Por Victor Maurício
A cúpula da OTAN em Haia encerrou-se com uma decisão sem precedentes: os 32 aliados concordaram em elevar, até 2035, a meta anual de gastos militares de 2 % para 5 % do Produto Interno Bruto, sendo 3,5 % em “despesas nucleares e convencionais duras” e 1,5 % em infraestruturas dual-use, ciberdefesa e reservas de munição. O secretário-geral Mark Rutte classificou o acordo como “o maior salto de capacidade desde o fim da Guerra Fria” e lembrou que, em 2021, apenas seis países cumpriam a meta antiga; hoje são 23 e, segundo ele, “todos alcançarão os 5 % antes do prazo”
Números do relatório anual da Aliança apontam que, em 2024, os Estados Unidos já destinavam 3,5 % do seu PIB à defesa; Polónia, 4,2 %; Grécia, 3,1 %; Reino Unido, 2,3 %; França, 2,2 %; e a recém-admitida Finlândia, 2,4 %. Alemanha acaba de prometer 3,5 % em “núcleo duro” até 2030, mas teria de quase triplicar os atuais 2,1 % para cumprir a nova régua. Espanha (1,5 %), Bélgica (1,3 %) e Eslováquia (1,4 %) admitem dificuldade de chegar ao patamar, estimado em €30 mil milhões extras por ano para Madrid e €9 mil milhões para Bruxelas.
Para o economista militar Christoph Trebesch, do Instituto de Kiel, a medida pressiona orçamentos sociais num momento de estagnação europeia: “Somar 5 % do PIB em defesa na Alemanha significará perto de €225 mil milhões anuais — maior que todo o orçamento de saúde”. A diretora da ONG britânica Scientists for Global Responsibility, Dr. Stuart Parkinson, disse à Al Jazeera que “fazer do rearmamento o novo pacto verde da Europa é uma ameaça às pessoas e ao planeta”. Já Kristine Berzina, do German Marshall Fund, alerta que a meta pode “transformar a indústria bélica no eixo da integração europeia, reforçando a dependência dos EUA em tecnologia de ponta”
O presidente Vladimir Putin ironizou a decisão no mesmo dia, prometendo cortar o próprio orçamento militar “nos próximos três anos”, ainda que o Kremlin gaste 6,3 % do PIB desde o início da invasão da Ucrânia. Em coletiva em Minsk, ele afirmou que “os europeus estão apenas subsidiando as fábricas de armas norte-americanas” e que a Rússia “responderá de forma assimétrica, investindo mais em mísseis hipersónicos, não em tanques caros”. A chancelaria russa, por sua vez, qualificou o plano de 5 % como “justificativa inventada para uma OTAN agressiva que empurra o continente para a militarização completa”.
Mas por que agora? Desde a invasão russa da Ucrânia, a Aliança gradualmente reveria sua fasquia: primeiro, em 2023, de 1,5 % para 2 % — alvo que, segundo a BBC, já era visto como hercúleo para metade dos membros. A pressão ganhou corpo após Donald Trump retornar à Casa Branca exigindo “investimento justo ou saída dos EUA”, ameaçando reavaliar a cláusula de defesa mútua caso a Europa não pagasse a própria segurança.
O texto aprovado determina um cronograma escalonado: 3 % até 2029, 4 % em 2032 e 5 % até 2035, com relatórios anuais públicos. O secretário-geral Rutte confirmou um fundo comum de €150 mil milhões para interoperabilidade, mas o documento final manteve linguagem vaga sobre assistência à Ucrânia, o que levou Kiev a falar em “apoio morno”.
Entre otimismo e ceticismo, analistas concordam que a OTAN entrou em território inexplorado. Se os governos convencerem suas populações a trocar creches por drones, a meta poderá ser alcançada — ao preço, alertam críticos, de abrir uma década em que o PIB do Ocidente será medido em pólvora.

https://www.nato.int/cps/en/natohq/topics_49198.htm
https://www.nato.int/cps/en/natohq/topics_67655.htm
https://www.bbc.com/news/articles/clymn8zyrp9o
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2025/06/25/otan-aprova-aumento-de-gastos-com-defesa-para-5-do-pib-dos-paises-membros-ate-2035.htm
#politicainternacional #otan #vestibular #atualidades