Este gabarito é referente ao segundo Simulado UERJ para o 2º EQ
Questão 1: [A]
O mecanismo previsto no artigo 183 da Constituição Federal é a usucapião especial urbana, instrumento de regularização fundiária que permite a aquisição da propriedade de uma área urbana privada de até 250 m² por quem a possui, de forma contínua e sem oposição, durante pelo menos cinco anos, utilizando-a para sua própria moradia ou de sua família e desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. Esse dispositivo relaciona-se ao princípio da função social da propriedade urbana. A Constituição não considera a propriedade apenas como um direito patrimonial individual, mas estabelece que seu uso deve cumprir determinadas finalidades sociais. Nesse sentido, a permanência prolongada de uma família em imóvel utilizado efetivamente como moradia pode gerar o reconhecimento jurídico da propriedade quando preenchidos os requisitos constitucionais. A medida também possui importância para a regularização fundiária urbana, pois permite transformar determinadas situações de posse consolidadas em propriedade formal. Isso amplia a segurança jurídica dos moradores e constitui um instrumento de enfrentamento das desigualdades relacionadas ao acesso à terra urbana e à moradia. A alternativa (B) está incorreta, porque o direito de superfície permite que o proprietário conceda a outra pessoa o direito de utilizar o solo, o subsolo ou o espaço aéreo de seu terreno nas condições estabelecidas em contrato ou legislação. Não ocorre, portanto, aquisição da propriedade pelo simples exercício prolongado da posse. A alternativa (C) está incorreta, pois a preferência aquisitiva corresponde ao direito de determinada pessoa ter prioridade na compra de um imóvel em certas situações jurídicas. Não constitui mecanismo de aquisição da propriedade decorrente da posse continuada. A alternativa (D) está incorreta, porque a desapropriação sancionatória decorre da atuação do poder público diante do descumprimento da função social da propriedade, dentro das condições previstas na política urbana. Nesse caso, a transferência da propriedade resulta de intervenção estatal, e não da posse residencial exercida por um indivíduo durante cinco anos.
Questão 2: [C]
A alternativa C está correta porque a Noite dos Cristais evidencia a utilização da perseguição a um grupo definido como inimigo para promover a exclusão social e reforçar a unidade em torno do projeto nazista. O regime de Adolf Hitler construiu uma visão racial e hierarquizada da sociedade, apresentando os judeus como uma ameaça à comunidade nacional. A mobilização de setores da população, associada à ação e à omissão deliberada das autoridades, demonstra que a perseguição não se restringia a iniciativas individuais, mas fazia parte de uma política de Estado. Nesse sentido, a xenofobia — entendida, no contexto nazista, como hostilidade e exclusão de grupos considerados estrangeiros ou indesejáveis — funcionava como instrumento de identificação de um “inimigo” interno, contribuindo para a coesão do grupo definido pelo regime como pertencente à comunidade nacional. A alternativa A está incorreta porque a censura à imprensa foi, de fato, uma característica dos regimes nazifascistas, mas não é o aspecto central evidenciado pelo episódio apresentado. O texto destaca a perseguição e a violência dirigidas contra a população judaica, e não o controle dos meios de comunicação. A alternativa B está incorreta porque a centralização política também caracterizou o nazismo, mas a questão busca identificar a característica diretamente relacionada à perseguição de grupos considerados inimigos. A centralização das instituições não explica, por si só, a violência descrita na Noite dos Cristais. A alternativa D está incorreta porque a uniformização cultural e política foi uma prática importante do nazismo, mas a formulação não contempla especificamente a perseguição de grupos racialmente definidos como indesejáveis, elemento fundamental do episódio apresentado. Assim, C é a alternativa que estabelece a relação mais direta entre o episódio histórico e a utilização da construção de um inimigo interno como instrumento de mobilização e coesão social pelo regime nazista.
Questão 3: [D]
A tendência apresentada pelo Censo Demográfico 2022 indica um processo de envelhecimento da população brasileira, caracterizado pelo aumento da participação relativa dos idosos e pela redução proporcional de crianças e jovens. Esse movimento é resultado, sobretudo, da combinação entre queda das taxas de fecundidade e aumento da expectativa de vida. A continuidade dessa tendência altera a estrutura etária da população e tende a ampliar a pressão sobre o sistema previdenciário, porque cresce o contingente de pessoas em idade de aposentadoria ao mesmo tempo que diminui, proporcionalmente, a entrada de novas gerações na população economicamente ativa. Em sistemas previdenciários baseados fortemente na contribuição dos trabalhadores em atividade para financiar benefícios pagos à população aposentada, essa mudança demográfica pode provocar desequilíbrios entre o número de contribuintes e o de beneficiários. Esse processo também pode elevar os gastos públicos associados à saúde e à assistência social, já que populações mais envelhecidas apresentam maior demanda por cuidados médicos, tratamentos prolongados e políticas específicas de proteção social. Assim, o envelhecimento demográfico produz efeitos que ultrapassam a dimensão populacional e alcançam diretamente a organização econômica e fiscal do Estado. A alternativa (A) está incorreta, pois o êxodo sazonal corresponde a deslocamentos temporários da população, geralmente relacionados ao trabalho ou a atividades econômicas específicas em determinados períodos do ano. Esse fenômeno não decorre diretamente do envelhecimento da estrutura etária. A alternativa (B) está incorreta, porque o saldo migratório resulta da diferença entre o número de pessoas que entram e saem de determinado território. Os dados apresentados tratam da composição etária da população e não dos movimentos migratórios. A alternativa (C) está incorreta, pois a expansão vegetativa corresponde ao crescimento natural da população, determinado pela diferença entre natalidade e mortalidade. A redução da participação de crianças e o envelhecimento populacional indicam justamente uma tendência de diminuição desse crescimento, e não de sua ampliação. A alternativa (D) está correta, porque o aumento proporcional da população idosa, combinado à redução relativa das faixas mais jovens, tende a ampliar a pressão previdenciária, exigindo maior capacidade de financiamento dos sistemas de aposentadoria e proteção social.
Questão 4: [D]
A Revolta da Vacina, em 1904, ocorreu em um contexto marcado por reformas urbanas autoritárias, baixa escolarização e acesso bastante restrito da população às informações científicas sobre imunização. A obrigatoriedade da vacinação, somada à forma coercitiva como a campanha foi conduzida, favoreceu a disseminação de medos e rumores. Durante a pandemia de Covid-19, por outro lado, a sociedade teve amplo acesso a informações produzidas por instituições científicas, órgãos de saúde e meios de comunicação. Ao mesmo tempo, a expansão da internet e das redes sociais também possibilitou a rápida circulação de desinformação, contribuindo para o fortalecimento de movimentos antivacina. Assim, a principal diferença entre os dois contextos não está na existência de resistência às campanhas sanitárias, mas nas condições de acesso e circulação das informações sobre as vacinas, tornando correta a alternativa D. A alternativa A está incorreta porque a Revolta da Vacina foi justamente um episódio de intenso conflito social, envolvendo manifestações populares, confrontos com as forças de segurança e contestação às políticas sanitárias implementadas pelo governo. A alternativa B está incorreta porque campanhas de vacinação já eram realizadas no início do século XX. A vacinação obrigatória contra a varíola foi precisamente o fator que desencadeou a Revolta da Vacina, não sendo uma prática exclusiva do século XXI. A alternativa C está incorreta porque as controvérsias em torno das políticas de imunização não desapareceram. Tanto em 1904 quanto durante a pandemia de Covid-19 houve resistência à vacinação, embora motivada por contextos históricos, formas de comunicação e dinâmicas sociais distintas.
Questão 5: [D]
Nas projeções cônicas em posição normal, o cone entra em contato com o globo ao longo de um ou dois paralelos. As deformações são menores nas proximidades desses paralelos-padrão, geralmente situados nas médias latitudes, aumentando à medida que ocorre o afastamento dessas linhas. Esse modelo é especialmente adequado para territórios com grande extensão longitudinal. A alternativa A está incorreta porque as áreas próximas aos polos ficam afastadas das linhas de contato do cone. A alternativa B está incorreta porque as zonas tropicais se encontram predominantemente em baixas latitudes. A alternativa C está incorreta porque as regiões próximas ao Equador são mais adequadamente representadas por projeções cilíndricas em posição normal.
Questão 6: [C]
A alternativa C está correta porque o texto-base evidencia a associação entre ciência, exploração e uma visão hierarquizada das diferentes sociedades. No contexto do imperialismo europeu do século XIX, o conhecimento científico foi frequentemente apresentado como expressão do progresso e da superioridade da Europa, enquanto outros povos e territórios eram representados como objetos de investigação, classificação e exploração. Nas narrativas de aventura de Júlio Verne, essa perspectiva aparece na valorização da capacidade técnica e científica europeia para conhecer e dominar espaços considerados desconhecidos. Assim, a ciência é apresentada a partir de uma perspectiva etnocêntrica, isto é, tomando os valores e conhecimentos europeus como referência privilegiada para interpretar outras sociedades. A alternativa A está incorreta porque uma concepção universalista pressupõe que o conhecimento científico possui validade geral, independentemente de sua origem cultural. O texto, porém, enfatiza uma perspectiva que estabelece uma hierarquia entre diferentes sociedades e atribui à Europa uma posição de superioridade. A alternativa B está incorreta porque o texto não apresenta a literatura de aventura como necessariamente uma crítica à expansão colonial. Ao contrário, destaca sua relação com um imaginário que podia representar outros territórios como espaços destinados à exploração e ao conhecimento pelos europeus. A alternativa D está incorreta porque o relativismo cultural rejeita a ideia de que uma cultura ou forma de conhecimento possa ser considerada universalmente superior às demais. Essa perspectiva é incompatível com o caráter etnocêntrico apresentado no texto-base. Portanto, a alternativa C é a mais adequada por identificar a associação entre produção científica, perspectiva europeia e hierarquização cultural, característica presente em parte do imaginário intelectual relacionado ao imperialismo do século XIX.
Questão 7: [D]
O primeiro texto apresenta a ação contra o governo venezuelano como defesa da liberdade diante de uma ditadura. O segundo mostra a manutenção de relações próximas com a Arábia Saudita, uma monarquia absoluta, em função de investimentos de grande valor. A diferença de tratamento demonstra que os critérios adotados não dependem exclusivamente da natureza democrática dos regimes, mas dos benefícios materiais oferecidos pelas relações bilaterais. A classificação da Arábia Saudita como monarquia absoluta é confirmada por documento oficial do governo brasileiro. A alternativa A está incorreta porque a atuação não segue de maneira uniforme valores morais aplicados a todos os governos. A alternativa B está incorreta porque o universalismo pressupõe a adoção dos mesmos princípios diante de situações semelhantes. A alternativa C está incorreta porque a valorização dos interesses nacionais, isoladamente, não explica a aproximação seletiva baseada nos benefícios financeiros apresentados.
Questão 8: [C]
A alternativa C está correta porque a política econômica de Margaret Thatcher, a partir de 1979, representou uma inflexão em relação ao modelo de forte intervenção estatal que havia predominado no Reino Unido no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Influenciado pelo neoliberalismo, o governo buscou reduzir os gastos públicos, limitar a atuação direta do Estado na economia e ampliar o espaço destinado à iniciativa privada e aos mecanismos de mercado. As medidas atingiram diferentes componentes do Estado de bem-estar social, embora não tenham significado a eliminação completa das políticas sociais. Portanto, a alternativa C sintetiza adequadamente a orientação de contenção de gastos e redução da intervenção estatal apresentada no texto-base. A alternativa A está incorreta porque pressupõe a preservação das políticas sociais como objetivo central da reorganização dos gastos. O texto-base, entretanto, destaca justamente a redução das despesas públicas em áreas relacionadas ao bem-estar social, evidenciando uma mudança na atuação do Estado. A alternativa B está incorreta porque, embora a transferência de determinadas atividades para o setor privado seja compatível com a orientação neoliberal, a alternativa associa esse processo à manutenção da proteção social. O texto-base aponta, ao contrário, para medidas de redução dos gastos públicos que afetaram áreas como habitação, saúde e previdência. A alternativa D está incorreta devido ao termo “substituição completa”. O neoliberalismo não implicou a eliminação integral das políticas de proteção social britânicas. Houve redução e reestruturação da atuação estatal, além de privatizações e contenção de gastos, mas o Estado de bem-estar não desapareceu completamente. A palavra “completa”, portanto, torna a alternativa excessiva e historicamente imprecisa. Assim, a C é a alternativa mais adequada por expressar a principal característica da orientação neoliberal apresentada: redução da intervenção estatal, contenção das despesas públicas e maior valorização da iniciativa privada.
Questão 9: [A]
O processo de terceirização tende a reduzir o poder de barganha dos trabalhadores porque fragmenta a relação entre os empregados e a empresa que efetivamente controla a atividade econômica. Em vez de um grande conjunto de trabalhadores negociar diretamente com uma mesma empresa, parte da força de trabalho passa a ser contratada por diferentes empresas prestadoras de serviços. Essa divisão dificulta a organização coletiva e enfraquece a capacidade dos trabalhadores de pressionar por melhores salários e condições de trabalho. Um dos principais efeitos é a fragmentação sindical. Trabalhadores que atuam lado a lado em um mesmo estabelecimento podem pertencer a empresas diferentes, categorias profissionais distintas e até sindicatos diferentes. Dessa forma, torna-se mais difícil organizar assembleias, paralisações e negociações coletivas capazes de atingir diretamente a empresa principal. Além disso, a empresa contratante pode substituir uma prestadora de serviços por outra quando considera os custos elevados. Isso cria uma pressão permanente para que as empresas terceirizadas reduzam despesas a fim de vencer contratos. Como os gastos com mão de obra representam parcela importante desses custos, essa concorrência pode resultar em pressão sobre salários, benefícios e condições de trabalho. A terceirização também pode aumentar a rotatividade. Contratos entre empresas possuem duração determinada e podem ser encerrados ou transferidos para outra prestadora. Para o trabalhador, isso pode significar maior insegurança sobre a manutenção do emprego. Quanto maior a facilidade de substituição da mão de obra, menor tende a ser sua capacidade de exigir aumentos salariais ou melhores condições. Há ainda uma separação entre quem utiliza diretamente o trabalho e quem formalmente emprega o trabalhador. A empresa principal determina, em grande medida, o ritmo e a organização da produção, mas a negociação salarial ocorre com a empresa terceirizada. Essa distância pode dificultar reivindicações, pois a prestadora frequentemente argumenta que seus salários dependem do valor do contrato firmado com a contratante. Em termos econômicos, portanto, o poder de barganha diminui porque o trabalhador passa a enfrentar maior substituibilidade, menor capacidade de organização coletiva e maior insegurança no emprego. Em uma negociação, aquele que possui menos alternativas tende a possuir menor poder. A empresa pode trocar fornecedores ou trabalhadores; o empregado, sobretudo em contextos de desemprego elevado, normalmente possui menos alternativas imediatas de renda.
Questão 10: [D]
A alternativa D está correta porque o governo de Juscelino Kubitschek adotou uma política nacional-desenvolvimentista que combinava investimentos estatais em infraestrutura com a participação de empresas e capitais estrangeiros. No setor automobilístico, essa estratégia favoreceu a instalação de montadoras multinacionais no Brasil, especialmente a partir da criação de condições para a produção de veículos no território nacional. A expansão da rede rodoviária, por sua vez, estava articulada ao projeto de desenvolvimento da indústria automobilística e ao aumento do mercado consumidor de bens duráveis. Assim, o período JK marcou uma importante ampliação da presença do capital estrangeiro na industrialização brasileira, sem que isso significasse abandono da atuação estatal no planejamento econômico. A alternativa A está incorreta porque o processo descrito não correspondeu ao fortalecimento de empresas públicas no setor automobilístico. A indústria automobilística instalada durante o governo JK contou principalmente com a participação de empresas multinacionais, enquanto o Estado atuou na criação das condições de infraestrutura e financiamento necessárias à industrialização. A alternativa B está incorreta porque o setor automobilístico está relacionado à produção de bens industrializados, e não de commodities. Além disso, a entrada de fabricantes estrangeiros ocorreu principalmente para produzir veículos no Brasil, inserindo o país em uma nova etapa da industrialização. A alternativa C está incorreta porque, embora tenha ocorrido uma expansão da produção de bens de consumo duráveis, ela não foi predominantemente realizada com capital nacional. A política econômica de JK estimulou justamente a participação de empresas e investimentos estrangeiros, característica central do modelo adotado. A alternativa D é, portanto, a mais adequada porque sintetiza a articulação entre capital estrangeiro, industrialização e planejamento estatal durante o governo JK. A entrada de multinacionais automobilísticas no Brasil constituiu uma das principais expressões dessa estratégia, associada à expansão rodoviária e à modernização da estrutura produtiva brasileira.
Questão 11: [B]
A alternativa correta é letra B, pois a oferta diversificada constitui uma das características fundamentais do modelo toyotista de produção. O próprio texto fornece a principal pista para chegar ao gabarito ao destacar que as inovações desenvolvidas por Taiichi Ohno e pela Toyota permitiram reduzir drasticamente o tempo necessário para modificar os equipamentos e, consequentemente, produzir pequenos lotes de peças diferentes entre si. Essa flexibilidade representa uma ruptura importante em relação ao modelo fordista, baseado na produção padronizada de grandes quantidades de mercadorias semelhantes. No Fordismo, consolidado principalmente durante a primeira metade do século XX, predominava a lógica da produção em massa. As fábricas organizavam extensas linhas de montagem destinadas à fabricação de grandes séries de produtos padronizados. O objetivo era produzir enormes quantidades do mesmo bem, reduzindo o custo unitário por meio das economias de escala. Esse sistema funcionava adequadamente em mercados de consumo de massa relativamente previsíveis, mas apresentava dificuldades para responder rapidamente às mudanças na demanda. O Toyotismo, desenvolvido no Japão especialmente a partir do período posterior à Segunda Guerra Mundial, introduziu uma lógica diferente. Em vez de fabricar enormes estoques de produtos padronizados, buscava-se organizar uma produção flexível, capaz de responder rapidamente às oscilações do mercado. A redução do tempo necessário para alterar máquinas e equipamentos permitia fabricar diferentes modelos e versões utilizando uma mesma estrutura produtiva. Dessa maneira, a empresa poderia produzir lotes menores e variados, adequando quantidade e características das mercadorias às demandas dos consumidores. É justamente dessa flexibilidade produtiva que deriva a maior diversificação da oferta mencionada na alternativa correta. Essa transformação também está relacionada ao princípio do just in time, segundo o qual a produção deve ocorrer de acordo com a demanda, procurando reduzir estoques de matérias-primas, componentes e produtos acabados. Em vez da lógica fordista de “produzir muito para depois vender”, procura-se aproximar a quantidade produzida das necessidades efetivas do mercado. A combinação entre produção flexível, estoques reduzidos, controle de qualidade e trabalhadores capazes de desempenhar diferentes funções tornou possível uma estrutura produtiva mais adaptável. A alternativa A está incorreta porque a escala rígida aproxima-se justamente da lógica fordista que o Toyotismo procurou superar. Grandes séries homogêneas dependem de uma estrutura produtiva relativamente rígida, enquanto o sistema apresentado no texto permite alterações rápidas na quantidade e no tipo de mercadoria produzida. A alternativa C também está incorreta porque a especialização parcelar do trabalhador é característica sobretudo do Taylorismo e do Fordismo, nos quais cada operário executava repetidamente uma pequena etapa do processo produtivo. O texto afirma justamente que o novo sistema exigia trabalhadores “bem treinados e motivados”, característica relacionada à maior polivalência da mão de obra no modelo toyotista. A alternativa D está equivocada porque a simples mecanização especializada não explica a transformação descrita. O elemento decisivo não é apenas utilizar máquinas, mas possuir equipamentos e uma organização produtiva suficientemente flexíveis para alterar rapidamente o que é produzido.
Questão 12: [A]
A alternativa A está correta porque o tenentismo, que exerceu influência importante nos primeiros anos do governo Vargas, defendia a superação de práticas políticas associadas à Primeira República, especialmente aquelas relacionadas ao domínio das oligarquias estaduais e às fraudes eleitorais. Os tenentes identificavam a necessidade de reformar as instituições políticas e de fortalecer a autoridade do Estado como parte de um projeto de modernização nacional. Nesse contexto, a moralização eleitoral representava a defesa de eleições mais regulares e de mecanismos capazes de reduzir práticas como fraudes, manipulação do voto e controle político exercido pelas oligarquias. A proposta estava, portanto, relacionada à tentativa de transformar as instituições políticas brasileiras após a Revolução de 1930. A alternativa B está incorreta porque a defesa da autonomia administrativa estadual contrariava a tendência centralizadora associada aos tenentes. Nos primeiros anos do governo Vargas, esses grupos apoiavam justamente o fortalecimento do poder central e o enfraquecimento da influência das antigas oligarquias estaduais. A alternativa C está incorreta porque a atuação tenentista não tinha como objetivo principal garantir a continuidade do modelo econômico da Primeira República. O movimento defendia mudanças políticas e institucionais e criticava a predominância das oligarquias ligadas à estrutura política vigente antes de 1930. A alternativa D está incorreta porque a modernização defendida pelos tenentes possuía sobretudo um sentido político e institucional, relacionado ao fortalecimento do Estado e à transformação das práticas políticas. A modernização do setor agroexportador não constitui o aspecto destacado pelo texto nem a principal reivindicação associada ao tenentismo. Assim, a alternativa A é a mais adequada, pois relaciona diretamente a atuação tenentista à defesa de uma reforma das práticas eleitorais e à superação dos mecanismos de controle político característicos da Primeira República.
Questão 13: [C]
A alternativa (C) está correta porque a representação da Amazônia como um “espaço vazio” não correspondia à realidade demográfica e social da região. Muito antes dos projetos de ocupação promovidos pelo Estado brasileiro a partir da década de 1960, a Amazônia já era habitada por povos indígenas, comunidades ribeirinhas, seringueiros, extrativistas, quilombolas e outras populações tradicionais, que mantinham formas próprias de organização territorial, econômica e cultural. Ao apresentar a região como uma “terra sem homens”, o discurso oficial desconsiderava simbolicamente a existência dessas populações, seus territórios e seus modos de vida. Trata-se, portanto, de um processo de apagamento étnico e social, pois determinados grupos eram retirados da representação oficial do território para que a Amazônia pudesse ser apresentada como uma área disponível para ocupação. Essa construção ideológica teve uma função política importante durante a ditadura militar. A ideia de vazio demográfico ajudava a legitimar a apropriação e a transformação territorial da Amazônia, permitindo ao Estado incentivar grandes projetos agropecuários, mineradores, rodoviários e de colonização sem reconhecer plenamente os direitos territoriais das populações que já ocupavam a região. O lema “terra sem homens para homens sem terra” sintetizava essa lógica: ao mesmo tempo em que reconhecia a existência de trabalhadores sem acesso à terra em outras partes do Brasil, principalmente em áreas marcadas pela concentração fundiária, tratava os territórios amazônicos como se estivessem desocupados. A Amazônia era, dessa maneira, incorporada à estratégia nacional de expansão da fronteira econômica e de ocupação territorial. A alternativa (A), o êxodo rural, está incorreta porque o processo descrito no texto estava associado, inicialmente, ao movimento inverso: o governo estimulava a migração em direção à Amazônia, inclusive de trabalhadores rurais provenientes de outras regiões brasileiras. Projetos de colonização e a abertura de rodovias, como a Transamazônica, fizeram parte dessa tentativa de direcionar populações para novas áreas da fronteira agrícola. A alternativa (B), a tutela estatal, também não expressa adequadamente o sentido do discurso do “espaço vazio”. Embora o Estado tenha exercido forte controle sobre o processo de ocupação e desenvolvido políticas específicas para determinados grupos populacionais, a questão destaca sobretudo a negação da existência das populações previamente estabelecidas no território, e não sua submissão administrativa à proteção ou ao controle estatal. Já a alternativa (D), a integração produtiva, apresenta um elemento relacionado ao processo histórico, mas não corresponde ao efeito ideológico destacado pela questão. De fato, a política dos governos militares buscava integrar economicamente a Amazônia ao restante do território nacional, expandindo atividades agropecuárias, minerais e de infraestrutura. Entretanto, essa integração constitui uma política econômica e territorial, enquanto a expressão “espaço vazio” atuava especificamente na construção de uma representação que invisibilizava os grupos sociais que já habitavam a região. O discurso servia justamente para facilitar e legitimar essas novas formas de apropriação territorial. Assim, a questão evidencia que a ocupação da Amazônia durante a ditadura militar não ocorreu sobre um território efetivamente vazio. A ideia de vazio foi uma construção política e ideológica que permitiu ignorar a diversidade humana existente na região e apresentar seus territórios como disponíveis para novos projetos econômicos. Por isso, o conceito que melhor caracteriza o fenômeno apresentado é o apagamento étnico.
Questão 14: [C]
A alternativa C está correta porque o chamado “milagre econômico brasileiro”, ocorrido principalmente entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, combinou elevadas taxas de crescimento econômico com uma política de arrocho salarial e restrição à capacidade de negociação dos trabalhadores. Embora o PIB tenha aumentado significativamente, os ganhos desse crescimento não foram distribuídos de maneira equilibrada entre os diferentes grupos sociais. A contenção dos salários, associada ao controle das reivindicações trabalhistas, limitou a capacidade de consumo de parcela dos trabalhadores e contribuiu para o aumento da concentração de renda. Assim, o crescimento dos indicadores econômicos não significou melhoria proporcional das condições materiais da população trabalhadora. A alternativa A está incorreta porque a política de contenção salarial dificultou a ampliação generalizada do consumo popular. O crescimento econômico beneficiou principalmente setores vinculados à acumulação de capital e às camadas de maior renda, enquanto os salários eram controlados. A alternativa B está incorreta porque a dinâmica do período não promoveu necessariamente uma redução das desigualdades regionais. Além disso, o texto concentra-se nas relações entre crescimento econômico, política salarial e trabalhadores, não apresentando elementos que permitam concluir por uma diminuição das disparidades entre as regiões brasileiras. A alternativa D está incorreta porque o fortalecimento da distribuição salarial contraria a política de arrocho mencionada no texto. A contenção dos salários reduziu o poder de negociação dos trabalhadores e contribuiu para uma distribuição mais desigual dos frutos do crescimento econômico. Portanto, a alternativa C é a mais adequada, pois estabelece a relação entre o crescimento econômico do período e a perda relativa do poder de compra dos trabalhadores, evidenciando uma das contradições centrais do chamado “milagre econômico”: forte expansão do PIB acompanhada de concentração de renda e restrição aos ganhos salariais.
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