Mudanças Climáticas e Enchentes

Mudanças climáticas e enchentes no ENEM: As inundações urbanas são um tema recorrente nas provas de Ciências Humanas. Neste post você encontra uma revisão direta dos principais fatores causadores (impermeabilização, ocupação de várzeas, intensificação das chuvas) e dos efeitos sobre as cidades.

Abordamos os mecanismos físicos que aumentam o risco de enchentes, mostramos como a organização do espaço urbano agrava os prejuízos e explicamos por que esses problemas aparecem com frequência nas questões das bancas. Ao final, há questões da banca com gabarito para você treinar com foco no ENEM.

Causas das Enchentes e o Papel das Mudanças Climáticas no Meio Urbano

Nas cidades, a impermeabilização do solo, ocupação de várzeas e drenagem inadequada se combinam com padrões de chuva mais extremos — resultado das mudanças climáticas. Esses fatores elevam o risco de enchentes, provocando danos estruturais, deslocamento de pessoas e impactos ambientais. Em muitos casos, áreas vulneráveis sofrem ainda mais, resultando em desigualdade espacial e social — um tema muito explorado nas provas do ENEM.

O crescimento urbano intensivo e desordenado, marcado pela pavimentação de ruas e construções impermeáveis, impede a infiltração natural da água da chuva no solo. Neste sentido, a impermeabilização excessiva está diretamente ligada à destruição de áreas verdes e de várzeas — zonas naturalmente alagáveis que foram ocupadas por construções e vias asfaltadas.

Essa modificação do ambiente natural transforma o regime hidrológico urbano — a infiltração diminui, o escoamento superficial aumenta e, consequentemente, rios e sistemas de drenagem ficam sobrecarregados. Em áreas ocupadas de encosta, a situação tende a ser pior na medida em que a água das chuvas desce vertente abaixo com muito mais força e velocidade, provocando processos erosivos e deslizamentos. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA, 2023), o Brasil registrou aumento de 36% nos eventos de alagamento e enchentes em áreas urbanas na última década. Regiões metropolitanas como São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Rio de Janeiro estão entre as mais vulneráveis.

As mudanças climáticas amplificam o problema das enchentes urbanas. A intensificação do aquecimento global eleva a temperatura média da atmosfera, aumentando a evaporação e a capacidade de retenção de umidade do ar, o que resulta em chuvas mais intensas e concentradas em curtos períodos. O relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC, 2022) indica que eventos extremos, como tempestades e enxurradas, tendem a se tornar mais frequentes nas próximas décadas, especialmente em cidades costeiras e no Sudeste do país.

Racismo Ambiental e Segregação Socioespacial

Os impactos das enchentes não atingem a população de forma igual. Comunidades periféricas, favelas e ocupações irregulares, geralmente situadas em áreas de risco, como encostas e margens de rios, são as mais afetadas. Esse fenômeno é reconhecido pelos especialistas como racismo ambiental, conceito que visa indicar que a distribuição desigual dos riscos e danos ambientais recai de forma desproporcional sobre populações negras e pobres.

O conceito, amplamente discutido no Brasil por autores como Túlio Custódio e Sueli Carneiro, evidencia que a vulnerabilidade não é apenas natural, mas socialmente construída. Bairros periféricos possuem infraestrutura precária de drenagem, coleta irregular de lixo e baixa arborização — fatores que agravam o impacto das chuvas. Além disso, o poder público tende a priorizar obras de contenção e drenagem em áreas centrais, reforçando as desigualdades territoriais. Na prova do ENEM, a ideia de racismo ambiental pode vir associada ao conceito de segregação socioespacial.

Soluções baseadas na natureza: o papel das cidades-esponja

Diante desse cenário, o planejamento urbano precisa ser repensado sob o prisma da infraestrutura verde. O conceito de cidades-esponja, criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, surge como alternativa inovadora à drenagem tradicional. Em vez de tentar expulsar a água das cidades, o modelo propõe absorver, armazenar e reutilizar as águas pluviais.

Essas cidades incorporam soluções como parques alagáveis, pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes e reservatórios subterrâneos que capturam a água durante tempestades, evitando sobrecarga nos bueiros e rios. Na China, mais de 30 cidades já implementaram o modelo com sucesso, e algumas capitais brasileiras — como Curitiba e Recife — começam a adaptar o conceito a projetos locais. Além de reduzir enchentes, essas estruturas contribuem para diminuir as ilhas de calor, melhorar a qualidade do ar e aumentar as áreas de lazer. Em 2024, o ENEM cobrou uma questão que exigia justamente esse raciocínio que leva em conta a relação entre aumento de áreas verdes e redução de problemas ambientais como enchentes e ondas de calor. A questão e o gabarito estão no final do texto.  

Outras estratégias urbanas sustentáveis

Além das cidades-esponja, outras ações podem ser integradas para reduzir os impactos das enchentes urbanas. A prova pode utilizar algum desses gabaritos:

COMO O ENEM JÁ COBROU?

1.   A ampliação das áreas urbanizadas, devido à construção de áreas impermeabilizadas, repercute na capacidade de infiltração das águas no solo, favorecendo o escoamento superficial, a concentração das enxurradas e a ocorrência de ondas de cheia. A urbanização afeta o funcionamento do ciclo hidrológico, pois interfere no rearranjo dos armazenamentos e na trajetória das águas.

CHRISTOFOLETTI, A. Aplicabilidade do conhecimento geomorfológico nos projetos de planejamento. In: GUERRA, A. J. T.; CUNHA, S. B. (Org.). Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

 Considerando esse contexto, que fator contribui para a diminuição das enchentes em áreas urbanas?

a) Pavimentação das vias.   

b) Criação de espaços verdes.   

c) Verticalização das moradias.   

d) Adensamento das construções.   

e) Assoreamento dos canais de drenagem.   

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2.   Subindo morros, margeando córregos ou penduradas em palafitas, as favelas fazem parte da paisagem de um terço dos municípios do país, abrigando mais de 10 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 MARTINS, A. R. A favela como um espaço da cidade. Disponível em: http://www.revistaescola.abril.com.br. Acesso em: 31 jul. 2010.

 A situação das favelas no país reporta a graves problemas de desordenamento territorial. Nesse sentido, uma característica comum a esses espaços têm sido

a) o planejamento para a implantação de infraestruturas urbanas necessárias para atender as necessidades básicas dos moradores.   

b) a organização de associações de moradores interessadas na melhoria do espaço urbano e financiadas pelo poder público.   

c) a presença de ações referentes à educação ambiental com consequente preservação dos espaços naturais circundantes.   

d) a ocupação de áreas de risco suscetíveis a enchentes ou desmoronamentos com consequentes perdas materiais e humanas.   

e) o isolamento socioeconômico dos moradores ocupantes desses espaços com a resultante multiplicação de políticas que tentam reverter esse quadro.   

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3.   Enchente no Rio está entre as mais fatais dos últimos 12 meses no mundo

 As enchentes no Rio de Janeiro esta semana já causaram mais mortes do que qualquer outro incidente semelhante em 2010 em qualquer parte do mundo. Nos últimos 12 meses, a inundação no Rio foi a quinta mais fatal do mundo.

 Disponível em: http://www.bbcbrasil.com. 

 Além do grande volume de chuva, um fator de ordem socioespacial que provoca a ocorrência de eventos como o citado no trecho da reportagem é:

a) a coleta seletiva de resíduos urbanos.   

b) a reconstituição de áreas de várzea degradadas.   

c) a dragagem de rios, canais e lagoas assoreados.   

d) a impermeabilização dos solos das grandes cidades.   

e) o ordenamento urbano, com a construção de condomínios populares.   

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4.   A mudança do clima nas cidades brasileiras é um desafio de adaptação e equidade. Inundações, alagamentos e ondas de calor são cada vez mais frequentes e intensas. Cidades precisam se adaptar com urgência, a começar pelas áreas e populações mais vulneráveis. Implementar soluções baseadas na natureza de forma sistêmica pode contribuir para a redução de desastres relacionados às mudanças do clima e ainda gerar múltiplos benefícios para a economia, o ambiente e as pessoas.

EVERS. H. et al. Soluções baseadas na natureza para adaptação em cidades. Disponível em: www.wribrasil.org.br. Acesso em: 19 out. 2023 (adaptado).

 Qual medida atenua os problemas abordados no texto?

a) Criação de faixas sinalizadoras.   

b) Incineração de resíduos sólidos.   

c) Implantação de parques públicos.   

d) Verticalização de espaços centrais.   

e) Construção de estacionamentos privados.   

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5.  

 A charge ironiza um problema recorrente nas áreas urbanas nos períodos de maior precipitação, cujas causas são intensificadas pela:

a) ocorrência do fenômeno da chuva frontal, típica das áreas urbanas localizadas no litoral brasileiro.   

b) ampliação do efeito estufa provocado pela onda de calor, aumentando a evaporação nas metrópoles.   

c) construção de canais concretados e submersos em função da ocupação das margens dos rios urbanos.   

d) formação de ilhas de calor nos centros urbanos e maior precipitação devido ao aumento da temperatura.   

e) impermeabilização do solo e no acúmulo de lixo nas áreas de grande circulação das cidades   

GABARITOS:

1 – B

O texto de apoio discute o impacto da urbanização sobre o ciclo hidrológico, especialmente em razão da impermeabilização do solo, que reduz a capacidade de infiltração da água e aumenta o escoamento superficial. Esse processo contribui diretamente para o agravamento das enchentes em áreas urbanas. Nesse sentido, a alternativa que mais se alinha a uma estratégia de enfrentamento desse problema é a letra B, que propõe a criação de espaços verdes. Esses espaços, como parques, jardins e áreas arborizadas, permitem maior infiltração da água no solo, contribuindo para o reequilíbrio do ciclo hidrológico urbano. Além disso, funcionam como áreas de amortecimento das águas pluviais, reduzindo a pressão sobre o sistema de drenagem e mitigando os riscos de enchentes. A alternativa A, que sugere a pavimentação das vias, está incorreta, pois esse é justamente um dos fatores que contribuem para a impermeabilização do solo e o aumento do escoamento superficial. A alternativa C, ao propor a verticalização das moradias, poderia até ser benéfica para reduzir o adensamento horizontal e preservar áreas permeáveis, mas esse não é um fator diretamente ligado à infiltração ou à mitigação das enchentes de forma eficaz, conforme discutido no texto. A alternativa D, que trata do adensamento das construções, agrava ainda mais o problema, pois geralmente está associado à supressão de áreas naturais e ao aumento da impermeabilização urbana. Já a alternativa E, que menciona o assoreamento dos canais de drenagem, descreve um problema que, ao contrário de contribuir para a diminuição das enchentes, na verdade as intensifica, pois reduz a capacidade de escoamento dos cursos d’água urbanos. Portanto, considerando a lógica exposta pelo autor do texto e os princípios da geomorfologia aplicada ao planejamento urbano, a criação de espaços verdes é a alternativa mais coerente com uma abordagem sustentável de combate às enchentes urbanas.

2 – D

O texto menciona que as favelas estão presentes em grande parte dos municípios brasileiros e que nelas vivem mais de 10 milhões de pessoas, segundo o IBGE. Essas moradias, muitas vezes construídas em áreas de difícil acesso e sem infraestrutura adequada, revelam um padrão histórico de ocupação irregular do solo urbano no Brasil, geralmente associado à ausência de planejamento estatal, especulação imobiliária e profundas desigualdades socioeconômicas. Nesse contexto, a alternativa D é a correta, pois reconhece que essas habitações frequentemente se encontram em áreas de risco — como encostas, margens de rios e terrenos alagadiços — que são suscetíveis a enchentes, deslizamentos e outros desastres naturais, com consequências materiais e humanas severas. Essa é uma das expressões mais nítidas da precarização do espaço urbano e da vulnerabilidade social. A alternativa A está incorreta, pois justamente a ausência de planejamento urbano é uma das marcas da formação das favelas, que crescem de maneira espontânea, sem a devida implantação de infraestrutura básica como saneamento, coleta de lixo ou acesso seguro à água e energia. A alternativa B também está errada: embora existam associações de moradores atuantes em muitas favelas, sua existência não é uma característica comum nem tampouco essas organizações são financiadas amplamente pelo poder público. A alternativa C erra ao afirmar que há ações de educação ambiental com preservação das áreas naturais, o que não é, em geral, uma realidade nesses espaços marcados por carências estruturais. Já a alternativa E contém uma meia verdade: o isolamento socioeconômico de fato ocorre, mas a multiplicação de políticas públicas voltadas para reversão desse quadro não é um traço generalizado, havendo ainda muitas lacunas e limitações nas ações governamentais.

3 – D

O texto menciona um desastre ambiental de grandes proporções no Rio de Janeiro, com destaque para o número elevado de mortes e para a intensidade das chuvas. Entretanto, ele sugere que, além do fator climático, existem elementos ligados ao espaço urbano que potencializam esses desastres. A alternativa correta é a D, pois a impermeabilização dos solos das grandes cidades é um fator decisivo para o agravamento das enchentes. Esse processo ocorre quando a urbanização substitui áreas naturais permeáveis por asfaltos, calçadas e construções, reduzindo a infiltração da água no solo e aumentando o escoamento superficial. Como consequência, rios e canais recebem volumes muito maiores de água em pouco tempo, o que provoca inundações e deslizamentos em áreas vulneráveis. A alternativa A está incorreta porque a coleta seletiva de resíduos urbanos, embora importante para o manejo de lixo, não é um fator que agrave diretamente as enchentes — na verdade, se bem implementada, pode até reduzir entupimentos de bueiros e galerias. A alternativa B também não corresponde ao contexto, pois a reconstituição de áreas de várzea degradadas é uma medida mitigadora, que tende a reduzir as enchentes e não a causá-las. A alternativa C erra ao colocar a dragagem de rios e canais como fator de agravamento; na verdade, a dragagem é uma prática que, quando bem feita, ajuda a evitar o assoreamento e melhorar a vazão dos cursos d’água. Já a alternativa E sugere que o ordenamento urbano com construção de condomínios populares seja um fator agravante, mas, embora ocupações mal planejadas contribuam para problemas socioambientais, a simples criação de moradias planejadas não é, por si, um fator que potencializa enchentes — pelo contrário, o ordenamento urbano é uma estratégia de controle.

4 – C

A alternativa correta é a C, pois a implantação de parques públicos representa uma medida concreta e eficaz para lidar com os impactos das mudanças climáticas nas áreas urbanas, especialmente em relação à redução das inundações, ilhas de calor e à ampliação da infiltração da água no solo. O texto base defende que “soluções baseadas na natureza” são fundamentais para adaptação climática nas cidades, e os parques urbanos, ao manterem áreas permeáveis, vegetação nativa e espaços sombreados, contribuem diretamente para mitigar desastres climáticos, oferecendo ainda benefícios ecológicos, sociais e econômicos. Esses espaços ampliam a resiliência urbana ao integrar natureza e infraestrutura, conceito presente no planejamento sustentável contemporâneo. A alternativa A está incorreta porque a criação de faixas sinalizadoras não interfere nos processos ambientais mencionados no texto — como alagamentos e ondas de calor —, sendo apenas uma ação de orientação no trânsito. A alternativa B também é inadequada, pois a incineração de resíduos sólidos, embora trate de destinação de lixo, não contribui para a adaptação às mudanças climáticas e ainda pode gerar poluentes atmosféricos, agravando o problema. A alternativa D, que propõe a verticalização dos espaços centrais, pode inclusive intensificar os problemas climáticos, como a formação de ilhas de calor, devido à alta concentração de concreto e a diminuição de áreas verdes. Por fim, a alternativa E, construção de estacionamentos privados, vai na contramão das propostas sustentáveis: amplia a impermeabilização do solo e reduz os espaços verdes, favorecendo o escoamento superficial e contribuindo para os alagamentos.

5 – E

A alternativa correta é a letra E, pois a charge mencionada ironiza um problema urbano recorrente — as enchentes — que são intensificadas pela impermeabilização do solo e pelo acúmulo de lixo nas áreas urbanas. Em contextos urbanos densamente ocupados, o solo é majoritariamente coberto por asfalto, concreto e outras superfícies impermeáveis, o que impede a infiltração da água da chuva no subsolo. Como consequência, há aumento do escoamento superficial, o que sobrecarrega os sistemas de drenagem e contribui para alagamentos. Esse cenário é agravado pela má gestão de resíduos sólidos: o lixo descartado inadequadamente obstrui bueiros e canais de drenagem, intensificando ainda mais o problema das enchentes, como representado simbolicamente na imagem da menina boiando em cima de um carro. A alternativa A está incorreta porque, embora a chuva frontal ocorra no litoral e esteja associada à convergência de massas de ar, ela não é um fenômeno exclusivo de áreas urbanas nem explica diretamente a vulnerabilidade à enchente em cidades. A alternativa B também é equivocada, pois apesar de a intensificação do efeito estufa estar relacionada a eventos climáticos extremos, como ondas de calor e maior evaporação, esse fator não é o principal responsável pelo problema das enchentes retratado na charge — que está mais relacionado ao manejo urbano e à infraestrutura deficiente. Já a alternativa C erra ao focar exclusivamente na construção de canais concretados e submersos: embora essa prática possa contribuir para o problema, ela não explica de forma suficiente o agravamento das enchentes urbanas nem aborda a questão do lixo. A alternativa D, por fim, menciona corretamente as ilhas de calor e o aumento da temperatura nos centros urbanos, que podem alterar padrões de precipitação, mas esses fenômenos, isoladamente, não são a principal causa das enchentes urbanas — sendo mais relevantes para a análise de conforto térmico e microclima urbano.