GABARITO – SIMULADO 1 – PROJETO UERJ 2027 1EQ
1 – D
O overturismo (ou “turistificação”) acontece quando o volume de visitantes ultrapassa a capacidade de um lugar de absorver esse fluxo sem perder qualidade de vida, equilíbrio urbano e sustentabilidade econômica. Em cidades como Barcelona e Amsterdã, o fenômeno não é apenas “muita gente na rua”: ele reconfigura o funcionamento da cidade, porque o turismo deixa de ser uma atividade complementar e passa a disputar moradia, serviços, infraestrutura e espaço público com quem vive ali o ano inteiro. O ponto mais sensível costuma ser a habitação. Em áreas centrais e historicamente valorizadas — como bairros turísticos, zonas próximas a atrações e regiões bem conectadas por transporte — ocorre um aumento forte da demanda por imóveis. Parte dessa demanda é direta (turistas que querem se hospedar bem localizados), e parte é indireta (investidores e proprietários percebendo que é mais rentável “conversar” com o turismo do que com o aluguel residencial). Quando a cidade atrai muitos visitantes, o imóvel deixa de ser visto apenas como moradia e passa a ser também um ativo turístico. É aí que entram os aplicativos de estadia por temporada. Eles tornam mais fácil e lucrativo transformar apartamentos antes residenciais em hospedagem de curto prazo. A demanda por moradia continua regular, enquanto a oferta de imóveis para moradia decresce. Dentro da lógica mercantil, o valor dos imóveis tende a subir, expulsando indiretamente as populações locais. Além disso, há um efeito de “contágio” nos preços. Mesmo imóveis que não viraram hospedagem por temporada passam a ter o aluguel reajustado para cima, porque os proprietários usam o patamar do turismo como referência de rentabilidade (“se eu posso ganhar X com temporada, por que alugaria por menos no longo prazo?”). Some a isso a presença de compradores/investidores que adquirem imóveis já pensando em renda turística, e você cria um ciclo: mais conversão para temporada → menos moradia residencial → maior competição entre moradores → reajustes mais agressivos.
2 – A
A terceirização consiste na transferência de determinadas atividades de uma empresa para outra, que passa a contratar formalmente os trabalhadores responsáveis por aquele serviço. Embora seja frequentemente apresentada como estratégia de eficiência produtiva e redução de custos, esse modelo tende a fragilizar as relações laborais porque rompe o vínculo direto entre empregado e empresa que efetivamente se beneficia de seu trabalho. Quando o trabalhador não é contratado pela empresa principal, mas por uma intermediária, sua capacidade de reivindicar direitos, negociar salários ou denunciar irregularidades torna-se menor, pois a responsabilidade patronal fica diluída entre diferentes agentes econômicos. Esse distanciamento institucional enfraquece a organização coletiva, dificulta a sindicalização e reduz o poder de barganha, já que trabalhadores terceirizados costumam estar distribuídos em múltiplas empresas prestadoras, e não concentrados em um único empregador. Além disso, estudos sobre mercado de trabalho mostram que terceirizados, em média, recebem salários menores, têm jornadas mais longas e apresentam maior rotatividade e menor estabilidade contratual. Isso ocorre porque empresas terceirizadas competem entre si oferecendo serviços mais baratos, o que frequentemente se traduz em redução de custos trabalhistas. Como consequência, a terceirização pode estimular processos de precarização, caracterizados por vínculos mais frágeis, menos benefícios e maior vulnerabilidade ao desemprego. Portanto, quando uma questão aponta que a terceirização impacta negativamente o mundo do trabalho, a interpretação adequada é que ela contribui para o enfraquecimento das garantias laborais e da proteção social dos trabalhadores, ao tornar as relações de emprego mais indiretas, instáveis e assimétricas em termos de poder entre capital e trabalho.
3 – B
A política descrita no enunciado corresponde à Doutrina Monroe (1823), formulada no contexto em que os EUA buscavam impedir que as potências europeias retomassem projetos de recolonização ou de intervenção política nas recém-independentes nações americanas. O princípio central era: o continente americano não deveria voltar a ser objeto de expansão colonial europeia, e qualquer tentativa nesse sentido seria interpretada como ameaça à segurança norte-americana. Na prática, essa ideia organizou uma visão de hemisfério em que os EUA se colocavam como garantidores (e, com o tempo, também como árbitros) da ordem regional — o que ajuda a entender por que, ao longo dos séculos XIX e XX, a doutrina foi frequentemente mobilizada para legitimar pressões diplomáticas, intervenções e tutela política no Caribe e na América Central, especialmente quando interesses estratégicos e econômicos norte-americanos eram acionados.
Para conectar com a atualidade: embora a Doutrina Monroe tenha nascido como um recado “anti-Europa”, ela acabou virando um vocabulário político recorrente para justificar a ideia de que a América Latina estaria dentro de uma “zona de influência” privilegiada dos EUA. Um exemplo recente é a operação promovida por Donald Trump em 3 de janeiro de 2026. Alegando que o presidente venezuelano era considerado um perigo para os EUA, forças militares estadunidenses invadiram a Venezuela e sequestraram Nicolás Maduro.
4 – D
O aumento dos investimentos na navegação de cabotagem possui um papel estratégico na redução dos custos logísticos brasileiros, especialmente ao considerar que o Brasil é um país historicamente rodoviarista, onde a dependência do transporte por caminhões encarece a movimentação de mercadorias em longas distâncias. Um dos principais fatores de viabilidade desse investimento é a distribuição geográfica nacional, uma vez que a grande maioria da população e dos centros industriais e de consumo está concentrada na faixa litorânea ou em áreas próximas a ela. Isso permite que o modal marítimo conecte os principais mercados produtores e consumidores de forma direta, minimizando o deslocamento terrestre e otimizando a cadeia de suprimentos. Em termos quantitativos, um único navio porta-contêineres tem capacidade para transportar uma carga equivalente à de centenas de caminhões simultaneamente. Essa concentração de volume resulta em um custo de energia e combustível por tonelada transportada significativamente menor, visto que a eficiência energética dos motores marítimos supera largamente a dos motores a combustão de veículos pesados.
5 – C
O conceito de terrorismo de Estado refere-se ao uso sistemático da violência, da coação e da intimidação por parte do governo ou de instituições estatais contra a sua própria população. Diferente do terrorismo praticado por grupos civis ou organizações isoladas, aqui o “terror” é uma ferramenta de gestão política. No caso do Chile de Pinochet citado no texto, isso se manifesta através da violência institucionalizada, onde o aparato público — como as Forças Armadas e polícias secretas (como a DINA) — é desviado de sua função de proteção para ser utilizado na eliminação da dissidência política.
Essa prática se caracteriza pela suspensão de garantias individuais e pelo uso de métodos como tortura, sequestros (desaparecimentos forçados) e assassinatos em centros clandestinos de detenção, como os mencionados Villa Grimaldi e Londres 38. O objetivo central do terrorismo de Estado é paralisar a sociedade civil através do medo, impedindo qualquer forma de oposição ou resistência. No contexto das ditaduras militares da América Latina, essa estratégia foi fundamentada pela Doutrina de Segurança Nacional, que tratava o opositor político interno não como um cidadão com direitos, mas como um “inimigo da pátria” que deveria ser aniquilado para a preservação da ordem estabelecida.
6 – A
O texto deixa claro que: “os territórios localizados em latitudes mais elevadas aparecem de forma superdimensionada”, ou seja, sofrem maiores distorções de tamanho. Dentre as opções apresentadas, o território mais próximo do Equador (menor latitude) é o de Cuba. O candidato precisava ter mínima noção de localização dos países e saber que a latitude aumenta conforme há um distanciamento da Linha do Equador. No caso da questão, a Groenlândia seria o território com maior latitude e, por isso, o que é superdimensionado.
7 – D
O movimento tenentista, ocorrido na década de 1920, representou uma série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro contra o sistema da República Velha (1889-1930). A alternativa correta é a D, pois o movimento foi impulsionado pelo profundo distanciamento entre o poder central e as demandas populares, uma vez que o governo era controlado por oligarquias agrárias (política do café com leite) que utilizavam o “voto de cabresto” e fraudes eleitorais para se manterem no poder, ignorando as necessidades de modernização e justiça social da crescente população urbana e das classes médias. Os “tenentes” viam-se como uma vanguarda moralizadora capaz de salvar a nação da corrupção institucional, defendendo o voto secreto e a centralização política como formas de romper o domínio regional dos coronéis. O texto de Boris Fausto corrobora essa interpretação ao destacar que o tenentismo não era necessariamente um projeto democrático liberal, mas sim uma reação crítica à estrutura excludente da Primeira República. O movimento expressava o descontentamento militar com a instrumentalização do Estado pelas elites estaduais, que manipulavam o sistema de representação em benefício próprio. Assim, episódios como a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana (1922) e a Coluna Prestes (1925-1927) simbolizaram a tentativa de oficiais subalternos de intervir na política nacional para “sanear” as instituições, evidenciando o esgotamento de um modelo político que não oferecia canais de participação ou resposta aos anseios de transformação da sociedade brasileira da época.
8 – A
O gabarito fundamenta-se na compreensão de que os deslizamentos e soterramentos em áreas de encosta são fenômenos geológicos intensificados pela ação humana inadequada sobre o meio ambiente. A ocupação desordenada e sem planejamento urbano empurra as construções para áreas de risco, onde o corte das encostas e a retirada da cobertura vegetal original eliminam a proteção natural do terreno. Quando o desmatamento ocorre, o solo perde a sustentação das raízes e fica exposto ao impacto direto da água; somado a isso, a utilização de materiais impermeáveis (como asfalto e concreto das habitações) impede que a água da chuva penetre no solo de forma distribuída, concentrando o fluxo e aumentando a pressão hidráulica. Esses fatores, em conjunto, reduzem a drenagem natural do solo, fazendo com que ele se encharque rapidamente durante períodos de chuvas intensas ou prolongadas. Conforme explicado no texto, o acúmulo de água aumenta o peso da massa de terra e reduz o atrito entre as camadas do subsolo, o que, sob a força da gravidade, desencadeia os deslizamentos. Portanto, a inexistência ou a deficiência de sistemas de drenagem artificial (como calhas, canaletas e redes de escoamento) impossibilita a retirada do excesso de água, tornando essas áreas extremamente vulneráveis a desastres naturais e soterramentos.
9 – A
O New Deal, implementado pelo presidente Franklin D. Roosevelt a partir de 1933, representou uma ruptura drástica com o paradigma do Liberalismo Clássico (o laissez-faire), que acreditava na capacidade de autorregulação do mercado. A Crise de 1929 demonstrou que a ausência de controle estatal poderia levar ao colapso sistêmico, resultando em desemprego em massa e falência da produção. Para reverter esse cenário, o governo estadunidense assumiu um papel de agente ativo na economia, utilizando o gasto público como motor para reaquecer o consumo e a indústria. Essa mudança de postura fundamentou-se nos princípios do Keynesianismo, teoria econômica desenvolvida por John Maynard Keynes. Keynes argumentava que, em momentos de recessão, o Estado deveria intervir por meio de investimentos em obras públicas, concessão de subsídios e regulação do sistema financeiro para garantir o pleno emprego. Ao criar frentes de trabalho e injetar dinheiro na economia, o governo estimulava a demanda agregada: com salários no bolso, a população voltava a consumir, o que, por sua vez, incentivava as empresas a produzir e contratar novamente, gerando um ciclo virtuoso de crescimento. Além da recuperação econômica imediata, o New Deal lançou as bases para o Estado de Bem-Estar Social (Welfare State) nos Estados Unidos. Pela primeira vez, o governo assumiu a responsabilidade pela proteção social do cidadão, criando leis de salário mínimo, seguro-desemprego e sistemas de previdência social. Essa transição significou que o Estado não era mais apenas um “vigilante” das regras de mercado, mas o garantidor de condições mínimas de dignidade e segurança econômica, transformando profundamente a relação entre o poder público e a sociedade civil no século XX.
10 – C
A diferença fundamental entre as duas imagens está relacionada ao grau de tecnificação, planejamento e de infraestrutura incorporados ao espaço urbano. A primeira representação mostra um núcleo organizado segundo princípios técnicos de urbanismo, com vias estruturadas, traçado regular e centralidade definida, evidenciando a presença de planejamento estatal e/ou privado, engenharia urbana e investimentos em infraestrutura. Já a segunda revela uma ocupação espontânea, marcada por autoconstrução e ausência de ordenamento formal, característica de áreas que se expandem sem acesso pleno a recursos técnicos e políticas públicas. As favelas apresentam um crescimento conhecido como “ocupação orgânica”, termo que se refere justamente à falta de planejamento territorial.
11 – C
O texto de Edward Said destaca que a expansão colonial não se baseou apenas na força física, mas em um discurso legitimador conhecido como “missão civilizatória”. Esse conceito sustentava que a Europa, por se considerar o ápice do desenvolvimento humano, teria o “dever moral” de levar o progresso, o cristianismo e a educação aos povos africanos e asiáticos, vistos como “atrasados” ou “selvagens”. Essa visão é uma aplicação direta do Darwinismo Social, uma transposição equivocada das leis da evolução biológica de Charles Darwin para as sociedades humanas. Segundo essa teoria pseudocientífica, haveria uma hierarquia entre as raças, na qual a “raça branca europeia” seria naturalmente superior e, portanto, estaria destinada a dominar e organizar as demais. Dessa forma, a ideia de supremacia racial no contexto imperialista foi utilizada para mascarar a exploração econômica e a dominação política sob um manto de benevolência e ciência. O Darwinismo Social serviu como a ferramenta ideológica perfeita para justificar o racismo e a destruição de culturas locais, uma vez que tratava a desigualdade entre as nações não como fruto de processos históricos ou políticos, mas como uma inevitabilidade biológica. A Conferência de Berlim, mencionada no texto, institucionalizou essa lógica ao partilhar o continente africano entre as potências europeias sem qualquer consulta aos povos nativos, tratando o território como um espaço vazio de civilização que precisava ser “reorganizado” pelo homem branco.
12 – B
O modelo de ocupação do campo brasileiro é historicamente marcado pela concentração de terras, uma característica que remonta ao início da colonização. Esse processo teve origem no sistema de Capitanias Hereditárias, que dividiu o território em imensos lotes doados a poucos donatários, e consolidou-se com o regime de Sesmarias, que distribuía terras apenas a quem tivesse recursos para explorá-las. Mesmo após a independência, a Lei de Terras de 1850 reforçou essa desigualdade ao determinar que o acesso à terra só poderia ocorrer via compra e venda, impedindo que imigrantes e ex-escravizados se tornassem proprietários, mantendo o poder nas mãos das elites agrárias. No contexto da modernização agrícola mencionada no texto, observa-se que os avanços tecnológicos não romperam com esse passado latifundiário. Pelo contrário, a mecanização intensa, o uso de fertilizantes químicos e as biotecnologias demandam um alto capital de investimento. Isso elevou drasticamente o custo para o pequeno produtor, que, sem subsídios ou crédito facilitado, muitas vezes acaba vendendo sua propriedade para grandes grupos do agronegócio por não conseguir competir em escala ou preço. Portanto, o desenvolvimento tecnológico no campo brasileiro tendeu a favorecer os grandes estabelecimentos rurais voltados à exportação (commodities), aprofundando a exclusão do pequeno agricultor e resultando na manutenção da estrutura fundiária tradicional. O resultado é um cenário onde a produtividade aumenta, mas a terra permanece concentrada em poucas mãos, preservando a lógica colonial de exclusão que define o espaço rural brasileiro há séculos.
13 – C
O conceito de patrimônio imaterial (ou intangível) refere-se às práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que comunidades e grupos reconhecem como parte integrante de sua herança cultural. Diferente do patrimônio material — composto por bens tangíveis como monumentos, prédios históricos e sítios arqueológicos —, o imaterial reside no fazer e na transmissão oral ou gestual. Como o texto de Regina Abreu destaca, são “formas vivas” de herança, o que significa que sua existência depende da continuidade da prática social pelos seus detentores. No Brasil, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) organiza esses bens em quatro livros de registro principais para garantir sua salvaguarda: Saberes: Conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano (ex: o modo artesanal de fazer queijo de Minas); Celebrações: Rituais e festas que marcam o tempo e a religiosidade (ex: o Círio de Nazaré ou o Bumba Meu Boi); Formas de Expressão: Manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas (ex: o Frevo e o Cordel); e Lugares: Espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas (ex: Feira de Caruaru em Pernambuco e o Mercado Ver-o-peso no Pará). A classificação dessas manifestações como patrimônio imaterial é fundamental para políticas públicas que buscam preservar a memória e a identidade de grupos sociais, especialmente aqueles historicamente marginalizados, garantindo que suas tradições não desapareçam com a modernização ou a padronização cultural.
14 – A
O governo de Jair Bolsonaro, iniciado em 2019, foi marcado por forte negacionismo científico (como, por exemplo, no caso das vacinas). Negacionismo climático é a postura de rejeitar, minimizar ou distorcer o consenso científico sobre as mudanças climáticas e suas causas, especialmente o papel das atividades humanas — como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento — no aquecimento global. Trata-se de negar evidências científicas consolidadas ou questionar a legitimidade da ciência climática, mesmo quando há ampla concordância entre especialistas e instituições científicas internacionais. Alguns exemplos: Questionamento seletivo de dados científicos; Uso de argumentos sem base empírica sólida; Disseminação de desinformação; Apelo a discursos políticos ou ideológicos em vez de evidências. Os Países doadores cortaram o fundo por não acreditar que o investimento seria feito em prol do meio ambiente.