentram atualmente a combinação mais intensa entre crescimento demográfico e urbanização acelerada. Enquanto grande parte da Europa, da América do Norte e da América Latina já completou etapas avançadas da transição urbana, muitos países africanos e asiáticos ainda apresentam rápido aumento da população residente nas cidades. Segundo as projeções mais recentes da ONU, a maior parte do crescimento urbano mundial nas próximas décadas deverá se concentrar justamente nesses dois continentes. Um primeiro fator é a existência de grandes contingentes populacionais ainda vivendo em áreas rurais, sobretudo na África e em partes da Ásia. À medida que avançam a industrialização, a modernização agrícola e a concentração de empregos e serviços nas cidades, intensificam-se os deslocamentos do campo para os centros urbanos. Esse processo de êxodo rural, associado à própria expansão física das cidades, aumenta rapidamente a população das grandes aglomerações metropolitanas. Além disso, vários países desses continentes apresentam crescimento vegetativo ainda relativamente elevado. Dessa forma, as cidades crescem não apenas pela chegada de migrantes, mas também pelo próprio aumento natural de sua população. A presença de estruturas etárias relativamente jovens em muitos países africanos contribui para manter esse crescimento demográfico nas próximas décadas. Outro elemento fundamental é a concentração das atividades econômicas nas grandes cidades. Capitais nacionais e grandes metrópoles concentram investimentos, universidades, hospitais, infraestrutura de transportes, indústrias, serviços financeiros e oportunidades de emprego. Isso reforça sua capacidade de atração populacional e pode produzir um processo de metropolização, no qual algumas cidades crescem muito mais rapidamente do que o restante da rede urbana. A Ásia já concentra a maioria das megacidades existentes. A ONU estimava 33 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes em 2025, das quais 19 estavam na Ásia, e projeta o surgimento de novas cidades acima desse patamar até 2050, incluindo centros asiáticos e africanos.

Questão 14: [A]

A alternativa A está correta porque o conceito de terrorismo de Estado se refere ao emprego sistemático da violência por instituições ou agentes vinculados ao próprio Estado para intimidar a população, eliminar opositores e preservar determinado projeto político. Durante a ditadura de Augusto Pinochet, organismos estatais e estruturas de repressão foram utilizados para perseguir adversários políticos por meio de prisões arbitrárias, torturas, execuções e desaparecimentos forçados. A característica central destacada pelo texto é justamente a utilização organizada do aparato estatal para produzir medo e desarticular a oposição. A repressão também ultrapassou as fronteiras chilenas, como demonstrado pela perseguição de opositores no exterior. A alternativa B está incorreta porque a expressão violência revolucionária se refere, em geral, ao uso da força por movimentos que buscam transformar ou derrubar uma determinada ordem política. No caso apresentado, a violência era empregada pelo próprio governo para preservar o regime e eliminar seus adversários, e não por um movimento revolucionário contra o Estado. A alternativa C está incorreta porque autoritarismo institucional é uma caracterização mais ampla do funcionamento político de regimes que restringem direitos e concentram o poder. Embora a ditadura chilena fosse autoritária, o conceito não destaca especificamente o uso sistemático da violência estatal para provocar terror e eliminar opositores. A alternativa D está incorreta porque a repressão descrita não possuía caráter meramente excepcional ou episódico. O texto evidencia uma política organizada e sistemática, incorporada às estruturas do regime e utilizada de maneira contínua contra seus adversários. Assim, a alternativa A é a mais adequada, pois identifica a característica fundamental da prática descrita: a utilização planejada e sistemática do aparato estatal como instrumento de violência e intimidação política, característica marcante da ditadura de Pinochet e de outras experiências autoritárias latino-americanas do século XX.

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