A queda da natalidade na China passou a ocupar o centro da agenda do governo diante do envelhecimento acelerado da população, da redução contínua de nascimentos e do risco de encolhimento da força de trabalho nas próximas décadas. Em 2025, o país registrou o quarto ano consecutivo de queda populacional: a população total recuou 3,39 milhões, para 1,405 bilhão, enquanto os nascimentos caíram 17%, para 7,92 milhões, o menor nível já registrado desde a fundação da República Popular.
Nesse contexto, Pequim passou a combinar subsídios diretos por criança, ampliação da cobertura médica para gravidez e parto e medidas voltadas a reduzir os custos de criação dos filhos. O objetivo é enfrentar a crise demográfica antes que ela produza efeitos mais profundos sobre a economia, o mercado de trabalho e o sistema de proteção social.
Queda da natalidade na China leva governo a ampliar subsídios
Uma das principais medidas anunciadas pelo governo chinês foi a criação de um subsídio nacional para famílias com crianças pequenas. O programa prevê o pagamento anual de 3.600 yuans, cerca de US$ 500, para cada criança com menos de três anos. Segundo a CNN Brasil, o valor não entra no cálculo do imposto de renda nem compromete o acesso a outros benefícios sociais.
Além disso, a iniciativa marca a primeira política nacional desse tipo no país e foi apresentada como parte da tentativa de reformular a estratégia demográfica chinesa. A lógica do governo é reduzir parte do custo imediato da maternidade e da paternidade, num contexto em que cada vez mais casais adiam ou abandonam o projeto de ter filhos.
Parto gratuito e ampliação da cobertura médica entram no plano
Além do subsídio por criança, o governo chinês anunciou a ampliação da cobertura pública para o parto. De acordo com o Poder360, Pequim quer eliminar os gastos diretos das famílias com gravidez e nascimento até 2026, incluindo o reembolso integral de despesas médicas e, em alguns casos, procedimentos de fertilização assistida.
Ao mesmo tempo, o plano também prevê ampliar a cobertura de analgesia no parto e integrar melhor os serviços de maternidade ao sistema nacional de seguro de saúde. A medida se soma a uma diretriz mais ampla do governo, que busca reduzir os custos de ter, criar e educar filhos.
Queda da natalidade na China acende alerta econômico
Os números ajudam a explicar por que a questão demográfica passou ao centro da agenda estatal. Em 2025, a taxa de natalidade da China caiu para 5,63 por mil habitantes. Por outro lado, a parcela da população com mais de 60 anos chegou a cerca de 23% do total. A projeção é que esse grupo alcance 400 milhões de pessoas até 2035.
Como resultado, esse movimento amplia a pressão sobre aposentadorias, serviços de saúde e disponibilidade de trabalhadores. Por isso, o governo também elevou a idade de aposentadoria: homens passaram a se aposentar aos 63 anos, e mulheres, aos 58, em vez de 60 e 55, respectivamente.
A preocupação oficial não está apenas no tamanho absoluto da população, mas no impacto econômico do encolhimento demográfico. Dessa forma, a redução da população economicamente ativa na China tende a afetar o consumo, o mercado de trabalho e a arrecadação necessária para sustentar uma população idosa crescente.

Especialistas apontam limites dos incentivos financeiros
No entanto, especialistas ouvidos pelas reportagens avaliam que incentivos financeiros isolados não devem reverter rapidamente a tendência. “As iniciativas podem ter algum efeito, mas seu impacto provavelmente será limitado. A baixa fertilidade é um desafio generalizado em toda a Ásia Oriental. ”, afirmou Xiujian Peng, pesquisador sênior do Centre of Policy Studies da Victoria University, na Austrália, em entrevista à Reuters.
“Essa experiência sugere que não existe uma solução rápida ou simples“, explicou o pesquisador. A avaliação indica que a queda da natalidade na China não pode ser revertida apenas com pagamentos diretos às famílias.
Além disso, outra leitura recorrente é a de que o problema não decorre apenas da antiga política do filho único, mas também de transformações sociais e econômicas mais profundas. “Grande parte do declínio populacional da China tem raízes em razões estruturais arraigadas: sem transformações estruturais fundamentais – desde o fortalecimento da rede de proteção social até a eliminação da discriminação de gênero – a tendência de declínio populacional não poderá ser revertida.”, afirmou Yun Zhou, professora assistente de Sociologia da Universidade de Michigan.
A análise chama atenção para fatores como insegurança no emprego, custo elevado de educação e cuidados infantis, além do peso desigual do trabalho doméstico sobre as mulheres.
Já na leitura de Yi Fuxian, demógrafo da Universidade de Wisconsin-Madison, a dimensão da queda atual ajuda a medir a gravidade da crise. Em sua opinião, “para muitos chineses, ter apenas um filho — ou nenhum — passou a ser o padrão social, o que limita o efeito de medidas estatais voltadas apenas ao incentivo financeiro“.
A BBC News Brasil também destaca que parte dos analistas vê um processo mais antigo e estrutural. “A taxa de fertilidade da China vinha caindo por razões naturais desde o início dos anos 1970”, afirmou Kerry Brown, diretor do Lau China Institute, do King’s College London.
Na mesma reportagem, Brown acrescentou: “Acho que o partido pode não ter realmente entendido as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias para criar seus filhos”. Para ele, o Estado pode estimular, mas tem alcance limitado sobre decisões privadas de casamento e maternidade.
Custos urbanos e mudanças sociais dificultam reversão da tendência
Esse ponto ajuda a explicar por que o governo chinês vem ampliando o escopo das políticas. Além dos subsídios e da cobertura do parto, as autoridades passaram a defender visões positivas sobre casamento e maternidade, flexibilizaram regras para registro de casamento e vêm testando serviços de creche subsidiada.
Mesmo assim, o alto custo de moradia, educação e cuidado infantil nas cidades continua pesando sobre as escolhas reprodutivas. O processo de urbanização aprofundou esse cenário, tornando mais caro o projeto de formar famílias maiores.
China tenta reverter mudança histórica na política demográfica
O caso chinês revela uma mudança histórica de orientação estatal. Durante décadas, o país buscou conter o crescimento populacional. Agora, tenta frear o movimento oposto. A diferença, segundo especialistas, é que reduzir nascimentos por meio de coerção estatal foi mais simples do que reconstruir, em poucos anos, condições sociais e econômicas que tornem a maternidade e a paternidade mais viáveis para os jovens.
Portanto, o desafio para Pequim não é apenas elevar a taxa de natalidade, mas reorganizar políticas de trabalho, proteção social, saúde e educação para uma sociedade que envelhece antes de enriquecer plenamente. As medidas anunciadas pelo governo chinês mostram que a crise demográfica deixou de ser tratada como um problema secundário e passou a ocupar posição estratégica no planejamento econômico do país. Ainda assim, as análises de especialistas indicam que o êxito dessas políticas dependerá menos de incentivos pontuais e mais da capacidade do Estado de enfrentar fatores estruturais que desestimulam a formação de famílias.