1. Introdução
A globalização é o processo histórico de intensificação das relações econômicas, políticas, culturais, financeiras, produtivas e informacionais em escala mundial. Ela não significa apenas que países passaram a comerciar mais entre si, mas que a vida social, o trabalho, o consumo, a circulação de mercadorias, os fluxos de capitais, as tecnologias de comunicação e as decisões políticas passaram a operar em redes cada vez mais interdependentes. Em outras palavras, a globalização reorganizou o espaço geográfico, aproximou lugares distantes, acelerou o tempo das trocas e tornou os territórios mais vulneráveis às decisões tomadas em centros de poder muitas vezes localizados fora deles.
Em sua forma contemporânea, a globalização está associada à expansão do capitalismo em escala planetária, ao avanço técnico-científico-informacional, à financeirização da economia, ao crescimento das empresas transnacionais, à formação de cadeias globais de produção e à difusão de políticas neoliberais a partir do final do século XX. Contudo, esse processo não deve ser entendido como uma novidade absoluta. Desde as grandes navegações, a colonização europeia, a formação do mercado mundial, a Revolução Industrial e o imperialismo do século XIX, já havia movimentos de integração econômica e territorial. O que muda, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, é a velocidade, a escala, a densidade técnica e a capacidade de comando à distância.
Por isso, a globalização é um dos conceitos mais importantes das Ciências Humanas. Ela permite compreender por que uma crise financeira iniciada em um país pode afetar empregos em outro continente; por que uma guerra em uma região estratégica altera o preço do petróleo em todo o mundo; por que empresas fragmentam sua produção em diversos países; por que cidades globais concentram serviços financeiros, tecnológicos e administrativos; por que trabalhadores enfrentam concorrência internacional; e por que movimentos nacionalistas, protecionistas e anti-integração ganharam força nas últimas décadas.
A globalização também é um processo contraditório. Para alguns discursos empresariais e políticos, ela aparece como sinônimo de modernização, liberdade de circulação, inovação tecnológica e aproximação cultural. Para autores críticos, como Milton Santos, David Harvey, Immanuel Wallerstein, Saskia Sassen, Manuel Castells e Zygmunt Bauman, ela expressa também desigualdades, concentração de poder, precarização do trabalho, seletividade territorial, controle financeiro, enfraquecimento de soberanias nacionais e exclusão social. Assim, não existe uma globalização neutra. Há uma globalização produzida por agentes sociais, técnicos, econômicos e políticos, e seus efeitos variam conforme a posição que cada território ocupa na divisão internacional do trabalho.
No início do século XXI, esse processo entrou em uma fase de tensão. A crise financeira de 2008, a ascensão da China, o avanço tecnológico, a pandemia de Covid-19, as guerras comerciais, a disputa por semicondutores, a crise climática, o Brexit e o retorno de políticas protecionistas mostraram que a globalização não eliminou os Estados nacionais nem os conflitos geopolíticos. Ao contrário, tornou-os mais complexos. enfrentar.
2. O que é globalização
A globalização pode ser definida como a ampliação e a intensificação das conexões entre diferentes partes do mundo, de modo que acontecimentos, decisões e processos localizados em um ponto do planeta passam a ter efeitos sobre outros lugares. Essa integração envolve comércio, finanças, produção, cultura, informação, migrações, ciência, tecnologia, logística e geopolítica. Entretanto, ela não ocorre de maneira homogênea. Alguns lugares comandam os fluxos, outros os recebem de forma subordinada; alguns territórios concentram tecnologia, capital e decisão, enquanto outros oferecem força de trabalho barata, recursos naturais, incentivos fiscais ou localização estratégica.
Em uma formulação clássica, a globalização pode ser entendida como a constituição de uma economia-mundo capitalista, na qual o planeta é organizado por relações desiguais entre centro, periferia e semiperiferia. Essa perspectiva dialoga com Immanuel Wallerstein, para quem o capitalismo histórico sempre buscou ampliar suas fronteiras de acumulação. A economia mundial não é apenas um conjunto de países comerciando entre si, mas um sistema hierarquizado, no qual alguns espaços concentram comando, inovação, finanças e poder militar, enquanto outros são integrados como fornecedores de matérias-primas, mão de obra ou mercados consumidores.
Milton Santos acrescenta uma leitura essencial para a Geografia: a globalização não é apenas econômica, mas também territorial. Ela se materializa no espaço por meio de redes técnicas, sistemas de transporte, telecomunicações, finanças, normas internacionais, empresas transnacionais e objetos geográficos que permitem a circulação rápida de informações, mercadorias e capitais. Por isso, para Santos, o período atual é marcado pelo meio técnico-científico-informacional, isto é, por uma forma de organização espacial na qual ciência, técnica e informação se tornam decisivas para o funcionamento da economia e da sociedade.
Essa formulação é central porque mostra que a globalização não surge do nada. Ela é resultado de um longo processo de expansão do capitalismo. O que muda no período recente é a presença dominante da técnica, da ciência e da informação. A circulação mundial torna-se mais rápida e mais seletiva. Os territórios são incorporados de modo desigual às redes globais. Por isso, a globalização aproxima lugares, mas também aprofunda hierarquias.
Castells ajuda a compreender a globalização como uma reorganização da sociedade em redes. Essas redes articulam empresas, bancos, universidades, plataformas digitais e centros de decisão. A economia passa a depender da circulação veloz de dados, capitais e conhecimento. O poder não está apenas no território físico, mas também na capacidade de controlar fluxos. Cidades, empresas e Estados se tornam nós de redes globais. Quem está fora dessas redes tende a experimentar marginalização econômica e política.
David Harvey, em “A condição pós moderna”, mostra que o capitalismo precisa vencer barreiras espaciais para acelerar a acumulação. Transportes mais rápidos, comunicação instantânea e logística integrada reduzem distâncias práticas, processo que o autor chama de “compressão do espaço-tempo”. O mundo parece “menor” porque as decisões circulam quase em tempo real. Essa aceleração favorece empresas e investidores capazes de se mover rapidamente. Ao mesmo tempo, aumenta a instabilidade para trabalhadores, cidades e economias nacionais. Assim, a globalização comprime o espaço, mas não elimina as desigualdades nele inscritas.
Essas três leituras permitem compreender a globalização como processo histórico, rede técnica e reorganização do espaço-tempo. Ela é histórica porque resulta da expansão do capitalismo; é técnica porque depende de infraestruturas, transportes, telecomunicações e informática; e é territorial porque produz lugares integrados, subordinados, marginalizados ou estratégicos.
3. As fases da globalização
O início da globalização pode ser interpretado, em uma perspectiva histórica ampla, como resultado da expansão marítima europeia dos séculos XV e XVI, quando as Grandes Navegações inauguraram uma integração mais sistemática entre Europa, África, América e Ásia. Embora o termo “globalização” seja mais recente e costume ser associado ao final do século XX, muitos autores defendem que suas raízes estão na formação do mercado mundial, no colonialismo, na circulação transoceânica de mercadorias, metais preciosos, pessoas escravizadas, técnicas, plantas, doenças, capitais e informações.
Nesse sentido, a globalização não deve ser vista como um acontecimento único, mas como um processo histórico de longa duração. Fernand Braudel, ao analisar a economia-mundo, mostrou que o capitalismo europeu se expandiu progressivamente por meio de redes comerciais, centros financeiros, portos, rotas marítimas e hierarquias territoriais. Para Braudel, a economia mundial moderna foi sendo construída por camadas sucessivas de trocas, nas quais certas cidades e regiões passaram a comandar circuitos comerciais cada vez mais amplos. Essa leitura permite compreender que a globalização possui uma origem anterior à internet, aos satélites e às empresas transnacionais: ela nasce da formação de um mundo conectado pelo comércio marítimo e pela expansão capitalista.
Também Immanuel Wallerstein, ao formular a teoria do sistema-mundo moderno, interpreta o século XVI como momento decisivo para a formação de uma economia capitalista de alcance mundial. Para o autor, a expansão europeia criou uma divisão internacional do trabalho entre áreas centrais, periféricas e semiperiféricas. As regiões centrais concentravam maior poder político, militar, financeiro e tecnológico, enquanto as periferias eram incorporadas como fornecedoras de matérias-primas, metais preciosos, produtos tropicais e força de trabalho explorada. Assim, desde sua origem, a integração mundial esteve marcada por desigualdades estruturais.
Essa perspectiva também dialoga com Karl Marx e Friedrich Engels, que, no Manifesto Comunista, já apontavam que a burguesia, impulsionada pela necessidade de ampliar mercados, dava um caráter cosmopolita à produção e ao consumo. Para Marx, o capitalismo tende a romper barreiras locais e nacionais, expandindo-se em busca de matérias-primas, mercados consumidores e novas possibilidades de acumulação. Isso significa que a globalização, em sua base histórica, está ligada à própria dinâmica expansiva do capitalismo.
Entretanto, é com as Revoluções Industriais que esse processo se intensifica de maneira decisiva. As Grandes Navegações criaram as primeiras conexões planetárias regulares, mas a industrialização aumentou enormemente a velocidade, a escala e a densidade dessas conexões.
4. Globalização, revoluções industriais e integração tecnológica
A intensificação da globalização está diretamente associada às transformações tecnológicas das revoluções industriais. Cada revolução industrial ampliou a capacidade humana de produzir, transportar, comunicar e controlar territórios. Por isso, a globalização não pode ser explicada apenas pela vontade política dos Estados ou pela expansão das empresas. Ela dependeu de bases técnicas que permitiram reduzir custos, acelerar fluxos e coordenar atividades em escala mundial.
A Primeira Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no final do século XVIII, introduziu a máquina a vapor, a mecanização têxtil, a mineração de carvão e a produção fabril. Esse processo ampliou a produção de mercadorias e exigiu novos mercados consumidores e fornecedores de matérias-primas. A industrialização europeia intensificou a integração entre metrópoles e colônias, reforçando relações desiguais de troca. O mundo passou a ser organizado de forma mais intensa em função das necessidades da indústria.
A Segunda Revolução Industrial, no final do século XIX e início do século XX, aprofundou essa integração com o uso da eletricidade, do petróleo, do aço, do motor a combustão, do telégrafo, do telefone, das ferrovias e dos navios modernos. Foi o período do imperialismo, da expansão das potências industriais e da disputa por colônias na África e na Ásia. O capitalismo industrial passou a operar em escala ainda mais ampla, articulando bancos, indústrias, Estados e impérios coloniais.
A Terceira Revolução Industrial, também chamada de revolução técnico-científica, ganhou força após a Segunda Guerra Mundial e se acelerou a partir dos anos 1970. Ela envolveu informática, robótica, telecomunicações, satélites, automação, química fina, biotecnologia e novos materiais. Essa fase permitiu a fragmentação espacial da produção. Uma empresa poderia projetar um produto em um país, fabricar componentes em outro, montar em um terceiro e vender em escala mundial. Essa capacidade foi decisiva para a formação das cadeias globais de valor.
A Quarta Revolução Industrial, conceito associado ao avanço recente da inteligência artificial, big data, internet das coisas, computação em nuvem, impressão 3D, plataformas digitais e automação avançada, aprofunda a interdependência mundial, mas também produz novas disputas. A tecnologia passa a ser um campo estratégico de poder. Semicondutores, minerais críticos, infraestrutura digital, cabos submarinos, satélites e sistemas de inteligência artificial tornam-se elementos geopolíticos. Por isso, a globalização contemporânea não é apenas comercial; ela é também tecnológica e informacional.
Essas revoluções industriais produziram o que David Harvey chamou de compressão espaço-tempo. O tempo necessário para deslocar mercadorias, capitais e informações diminuiu drasticamente. O espaço não desapareceu, mas passou a ser organizado por redes mais rápidas e seletivas. Portos, aeroportos, centros financeiros, parques tecnológicos, zonas industriais, plataformas logísticas e cidades globais tornaram-se pontos estratégicos da economia mundial.
5. Desconcentração industrial, Ásia e aumento das trocas globais
A partir dos anos 1970, o capitalismo passou por uma profunda reestruturação produtiva. A crise do modelo fordista, a elevação dos custos trabalhistas nos países centrais, a concorrência internacional, a crise do petróleo, a automação e a busca por maior flexibilidade levaram muitas empresas ocidentais a deslocar parte de suas atividades industriais para outros territórios. Esse processo é conhecido como desconcentração industrial ou relocalização produtiva.
Durante boa parte do século XX, a indústria esteve fortemente concentrada nos países centrais, especialmente Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Japão. Porém, a partir das últimas décadas do século, empresas passaram a transferir etapas da produção para países que ofereciam vantagens locacionais. Entre essas vantagens estavam salários mais baixos, legislação trabalhista mais flexível, incentivos fiscais, terrenos baratos, menor custo ambiental, disciplina fabril, proximidade de portos, estabilidade política relativa e políticas estatais voltadas para exportação.
Nesse contexto, países asiáticos passaram a ocupar posição central. Os chamados Tigres Asiáticos — Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura — desenvolveram estratégias de industrialização voltadas para exportação, combinando investimento estatal, educação técnica, infraestrutura, atração de capitais e integração ao comércio mundial. Posteriormente, outros países do Sudeste Asiático, como Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, também se integraram a cadeias produtivas globais.
A China tornou-se o caso mais expressivo. A partir das reformas iniciadas por Deng Xiaoping no final dos anos 1970, o país criou Zonas Econômicas Especiais, atraiu investimento estrangeiro, ofereceu mão de obra abundante e barata, investiu pesadamente em infraestrutura e desenvolveu uma política industrial de longo prazo. Com isso, transformou-se em uma grande plataforma manufatureira mundial. Inicialmente, recebeu etapas intensivas em trabalho, como montagem de produtos eletrônicos, têxteis e bens de consumo. Com o tempo, avançou para setores de maior valor agregado, como telecomunicações, energia renovável, inteligência artificial, veículos elétricos e semicondutores.
Esse deslocamento industrial aumentou as trocas comerciais globais porque fragmentou a produção. Um mesmo produto passou a cruzar fronteiras várias vezes antes de chegar ao consumidor final. Peças, componentes, máquinas, design, software, montagem e distribuição passaram a ser distribuídos em diferentes países. Assim, a globalização industrial não significou apenas vender mais produtos no exterior, mas reorganizar a produção em escala planetária.
Autores como Saskia Sassen ajudam a entender essa nova geografia econômica. As cidades globais passaram a concentrar funções de comando, finanças, consultoria, publicidade, tecnologia e gestão corporativa, enquanto muitas atividades industriais foram deslocadas para regiões periféricas ou semiperiféricas. Portanto, a desconcentração industrial não eliminou a concentração de poder. Ela deslocou fábricas, mas manteve sedes empresariais, bancos, centros de pesquisa e decisões estratégicas nos principais centros do capitalismo global.
Esse processo também criou novas dependências. Países que receberam indústrias passaram a depender de exportações, investimentos estrangeiros e cadeias produtivas controladas por grandes empresas transnacionais. Ao mesmo tempo, países centrais enfrentaram desindustrialização relativa, perda de empregos industriais, enfraquecimento de sindicatos e crescimento de ressentimentos sociais. Esse quadro ajuda a explicar parte da reação nacionalista e protecionista observada no século XXI.
6. Globalização e neoliberalismo
A globalização contemporânea está profundamente relacionada ao neoliberalismo. Embora não sejam sinônimos, os dois processos se reforçaram mutuamente a partir dos anos 1970 e 1980. O neoliberalismo é uma doutrina econômica e política que defende a redução da intervenção estatal direta na economia, a privatização de empresas públicas, a abertura comercial, a desregulamentação financeira, a flexibilização trabalhista, a austeridade fiscal e a valorização da concorrência de mercado.
A crise do fordismo, a estagflação dos anos 1970, o enfraquecimento do Estado de bem-estar social e a ascensão de governos como os de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, abriram espaço para políticas neoliberais. Posteriormente, instituições como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o chamado Consenso de Washington difundiram essas medidas para países da América Latina, África, Ásia e Europa Oriental.
Na prática, o neoliberalismo favoreceu a globalização ao remover barreiras à circulação de capitais, mercadorias e investimentos. A liberalização financeira permitiu que grandes volumes de dinheiro circulassem rapidamente entre bolsas, bancos, fundos e paraísos fiscais. A abertura comercial reduziu tarifas de importação em muitos países. As privatizações abriram setores estratégicos a empresas transnacionais. A flexibilização trabalhista reduziu custos para o capital. A desregulamentação ampliou a liberdade de ação de bancos e corporações.
Para David Harvey, o neoliberalismo deve ser interpretado não apenas como uma teoria econômica, mas como um projeto político de restauração do poder das classes dominantes. Ao enfraquecer direitos sociais, sindicatos, políticas públicas e controles nacionais sobre o capital, o neoliberalismo ampliou a capacidade de mobilidade das empresas e dos investidores. Em um mundo globalizado, o capital pode pressionar governos com a ameaça de fuga de investimentos, fechamento de fábricas ou deslocamento produtivo.
Essa relação entre globalização e neoliberalismo teve efeitos profundos sobre os territórios. Muitos países passaram a competir para atrair empresas, oferecendo isenções fiscais, infraestrutura, zonas especiais, baixos salários e legislação ambiental menos rígida. Essa competição territorial criou uma espécie de “guerra dos lugares”, na qual cidades, estados e países disputam investimentos privados. Milton Santos criticou esse processo ao mostrar que os territórios passaram a ser subordinados aos interesses de agentes hegemônicos, especialmente grandes corporações e finanças globais.
Ao mesmo tempo, o neoliberalismo produziu contradições sociais. A promessa de crescimento, eficiência e modernização veio acompanhada de desemprego estrutural, precarização do trabalho, desigualdade, informalidade, concentração de renda e fragilização de serviços públicos. Em muitos países, a abertura econômica expôs indústrias nacionais à concorrência externa sem que houvesse políticas consistentes de inovação e proteção social.
Por isso, a globalização neoliberal deve ser entendida como uma forma específica de globalização: aquela comandada pelo mercado financeiro, pelas empresas transnacionais e por organismos econômicos internacionais. Ela não é a única globalização possível, mas foi a forma dominante nas últimas décadas.
7. Globalização e território segundo Milton Santos
Milton Santos é uma referência indispensável para compreender os efeitos territoriais da globalização. Sua crítica não se limita à economia. Ele mostra que a globalização reorganiza o espaço geográfico, altera o uso dos territórios, redefine hierarquias urbanas, cria novas formas de exclusão e produz uma racionalidade técnica voltada aos interesses dos agentes hegemônicos.
Em Por uma outra globalização, Santos propõe uma distinção fundamental entre três formas de compreender o fenômeno: a globalização como fábula, a globalização como perversidade e a possibilidade de uma outra globalização.
A globalização como fábula corresponde ao discurso ideológico que apresenta a integração mundial como um processo benéfico, inevitável e universal. Segundo essa visão, o mundo estaria se tornando uma aldeia global, as fronteiras estariam perdendo importância, todos teriam acesso às mesmas oportunidades e a tecnologia aproximaria igualmente os povos. Para Milton Santos, essa narrativa é uma fábula porque oculta as desigualdades reais. A informação circula globalmente, mas não é igualmente produzida por todos. O consumo é apresentado como universal, mas o acesso à renda é desigual. A técnica parece disponível para todos, mas é controlada por poucos.
A globalização como perversidade é a globalização realmente existente, marcada por desemprego, pobreza, concentração de renda, competitividade agressiva, enfraquecimento de solidariedades e subordinação dos territórios aos interesses do capital. Santos observa que a mesma técnica capaz de aproximar a humanidade é usada para ampliar desigualdades. A informação, em vez de promover emancipação, muitas vezes serve à publicidade, ao consumo e ao controle. A fluidez dos capitais contrasta com a imobilidade dos pobres. As empresas circulam, mas trabalhadores migrantes enfrentam fronteiras, muros, discriminação e precariedade.
Essa crítica é especialmente importante para a Geografia. A globalização não atinge todos os lugares da mesma maneira. Ela seleciona os territórios úteis ao capital e abandona ou marginaliza os que não interessam à acumulação. Lugares com infraestrutura, portos, aeroportos, fibra óptica, universidades, mão de obra qualificada e estabilidade institucional tendem a ser mais valorizados. Já territórios sem essas condições podem ser integrados apenas de forma subordinada, como áreas de extração mineral, fronteiras agrícolas, zonas de mão de obra barata ou espaços de descarte ambiental.
Milton Santos também destaca a diferença entre espaços luminosos e espaços opacos. Os espaços luminosos são aqueles mais densamente conectados às redes técnicas e econômicas da globalização. Neles se concentram investimentos, informações, infraestrutura e comando. Os espaços opacos são aqueles menos integrados, mais esquecidos ou subordinados, onde a técnica chega de modo parcial e desigual. Essa distinção ajuda a compreender por que a globalização cria modernização seletiva. Um país pode ter centros financeiros avançados e, ao mesmo tempo, regiões marcadas por pobreza, informalidade e ausência de serviços básicos.
No entanto, Milton Santos não propõe apenas uma denúncia. Ao falar em uma outra globalização, ele indica a possibilidade de usar as mesmas bases técnicas da integração mundial para fins mais democráticos, solidários e humanos. A informação, a ciência, os transportes e as comunicações poderiam servir à cooperação entre povos, à redução das desigualdades, à valorização das culturas locais e à construção de uma cidadania planetária. O problema, portanto, não está na existência da técnica, mas no uso político e econômico que se faz dela.
Essa leitura continua atual. A internet, por exemplo, pode ampliar o acesso ao conhecimento, mas também pode concentrar poder em grandes plataformas digitais. A logística global pode distribuir alimentos, mas também pode fortalecer cadeias controladas por corporações. A inteligência artificial pode auxiliar políticas públicas, mas também pode ampliar a vigilância, o desemprego estrutural e a concentração de riqueza. A crítica de Milton Santos permanece fundamental porque questiona quem controla a globalização, quem se beneficia dela e quem paga seus custos.
8. Movimentos anti-globalização, nacionalismos e crise da integração
Nas últimas décadas, a globalização passou a enfrentar reações políticas crescentes. Parte dessas reações surgiu de movimentos sociais críticos ao neoliberalismo, à desigualdade global, à atuação de organismos internacionais e ao poder das corporações. Outra parte, porém, assumiu forma nacionalista, conservadora, xenófoba ou protecionista, defendendo o fechamento de fronteiras, a redução da imigração, a retomada da soberania econômica e a crítica a blocos regionais de integração.
É importante distinguir esses campos. Os movimentos alterglobalização, como os que se expressaram no Fórum Social Mundial, criticavam a globalização neoliberal, mas defendiam formas alternativas de cooperação internacional, justiça social, direitos humanos e sustentabilidade. Já os movimentos anti-integração nacionalistas tendem a culpar imigrantes, acordos comerciais, organismos supranacionais e elites cosmopolitas pelos problemas sociais internos. Em vez de propor uma globalização mais democrática, defendem a restauração de fronteiras rígidas e políticas econômicas protecionistas.
O Brexit é um dos exemplos mais importantes. A saída do Reino Unido da União Europeia, decidida por referendo em 2016 e formalizada em 2020, expressou uma combinação de insatisfação econômica, nacionalismo, crítica à burocracia europeia, rejeição à imigração e promessa de recuperação da soberania. O slogan político da campanha favorável à saída defendia que o Reino Unido retomaria o controle de suas leis, fronteiras e recursos. No entanto, estudos posteriores apontaram custos econômicos significativos. A House of Commons Library destaca que a relação comercial entre Reino Unido e União Europeia mudou fundamentalmente após o Brexit, enquanto análises econômicas recentes estimam impactos negativos sobre PIB, investimento, emprego e produtividade.
O caso britânico mostra que a crítica à globalização pode expressar problemas reais, como desigualdade regional, perda de empregos industriais e sensação de abandono em áreas periféricas. Contudo, também pode ser capturada por discursos simplificadores, que atribuem a culpa exclusivamente a estrangeiros, migrantes ou instituições externas, sem enfrentar as causas estruturais da desigualdade.
Outro exemplo atual é o retorno do protecionismo tarifário nos Estados Unidos sob Donald Trump. A política comercial chamada de “America First” defende tarifas, renegociação de acordos, pressão sobre parceiros comerciais e uso da política comercial como instrumento geopolítico. O relatório de política comercial dos Estados Unidos de 2026 registra ações voltadas a sustentar essa orientação “America First” em 2025. Em 2026, reportagens da Reuters indicaram a continuidade das tensões comerciais com a China, envolvendo tarifas, sanções, tecnologia, minerais críticos e cadeias estratégicas. Também houve ameaças de elevação de tarifas sobre veículos europeus, o que reforça a instabilidade das relações comerciais entre Estados Unidos e União Europeia.
Essas medidas mostram que a globalização entrou em uma fase mais conflitiva. O livre-comércio, que foi apresentado durante décadas como destino inevitável da economia mundial, passou a conviver com políticas de segurança econômica, nacionalismo industrial, subsídios, tarifas, sanções e disputas por tecnologia. A China, por sua vez, também busca reduzir dependências externas, fortalecer seu mercado interno, controlar tecnologias estratégicas e ampliar sua influência em regiões como Ásia, África e América Latina.
A globalização, portanto, não acabou. O comércio mundial continua expressivo, as cadeias produtivas continuam integradas e os fluxos digitais cresceram ainda mais. No entanto, ela está sendo reorganizada. A UNCTAD observou, em 2026, que as tarifas aumentaram fortemente em 2025, embora as barreiras não tarifárias representem custos ainda maiores para a maioria dos países. Isso significa que o mundo não voltou simplesmente ao protecionismo clássico do século XX, mas entrou em uma fase de globalização fragmentada, marcada por disputas regulatórias, barreiras técnicas, controles tecnológicos, sanções financeiras e reorientação de cadeias produtivas.
Esse cenário também revela a permanência dos Estados nacionais. Durante os anos 1990, muitos discursos afirmavam que o Estado estava perdendo importância diante do mercado global. Hoje, as disputas por vacinas, energia, semicondutores, inteligência artificial, alimentos, minerais críticos e defesa mostram o contrário. Os Estados continuam sendo agentes centrais, mas atuam em um ambiente de interdependência muito mais complexo.
Para os países periféricos e semiperiféricos, como o Brasil, esse novo momento traz desafios importantes. A globalização pode abrir mercados para commodities agrícolas, minerais e produtos industriais, mas também pode reforçar a dependência tecnológica e a reprimarização da pauta exportadora. O Brasil é uma potência agroexportadora e ambiental, possui biodiversidade, recursos hídricos, energia renovável e capacidade científica, mas precisa evitar uma inserção subordinada baseada apenas na exportação de bens primários. A questão estratégica é transformar vantagens naturais e territoriais em desenvolvimento tecnológico, industrialização sustentável, soberania científica e redução das desigualdades.
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