Confira o gabarito do 1º Simulado do Projeto ENEM 2026


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1 – [A]:

Os sofistas eram professores itinerantes que ensinavam, entre outros saberes, técnicas de argumentação e retórica importantes para a participação na vida política da pólis. Em autores como Protágoras, encontra-se uma perspectiva relativista sintetizada na afirmação de que “o homem é a medida de todas as coisas”, segundo a qual o conhecimento está relacionado às diferentes perspectivas e experiências humanas. Sócrates, por sua vez, procurava investigar racionalmente conceitos como justiça, virtude, coragem e bem, buscando ultrapassar as opiniões particulares e alcançar definições que pudessem apresentar validade universal. Seu método baseava-se fundamentalmente no diálogo. Em um primeiro momento, por meio da ironia socrática, Sócrates questionava as certezas de seu interlocutor e revelava contradições presentes em suas opiniões. A famosa postura de reconhecer a própria ignorância constituía justamente o ponto de partida para essa investigação crítica. Depois desse processo de desconstrução das falsas certezas, a maiêutica conduzia o interlocutor à elaboração racional de conceitos mais consistentes. O termo significa, metaforicamente, a arte de “dar à luz” ideias, pois Sócrates entendia que o conhecimento não deveria simplesmente ser transmitido como uma verdade pronta, mas construído pela reflexão. Nesse sentido, o objetivo do diálogo socrático não era simplesmente derrotar o adversário em uma disputa argumentativa, mas investigar racionalmente aquilo que poderia ser considerado verdadeiro. Essa perspectiva também estabelece uma distinção entre doxa, entendida como opinião ou conhecimento não suficientemente fundamentado, e episteme, associada ao conhecimento racionalmente justificado. Portanto, a diferença fundamental indicada pela questão está no compromisso socrático com a investigação racional de princípios universais, em contraste com a valorização sofística da argumentação e, em determinadas interpretações, da relatividade das perspectivas humanas.


2 – [B]:

A valorização da autonomia decisória é um dos principais argumentos mobilizados por correntes nacionalistas e populistas críticas à globalização econômica. Esses grupos partem da percepção de que a intensificação dos fluxos internacionais de mercadorias, capitais, pessoas e investimentos reduz a capacidade dos governos de controlar integralmente suas próprias políticas econômicas, comerciais e migratórias. Nesse sentido, acordos multilaterais, instituições supranacionais e cadeias produtivas internacionalizadas podem ser apresentados como mecanismos que limitam a soberania estatal, pois obrigam os países a seguir regras negociadas coletivamente ou condicionadas pelos mercados internacionais. A valorização da autonomia nacional aparece, portanto, como uma reação a esse processo. Em termos econômicos, essa postura pode se traduzir em medidas protecionistas, revisão de acordos comerciais, imposição de tarifas de importação ou políticas de estímulo à produção interna. No campo migratório, pode envolver maior controle de fronteiras e restrições à entrada de estrangeiros. Politicamente, esses movimentos costumam defender que decisões estratégicas sejam tomadas prioritariamente pelos governos nacionais, e não por organismos internacionais ou blocos econômicos. Essa lógica se relaciona ao conceito de soberania, entendido como a capacidade do Estado de exercer autoridade sobre seu território e formular suas próprias políticas. Assim, a crítica à integração econômica internacional não significa simplesmente oposição ao comércio exterior, mas uma tentativa de recuperar ou ampliar o controle estatal sobre decisões consideradas fundamentais. A defesa da autonomia decisória torna-se, desse modo, um elemento importante dos discursos nacionalistas contemporâneos, sobretudo quando associada à percepção de que a globalização produziu perdas econômicas, redução de empregos em determinados setores e diminuição da margem de atuação dos governos nacionais.


3 – [D]:

A produção de Aleijadinho insere-se no Barroco mineiro, marcado pela valorização da expressividade, do movimento e da intensidade emocional. Conforme o texto, as esculturas dos profetas apresentam corpos contorcidos, feições marcantes e vestes com aspecto teatral, características que afastam a representação de uma postura estática e racionalizada. Esses recursos formais contribuíam para aproximar a experiência religiosa dos fiéis, produzindo impacto visual e estimulando a devoção por meio da emoção. A integração das esculturas com as igrejas e os espaços urbanos reforçava ainda mais essa dimensão, transformando a manifestação da fé em uma experiência coletiva e sensorial. A alternativa A está incorreta porque associa as obras ao equilíbrio racional e à sobriedade iluminista, valores distintos da expressividade barroca. A alternativa B está incorreta porque não há relação entre a produção mineira e a democratização de técnicas acadêmicas francesas de fundição em bronze, além de o texto destacar materiais locais, como pedra-sabão e cedro. A alternativa C está incorreta porque as esculturas permanecem profundamente vinculadas à religiosidade católica, não representando uma ruptura com a temática eclesiástica. A alternativa E está incorreta porque o dinamismo e a dramaticidade barrocos se afastam dos padrões de estabilidade e equilíbrio associados à estatuária clássica. Assim, a função social dessas escolhas estéticas estava diretamente relacionada à intensificação da experiência religiosa e à mobilização emocional dos espectadores.


4 – [B]:

A chamada “uberização” do trabalho caracteriza-se pela transferência de responsabilidades e riscos que tradicionalmente pertenciam às empresas para os próprios trabalhadores. O texto destaca que esses profissionais assumem individualmente os custos de manutenção dos instrumentos necessários à atividade e os riscos econômicos decorrentes de sua realização. Ao mesmo tempo, as plataformas apresentam a flexibilidade e a autonomia como características positivas, embora mantenham mecanismos de controle por meio de algoritmos. Dessa forma, a empresa reduz seus encargos enquanto o trabalhador permanece responsável por despesas e riscos que antes estavam associados à relação empregatícia. Esse processo está relacionado à precarização das relações laborais e à perda de direitos historicamente vinculados ao trabalho assalariado. A alternativa A está incorreta porque o fenômeno descrito não representa fortalecimento dos sindicatos; ao contrário, a fragmentação dos trabalhadores pode dificultar sua organização coletiva. A alternativa C está incorreta porque a uberização não garante estabilidade nem pressupõe contratos de exclusividade com as plataformas. A alternativa D está incorreta porque a tecnologia não necessariamente reduz as jornadas; a ausência de limites rígidos pode estimular jornadas extensas para ampliar os rendimentos. A alternativa E está incorreta porque o texto enfatiza justamente a insuficiência da proteção estatal e a transferência dos riscos econômicos para o trabalhador. Assim, a dinâmica apresentada evidencia uma transformação do mercado de trabalho em que a inovação tecnológica convive com formas renovadas de exploração. A questão mobiliza, portanto, uma reflexão sobre direitos trabalhistas, desigualdade social e os impactos das transformações tecnológicas sobre as relações de trabalho.


5 – [A]:

A experiência democrática ateniense esteve associada a uma sociedade profundamente desigual, na qual a participação política era restrita a uma parcela específica da população. Como destaca o texto, a liberdade política dos cidadãos dependia da existência de indivíduos excluídos dos direitos políticos, especialmente os escravizados, responsáveis por parte significativa das atividades produtivas. Essa organização permitia que os cidadãos dispusessem de tempo para participar das assembleias, dos debates e das decisões relativas à pólis. Portanto, a democracia ateniense não significou igualdade política universal, mas uma ampliação da participação dentro de um grupo social delimitado. A alternativa A está correta justamente por relacionar a participação dos cidadãos à manutenção de uma estrutura econômica sustentada pelo trabalho compulsório. A alternativa B está incorreta porque a democracia não eliminou de imediato as desigualdades sociais nem significou uma ruptura completa com os privilégios das antigas elites. A alternativa C está incorreta porque estrangeiros, como os metecos, não receberam os direitos políticos próprios dos cidadãos atenienses. A alternativa D está incorreta porque a democracia ateniense valorizava a participação dos cidadãos nas assembleias, e não a concentração permanente do poder em magistrados vitalícios. A alternativa E está incorreta porque as mulheres permaneceram excluídas da participação política e submetidas a importantes limitações sociais e jurídicas. A questão evidencia, assim, uma contradição fundamental da democracia antiga: a ampliação da participação política coexistia com mecanismos de exclusão social. Essa característica é essencial para compreender que os conceitos de cidadania e democracia possuem diferentes significados históricos. No caso ateniense, a cidadania era um privilégio restrito, sustentado por uma sociedade marcada pela escravidão e por profundas desigualdades.


6 – [A]:

O aquecimento mais intenso das altas latitudes do Hemisfério Norte vem diminuindo, em determinados períodos do ano, a extensão do gelo marinho, o que amplia a navegabilidade de áreas antes praticamente inacessíveis. Esse processo aumenta o interesse de grandes potências porque pode encurtar significativamente algumas rotas entre o Atlântico e o Pacífico, reduzindo tempo e custos de transporte. Ao mesmo tempo, a maior circulação marítima transforma o Ártico em um espaço estratégico para o controle de fluxos comerciais, militares e energéticos. A Groenlândia ocupa posição especialmente relevante nesse contexto por estar situada entre a América do Norte, o Atlântico Norte e o oceano Ártico. Sua localização permite monitorar corredores marítimos e a movimentação de forças militares em uma região considerada sensível para a segurança dos Estados Unidos e de seus aliados. Além disso, o Ártico possui reservas importantes de recursos minerais e energéticos, o que amplia ainda mais a competição territorial. Dessa forma, as mudanças climáticas não reduzem a importância geopolítica da região; ao contrário, tornam acessíveis espaços e rotas anteriormente bloqueados pelo gelo. Esse fenômeno intensifica a presença de países como Estados Unidos, Rússia e China nas disputas por infraestrutura, navegação, recursos naturais e projeção militar. A questão, portanto, relaciona corretamente as transformações ambientais do Ártico à reorganização dos fluxos marítimos e ao aumento do interesse estratégico sobre a Groenlândia. O controle ou a capacidade de influência sobre esses circuitos pode representar vantagens econômicas, logísticas e militares em uma região que se torna cada vez mais relevante para a geopolítica mundial.


7 – [D]:

A alternativa D destaca uma das consequências territoriais da União Ibérica, período compreendido entre 1580 e 1640, quando Portugal e Espanha permaneceram sob a mesma monarquia. Embora os dois reinos mantivessem administrações próprias, a existência de um soberano comum reduziu, na prática, a importância da linha estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494. Esse contexto facilitou a expansão dos colonos portugueses para áreas que, teoricamente, pertenciam à Coroa espanhola. A ocupação avançou sobretudo em direção ao interior do continente, impulsionada por diferentes atividades econômicas e estratégias de exploração territorial. As bandeiras paulistas, por exemplo, penetraram profundamente pelo sertão em busca de indígenas para escravização, metais preciosos e outras riquezas. Ao mesmo tempo, a expansão da pecuária contribuiu para a ocupação de áreas interiores, especialmente no Nordeste, onde o gado se afastou das zonas litorâneas dominadas pela produção açucareira. Na região amazônica, também ocorreram movimentos de penetração e controle territorial ligados à coleta das chamadas drogas do sertão. Essas frentes de ocupação ultrapassaram progressivamente os limites definidos por Tordesilhas e criaram uma situação de ocupação efetiva de vastas áreas por populações ligadas à colonização portuguesa. Posteriormente, essa presença territorial seria utilizada como argumento diplomático nas negociações entre Portugal e Espanha, sobretudo no século XVIII. O princípio do uti possidetis, segundo o qual a posse efetiva da terra deveria ser considerada na definição das fronteiras, ganhou importância nesse contexto e contribuiu para o reconhecimento de parte dessas expansões no Tratado de Madri, de 1750. Dessa maneira, a União Ibérica teve consequências duradouras para a formação territorial brasileira, pois favoreceu a interiorização da colonização e a ocupação de espaços muito além do limite originalmente reservado a Portugal. O período, portanto, foi decisivo para a ampliação das bases territoriais que mais tarde contribuiriam para a configuração do atual território brasileiro.


8 – [C]:

Para Santo Agostinho, a razão possui papel importante na busca pelo conhecimento, mas não é suficiente, por si só, para alcançar as verdades universais, eternas e imutáveis. Conforme apresentado no texto, o intelecto humano encontra-se limitado pelo Pecado Original e necessita da ação divina para alcançar o conhecimento verdadeiro. É nesse sentido que se desenvolve a Teoria da Iluminação Divina, segundo a qual Deus atua como princípio que torna possível à inteligência humana reconhecer as verdades que não são produzidas pelos sentidos. A fé, portanto, não elimina a razão, mas fornece a ela a condição necessária para alcançar aquilo que ultrapassa suas limitações naturais. A fórmula crede ut intelligas; intellige ut credas expressa justamente essa relação de complementaridade entre acreditar e compreender. A alternativa C está correta porque identifica a revelação e a ação divina como fundamento da iluminação necessária ao conhecimento das verdades universais. A alternativa A está incorreta porque a dúvida metódica pertence à filosofia moderna, especialmente ao pensamento de René Descartes, e não caracteriza a epistemologia agostiniana. A alternativa B está incorreta porque Agostinho rejeita a ideia de autonomia plena da razão humana, considerada limitada e dependente da iluminação divina. A alternativa D está incorreta porque a filosofia agostiniana não recorre à cosmologia mitológica grega para explicar a criação, mas articula elementos do platonismo com a doutrina cristã. A alternativa E está incorreta porque Agostinho não propõe a anulação da racionalidade; ao contrário, considera a razão um instrumento legítimo na busca pela verdade. Assim, fé e razão não aparecem como dimensões necessariamente opostas, mas como elementos articulados na trajetória do conhecimento. A perspectiva agostiniana representa uma característica central da filosofia patrística, marcada pelo esforço de conciliar a tradição filosófica clássica com os fundamentos da fé cristã.


9 – [E]:

A questão aborda um dos pontos centrais da sociologia da educação de Pierre Bourdieu. Para o sociólogo, escola não avalia os estudantes a partir de condições culturais verdadeiramente neutras, mas tende a reconhecer como legítimos determinados conhecimentos, formas de linguagem, comportamentos e referências culturais mais presentes nas classes socialmente privilegiadas. Bourdieu denomina capital cultural o conjunto de conhecimentos, disposições, competências linguísticas, hábitos e referências culturais que os indivíduos acumulam principalmente por meio da socialização familiar. Crianças pertencentes a grupos com maior capital cultural chegam à escola dominando formas de expressão e códigos mais próximos daqueles valorizados pelo sistema educacional. Dessa maneira, conseguem interpretar com maior facilidade determinadas expectativas escolares, desenvolver formas de argumentação consideradas adequadas e lidar com conteúdos culturais que já lhes são relativamente familiares. Outros estudantes podem possuir conhecimentos e competências igualmente complexos, mas que não recebem o mesmo reconhecimento institucional. O problema surge quando a escola apresenta o repertório cultural dominante como se fosse uma medida universal e neutra de inteligência ou competência. As desigualdades existentes antes do ingresso no sistema educacional podem, assim, transformar-se em diferenças de desempenho escolar aparentemente individuais. Para Bourdieu, esse mecanismo contribui para a reprodução social, pois vantagens culturais herdadas das famílias tendem a ser convertidas em melhores resultados acadêmicos, diplomas e, posteriormente, posições sociais mais valorizadas. A escola participa ainda de um processo de violência simbólica, no qual uma cultura particular é apresentada como legítima e universal, enquanto outras formas culturais são desvalorizadas. Desse modo, privilégios de origem podem aparecer socialmente como consequência exclusiva de talento, esforço ou mérito pessoal. A crítica de Bourdieu não significa que todos os estudantes estejam destinados a reproduzir automaticamente sua posição social, mas demonstra que as oportunidades escolares estão profundamente relacionadas às condições sociais de origem. Portanto, ao transformar um repertório cultural específico em parâmetro geral de competência, o sistema educacional pode contribuir para legitimar e reproduzir desigualdades previamente existentes na sociedade.


10 – [E]:

O item exige que o estudante identifique as premissas do empirismo moderno em oposição ao racionalismo. No texto-base, Locke utiliza a famosa metáfora da mente como uma “folha em branco” (tabula rasa), argumentando que o ser humano nasce sem nenhuma ideia ou conhecimento prévio. Todo o material do pensamento, da razão e do conhecimento provém obrigatoriamente da experiência (apreensão sensível), seja por meio dos sentidos externos (sensação) ou da percepção das operações da própria mente (reflexão), gerando assim as representações mentais.


11 – [C]:

Tecnologias como sensores, sistemas de geolocalização, drones, máquinas conectadas, inteligência artificial e Internet das Coisas permitem coletar grande quantidade de informações sobre as condições da lavoura praticamente em tempo real. Esses dados podem indicar diferenças de umidade, fertilidade do solo, presença de pragas, necessidade de irrigação e condições de desenvolvimento das plantas em diferentes parcelas de uma mesma propriedade. A partir dessas informações, o produtor pode aplicar fertilizantes, defensivos agrícolas, água e sementes de forma localizada, evitando a utilização uniforme desses recursos em áreas que apresentam necessidades diferentes. Esse princípio está diretamente relacionado à agricultura de precisão, na qual as decisões de manejo são orientadas por dados específicos sobre cada parcela do espaço produtivo. Dessa maneira, um fertilizante, por exemplo, pode ser aplicado em maior quantidade onde existe deficiência de determinado nutriente e em menor quantidade onde sua presença já é suficiente. O mesmo princípio pode ser utilizado na irrigação, reduzindo o consumo desnecessário de água. A automação também permite ajustar máquinas e equipamentos com maior precisão, diminuindo perdas durante o plantio, a aplicação de insumos e a colheita. Como consequência, ocorre uma redução dos custos de produção e um aumento da eficiência no aproveitamento dos recursos disponíveis. Além dos benefícios econômicos, a redução do desperdício pode diminuir impactos ambientais, pois limita aplicações excessivas de fertilizantes e defensivos capazes de contaminar solos e recursos hídricos. A Agro 4.0, portanto, não elimina a necessidade do conhecimento agronômico; pelo contrário, amplia a quantidade de informações disponíveis para orientar as decisões técnicas. Assim, a integração entre dados digitais, sensores e sistemas automatizados permite produzir de maneira mais precisa, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência do processo produtivo agrícola.


12 – [C]:

Nesta questão é necessário diferenciar os modelos de cidadania e analisar o caso brasileiro com base nos conceitos sociológicos de direitos. Conforme o texto de José Murilo de Carvalho explicita, o fato de os direitos sociais terem sido implantados antes ou de forma desvinculada dos direitos políticos e civis (durante governos autoritários como a Era Vargas) fez com que o Estado assumisse um papel de tutor da sociedade. Como os direitos foram concedidos “de cima para baixo”, a população tendeu a desenvolver uma postura de passividade e dependência em relação ao poder central (tutela estatal), esvaziando a percepção da cidadania como uma conquista autônoma e um exercício ativo de poder político.


13 – [E]:

A questão exige que os vestibulandos compreendam a lógica de funcionamento das relações políticas e militares no mundo feudal. Conforme o texto de Marc Bloch destaca, o contrato feudo-vassálico era baseado na reciprocidade de deveres e direitos (auxilium e consilium) entre suseranos e vassalos. Como os reis medievais dependiam dessa rede de fidelidade de seus nobres vassalos para obter exércitos e governar, o poder político tornava-se descentralizado. Isso criava uma rede de compromissos mútuos que limitava severamente a autoridade dos reis, impedindo a existência de um poder monárquico centralizado ou absolutista, que só se formaria séculos depois com o Estado Moderno.


14 – [D]:

O texto descreve uma cadeia de processos interligados que conecta vegetação, ciclo hidrológico e reservas subterrâneas de água. A floresta amazônica contribui para a formação de chuvas por meio da evapotranspiração, liberando grandes volumes de vapor d’água para a atmosfera. Quando ocorre o desmatamento, há redução dessa transferência de umidade, o que tende a diminuir os índices pluviométricos em diferentes áreas da América do Sul. Com menos precipitação, reduz-se também a quantidade de água disponível para infiltrar no terreno e alimentar os reservatórios subterrâneos. Além disso, a retirada da cobertura vegetal frequentemente aumenta o escoamento superficial e reduz a capacidade de retenção hídrica do ambiente. Os aquíferos são formados, em sua maioria, em estruturas sedimentares compostas por materiais porosos e permeáveis, como arenitos, que permitem a infiltração e o armazenamento da água ao longo do tempo. Exemplos importantes no Brasil são o Aquífero Guarani e o Aquífero Alter do Chão. Como a recarga dessas reservas depende da infiltração das águas das chuvas, a diminuição das precipitações associada ao desmatamento compromete diretamente sua alimentação natural. Dessa forma, a consequência mais adequada é a redução da alimentação dos aquíferos sedimentares. A alternativa A está incorreta porque o processo descrito não amplia o armazenamento subterrâneo; ao contrário, tende a reduzi-lo. A alternativa B também está errada, pois a reposição das reservas profundas depende da infiltração da água precipitada, fenômeno prejudicado pela redução das chuvas e pelas alterações na superfície terrestre. A alternativa C é incorreta porque não há aceleração da renovação das águas subterrâneas, mas diminuição de sua recarga. Já a alternativa E está equivocada porque a retirada da vegetação reduz a regularidade do ciclo hidrológico, aumentando a instabilidade climática e comprometendo a manutenção dos regimes pluviométricos regionais. Portanto, a questão exige compreender que o desmatamento não afeta apenas a paisagem superficial, mas também processos hidrológicos profundos ligados à manutenção dos aquíferos.


15 – [A]:

A alternativa correta evidencia que, na perspectiva de Lélia Gonzalez, o racismo brasileiro não se manifesta apenas nas relações interpessoais ou nas diferenças de renda, mas também se materializa na própria organização do espaço urbano. A cidade reproduz territorialmente hierarquias construídas ao longo da escravidão e mantidas após a abolição, concentrando grupos racializados em áreas historicamente marcadas pela precariedade de infraestrutura, pela menor presença de serviços públicos e pela maior exposição à violência. Essa dinâmica pode ser compreendida como uma espacialização do racismo, pois determinadas desigualdades raciais passam a assumir uma expressão concreta no território. A segregação residencial, a periferização da população negra e as diferenças de acesso à moradia, transporte, educação, saúde e oportunidades profissionais demonstram que o espaço urbano não é socialmente neutro. Para Gonzalez, essas hierarquias também possuem uma dimensão de gênero, uma vez que mulheres negras foram historicamente direcionadas para atividades domésticas e ocupações subalternizadas. Assim, sua presença em áreas privilegiadas da cidade muitas vezes foi socialmente naturalizada quando vinculada ao trabalho de serviço, enquanto sua presença como moradora, consumidora ou profissional em posição de prestígio pode confrontar expectativas raciais historicamente construídas. Esse mecanismo revela a permanência de padrões sociais originados no período colonial, mesmo depois da extinção jurídica da escravidão. A desigualdade territorial contemporânea, portanto, não pode ser explicada apenas pelas diferenças individuais de renda, pois também resulta de processos históricos de discriminação, exclusão e restrição do acesso à propriedade e aos recursos urbanos. Nesse sentido, as periferias e favelas não são simplesmente produtos espontâneos do crescimento das cidades, mas também refletem uma estrutura social marcada por profundas desigualdades raciais. A análise de Lélia Gonzalez permite, dessa forma, relacionar raça, gênero, classe e território, demonstrando como esses elementos se combinam na produção das desigualdades urbanas brasileiras e na reprodução de assimetrias construídas historicamente.


16 – [A]:

A questão exige a compreensão do conceito de “fato social” na teoria durkheimiana. Para o autor, a Sociologia deveria possuir um objeto próprio de investigação, distinto dos fenômenos estudados pela Psicologia ou pela Biologia. Esse objeto são os fatos sociais, entendidos como maneiras de agir, pensar e sentir que existem independentemente da vontade individual e exercem sobre os sujeitos algum grau de coerção. Quando uma pessoa nasce, encontra uma sociedade já organizada, com normas, valores, costumes, instituições, regras jurídicas, crenças e expectativas de comportamento previamente estabelecidas. Por isso, esses padrões sociais apresentam uma condição de anterioridade em relação ao indivíduo: eles já existiam antes de sua entrada na vida social e continuam existindo para além de sua experiência particular. A educação desempenha papel fundamental nesse processo, pois é por meio dela que o indivíduo aprende a língua, as normas de convivência, os deveres familiares e as condutas consideradas adequadas em determinado grupo. Durkheim também destaca a coercitividade dos fatos sociais, isto é, a capacidade de pressionar os indivíduos para que ajam de acordo com padrões coletivamente estabelecidos. Essa coerção pode assumir formas explícitas, como punições previstas em leis, ou formas mais sutis, como reprovação social, constrangimento e exclusão. Além disso, os fatos sociais apresentam generalidade, porque são compartilhados por uma parcela significativa dos membros de uma sociedade. Assim, quando Durkheim afirma que os deveres de cidadão, esposo ou irmão não foram criados pelo próprio indivíduo, ele demonstra que essas obrigações resultam de estruturas coletivas que antecedem as escolhas pessoais. O fato social, portanto, não depende do consentimento livre de cada sujeito para existir. Sua força deriva justamente de sua existência objetiva e coletiva. Dessa forma, a anterioridade das normas sociais em relação às vontades individuais constitui um dos fundamentos para compreender por que determinados comportamentos podem ser analisados sociologicamente como fatos sociais.


17 – [B]:

Os cuidados exigidos no comando estão associados ao processo de salinização. Nas regiões de clima semiárido, o balanço hídrico é fortemente negativo, o que significa que as taxas de evapotranspiração (a soma da evaporação do solo com a transpiração das plantas) superam largamente os índices de pluviosidade. Quando técnicas de irrigação artificial são aplicadas de forma intensiva e sem o suporte de um sistema eficiente de drenagem para remover o excedente hídrico do subsolo, a água acumulada dissolve os sais minerais presentes no perfil da terra. Sob o efeito da elevada radiação e evaporação locais, essa solução aquosa ascende por capilaridade. A água pura retorna à atmosfera em forma de vapor, enquanto os sais solúveis (“determinados compostos dissolvidos”) precipitam e permanecem concentrados na camada superficial do solo.


18 – [B]:

Conforme o texto-base de Eric Hobsbawm assinala, a dominação colonial foi mascarada por um discurso pretensamente humanitário, científico e civilizatório (o “fardo do homem branco” e o darwinismo social). Ao afirmar que os europeus tinham o dever moral de civilizar os povos africanos e asiáticos, essa teoria cumpria a função de dissimular e ocultar a verdadeira essência do Neocolonialismo: a violenta exploração econômica de matérias-primas, a pilhagem de recursos naturais e a submissão geopolítica desses territórios.


19 – [D]:

O imperativo categórico é o princípio central da ética de Immanuel Kant e determina que uma ação moral deve ser praticada por dever, e não por interesse, medo, vantagem pessoal ou expectativa de recompensa. Para Kant, uma ação só pode ser considerada moralmente correta quando a regra que orienta essa ação puder ser transformada em uma lei válida para todas as pessoas. Assim, antes de agir, o indivíduo deve avaliar se aceitaria que qualquer pessoa, nas mesmas circunstâncias, agisse da mesma maneira. Se essa regra não puder ser universalizada sem gerar contradições, a ação não é moral. O imperativo é chamado de categórico porque estabelece uma obrigação incondicional, válida independentemente das consequências. Dessa forma, mentir, enganar ou manipular alguém não seria moralmente aceitável, pois essas práticas não poderiam funcionar como regras universais de convivência. Kant também afirma que todo ser humano deve ser tratado como um fim em si mesmo e nunca apenas como um meio para alcançar determinado objetivo. Isso significa reconhecer a dignidade, a liberdade e a autonomia de cada pessoa. Portanto, a moral kantiana está fundamentada na razão, no dever e na universalidade das ações, e não nos resultados que elas produzem.


20 – [C]:

A alternativa C é a correta porque os problemas apresentados resultam da combinação entre alterações ambientais provocadas pela urbanização e desigualdades socioespaciais históricas. A ampliação de superfícies permeáveis como parques verdes e telhados verdes reduzem o escoamento superficial e contribuem para diminuir enchentes e deslizamentos (movimentos de massa). Ao mesmo tempo, políticas habitacionais capazes de ampliar o acesso à moradia adequada reduzem a vulnerabilidade de populações que frequentemente ocupam áreas sujeitas a movimentos de massa e inundações por falta de alternativas urbanas. Dessa forma, a solução envolve tanto intervenções ambientais quanto ações de inclusão social. A alternativa A está incorreta porque amplia a impermeabilização do terreno, intensificando o escoamento superficial. A alternativa B aumenta a exposição a deslizamentos. A alternativa D amplia a vulnerabilidade a eventos de inundação. Já a alternativa E representa uma estratégia historicamente utilizada em diversas cidades brasileiras, mas que tende a acelerar a velocidade do fluxo hídrico e transferir o problema para outros pontos da bacia urbana, sem enfrentar suas causas estruturais.


21 – [A]:

A questão exige que o estudante analise criticamente a estrutura política da República Velha, relacionando o coronelismo e o “voto de cabresto” com a negação da cidadania. Conforme o texto de Victor Nunes Leal esclarece, a engrenagem oligárquica dependia inteiramente do controle exercido pelos coronéis sobre a população rural. A fragilidade material e jurídica dos trabalhadores rurais, combinada com o fato de o voto ser aberto (não secreto), tornava os eleitores dependentes e vulneráveis à coerção e ao clientelismo. Assim, a soberania popular era anulada, pois as escolhas nas urnas eram a expressão direta da vontade patronal do coronel local.


22 – [C]:

A alternativa correta é letra C, pois o conceito de alienação do trabalho, desenvolvido por Karl Marx, descreve justamente um processo no qual o trabalhador é progressivamente afastado do controle material e intelectual sobre aquilo que produz. No capitalismo industrial, o trabalhador não controla os meios de produção — como máquinas, instalações e matérias-primas — nem determina de maneira autônoma o que será produzido, como será produzido ou qual será a destinação do produto. Sua força de trabalho é vendida ao proprietário dos meios de produção em troca de um salário, enquanto o resultado do processo produtivo pertence ao capitalista. É nesse sentido que Marx afirma que o produto aparece diante do trabalhador como algo estranho, exterior e independente daquele que efetivamente o produziu. A fragmentação das tarefas aprofundou esse processo durante a industrialização. Com a crescente divisão técnica do trabalho, cada operário passou a executar apenas uma pequena etapa da produção, frequentemente repetitiva e previamente determinada. Dessa maneira, o trabalhador deixa de acompanhar e controlar a produção de uma mercadoria em sua totalidade. Um operário pode passar toda a jornada realizando uma única operação sem dominar tecnicamente o processo completo de fabricação do objeto. O trabalho deixa, portanto, de constituir uma atividade na qual o indivíduo reconhece plenamente sua capacidade criadora e passa a ser realizado principalmente como meio de obtenção do salário necessário à sobrevivência. É exatamente essa separação entre trabalhador, processo produtivo e produto do trabalho que está no centro da alienação descrita no texto.Para Marx, a alienação possui ainda uma dimensão diretamente relacionada à propriedade privada dos meios de produção. O trabalhador produz mercadorias, mas elas não lhe pertencem; produz riqueza, mas não controla sua apropriação; utiliza máquinas e instalações, mas não é proprietário delas. O produto de seu esforço pertence ao capitalista, que controla os meios de produção e se apropria do resultado econômico da atividade produtiva. Por isso, a alienação não deve ser entendida simplesmente como insatisfação psicológica com o emprego, mas como uma relação social decorrente da própria organização capitalista da produção.


23 – [A]:

O New Deal representou uma mudança significativa na forma de atuação do Estado norte-americano diante da crise econômica provocada pela Grande Depressão de 1929. Implementado a partir de 1933 pelo governo de Franklin Delano Roosevelt, o programa rompeu com a ideia de que a recuperação econômica poderia ocorrer exclusivamente pela livre atuação das forças de mercado. Diante da falência de empresas e bancos, do elevado desemprego, da queda do consumo e da retração dos investimentos privados, o governo passou a atuar diretamente na economia, utilizando os gastos públicos como instrumento para estimular a atividade econômica. Uma das principais características do New Deal foi justamente a realização de grandes investimentos estatais em obras públicas e programas de geração de empregos. A construção de estradas, pontes, barragens, escolas e outras infraestruturas permitia ao Estado contratar trabalhadores diretamente ou estimular atividades econômicas relacionadas a esses projetos. O raciocínio era que a geração de empregos aumentaria a renda das famílias e, consequentemente, o consumo. Com maior demanda por mercadorias e serviços, as empresas teriam estímulos para recuperar a produção e realizar novos investimentos. Dessa maneira, formava-se um mecanismo de recuperação baseado na relação entre gasto público, emprego, renda, consumo e produção. Além disso, o governo promoveu reformas bancárias e financeiras, políticas de assistência social, regulamentação das relações trabalhistas e medidas destinadas a recuperar setores agrícolas e industriais. Esse processo também representou uma ampliação do papel do Estado na economia capitalista. O New Deal não eliminou a propriedade privada nem substituiu o capitalismo por uma economia estatal, mas estabeleceu maior intervenção governamental para corrigir desequilíbrios do mercado e estimular a recuperação econômica. Posteriormente, essa concepção seria associada às formulações de John Maynard Keynes, segundo as quais, em períodos de forte recessão e insuficiência da demanda privada, o aumento dos gastos governamentais poderia contribuir para reativar a economia. Por isso, o Estado assumia a condição de indutor do dinamismo econômico, exatamente como indicado no comando da questão.


24 – [C]:

O conceito de sociedade de risco, desenvolvido pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, procura explicar uma transformação fundamental das sociedades contemporâneas: o próprio desenvolvimento científico, tecnológico e industrial passou a produzir ameaças capazes de ultrapassar fronteiras políticas e territoriais. Na sociedade industrial clássica, grande parte dos conflitos sociais estava relacionada à distribuição da riqueza produzida, sobretudo às desigualdades entre trabalhadores e proprietários. Na chamada modernidade avançada, essas desigualdades permanecem, mas são acompanhadas por um novo problema: a produção e distribuição social dos riscos gerados pelo próprio processo de modernização. É nesse sentido que Beck destaca o caráter transnacional das ameaças produzidas pelo avanço tecnológico. Mudanças climáticas, acidentes nucleares, contaminação química, pandemias e diferentes formas de degradação ambiental não permanecem necessariamente limitadas ao território onde foram produzidas. A circulação atmosférica pode transportar poluentes entre países, emissões de gases de efeito estufa contribuem para alterações climáticas planetárias e acidentes nucleares podem espalhar materiais radioativos para além das fronteiras nacionais. O desenvolvimento técnico-científico, portanto, apresenta uma contradição: ao mesmo tempo que amplia a capacidade humana de produzir riqueza e transformar a natureza, também cria riscos de magnitude e alcance anteriormente inexistentes. A ideia do “efeito bumerangue”, mencionada no texto, é particularmente importante para compreender Beck. Os grupos sociais mais ricos possuem maior capacidade de reduzir temporariamente sua exposição aos riscos — escolhendo melhores locais de moradia, adquirindo tecnologias de proteção ou pagando por serviços privados —, mas determinados riscos globais podem atingir também aqueles que inicialmente se beneficiaram das atividades que os produziram. Isso não significa que ricos e pobres sejam afetados da mesma maneira. As desigualdades socioeconômicas continuam determinando diferentes graus de vulnerabilidade, mas certos riscos apresentam uma capacidade de difusão que ultrapassa classes sociais, Estados e fronteiras.


25 – [D]:

A crítica de Friedrich Nietzsche à tradição socrático-platônica fundamenta-se na negação dos impulsos vitais em benefício de uma abstração metafísica. Para Nietzsche, uma transformação decisiva da filosofia ocidental ocorreu quando Sócrates e, sobretudo, Platão atribuíram superioridade à razão e ao mundo inteligível em relação à experiência sensível. Na filosofia platônica, aquilo que percebemos pelos sentidos pertence a um mundo marcado pela mudança e pela imperfeição, enquanto as Formas ou Ideias representariam uma realidade superior, estável e inteligível. Nietzsche interpreta essa hierarquização como uma desvalorização da existência concreta, porque coloca acima da vida um modelo de realidade considerado verdadeiro, permanente e ideal. Essa crítica está diretamente relacionada à valorização nietzschiana da vida, do corpo, dos instintos e do devir. Para Nietzsche, a existência não deve ser julgada a partir de valores transcendentes que procuram estabelecer como o ser humano deveria viver segundo uma verdade universal situada acima da própria vida. A realidade é transformação, conflito, criação e multiplicidade. Nesse sentido, a tradição metafísica teria cometido um erro ao transformar aquilo que é mutável em algo inferior e buscar a verdade em uma realidade supostamente imutável. A oposição platônica entre mundo sensível e mundo inteligível torna-se, portanto, um dos principais alvos da crítica nietzschiana. Nietzsche também estabelece uma relação entre o platonismo e o cristianismo, chegando a caracterizar o cristianismo como uma espécie de “platonismo para o povo”. Em sua interpretação, o cristianismo aprofundou a desvalorização da existência terrena ao transferir o sentido último da vida para uma realidade transcendente. A valorização da humildade, da resignação, da obediência e da renúncia aos desejos seria parte de uma moral que Nietzsche associa ao ressentimento. Em Genealogia da moral, ele procura investigar historicamente como valores considerados absolutos, como “bem” e “mal”, foram produzidos por determinadas relações de força. É nesse contexto que aparece sua distinção entre moral dos senhores e moral dos escravos: a primeira estaria ligada à afirmação da potência e da própria existência, enquanto a segunda transformaria características associadas à fraqueza e à submissão em virtudes morais.


26 – [A]:

A alternativa A é a correta porque a OMC foi criada em um contexto de fortalecimento da liberalização econômica e de redução de barreiras ao comércio internacional. Sua função histórica consiste em promover previsibilidade nas relações econômicas e incentivar a diminuição de obstáculos às trocas entre os países. As medidas adotadas pelos Estados Unidos em 2025 e 2026 caminham em sentido oposto ao ampliar tarifas sobre produtos estrangeiros, prática tradicionalmente associada ao protecionismo. A contradição reside justamente no fato de uma das principais potências econômicas do sistema internacional adotar instrumentos que restringem a lógica de abertura comercial que ajudou a consolidar nas décadas anteriores. As alternativas B, C, D e E podem ser consequências ou justificativas das tarifas. Todas as alternativas, de certa forma, estão dentro do escopo do governo Trump. No entanto, apenas a A expressa diretamente a contradição entre os princípios da OMC (redução de barreiras) e a política adotada (elevação de barreiras).


27 – [B]:

A “Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio, sintetiza uma das características fundamentais do Renascimento: o resgate da herança clássica associado à valorização da razão humana. Entre os séculos XIV e XVI, intelectuais e artistas renascentistas retomaram referências filosóficas, científicas e artísticas da Antiguidade greco-romana, reinterpretando-as a partir do contexto europeu de sua época. Esse movimento estava relacionado ao humanismo, que atribuía maior centralidade ao ser humano, à sua capacidade racional e à investigação da natureza e da sociedade. Isso não significava necessariamente uma rejeição ao cristianismo, mas uma ampliação das possibilidades de produção do conhecimento para além da autoridade exclusivamente religiosa. A própria composição de A Escola de Atenas expressa esses princípios. Rafael representa filósofos e estudiosos da Antiguidade, como Platão e Aristóteles, colocando o conhecimento filosófico no centro da obra. Platão aponta para cima, em referência à sua concepção de uma realidade inteligível, enquanto Aristóteles direciona sua mão para o mundo terreno, remetendo à valorização da experiência e da observação. A utilização da perspectiva linear, das proporções matemáticas, da simetria e da representação naturalista dos corpos demonstra ainda a tentativa renascentista de organizar racionalmente o espaço. A arte passa, dessa maneira, a incorporar conhecimentos de geometria, anatomia e matemática, transformando a própria técnica artística em manifestação da capacidade racional humana.


28 – [A]:

A questão aborda o potencial econômico do território brasileiro a partir de suas estruturas geológicas subsuperficiais. O texto-base, de Jurandyr Ross, enfatiza a grande antiguidade, a estabilidade tectônica e a riqueza mineralógica da Serra dos Carajás, características que definem os chamados escudos cristalinos (ou crátons). Formadas no período Pré-Cambriano (eras Arqueozóica e Proterozóica), essas estruturas representam os blocos rochosos mais antigos e resistentes da crosta terrestre, compostos essencialmente por rochas magmáticas e metamórficas rígidas. Devido à sua longa evolução geológica, marcada por processos intrusivos e metamórficos primitivos, os escudos cristalinos concentram os principais depósitos de minerais metálicos de elevado valor estratégico, como o minério de ferro, manganês, cobre, ouro e bauxita. A exploração comercial desses recursos impulsionou grandes projetos de infraestrutura mineral na Região Norte a partir da década de 1980 e mantém Carajás como um dos principais eixos da geopolítica mineradora global.


29 – [B]:

Nancy Fraser critica a falsa dicotomia entre as lutas econômicas e culturais. Conforme o texto-base assinala, a autora defende que a maioria dos grupos marginalizados sofre de injustiças bidimensionais. Logo, uma resposta institucional e social eficaz não pode escolher entre a economia ou a identidade; ela exige o combate simultâneo e integrado às injustiças de distribuição (marginalização material/econômica) e às injustiças de reconhecimento (desvalorização cultural/social).


30 – [E]:

A alternativa correta destaca a capacidade das manifestações culturais produzidas nas periferias de converter experiências de desigualdade, segregação e violência em formas de expressão política, identidade coletiva e afirmação social. O funk, o hip-hop e outras linguagens urbanas não funcionam apenas como entretenimento, mas como meios pelos quais jovens periféricos interpretam e comunicam sua própria realidade. Ao narrar problemas como violência policial, precariedade de serviços públicos, discriminação e exclusão territorial, essas manifestações transformam experiências cotidianas em discursos capazes de questionar a forma como a sociedade representa as periferias. Em vez de serem vistos apenas como moradores de espaços marcados pela pobreza ou criminalidade, esses jovens passam a se apresentar como produtores de cultura, conhecimento e identidade. Esse processo amplia seu protagonismo porque permite que eles construam narrativas próprias sobre o território em que vivem, rompendo com representações formuladas exclusivamente por grupos externos. A ocupação de ruas, bailes, praças e outros espaços urbanos também cria formas alternativas de sociabilidade e participação política, que não dependem necessariamente de partidos ou instituições formais. A cultura torna-se, assim, um instrumento de reivindicação do direito à cidade, pois possibilita que grupos historicamente marginalizados disputem visibilidade, reconhecimento e pertencimento no espaço urbano. A periferia deixa de aparecer somente como lugar de ausência e passa a ser reconhecida como território de produção simbólica e criatividade social. Nesse sentido, a cultura periférica pode funcionar simultaneamente como expressão de identidade, denúncia das desigualdades e construção de novas formas de ação coletiva. Por isso, a apropriação desses gêneros artísticos transforma a experiência periférica em fonte de protagonismo, resistência e crítica às estruturas sociais que reproduzem a segregação urbana.


31 – [B]:

A alternativa correta destaca um dos fatores centrais para o desgaste do Governo Provisório russo em 1917: a decisão de manter o país na Primeira Guerra Mundial, apesar do profundo esgotamento econômico, social e militar provocado pelo conflito. Quando o czar Nicolau II foi derrubado em fevereiro de 1917, grande parte da população esperava que o novo governo resolvesse problemas imediatos, como a escassez de alimentos, a inflação, a crise de abastecimento e as perdas humanas nas frentes de batalha. Entretanto, o Governo Provisório, inicialmente liderado por setores liberais e posteriormente por Alexander Kerensky, optou por preservar os compromissos internacionais assumidos pela Rússia com seus aliados da Tríplice Entente. Essa escolha significava continuar enviando soldados para uma guerra extremamente impopular, na qual o Exército russo acumulava derrotas, deserções e enormes baixas. Ao mesmo tempo, a continuidade do conflito agravava a crise econômica interna, pois grande parte dos recursos do Estado era direcionada ao esforço de guerra. A população urbana enfrentava falta de alimentos e combustíveis, enquanto os camponeses exigiam acesso à terra e os soldados desejavam o retorno para suas comunidades. Nesse contexto, os bolcheviques passaram a ampliar sua influência nos sovietes ao defender propostas diretamente relacionadas às demandas populares. O lema “Paz, Pão e Terra” sintetizava essas reivindicações: paz significava a retirada imediata da guerra; pão representava a solução para a fome e o desabastecimento; e terra correspondia à reivindicação camponesa pela redistribuição das propriedades rurais. A insistência do Governo Provisório na continuidade da guerra, portanto, ampliou sua perda de legitimidade e fortaleceu politicamente os bolcheviques. Esse processo foi decisivo para criar as condições que permitiram a Revolução de Outubro de 1917 e a tomada do poder pelos revolucionários liderados por Lenin.


32 – [D]:

A alternativa correta evidencia uma das principais estratégias políticas do Estado Novo: utilizar a propaganda oficial para construir uma associação direta entre Getúlio Vargas e os direitos sociais concedidos aos trabalhadores. O Departamento de Imprensa e Propaganda não atuava apenas como órgão censor, mas também como instrumento de construção de legitimidade para um regime autoritário que havia fechado o Congresso, restringido a atuação partidária e limitado as liberdades políticas. Nesse contexto, a propaganda estatal procurava apresentar Vargas como o responsável pessoal pela proteção das classes trabalhadoras, reforçando a imagem de um governante próximo do povo e atento às demandas sociais. A legislação trabalhista, posteriormente sistematizada na Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um dos principais elementos dessa construção simbólica. Direitos como férias remuneradas, regulamentação da jornada de trabalho, salário mínimo e proteção legal de determinadas categorias eram divulgados como benefícios concedidos pelo Estado sob a liderança de Vargas. Essa narrativa contribuía para fortalecer uma relação política baseada na centralidade do Executivo e na mediação estatal dos conflitos entre trabalhadores e empregadores. Ao mesmo tempo, o governo mantinha forte controle sobre os sindicatos, que passaram a depender do reconhecimento oficial do Estado. Dessa maneira, a ampliação dos direitos sociais não significava uma abertura democrática do regime, mas coexistia com censura, repressão política e restrições à organização autônoma dos trabalhadores. O DIP desempenhou papel essencial nesse processo ao utilizar rádio, cinema, imprensa e cerimônias públicas para difundir uma imagem positiva do governo e reforçar o culto político à figura de Vargas. Assim, a propaganda ajudava a transformar políticas sociais em instrumentos de legitimação do regime, apresentando o presidente como principal garantidor da proteção trabalhista e do progresso nacional.


33 – [D]:

A alternativa correta destaca que os impactos das mudanças climáticas não dependem apenas da intensidade dos eventos extremos, mas também da capacidade de cada sociedade de prevenir danos, reduzir vulnerabilidades e responder às consequências desses fenômenos. Nesse sentido, os conceitos de mitigação e adaptação são fundamentais. A mitigação corresponde ao conjunto de medidas voltadas para reduzir as causas das mudanças climáticas, especialmente por meio da diminuição das emissões de gases de efeito estufa, da transição energética e da proteção de ecossistemas capazes de armazenar carbono. Já a adaptação envolve ações destinadas a diminuir os impactos das alterações climáticas que já estão ocorrendo ou que se tornaram inevitáveis. Entre essas medidas estão a construção de sistemas de drenagem, obras de contenção de encostas, sistemas de alerta para eventos extremos, planejamento urbano, infraestrutura hídrica, proteção costeira e políticas de reassentamento de populações vulneráveis. Países e regiões com menor capacidade econômica e institucional tendem a possuir menos recursos para financiar essas estratégias. Como consequência, uma seca, enchente ou tempestade de intensidade semelhante pode provocar efeitos sociais muito diferentes dependendo das condições estruturais do território atingido. Em áreas com moradias precárias, baixa cobertura de saneamento, infraestrutura insuficiente e limitada capacidade de resposta do poder público, os eventos extremos produzem perdas proporcionalmente maiores. Essas desigualdades também ajudam a explicar o aumento dos deslocamentos populacionais relacionados ao clima, pois comunidades que não conseguem reconstruir suas condições de sobrevivência podem ser obrigadas a abandonar suas áreas de origem. Dessa forma, a vulnerabilidade climática resulta da combinação entre exposição aos fenômenos naturais e desigual capacidade de adaptação das sociedades. É justamente essa diferença de recursos técnicos, econômicos e institucionais que faz com que os impactos das mudanças climáticas sejam distribuídos de maneira profundamente desigual pelo planeta.


34 – [D]:

Para o filósofo em questão, uma teoria científica não se torna válida porque foi definitivamente comprovada por uma grande quantidade de observações favoráveis, pois nenhum número de casos particulares é suficiente para demonstrar logicamente a verdade absoluta de uma afirmação universal. É nesse ponto que Popper critica o método indutivo tradicional, segundo o qual a repetição de determinadas observações permitiria formular leis gerais. O exemplo clássico dos cisnes mostra esse problema: observar milhares de cisnes brancos não permite concluir, com certeza lógica, que todos os cisnes existentes sejam brancos. Basta a descoberta de um único cisne negro para refutar essa generalização. Por isso, Popper propõe substituir a verificabilidade pela falsificabilidade como critério de demarcação científica. Uma teoria é científica quando formula afirmações que podem ser submetidas a testes empíricos capazes, ao menos em princípio, de demonstrar que ela está errada. Isso significa que uma teoria precisa correr o risco de ser refutada pela experiência. Quanto mais precisas forem suas previsões e mais severos forem os testes aos quais ela puder ser submetida, maior será seu conteúdo científico. Caso uma teoria sobreviva a sucessivas tentativas de refutação, ela não é considerada definitivamente verdadeira, mas apenas corroborada provisoriamente. O conhecimento científico assume, portanto, um caráter aberto, crítico e revisável. Novas evidências podem exigir a correção ou até mesmo o abandono de teorias anteriormente aceitas. Para Popper, o progresso da ciência ocorre justamente por esse processo de formulação de conjecturas, realização de testes rigorosos e eliminação dos erros. Assim, a legitimidade científica de uma teoria depende de sua possibilidade de ser confrontada empiricamente e eventualmente refutada, e não de uma pretensão de alcançar uma comprovação definitiva e absoluta.


35 – [A]:

A alternativa correta destaca uma das principais características da estratégia de modernização econômica adotada pela China a partir das reformas iniciadas no final da década de 1970, sob a liderança de Deng Xiaoping: a progressiva integração do país às cadeias globais de produção. As Zonas Econômicas Especiais foram criadas como territórios submetidos a regras econômicas diferenciadas, permitindo maior entrada de investimentos estrangeiros, instalação de empresas internacionais e desenvolvimento de atividades industriais voltadas principalmente para a exportação. A localização dessas áreas no litoral chinês foi estratégica, pois facilitava o acesso aos grandes portos, às rotas marítimas internacionais e aos mercados consumidores da Ásia e de outras regiões do mundo. Cidades como Shenzhen tornaram-se símbolos desse processo de transformação econômica. Empresas estrangeiras passaram a transferir determinadas etapas de suas cadeias produtivas para o território chinês, atraídas inicialmente por fatores como custos relativamente baixos de produção, ampla disponibilidade de mão de obra, incentivos fiscais e investimentos públicos em infraestrutura. Dessa maneira, diferentes fases da fabricação de uma mercadoria passaram a ocorrer em países distintos, configurando a chamada fragmentação internacional da produção. A China inseriu-se nesse sistema inicialmente com forte participação em atividades industriais intensivas em trabalho e, posteriormente, avançou para segmentos de maior complexidade tecnológica e valor agregado. As ZEEs também funcionaram como espaços de experimentação de mecanismos de mercado em uma economia que permanecia politicamente controlada pelo Estado. O sucesso dessas áreas estimulou a expansão das reformas para outras cidades e regiões chinesas, contribuindo para a intensa industrialização e urbanização do país. Portanto, a estratégia territorial das Zonas Econômicas Especiais favoreceu a articulação da economia chinesa com redes produtivas internacionais, ampliando exportações, atraindo capitais externos e transformando a China em um dos principais centros industriais da economia mundial.


36 – [B]:

A partir da década de 1970, o governo passou a tratar a Amazônia como uma fronteira econômica estratégica, associando sua ocupação à segurança nacional e ao projeto de modernização do território. Nesse contexto, foram construídas rodovias, implantados projetos de colonização e oferecidos incentivos fiscais, créditos subsidiados e outras vantagens para estimular atividades como pecuária, mineração e exploração de recursos naturais. Essa política favoreceu sobretudo empresas de grande porte e proprietários com maior capacidade de investimento. A expansão da fronteira econômica ocorreu, portanto, com forte participação do capital privado, mas sustentada por investimentos públicos e por políticas estatais de incentivo. A abertura de estradas, como a Transamazônica, também facilitou a circulação de pessoas, mercadorias e capitais para áreas antes menos integradas ao restante do país. Ao mesmo tempo, esse processo produziu importantes impactos sociais e ambientais. A valorização das terras estimulou a concentração fundiária, a grilagem e a expansão de grandes propriedades, além de intensificar conflitos envolvendo posse da terra. Povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores passaram a sofrer maior pressão sobre seus territórios. A expansão da pecuária e de grandes projetos econômicos também contribuiu para o avanço do desmatamento e para profundas transformações na paisagem amazônica. Assim, a integração promovida pelos governos militares não representou apenas a conexão física da região ao restante do território nacional, mas também sua incorporação mais intensa à lógica de expansão do capital. Por isso, o avanço de grandes empresas apoiadas por subsídios, créditos e infraestrutura estatal constitui um dos principais resultados históricos desse modelo de ocupação da Amazônia.


37 – [D]:

A alternativa correta expressa um aspecto central da interpretação de Darcy Ribeiro sobre a formação do povo brasileiro: a identidade nacional não resultou da simples preservação das culturas indígena, africana e portuguesa, mas de um processo marcado por rupturas, deslocamentos e recomposições culturais. O conceito de desenraizamento ajuda a compreender essa dinâmica. Povos indígenas foram retirados de seus territórios, populações africanas foram violentamente arrancadas de suas sociedades de origem e colonizadores portugueses também passaram por uma profunda adaptação ao novo espaço colonial. Nesse contexto, muitos indivíduos perderam referências tradicionais de pertencimento, parentesco, organização social e identidade coletiva. Para Darcy Ribeiro, o mestiço ocupa uma posição simbólica central nesse processo porque surge de matrizes distintas sem se identificar plenamente com nenhuma delas. A condição de ser um “ninguém” representa justamente essa ausência inicial de pertencimento a uma tradição social reconhecida. Esse vazio, no entanto, não significa ausência definitiva de identidade. Ao contrário, ele cria as condições para uma reinvenção cultural, na qual novos costumes, valores, formas de sociabilidade, crenças e práticas passam a ser construídos no próprio território colonial. Assim, a identidade brasileira aparece como uma formação histórica original, produzida a partir do contato conflituoso entre diferentes povos e da transformação de suas heranças culturais. Não se trata de uma soma equilibrada de elementos indígenas, africanos e europeus, mas de uma síntese nova, marcada também por violência, escravidão, dominação e resistência. O povo brasileiro teria se constituído, portanto, mediante a criação de novos vínculos sociais e culturais em um contexto de profundo desenraizamento das populações que participaram de sua formação. É nesse processo de perda, adaptação e recriação das referências originais que Darcy Ribeiro identifica uma das bases fundamentais da construção histórica da identidade coletiva brasileira.


38 – [A]:

Descartes parte da constatação de que muitas crenças assimiladas ao longo da vida foram aceitas sem uma investigação rigorosa de seus fundamentos. Por isso, propõe colocar provisoriamente em dúvida tudo aquilo que possa apresentar qualquer possibilidade de erro, inclusive conhecimentos provenientes da tradição, da autoridade e da experiência sensível. Essa dúvida não representa uma defesa do ceticismo definitivo, pois Descartes não pretende demonstrar que todo conhecimento é impossível. Ao contrário, a dúvida funciona como um instrumento metodológico destinado a encontrar uma verdade que seja absolutamente indubitável e que possa servir de fundamento para todas as demais formas de conhecimento. O filósofo radicaliza esse procedimento ao questionar até mesmo as informações fornecidas pelos sentidos, uma vez que eles podem enganar, como ocorre em ilusões perceptivas ou nos sonhos. Ao eliminar provisoriamente tudo aquilo que pode ser colocado em dúvida, Descartes chega à constatação de que o próprio ato de duvidar pressupõe necessariamente a existência de um sujeito que pensa. Surge daí a formulação sintetizada pela expressão “penso, logo existo” — cogito, ergo sum. O cogito torna-se a primeira certeza do sistema cartesiano porque sua verdade permanece válida mesmo diante da dúvida mais radical. Esse procedimento representa uma ruptura importante com formas de conhecimento fundamentadas apenas na tradição ou na autoridade intelectual herdada da escolástica. Para Descartes, a razão individual deve examinar criticamente as crenças e buscar princípios claros e distintos capazes de sustentar demonstrações seguras. Assim, a dúvida metódica funciona como uma espécie de depuração do conhecimento: aquilo que não resiste ao questionamento deve ser suspenso até que possa ser racionalmente fundamentado. Dessa forma, o método cartesiano contribuiu para a formação do pensamento moderno ao estabelecer o exame crítico e racional dos fundamentos do conhecimento como condição para a busca de certezas.


39 – [A]:

A alternativa A evidencia uma das principais consequências políticas da Crise dos Mísseis de 1962: a percepção de que Estados Unidos e União Soviética precisavam estabelecer mecanismos de contenção recíproca para impedir que confrontos localizados evoluíssem para uma guerra nuclear. Durante a crise, as duas superpotências chegaram a um nível extremo de tensão, pois qualquer erro de cálculo poderia desencadear um conflito de proporções globais. A existência de grandes arsenais nucleares havia produzido a lógica da destruição mútua assegurada, segundo a qual um ataque nuclear de uma potência provocaria uma retaliação capaz de causar perdas catastróficas também ao agressor. Por isso, a superioridade militar absoluta tornava-se praticamente impossível de ser utilizada sem colocar em risco a própria sobrevivência. A solução negociada da crise demonstrou que a rivalidade ideológica não eliminava a necessidade de diálogo entre os adversários. Khrushchev concordou com a retirada dos mísseis soviéticos de Cuba, enquanto Kennedy assumiu o compromisso de não invadir a ilha; paralelamente, os Estados Unidos retiraram seus mísseis Jupiter da Turquia em um entendimento que permaneceu inicialmente reservado. A experiência também estimulou mecanismos destinados a reduzir o risco de novos confrontos desse tipo, como o estabelecimento, em 1963, de uma ligação direta de comunicação entre Washington e Moscou. História do Estado A partir desse episódio, tornou-se mais evidente que a estabilidade da Guerra Fria dependia não apenas da capacidade de dissuasão militar, mas também da existência de canais diplomáticos e de limites capazes de controlar a escalada das tensões. Isso não significou o fim da corrida armamentista nem da rivalidade entre os blocos, mas favoreceu uma compreensão mais clara de que determinados conflitos precisavam ser administrados por negociação. Dessa forma, a Crise dos Mísseis revelou que, em uma ordem internacional nuclearizada, a preservação do próprio sistema dependia de algum grau de autocontenção das duas superpotências.


40 – [D]:

A alternativa D destaca uma característica das revoluções europeias de 1848: a entrada mais intensa das camadas populares urbanas, especialmente operários e artesãos, no cenário revolucionário com reivindicações que ultrapassavam os objetivos tradicionais do liberalismo burguês. Nas revoluções anteriores, como as de 1820 e 1830, predominavam demandas ligadas à limitação do absolutismo, à elaboração de constituições, à defesa das liberdades civis e à ampliação da participação política das elites proprietárias. Em 1848, essas pautas continuaram presentes, mas passaram a conviver com reivindicações sociais vinculadas às transformações provocadas pela industrialização. O crescimento das cidades, a precarização das condições de trabalho, os baixos salários, o desemprego e a insegurança econômica estimularam a mobilização de trabalhadores urbanos. Em Paris, por exemplo, a proclamação da Segunda República foi acompanhada por pressões em favor do sufrágio universal masculino e do chamado “direito ao trabalho”. A criação das Oficinas Nacionais procurou responder, ainda que de forma limitada, ao problema do desemprego. Quando essas oficinas foram fechadas, ocorreu a Insurreição de Junho de 1848, revelando o aprofundamento das tensões entre trabalhadores e setores burgueses que inicialmente haviam participado da mesma revolução. Esse episódio evidencia que as classes populares passaram a formular interesses políticos próprios, que nem sempre coincidiam com os objetivos da burguesia liberal. Ao mesmo tempo, em outras regiões europeias, as revoluções combinaram demandas liberais, nacionalistas e sociais, produzindo movimentos bastante heterogêneos. Por isso, 1848 tornou-se um marco na história política europeia: a chamada “questão social” passou a ocupar posição cada vez mais importante nos conflitos políticos do século XIX. Mesmo derrotadas em muitos lugares, essas revoluções demonstraram que a luta contra o absolutismo já não poderia ser compreendida apenas como um confronto entre burguesia e aristocracia, pois os trabalhadores começavam a aparecer como força política autônoma, portadora de reivindicações próprias.


41 – [B]:

A expansão do Matopiba reforça uma inserção econômica fortemente condicionada pelas demandas do mercado internacional, sobretudo pela procura por commodities agrícolas como soja e milho. A região, formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, tornou-se uma das principais frentes de expansão do agronegócio brasileiro, com forte especialização produtiva e crescente integração às cadeias globais de circulação de mercadorias. Esse modelo territorial está associado à produção em larga escala destinada principalmente à exportação, o que faz com que decisões tomadas fora da região exerçam influência direta sobre o uso do solo, os investimentos e a dinâmica econômica local. A demanda de grandes mercados consumidores, especialmente asiáticos, estimula a ampliação das áreas cultivadas, a construção de corredores logísticos e a atração de capitais nacionais e estrangeiros. Nesse contexto, a economia regional torna-se sensível às oscilações dos preços internacionais das commodities, às políticas comerciais dos países importadores e às variações da demanda mundial. Isso caracteriza uma forma de dependência externa, pois parcela significativa da produção e dos investimentos passa a responder a necessidades definidas por mercados consumidores estrangeiros. Ao mesmo tempo, a especialização em produtos primários mantém a região vinculada a atividades de menor valor agregado quando comparadas aos segmentos industriais e tecnológicos das cadeias produtivas. A modernização técnica do agronegócio, portanto, não elimina necessariamente essa dependência, já que elevada produtividade pode coexistir com forte vulnerabilidade às condições do comércio internacional. No caso do Matopiba, a expansão da fronteira agrícola também reorganiza o território por meio de novos portos, ferrovias, rodovias e terminais voltados ao escoamento da produção exportadora. Assim, embora a região apresente intensa modernização produtiva, sua dinâmica permanece fortemente associada às necessidades de compradores externos e às flutuações do mercado mundial de commodities, confirmando a manutenção da dependência em relação às demandas internacionais.


42 – [C]:

A alternativa C evidencia uma renovação importante da historiografia sobre os quilombos no Brasil escravista, ao superar a interpretação segundo a qual essas comunidades seriam espaços totalmente isolados da sociedade colonial. Embora os quilombos tenham se constituído fundamentalmente como formas de resistência à escravidão e como territórios de busca por autonomia, muitos deles desenvolveram relações econômicas e sociais permanentes com as áreas vizinhas. Seus habitantes praticavam agricultura, coleta, caça, criação de animais e atividades artesanais, produzindo tanto para o consumo interno quanto para a realização de trocas comerciais. Parte dos excedentes agrícolas, como mandioca, milho e feijão, podia circular em mercados locais por intermédio de pequenos comerciantes, taberneiros, lavradores livres e até proprietários rurais. Essas redes revelam que a sociedade escravista era atravessada por relações muito mais complexas do que uma simples oposição entre senhores e escravizados. Os quilombolas podiam estabelecer alianças, negociações e circuitos de comércio com diferentes grupos sociais, utilizando essas relações para conseguir alimentos, ferramentas, armas, informações e outros recursos necessários à sobrevivência das comunidades. Essa articulação não eliminava o caráter de resistência dos quilombos; ao contrário, contribuía para sua permanência e capacidade de enfrentar a repressão colonial. A autonomia quilombola, portanto, não dependia necessariamente de um isolamento absoluto, mas podia ser construída justamente por meio da combinação entre produção própria e interação estratégica com a economia regional. Essa perspectiva também permite compreender os quilombos como espaços de sociabilidade, formação de famílias, reconstrução de vínculos comunitários e criação de novas formas de organização social. Dessa maneira, a historiografia contemporânea destaca que essas comunidades participaram ativamente das dinâmicas econômicas locais enquanto desafiavam a estrutura escravista. A existência dessas redes de intercâmbio demonstra, assim, que resistência, autonomia e integração parcial ao entorno podiam coexistir dentro da experiência histórica quilombola.


43 – [B]:

Em bacias hidrográficas compartilhadas por diferentes países, a posição territorial de cada Estado pode produzir relações assimétricas de poder. Os países situados a montante, isto é, nas áreas superiores do curso de um rio, possuem maior capacidade de interferir na quantidade, na regularidade e até na qualidade da água que segue em direção aos territórios localizados a jusante. A construção de grandes barragens, reservatórios e canais de desvio pode alterar o regime de vazão dos rios, modificando diretamente a disponibilidade hídrica para agricultura, abastecimento urbano, produção industrial e geração de energia em outros países. Dessa forma, as nações situadas a jusante tornam-se estrategicamente vulneráveis quando dependem de recursos hídricos cuja origem ou controle parcial se encontra além de suas fronteiras. Essa dependência pode aumentar o poder de barganha dos países a montante em negociações diplomáticas e transformar a água em instrumento de pressão geopolítica. O problema torna-se ainda mais relevante em regiões caracterizadas por escassez hídrica, crescimento populacional acelerado e elevada dependência da agricultura irrigada. Nesses contextos, qualquer redução significativa da vazão de um rio pode comprometer a segurança alimentar, energética e hídrica de milhões de pessoas. As mudanças climáticas também tendem a ampliar essas tensões ao modificar regimes de precipitação e aumentar a frequência de secas prolongadas em determinadas regiões. Por isso, rios transfronteiriços exigem mecanismos de cooperação internacional capazes de estabelecer regras para o uso compartilhado dos recursos hídricos. Entretanto, quando esses mecanismos são frágeis ou inexistentes, a infraestrutura hidráulica pode assumir função estratégica semelhante à de outros recursos fundamentais para a segurança nacional. Assim, o controle territorial da água não possui apenas importância econômica ou ambiental, mas também influencia relações de poder entre Estados. É justamente essa desigualdade na capacidade de controlar os fluxos hídricos que cria vulnerabilidades estratégicas para os países localizados a jusante das grandes bacias internacionais.


44 – [E]:

Para o autor, as posições ocupadas pelos indivíduos na estrutura social não podem ser explicadas apenas pelo esforço, pelo talento ou pelas escolhas pessoais, pois as condições de partida são profundamente desiguais. Famílias das classes média e alta conseguem transmitir aos filhos recursos que ultrapassam a dimensão estritamente financeira, como acesso a escolas de melhor qualidade, domínio da linguagem valorizada pelas instituições, hábitos de leitura, estabilidade familiar, disponibilidade de tempo para estudar e redes de contatos sociais. Esses recursos funcionam como vantagens acumuladas desde a infância e aumentam significativamente as possibilidades de sucesso escolar e profissional. Em contrapartida, grupos socialmente vulneráveis muitas vezes crescem sem acesso equivalente a essas condições, enfrentando dificuldades materiais e institucionais que limitam suas oportunidades. O problema apontado por Jessé Souza ocorre quando essas diferenças estruturais são ignoradas e os resultados sociais passam a ser interpretados exclusivamente como consequência do mérito individual. Dessa maneira, o sucesso das classes privilegiadas aparece como resultado natural de competência e esforço, enquanto a pobreza pode ser atribuída à preguiça, incapacidade ou ausência de disciplina dos indivíduos. A meritocracia funciona, portanto, como um mecanismo de naturalização da desigualdade, pois transforma vantagens socialmente herdadas em supostas qualidades individuais. Esse processo contribui para ocultar os mecanismos de reprodução dos privilégios entre gerações e para responsabilizar os próprios indivíduos pelas condições desfavoráveis em que vivem. Na interpretação do autor, a desigualdade brasileira não se reproduz somente pela diferença de renda, mas também pela distribuição desigual de recursos culturais, educacionais, sociais e afetivos. Assim, o discurso meritocrático pode conferir aparência de justiça a uma estrutura social marcada por oportunidades profundamente desiguais, mascarando privilégios de origem e contribuindo para sua reprodução ao longo das gerações.


45 – [D]:

A alternativa D identifica a principal característica de uma união aduaneira, estágio de integração econômica assumido pelo Mercosul a partir de 1995. Nesse modelo, os países participantes eliminam ou reduzem significativamente as tarifas alfandegárias incidentes sobre o comércio realizado entre os próprios membros e, ao mesmo tempo, estabelecem uma política tarifária comum diante de mercadorias provenientes de países externos ao bloco. No caso do Mercosul, esse mecanismo materializou-se por meio da Tarifa Externa Comum (TEC), utilizada como referência para a cobrança de impostos de importação sobre diversos produtos originários de países que não pertencem ao bloco. A existência da TEC diferencia uma união aduaneira de uma simples zona de livre comércio. Em uma zona de livre comércio, os membros reduzem as barreiras comerciais entre si, mas cada país mantém autonomia para estabelecer suas próprias tarifas em relação a terceiros. Já na união aduaneira, existe a tentativa de coordenar coletivamente essa política comercial externa. Dessa maneira, uma mercadoria importada de fora do Mercosul tende a ser submetida a regras tarifárias definidas conjuntamente pelos Estados participantes, ainda que existam exceções e listas nacionais específicas. Esse mecanismo busca evitar que produtos estrangeiros ingressem pelo país que ofereça a menor tarifa e depois circulem pelo restante do bloco aproveitando a liberalização interna. A adoção de uma tarifa externa comum também fortalece a capacidade de negociação conjunta dos países integrantes perante outros Estados e blocos econômicos. É importante destacar que a união aduaneira não implica automaticamente livre circulação completa de trabalhadores, unificação das legislações ou criação de uma moeda única. Essas características pertencem a etapas mais aprofundadas de integração econômica. Portanto, o elemento conceitual fundamental para compreender a transformação institucional do Mercosul em 1995 é justamente a combinação entre liberalização do comércio intrabloco e adoção de uma política tarifária comum em relação aos mercados externos.