Irã usa yuan em Ormuz como parte de uma estratégia econômica e geopolítica no contexto do fechamento do estreito. Ao associar a passagem de navios ao uso da moeda chinesa, Teerã tenta preservar exportações, reduzir a dependência do dólar e ampliar sua margem de pressão sobre o comércio global de petróleo.

O Irã passou a sinalizar o uso do yuan chinês como condição para autorizar a passagem limitada de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, no contexto da guerra com os Estados Unidos e Israel e da interrupção do fluxo regular na principal rota energética do Golfo.

A medida amplia o uso geopolítico do estreito por Teerã. Em vez de apenas restringir a navegação, o governo iraniano passou a associar a circulação de cargas de petróleo a critérios políticos, comerciais e monetários. Na prática, a proposta reforça a tentativa de reduzir a dependência do dólar e de operar em canais menos vulneráveis às sanções ocidentais.

Yuan entra no centro da estratégia iraniana

Relatos publicados na imprensa internacional indicam que o Irã pode permitir a passagem de petroleiros por Ormuz se as transações forem realizadas em yuan. A ideia surgiu no momento em que a pressão militar no Golfo se converte também em disputa sobre meios de pagamento, rotas de exportação e capacidade de driblar o sistema financeiro dominado pelos Estados Unidos.

O movimento não representa apenas uma escolha monetária. Ele se insere numa estratégia maior de sobrevivência econômica. O Irã tenta manter receita com exportações de petróleo, aprofundar as relações comerciais com a China e explorar sua posição sobre uma das passagens marítimas mais relevantes do mundo.

Fechamento parcial de Ormuz altera comércio de energia

Mesmo com o estreito sob forte restrição, o Irã continuou exportando petróleo. Dados de comércio e monitoramento marítimo mostraram que cerca de 90 embarcações cruzaram a área entre 1º e 15 de março, número bem abaixo do padrão anterior ao conflito. Ainda assim, o país exportou mais de 16 milhões de barris no período, em grande parte para a China.

Esse dado é central para entender a estratégia de Teerã. O objetivo não parece ser apenas bloquear completamente a rota, mas controlar seletivamente quem passa, em que condições e sob quais termos políticos e econômicos.

“Os volumes de exportação de petróleo do Irã têm demonstrado uma “resiliência contínua”, afirmou Ana Subasic, analista de risco comercial da Kpler.

Trata-se de “preservar sua própria artéria de exportação”, disse Kun Cao, diretor da consultoria Reddal, ao avaliar a forma como o Irã vem usando o controle do estreito para manter seu próprio fluxo de vendas.

China ganha importância no escoamento do petróleo iraniano

A China aparece como peça central nesse arranjo. Com o avanço das sanções americanas, compradores, refinarias, navios e intermediários ligados ao petróleo iraniano passaram a operar sob risco crescente. Isso ajuda a explicar por que o yuan surge como alternativa dentro da estratégia de Teerã.

Em abril de 2025, os Estados Unidos sancionaram uma refinaria chinesa acusada de comprar mais de US$ 1 bilhão em petróleo iraniano. Na ocasião, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou: “Qualquer refinaria, empresa ou corretora que optar por comprar petróleo iraniano ou facilitar o comércio de petróleo do Irã se coloca em sério risco.”.

Ao ampliar o uso do yuan, o Irã tenta diminuir sua exposição direta a esse tipo de pressão. Ao mesmo tempo, reforça a centralidade chinesa no destino de seu petróleo e na sustentação de sua receita externa.

Especialistas apontam limites para o plano

Apesar do peso simbólico da medida, analistas ouvidos pela imprensa internacional tratam sua aplicação com cautela. O uso do yuan em operações ligadas a Ormuz pode ampliar o papel da moeda chinesa no comércio de energia, mas enfrenta obstáculos logísticos, riscos militares e possível aumento da tensão entre Pequim e Washington.

Isso significa que a proposta ainda depende de condições práticas para sair do plano político e se consolidar como mecanismo estável de comércio. Mesmo assim, o anúncio revela a direção estratégica adotada por Teerã: usar território, energia e moeda como instrumentos combinados de pressão.

Estreito deixa de ser apenas rota marítima e vira ferramenta de barganha

Nos últimos dias, autoridades iranianas também passaram a discutir novas formas de monetizar e regular o tráfego em Ormuz. A proposta de cobrança de taxas de trânsito para países que utilizam a rota reforça a lógica de transformar a posição geográfica iraniana em vantagem política e econômica.

“Aproveitando a posição estratégica do Estreito de Ormuz, podemos impor sanções (ao Ocidente) e impedir que seus navios passem por essa hidrovia.”, afirmou Mohammad Mokhber, conselheiro do líder supremo do Irã.

Esse discurso mostra que o estreito já não funciona apenas como ponto de passagem de petróleo. Ele se tornou instrumento de disputa entre sanções, moedas, rotas e influência regional.

O que está em jogo

Ao associar a passagem em Ormuz ao yuan, o Irã usa yuan em Ormuz como instrumento de barganha econômica e geopolítica. A iniciativa busca preservar exportações, aprofundar a relação com a China e criar mecanismos de comércio menos dependentes do dólar. No curto prazo, a medida pressiona o mercado de energia e amplia a incerteza sobre o fluxo global de petróleo. No plano geopolítico, sinaliza que Teerã pretende usar o estreito não apenas como fronteira militar, mas como eixo de reorganização econômica em meio à guerra e às sanções.

Por Victor Maurício ( @professorvictormauricio )

Referências

South China Morning Post. Does Iran have a yuan-for-Hormuz oil trade plan? Why analysts in China are urging caution.

Associated Press. About 90 ships cross the Strait of Hormuz as Iran exports millions of barrels of oil despite the war.

Associated Press. US imposes sanctions on a Chinese refinery accused of buying Iranian oil.