
1 – D
O complexo agroindustrial é a integração entre diferentes setores da economia que atuam de forma coordenada em torno da produção agropecuária. Ele engloba desde as etapas iniciais da cadeia, como o fornecimento de sementes, fertilizantes, tratores e serviços tecnológicos, até as fases de beneficiamento, armazenamento, transporte, comercialização e exportação. Esse modelo evidencia que a agricultura moderna depende diretamente de atividades industriais e de serviços, o que significa que o setor primário funciona em articulação com os setores secundário e terciário da economia. A produção agrícola, portanto, não ocorre de forma isolada, mas como parte de uma cadeia produtiva complexa, que inclui indústrias de insumos e processamento, empresas de logística, análise de dados, marketing, crédito e seguros rurais. Essa estrutura é representada pela alternativa que indica a dependência da agricultura em relação aos setores secundário e terciário. A alternativa que afirma que o setor primário apresenta baixa integração setorial está incorreta, pois desconsidera a lógica do complexo agroindustrial, que justamente se baseia na alta integração entre os diferentes setores produtivos. Já a alternativa que menciona a modernização do campo e o aumento da produtividade, embora contenha uma informação válida, não está diretamente associada à ideia central do texto, que é a interdependência entre as etapas da cadeia produtiva. A opção que aponta a exclusão de produtores familiares também não corresponde ao texto, pois ele não estabelece distinção entre grandes e pequenos produtores, tampouco trata de processos de exclusão. Por fim, a alternativa que afirma que essa estrutura se consolidou apenas em países desenvolvidos é incorreta, uma vez que o texto descreve a atuação desse modelo no Brasil, país em desenvolvimento, destacando sua aplicação na produção de soja no Centro-Oeste.
2 – B
A descolonização africana no contexto da Guerra Fria ocorreu sob influência direta da disputa ideológica entre Estados Unidos e União Soviética, que passaram a projetar seus modelos políticos, econômicos e culturais sobre os países recém-independentes da África e da Ásia. Enquanto os Estados Unidos defendiam o liberalismo político e econômico como fundamento do autogoverno, a União Soviética apoiava movimentos de libertação baseados na luta de classes, na mobilização popular e no discurso anti-imperialista. A partir dessas influências, diversas guerras de independência na África foram acompanhadas por uma forte presença indireta das superpotências, que financiaram, armaram e politizaram as disputas internas em cada país. O resultado foi a transformação das lutas anticoloniais em conflitos por procuração, nos quais potências externas interferiam diretamente nas estratégias dos movimentos de libertação, moldando os rumos políticos das novas nações africanas.
A alternativa que aponta a ingerência de potências estrangeiras nas guerras anticoloniais expressa corretamente essa consequência. Os casos de Angola, Moçambique, Congo, entre outros, demonstram como os conflitos internos, originalmente motivados por desejos de independência, tornaram-se arenas da Guerra Fria, com financiamento soviético, cubano ou estadunidense a diferentes grupos armados, o que prolongou guerras civis e dificultou a construção de Estados soberanos e coesos.
A opção que menciona o fortalecimento das relações sul-sul está equivocada, pois esse tipo de articulação internacional, entre países periféricos ou emergentes, se desenvolveu mais intensamente a partir da década de 1970 e não foi uma consequência imediata da luta anticolonial moldada pela disputa entre EUA e URSS. A alternativa que fala em exigência de reparações financeiras tampouco corresponde ao conteúdo, já que o texto não menciona esse tipo de reivindicação nem foi essa uma marca dos processos de independência africana naquele contexto. Quanto à ideia de impedimento de regimes antidemocráticos, ela está incorreta, pois tanto os EUA quanto a URSS apoiaram regimes autoritários, desde que alinhados com seus interesses geopolíticos. Por fim, a opção que fala em redefinição das fronteiras com base no panafricanismo ignora que a maioria das novas fronteiras foi mantida conforme o traçado colonial, e não rediscutida a partir de ideais de unidade continental.
3 – D
Para Foucault, o poder nas sociedades modernas não reside exclusivamente no Estado, nas leis ou em figuras de autoridade formais, como governantes ou juízes. Em vez disso, ele é exercido de maneira capilar, ou seja, de forma difusa e descentralizada, atravessando as relações sociais e produzindo efeitos sobre os corpos, comportamentos e subjetividades. O poder moderno opera por meio de dispositivos disciplinares, como a escola, a prisão, o hospital e o quartel, que têm como função normatizar as condutas, produzir saberes sobre os indivíduos e ajustar os sujeitos às exigências das instituições e da sociedade.
Essa forma de poder é caracterizada por vigiar, registrar, classificar e corrigir, sendo mais eficaz do que a punição física direta, pois atua sobre a mente, os gestos e as rotinas. O disciplinamento se realiza, portanto, através de práticas cotidianas e técnicas de controle, como exames, horários, avaliações e treinamentos, que moldam comportamentos considerados aceitáveis ou desviantes. A alternativa correta reflete precisamente essa concepção de poder como algo exercido por meio de dispositivos sociais reguladores, e não como uma estrutura fixa ou concentrada.
As demais alternativas não estão de acordo com a concepção foucaultiana. A primeira, que menciona imposições legais que eliminam liberdades individuais, parte de uma concepção jurídica do poder, mais associada ao modelo de soberania tradicional, e não ao funcionamento cotidiano e disciplinar que Foucault descreve. A segunda alternativa reduz o poder à centralização nas instituições jurídico-políticas, ignorando o aspecto difuso e descentralizado do poder moderno. A terceira foca em concessões institucionais ligadas à soberania popular, ideia vinculada ao pensamento liberal-democrático e distante da análise foucaultiana. Por fim, a última opção, que trata do reforço da coesão por meio da tradição, aproxima-se de uma visão durkheimiana da sociedade, baseada na solidariedade mecânica, o que também não corresponde à abordagem genealógica e crítica do poder adotada por Foucault.
4 – E
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador composto que avalia não apenas a dimensão econômica de um país, mas também seus indicadores sociais, como educação (anos de escolaridade esperados e médios) e saúde (expectativa de vida ao nascer). Ao observar o mapa temático do IDH mundial em 2019, percebe-se que nem todos os países com Produto Interno Bruto (PIB) elevado apresentam, necessariamente, altos níveis de desenvolvimento humano (caso do Brasil, da índia e da China). Isso significa que o crescimento econômico isolado não garante qualidade de vida para a população, evidenciando que não há uma relação direta e automática entre riqueza econômica e bem-estar social.
Um exemplo desse descompasso pode ser encontrado em países exportadores de petróleo, como Angola e Nigéria, que apresentam economias com alto potencial de receita, mas que convivem com indicadores sociais baixos. Isso se deve a fatores como má distribuição de renda, corrupção, baixa cobertura de serviços públicos e fragilidade institucional. Por outro lado, países com economia menos expressiva em termos absolutos podem alcançar bons níveis de IDH quando investem consistentemente em educação, saúde e inclusão social. O IDH, portanto, permite revelar desigualdades ocultas pelo simples dado econômico e reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à melhoria das condições de vida da população.
A primeira alternativa está equivocada, pois os países com IDH alto se concentram majoritariamente no chamado “Norte Global”, como Europa Ocidental, América do Norte, Japão, Coreia do Sul e Oceania, e não no sul global, que abrange majoritariamente regiões da África, Ásia e América Latina. A segunda opção erra ao afirmar que os países com IDH muito alto estão no momento do bônus demográfico. Na realidade, essas nações já enfrentam o desafio do envelhecimento populacional, como é o caso da Alemanha, Japão e Itália. A terceira alternativa incorretamente associa a África Islâmica, especialmente o norte do continente (países como Argélia, Marrocos, Tunísia), aos piores indicadores sociais, quando os piores índices estão na África Subsaariana. A quarta está equivocada ao associar os países de maior IDH aos maiores contingentes populacionais, quando nações populosas como Índia, China, Indonésia e Nigéria não possuem, necessariamente, os maiores IDHs do mundo.
5 – B
O registro como patrimônio imaterial tem como objetivo central a salvaguarda de práticas culturais que expressam a identidade, a história e os saberes de comunidades tradicionais. No caso do Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins, reconhecido oficialmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o foco está na preservação de um conjunto de expressões que envolvem música, dança, figurino, mitos, rituais e modos de fazer, que são transmitidos de geração em geração. A inscrição no Livro das Celebrações é uma estratégia de valorização dos saberes tradicionais e da diversidade cultural brasileira, garantindo que essas práticas não desapareçam diante das transformações econômicas, tecnológicas e sociais.
A salvaguarda não significa transformar a manifestação em um objeto intocável ou congelado no tempo, mas sim assegurar as condições para que continue viva, atualizada e reconhecida pelas próprias comunidades que a produzem. Ao receber o certificado de patrimônio cultural do Brasil, os grupos envolvidos ganham legitimidade, apoio institucional e visibilidade, fortalecendo sua autonomia e sua importância como agentes culturais. Esse reconhecimento promove a educação patrimonial e o respeito à diversidade, pilares centrais da política de patrimônio imaterial no Brasil desde a criação do Decreto nº 3.551, de 2000.
A alternativa que trata da capitalização do evento está incorreta, pois o reconhecimento do Iphan não tem como finalidade o lucro financeiro ou a exploração comercial do patrimônio, embora ele possa gerar benefícios econômicos indiretos. A opção que menciona o acesso a recursos públicos como objetivo direto da certificação é imprecisa, já que o acesso a editais e financiamentos não é automático nem garantido pelo reconhecimento. A resposta que destaca o desenvolvimento turístico regional também não reflete o propósito principal da política de registro patrimonial, ainda que o turismo cultural possa ser incentivado posteriormente. Por fim, a alternativa que se refere exclusivamente às manifestações indígenas está errada, pois o Boi-Bumbá é uma manifestação sincrética, que reúne elementos indígenas, africanos e europeus, refletindo a complexidade das tradições populares amazônicas.
6 – D
A continentalidade é um dos principais fatores climáticos que influenciam as amplitudes térmicas anuais, ou seja, a diferença entre as temperaturas máximas e mínimas registradas ao longo do ano em determinado território. Esse fator está relacionado à distância de uma localidade em relação ao mar. Regiões localizadas no interior dos continentes — longe da influência moderadora dos oceanos — tendem a apresentar verões muito quentes e invernos muito frios, o que resulta em altas amplitudes térmicas. Isso ocorre porque a água do mar possui elevada capacidade térmica, aquecendo-se e resfriando-se mais lentamente do que a terra firme, atuando como regulador térmico nas áreas costeiras.
Nas áreas continentais, especialmente em latitudes médias, como no centro da Ásia ou no interior da América do Norte, há uma menor influência marítima, o que torna o clima mais extremo e instável. Em contrapartida, nas zonas costeiras, a maritimidade — fator oposto à continentalidade — contribui para a estabilidade térmica, reduzindo variações entre as estações. Assim, a continentalidade é um fator essencial para compreender por que regiões com latitudes semelhantes podem apresentar climas tão diferentes, dependendo da sua posição em relação ao oceano.
As demais alternativas não se referem corretamente a fatores que influenciam diretamente as amplitudes térmicas anuais. A alternativa que menciona a longitude está equivocada, pois essa coordenada geográfica não interfere de forma regime térmico de uma localidade. A longitude não possui qualquer relação com o clima. A pluviosidade é um elemento climático, não um fator, e está mais relacionada à umidade do ar e à dinâmica das chuvas. A opção temperatura também se refere a um elemento do clima, sendo um dado observado, não um fator que o determina. Por fim, a pressão atmosférica influencia a circulação dos ventos e a formação de massas de ar, mas não tem relação direta com as amplitudes térmicas ao longo do ano. A pressão também é um elemento climático e não um fator
7 – C
A Alegoria da Caverna, presente no Livro VII de “A República” de Platão, é uma das mais emblemáticas metáforas da história da filosofia ocidental. Nessa narrativa, Platão descreve pessoas acorrentadas desde o nascimento no fundo de uma caverna, que veem apenas sombras projetadas na parede à sua frente. Essas sombras são tudo o que conhecem da realidade. Quando um dos prisioneiros se liberta e sai da caverna, é inicialmente cegado pela luz, mas gradualmente se adapta à claridade e começa a compreender o mundo real, percebendo que as sombras eram apenas ilusões. Ao retornar para contar aos outros, é rejeitado, pois sua nova visão de mundo se torna incompreensível para os que permanecem na escuridão.
Essa alegoria simboliza a educação como um processo de iluminação da razão, uma jornada gradual e transformadora que liberta o indivíduo da ignorância e das aparências. Para Platão, a verdadeira educação não consiste em transmitir informações, mas em conduzir a alma rumo ao conhecimento verdadeiro, promovendo a ascensão do pensamento sensível (baseado nos sentidos) ao pensamento inteligível (baseado na razão). Nesse sentido, aprender é “converter-se”, voltar-se para a luz do conhecimento, e não aceitar passivamente aquilo que é percebido ou ensinado.
As demais alternativas não correspondem ao sentido filosófico da alegoria. A primeira, que fala em imposição autoritária, distorce a proposta platônica, que preconiza o autodesenvolvimento racional e não a coerção. A segunda está errada por associar a educação à repetição mecânica, enquanto a alegoria defende a superação de modelos ilusórios por meio da razão. A quarta incorre em equívoco ao valorizar as emoções e sensações como fontes de verdade, quando Platão, ao contrário, critica o conhecimento sensível e exalta o conhecimento racional. Já a última alternativa erra ao afirmar que há substituição da experiência individual pela opinião coletiva, pois, na alegoria, a opinião coletiva (das sombras) é justamente aquilo que o filósofo busca superar.
8 – A
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi criada em 1949 no contexto da Guerra Fria como uma aliança militar liderada pelos Estados Unidos, com o objetivo de conter a influência soviética na Europa. Após o fim da Guerra Fria e a dissolução do Pacto de Varsóvia (aliança militar liderada pela União Soviética) em 1991, a OTAN não apenas se manteve ativa, como passou a incorporar antigos países socialistas do Leste Europeu. Para a Rússia, essa expansão representou uma ameaça direta à sua segurança geopolítica, principalmente quando a adesão de países vizinhos — como Polônia, Hungria e República Tcheca, e mais recentemente as intenções da Ucrânia — passou a ser discutida.
A retórica do governo russo tem sido baseada na ideia de que o avanço da OTAN em direção a suas fronteiras viola os compromissos tácitos do pós-Guerra Fria e representa um cerco militar ocidental. Essa justificativa é utilizada como base para ações como a intervenção militar russa na Geórgia em 2008, a anexação da Crimeia em 2014 e, mais recentemente, a invasão da Ucrânia em 2022. Para o Kremlin, essas ações são apresentadas como medidas defensivas, uma forma de impedir a adesão de países vizinhos à aliança atlântica e manter uma zona de influência sob seu controle. Portanto, a alternativa correta está diretamente ligada à forma como a Rússia legitima, perante sua população e a comunidade internacional, ações militares em países próximos a seu território.
As demais alternativas apresentam situações que não condizem com o conteúdo do texto nem com a postura adotada pela diplomacia russa. A opção sobre denúncia no Tribunal Penal Internacional está incorreta, pois a Rússia não busca responsabilizar juridicamente os EUA nesse fórum, até porque ela própria não reconhece a jurisdição do TPI. A alternativa que menciona a suspensão de acordos bilaterais com os países da OTAN também é imprecisa, uma vez que, embora haja tensões diplomáticas, o principal foco tem sido a ação militar e não a anulação formal de tratados bilaterais. Já o cancelamento de tratados de não proliferação nuclear não é uma consequência direta da expansão da OTAN, mas envolve outra esfera de negociação estratégica. Por fim, o licenciamento da Rússia do Conselho de Segurança da ONU nunca foi cogitado; pelo contrário, o país mantém-se como membro permanente com poder de veto, ferramenta essencial para seus interesses geopolíticos.
9 – D
A análise de Florestan Fernandes parte do princípio de que o racismo no Brasil é estrutural, ou seja, está enraizado nas próprias bases da sociedade, atravessando instituições como a educação, o mercado de trabalho e o sistema político. Segundo o autor, a desigualdade racial no Brasil não se limita a atitudes individuais de preconceito, mas reflete uma estrutura social historicamente construída que mantém a população negra em condições de desvantagem, mesmo após o fim formal da escravidão e a instauração de um regime democrático.
A estrutura herdada da sociedade escravocrata foi pouco transformada no processo de transição para o capitalismo e a república. A ausência de políticas reparatórias no pós-abolição, a exclusão histórica do negro da educação formal e dos empregos qualificados, e o predomínio da ideologia da democracia racial impediram que se reconhecesse a persistência do racismo como um obstáculo objetivo à igualdade de oportunidades. Assim, os obstáculos sociais, econômicos e culturais enfrentados pela população negra são transmitidos ao longo das gerações, o que dificulta a ascensão social e perpetua um ciclo de exclusão. A alternativa correta sintetiza essa lógica estrutural ao reconhecer que a desigualdade é reproduzida historicamente, tornando difícil a superação de barreiras que se originaram no período colonial e continuam atuantes.
As outras alternativas apresentam desvios de interpretação. A letra a, ao afirmar o fortalecimento de vínculos comunitários, desloca o foco do texto para uma análise sociocultural positiva que não está presente no trecho apresentado. A letra b está incorreta, pois os privilégios herdados da escravidão — como o acesso desigual à terra, à educação e ao poder — não foram eliminados, sendo parte do que sustenta o racismo estrutural. A alternativa c, ao falar de padrões meritocráticos apenas no setor público, restringe indevidamente o alcance da análise, além de ignorar que a crítica ao mérito está presente em todas as esferas sociais. Por fim, a opção e trata da informalidade e sua relação com a renda, aspecto não abordado no texto, que se concentra na reprodução da desigualdade por meio das instituições sociais.
10 – C
A maior parte dos refugiados tende a ter origem em países pobres, sobretudo na África Subsaariana, porque essas regiões enfrentam impactos ambientais intensos sem dispor dos meios necessários para se adaptar às mudanças climáticas. O termo refugiado climático, também conhecido como migrante climático, refere-se às pessoas que são forçadas a deixar suas casas em decorrência de fenômenos ambientais associados às mudanças climáticas globais. Esses deslocamentos podem ser causados por eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes, desertificação, ciclones, elevação do nível do mar e perda de fertilidade do solo. Ao contrário dos refugiados políticos — protegidos por convenções internacionais —, os refugiados climáticos ainda não têm status jurídico definido no direito internacional, o que os torna ainda mais vulneráveis.
A África Subsaariana é apontada por estudos como uma das regiões mais ameaçadas do planeta nesse contexto. A maioria dos países da região possui economias dependentes da agricultura de subsistência, extremamente sensível a variações climáticas. A frequência crescente de secas severas, o esgotamento dos recursos hídricos e a degradação de solos agrícolas levam a uma redução drástica da produtividade, gerando insegurança alimentar, pobreza extrema e conflitos por recursos naturais. Essa combinação de fatores pressiona comunidades inteiras a migrarem para outras regiões — tanto dentro dos próprios países quanto para nações vizinhas ou outros continentes.
Além disso, países da África Subsaariana apresentam baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), sistemas de saúde e infraestrutura frágeis e pouca capacidade institucional de adaptação climática, o que agrava os efeitos das crises ambientais. A ausência de políticas públicas eficazes, de investimento em tecnologia adaptativa e de redes de proteção social faz com que essas populações tenham menos ferramentas para resistir aos impactos ambientais, sendo levadas ao deslocamento como estratégia de sobrevivência.
Essa situação difere dos países mais ricos, que, embora também enfrentem efeitos das mudanças climáticas, dispõem de recursos para mitigação e adaptação, como infraestrutura costeira reforçada, irrigação avançada, sistemas de alerta e relocação planejada de populações. Assim, o problema do refugiado climático é não apenas ambiental, mas profundamente social, político e econômico, evidenciando as desigualdades globais na capacidade de lidar com a crise climática.
11 – E
O Decreto-lei nº 314 de 1967, promulgado durante o regime militar no Brasil, representa uma das formas legais pelas quais o Estado passou a institucionalizar mecanismos de repressão política. Esse decreto, associado diretamente aos Atos Institucionais nº 2 (1965) e nº 4 (1966), estabelecia a noção de segurança nacional como a proteção dos “objetivos nacionais” contra “antagonismos internos e externos”. Com isso, o governo militar criou uma base jurídica para justificar a perseguição de opositores políticos, movimentos sociais e intelectuais críticos ao regime, classificando suas ações como ameaças à ordem nacional.
A consequência prática dessa lógica foi a confusão deliberada entre discordância política e subversão, permitindo ao Estado tratar opiniões divergentes como crimes contra a segurança nacional. O conceito vago de “guerra psicológica adversa” ou “guerra subversiva” possibilitava interpretar manifestações culturais, discursos, greves ou protestos como ataques ao país. A doutrina de segurança nacional, inspirada em modelos norte-americanos de combate ao comunismo durante a Guerra Fria, foi o pilar ideológico da repressão no Brasil e em outras ditaduras latino-americanas. Dessa forma, a correlação
entre crítica política e ameaça ao Estado se tornou fundamento da atuação dos órgãos de repressão, como o DOI-CODI, e justificativa para prisões arbitrárias, tortura e censura.
As demais alternativas não correspondem ao propósito nem aos efeitos reais do decreto. A letra a, ao mencionar o exercício da autodefesa, distorce o conteúdo da norma, que não se refere à proteção individual, mas sim ao papel do cidadão como corresponsável pela segurança do Estado, uma visão autoritária de participação. A opção b está incorreta, pois o decreto não eliminou antagonismos sociais, mas os reprimiu, muitas vezes por meio da força e do silêncio imposto. A alternativa c, que menciona a estabilização jurídica de atos subversivos, falha por ignorar que o conceito de “subversão” era intencionalmente amplo e impreciso, o que permitia o uso político da lei. Por fim, a letra d, ao sugerir um aprimoramento técnico das forças de segurança, esconde o caráter repressivo e político das medidas, voltadas mais à neutralização da oposição do que ao aperfeiçoamento institucional.
12 – D
A charge de Laerte mostra um grupo de pessoas discutindo se determinado personagem seria a personificação do fascismo. Alguns observam que ele “tem cara de fascismo”, “ideias de fascismo” e “falas de fascismo”, mas, ao ser questionado diretamente, ele responde que não é fascismo, e sim “um sentimento profundo de frustração”. Essa representação sugere que o fascismo não surge de modo explícito ou isolado, mas encontra terreno fértil em sociedades marcadas pelo desencanto generalizado com a política, pela descrença nas instituições e pela percepção de que os discursos tradicionais já não oferecem respostas convincentes. A alternativa correta, portanto, é a letra d, pois o crescimento de regimes extremistas costuma ocorrer em contextos nos quais há um esgotamento dos discursos políticos convencionais, abrindo espaço para soluções autoritárias apresentadas como alternativas “novas” ou “eficazes”. As demais alternativas não correspondem ao sentido da charge ou aos dados históricos que ela evoca: a letra a está incorreta porque o fascismo não significa a superação das práticas totalitárias, mas a sua consolidação; a letra b erra ao falar em revigoramento democrático, pois o fascismo mina as instituições representativas em vez de fortalecê-las; a letra c é inadequada porque o fascismo não valoriza o Estado de direito, mas procura restringi-lo para concentrar poder; e a letra e não reflete o ponto central da charge, que não é a simples desconfiança em relação a movimentos partidários radicalizados, e sim a frustração ampla com todo o sistema político, o que favorece o avanço de propostas autoritárias.
13 – D
A filosofia estóica, desenvolvida na Grécia Antiga e consolidada em Roma por pensadores como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, concebe a liberdade como resultado da autonomia interior, e não da ausência de fatores externos limitantes. Para os estóicos, a vida humana está sujeita ao destino e aos eventos que não estão sob nosso controle, como doenças, perdas ou injustiças. O que pode e deve ser controlado é a maneira como o indivíduo responde a essas circunstâncias, por meio da razão, da virtude e do domínio de si mesmo.
Essa doutrina propõe que o sábio estóico é aquele que aceita aquilo que não pode mudar — a chamada apatheia — e age em conformidade com a natureza racional do ser humano. A liberdade, nesse contexto, consiste em não ser escravizado pelas paixões, desejos, medos ou ambições externas, mas em viver conforme a razão e a virtude, mantendo a serenidade em qualquer situação. Assim, mesmo em meio ao sofrimento ou à adversidade, o estóico permanece livre, pois não depende do mundo exterior para encontrar equilíbrio e sentido.
As demais alternativas não expressam adequadamente essa concepção. A letra a está incorreta ao afirmar que a liberdade estóica se baseia na valorização das emoções, quando, na verdade, os estóicos defendem o controle racional sobre as paixões, consideradas fontes de perturbação. A opção b erra ao falar em supressão total dos desejos e prazeres, pois o estóico não nega o prazer, mas o subordina à razão, evitando o apego desmedido. A alternativa c, que vincula a liberdade à conformação moral com o Estado, não condiz com o pensamento estóico, pois a moralidade para eles é universal e natural, não dependente de leis políticas. Por fim, a letra E se distancia da filosofia estóica ao sugerir que a liberdade decorre da negação da razão, quando, na verdade, a razão é o princípio central da autonomia e da virtude no estoicismo.
14 – D
O crescimento econômico dos chamados “tigres asiáticos” — Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura — é um dos casos mais emblemáticos de sucesso no processo de industrialização orientada à exportação no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial. A partir da década de 1960, esses territórios adotaram estratégias estatais voltadas para a atração de investimento estrangeiro direto (IED), a formação de parques industriais voltados à exportação, a modernização tecnológica e a intensa qualificação da mão de obra. Essas políticas foram implementadas num cenário de forte competição geopolítica no contexto da Guerra Fria, quando os Estados Unidos forneceram apoio econômico e político a essas economias como forma de barrar o avanço do comunismo no Leste Asiático.
Um dos elementos centrais desse processo foi a desterritorialização produtiva, ou seja, a deslocalização das indústrias ocidentais, sobretudo norte-americanas e japonesas, para esses países, em busca de custos de produção mais baixos, incentivos fiscais e mercados em expansão. Ao mesmo tempo, os governos locais investiram pesadamente em educação técnica e superior, promovendo a capacitação de trabalhadores e a construção de setores industriais de alto valor agregado, como a indústria de eletrônicos e tecnologia da informação, sobretudo na Coreia do Sul e Taiwan.
As demais alternativas não traduzem adequadamente os elementos centrais desse processo. A letra a, ao mencionar a ascensão do toyotismo e a redução da remuneração, incorre em generalização. Embora os salários iniciais fossem baixos, o modelo asiático apostou no aumento gradual da renda e do consumo interno como parte de sua estratégia de crescimento sustentado. A alternativa b, que fala em estatização, não se aplica, pois a industrialização dos tigres asiáticos foi predominantemente baseada em capital privado, ainda que com forte planejamento estatal estratégico. A opção c erra ao sugerir mera concentração fabril, desconsiderando o papel crucial do capital estrangeiro e da política educacional no processo. Por fim, a letra E propõe um cenário contraditório, já que a precarização dos trabalhadores não coexistiu com distribuição equilibrada dos lucros: os países asiáticos optaram por reinvestimentos intensivos no crescimento e melhoria de qualidade de vida, reduzindo significativamente os níveis de pobreza ao longo do tempo.
15 – C
O texto descreve como a Guarda Nacional, criada pelo governo imperial durante o período regencial, acabou sendo cooptada pelos grandes proprietários rurais e transformada em um instrumento de poder local. Embora sua origem tenha sido estatal e inspirada em modelos europeus, como a guarda francesa, sua função foi rapidamente adaptada às condições políticas e sociais do Brasil do século XIX. O controle da Guarda passou a ser exercido por membros do senhoriato rural, que adquiriam patentes mediante pagamento, vestiam os soldados com seus próprios recursos e utilizavam a instituição como uma extensão de seu poder privado, particularmente no interior do Império.
Esse arranjo reflete uma lógica típica do patrimonialismo, conceito que descreve a fusão entre esferas públicas e privadas, na qual agentes privados (como os grandes proprietários de terra) ocupam funções estatais com fins particulares. Ao utilizar a Guarda Nacional para o controle da população local, os senhores de terra não apenas reforçavam sua autoridade como também interferiam em decisões judiciais e políticas, consolidando um sistema clientelista e desigual. A ausência de separação clara entre as atribuições do Estado e os interesses privados é uma das características centrais do patrimonialismo, tal como descrito por estudiosos da formação do Estado brasileiro, como Raymundo Faoro e o próprio José Murilo de Carvalho.
As demais alternativas apresentam leituras equivocadas. A letra a ignora que a própria Guarda Nacional era uma força de segurança local, ainda que distorcida de seu objetivo inicial. A alternativa b fala em “postura armamentista”, o que não reflete o fenômeno descrito: não se trata de defesa de armamento como política, mas sim da instrumentalização de uma força estatal. A opção d, embora cite uma tensão entre governo e proprietários, não abarca o elemento central da questão, que é o uso privatista da estrutura estatal. Por fim, a letra e menciona apadrinhamento político — um traço do clientelismo — mas não expressa com precisão a ideia de domínio privado sobre funções públicas, núcleo do patrimonialismo apontado no texto.
16 – C
O domínio 1 corresponde à Amazônia; o 2 ao Cerrado; o 3 à caatinga; o 4 aos Mares de Morros; o 5 às Araucárias; e o 6 às Pradarias. É preciso ter essas localizações muito bem mapeadas na cabeça para a prova. Os exames costumam cobrar aspectos físicos, climáticos e atividades humanas (antrópicas) que atuam na destruição desses domínios.
A desertificação é um processo ambiental que consiste na degradação de terras em regiões áridas, semiáridas ou subúmidas secas, principalmente como resultado de ações humanas associadas a fatores climáticos adversos, como aumento da temperatura e diminuição das chuvas. Esse fenômeno, segundo a ONU, não se resume ao crescimento dos desertos existentes, mas envolve a transformação de áreas produtivas em zonas inférteis, comprometendo a biodiversidade, os recursos hídricos e a capacidade agrícola do solo.
No Brasil, o domínio mais suscetível a esse processo é a Caatinga, que cobre grande parte do sertão nordestino e pequenas porções do norte de Minas Gerais. Essa vegetação é adaptada ao clima semiárido, com altas temperaturas, chuvas escassas e grande variabilidade pluviométrica. A cobertura vegetal da Caatinga, embora resistente, é vulnerável à ação humana quando submetida ao desmatamento, queimadas, sobrepastoreio e uso intensivo do solo sem práticas de manejo sustentável. Além disso, fatores socioeconômicos como pobreza rural, falta de políticas ambientais eficazes e baixo acesso a tecnologias agrícolas sustentáveis agravam a situação, favorecendo a perda da fertilidade do solo e a erosão.
Com as mudanças climáticas globais, há um aumento da frequência e intensidade das secas, o que acelera o processo de desertificação. A combinação de clima severo, fragilidade ecológica e uso predatório da terra torna a Caatinga um dos ecossistemas mais vulneráveis do Brasil nesse sentido, representando um desafio ambiental e social de grandes proporções.
17 – D
A filosofia de René Descartes, elaborada no contexto do início da Modernidade europeia, marca uma profunda transformação no modo de compreender o conhecimento, a verdade e o sujeito. Rompendo com a autoridade da tradição escolástica medieval, baseada principalmente na síntese entre fé cristã e filosofia aristotélica, Descartes propõe um novo fundamento epistemológico: a razão individual, clara e distinta, como único critério seguro para o saber.
O ponto de partida desse sistema é o célebre princípio do “cogito, ergo sum” (“penso, logo existo”), por meio do qual o filósofo busca uma certeza indubitável, que não possa ser abalada nem pelos sentidos — que podem nos enganar —, nem por tradições ou autoridades externas. Essa certeza permite fundar um sistema de conhecimento dedutivo, análogo à geometria, em que todas as verdades são derivadas logicamente a partir de premissas racionais bem estabelecidas.
Além disso, Descartes formula uma concepção dualista do ser humano, dividindo-o entre res cogitans (substância pensante, isto é, a mente ou alma) e res extensa (substância extensa, ou seja, o corpo físico). Essa distinção reforça a ideia de que o conhecimento verdadeiro não depende da materialidade do mundo, mas da atividade racional do sujeito pensante.
As demais alternativas não expressam adequadamente a proposta cartesiana. A letra a erra ao sugerir um retorno ao aristotelismo, justamente o modelo que Descartes busca superar. A opção b está incorreta porque a filosofia cartesiana rejeita a experiência sensorial como base segura do conhecimento, por considerá-la sujeita ao erro. A letra c, ao afirmar que Descartes valoriza a fé como critério último da verdade, contradiz a centralidade que ele dá à razão autônoma, embora não negue a existência de Deus. Já a alternativa e se equivoca ao afirmar que ele nega o dualismo, quando na verdade Descartes é um dos principais formuladores do dualismo moderno, ao separar claramente mente e corpo.
18 – D
A pedogênese, ou formação dos solos, é um processo complexo e contínuo, diretamente influenciado por elementos climáticos como chuvas (precipitação) e temperatura. O clima regula a ação dos processos de intemperismo físico e químico, que promovem a decomposição das rochas e a formação dos horizontes pedológicos. Em regiões intertropicais, especialmente na zona equatorial e tropical úmida, como na Amazônia e partes do Sudeste Asiático e da África, as altas temperaturas constantes e a elevada umidade favorecem a aceleração das reações químicas, como a hidrólise, que transforma minerais primários em secundários, e promove também a intensa lixiviação, isto é, a lavagem e remoção de elementos hidrossolúveis e nutrientes pelas águas das chuvas.
Como consequência, embora os solos dessas regiões tendam a ser profundos (devido à intensa atividade química), eles também são pobres em nutrientes, pois os minerais mais solúveis são levados pelas águas para camadas mais profundas ou mesmo removidos do perfil. Isso justifica o uso intenso de insumos agrícolas em áreas tropicais de produção, como no Cerrado brasileiro, apesar da profundidade dos solos.
As demais alternativas apresentam incorreções conceituais ou generalizações. A letra a está equivocada ao associar a formação dos horizontes pedológicos a agentes internos do relevo, como tectonismo, o que não é pertinente à pedogênese — trata-se de um processo exógeno, ligado à atmosfera, biosfera e litosfera. A b, ao dizer que zonas semiáridas têm altos níveis de lixiviação e laterização, incorre em erro, pois essas regiões têm chuvas escassas e espaçadas, o que limita o escoamento vertical e a movimentação de minerais, sendo o intemperismo ali mais físico do que químico. A alternativa c também está incorreta: climas temperados têm solos bem desenvolvidos, mas em muitos casos apresentam menor profundidade comparados aos intertropicais, com maior acúmulo de matéria orgânica na superfície devido à sazonalidade e acúmulo de folhedo. Por fim, a opção e confunde os efeitos da chuva: minerais transportados são removidos da camada superficial, não acumulados nela — a água tende a lixiviar, não enriquecer o topo do solo com minerais solúveis.
19 – D
A Revolução do Haiti (1791–1804) foi um marco sem precedentes na história das Américas, sendo a única revolução liderada por escravizados que resultou na abolição da escravidão e na fundação de um Estado negro independente. Liderada inicialmente por Toussaint Louverture e depois por Jean-Jacques Dessalines, essa revolta não apenas desestabilizou uma das mais lucrativas colônias do império francês, como também serviu de inspiração para outros movimentos de resistência escrava em todo o continente americano, incluindo o Brasil.
O uso de medalhões com o rosto de Dessalines por negros no Rio de Janeiro em 1805 é um indício claro da circulação de ideias políticas de liberdade, autonomia e resistência entre a população escravizada. Esses artefatos, mais do que simples adornos, funcionavam como símbolos de identificação com a luta haitiana, uma forma de afirmação política silenciosa, que desafiava os pilares da ordem colonial e escravista brasileira. A referência direta a uma figura histórica ligada à libertação dos escravizados revela que, mesmo em condições de opressão extrema, havia consciência política e articulação simbólica no seio da população escravizada.
As demais alternativas não interpretam corretamente a natureza política desse gesto. A letra a, ao falar de amuletos ritualísticos, reduz a ação a uma dimensão religiosa ou supersticiosa, ignorando seu conteúdo político-revolucionário. A b, que sugere o esvaziamento da retórica haitiana, está incorreta, pois o uso dos medalhões mostra justamente a atualização e apropriação dessa retórica pelos escravizados. A opção c, embora se aproxime do contexto da resistência, exagera ao afirmar a existência de organização de rebelião, algo que os registros não confirmam de forma sistemática nesse caso específico. Já a letra e, ao mencionar “valores universais”, generaliza excessivamente o conteúdo simbólico, perdendo a especificidade da referência ao Haiti como símbolo de resistência negra concreta e histórica.
20 – B
A intensificação de eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, especialmente nas grandes cidades brasileiras, está fortemente associada a um modelo de urbanização que impermeabiliza o solo, compromete a drenagem natural da água e sobrecarrega os sistemas urbanos de escoamento. Nesse contexto, estratégias de infraestrutura verde, como a implantação de canteiros e telhados verdes, representam soluções sustentáveis com grande potencial de mitigação dos impactos provocados por essas mudanças.
Essas tecnologias funcionam como mecanismos de retenção, infiltração e evapotranspiração da água da chuva, contribuindo para reduzir o volume de escoamento superficial, o que, por sua vez, diminui a ocorrência de alagamentos e a sobrecarga de galerias pluviais. Além disso, promovem melhoria na qualidade do ar, na regulação térmica dos espaços urbanos e no equilíbrio ecológico, favorecendo também a biodiversidade urbana. São medidas sustentáveis com eficiência comprovada em várias cidades do mundo, fazendo parte do conceito de cidades resilientes às mudanças climáticas.
As alternativas incorretas partem de diagnósticos imprecisos ou de soluções mal direcionadas. A letra a, ao sugerir a reformulação de ecossistemas costeiros, foge do recorte urbano das chuvas intensas em áreas urbanizadas, foco do texto. A letra c, que propõe pavimentação em bairros periféricos, embora com boas intenções de infraestrutura, tende a agravar o problema, já que a pavimentação excessiva sem drenagem adequada aumenta a impermeabilização do solo e o risco de enchentes. A letra d acerta ao apontar a vulnerabilidade das áreas de encosta, mas a remoção, por si só, sem políticas de reassentamento digno, pode gerar novos problemas sociais. Já a letra e, ao mencionar a realocação de populações de baixa renda, assume uma abordagem deslocada da função estrutural e ambiental das soluções baseadas na natureza, além de sugerir um deslocamento forçado que pode ser socialmente injusto se não acompanhado de políticas integradas de habitação.
21 – D
A concepção educacional descrita no texto refere-se ao período da ditadura civil-militar no Brasil, especialmente a partir da década de 1960, quando se consolidou um modelo tecnicista e instrumental da educação, inspirado na Teoria do Capital Humano. Essa teoria entende a educação como um investimento no indivíduo visando aumentar sua produtividade econômica, vinculando diretamente a formação escolar à preparação para o mercado de trabalho. Os acordos MEC-USAID e a promulgação da Lei nº 5.692/1971, que reformulou o ensino de 1º e 2º graus, foram marcos dessa concepção.
O objetivo central desse modelo era promover uma escolarização que formasse mão de obra técnica e disciplinada, especialmente nas escolas públicas, sem estimular a criticidade ou a reflexão política dos estudantes. A ênfase estava em conteúdos práticos, aplicáveis ao setor produtivo, e não em uma formação integral e humanista. Esse processo contribuiu para a manutenção de uma estrutura social desigual, na qual o ensino público, voltado à profissionalização compulsória, preparava estudantes para ocupações operacionais, enquanto o ensino privado seguia formando as elites para cargos de liderança e decisão.
As demais alternativas apresentam leituras imprecisas ou limitadas. A letra a, ao mencionar a especialização das práticas docentes, omite que a formação dos professores nesse modelo era direcionada para técnicas de ensino mecânicas, e não para práticas pedagógicas críticas. A opção b, embora se refira à adequação internacional, não captura o conteúdo ideológico do tecnicismo, que buscava conter qualquer pensamento transformador no contexto da Guerra Fria e do autoritarismo. A letra c não é precisa ao falar de exclusão de incapazes, pois a proposta era uniformizar a formação da mão de obra, ainda que de forma desigual entre escolas públicas e privadas. Já a e, ao falar em formação altamente qualificada, ignora que o objetivo era formar técnicos medianamente qualificados para setores operacionais, e não especialistas com alta formação científica.
22 – B
O primeiro texto trata do Genocídio Armênio (1915–1923), ocorrido no fim do Império Otomano, quando cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos. Esse extermínio foi impulsionado pelo nacionalismo turco, sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial, quando o governo dos “Jovens Turcos” passou a ver os armênios — cristãos e com identidade cultural própria — como uma ameaça à integridade do Império. A retórica nacionalista turca promovia a homogeneização étnica e cultural, o que levou à perseguição sistemática de minorias, principalmente os armênios, vistos como potenciais aliados da Rússia, inimiga do Império Otomano.
O segundo texto se refere ao êxodo de armênios da região de Nagorno-Karabakh, em 2023, após ofensiva militar do Azerbaijão, que retomou o controle da área. Esse conflito remonta ao período de dissolução da União Soviética no início dos anos 1990, quando fronteiras administrativas mal definidas tornaram-se disputas interestatais. A população armênia majoritária em Nagorno-Karabakh declarou independência, não reconhecida internacionalmente, o que provocou guerras intermitentes com o Azerbaijão, que considera a região parte de seu território. Assim, as tensões pós-soviéticas e o nacionalismo étnico alimentaram novos episódios de violência e deslocamento forçado.
As demais alternativas são imprecisas ou incorretas. A a, ao falar da “manutenção da Cortina de Ferro”, mistura períodos históricos distintos e irrelevantes ao genocídio otomano. A letra c incorre em um viés discriminatório ao citar “fanatismo religioso muçulmano” e responsabilizar genericamente os armênios por atos de terrorismo, o que distorce os fatos históricos e reforça estigmas. A d também apresenta uma leitura equivocada: o conflito no Cáucaso não é impulsionado por separatismo islâmico, mas por nacionalismos territoriais e étnicos. Já a e menciona os czares russos, que não têm relação direta com os episódios descritos, além de fazer uma generalização excessiva sobre “acordos bilaterais”.
23 – B
O terremoto que atingiu o Haiti em 12 de janeiro de 2010, com magnitude 7,3 na escala Richter, foi um dos eventos geológicos mais devastadores da história recente. Esse tipo de desastre natural está diretamente relacionado aos movimentos das placas tectônicas, que compõem a crosta terrestre e interagem em suas bordas, também chamadas de limites tectônicos. No caso específico do Haiti, o país está localizado sobre a falha de Enriquillo-Plantain Garden, uma zona de falha transformante, onde as placas do Caribe e da América do Norte se deslocam lateralmente uma em relação à outra.
Além disso, a região do Caribe também possui zonas convergentes, onde a subducção de placas ocorre, o que contribui para uma elevada instabilidade sísmica e vulcânica. Portanto, o Haiti encontra-se em uma área onde limites transformantes e convergentes coexistem, fazendo com que a energia acumulada pelas tensões tectônicas seja liberada na forma de terremotos. O sismo de 2010 é um exemplo extremo dos impactos sociais e urbanos de tais processos naturais, agravados por fatores como pobreza estrutural, urbanização desordenada e fragilidade das infraestruturas, que potencializam os danos causados por eventos geofísicos.
As demais alternativas estão tecnicamente incorretas. A letra a menciona zonas de placas divergentes, que são locais onde as placas se afastam (como as dorsais oceânicas), geralmente associadas à formação de crosta nova, não a terremotos destrutivos em regiões continentais. A opção c incorre ao sugerir “perímetros centrais de placas tectônicas oceânicas”, que são, em geral, estáveis e pouco associados a terremotos de grande intensidade. A d, ao citar “regiões cristalinas com alto índice de sedimentação”, mistura conceitos geológicos distintos e irrelevantes para sismos. Já a alternativa e, que fala em “áreas de baixa pressão atmosférica próximas ao Equador”, confunde processos meteorológicos com geológicos, o que não se aplica ao caso dos terremotos.
24 – D
A perspectiva apresentada por Clifford Geertz, um dos principais nomes da antropologia interpretativa, defende que a cultura deve ser compreendida como um sistema simbólico, no qual os significados são produzidos, compartilhados e atualizados socialmente. Para Geertz, interpretar uma cultura é buscar entender como os próprios membros daquele grupo atribuem sentido às suas ações, crenças e valores, e não impor julgamentos ou critérios externos. Essa abordagem rompe com visões etnocêntricas, que avaliam outras culturas a partir dos valores da própria sociedade de quem observa.
Ao considerar que os símbolos culturais têm significados construídos historicamente, o texto destaca a importância do que se chama de relativismo cultural, ou seja, a ideia de que nenhuma cultura pode ser compreendida fora de seu contexto próprio. Essa abordagem sustenta a valorização das práticas culturais segundo os sentidos atribuídos pelos próprios sujeitos que as vivenciam, sendo uma das bases do respeito à diversidade cultural.
As alternativas incorretas não captam essa dimensão relativista e contextual. A letra a incorre em um erro conceitual ao afirmar uma “superioridade” de sistemas simbólicos universais — justamente o que a antropologia de Geertz rejeita. A opção b está errada ao propor a imposição de normas globais, o que ignora o princípio da especificidade cultural defendido pelo autor. A c, ao sugerir uma neutralidade das ciências diante das tradições, não condiz com a abordagem interpretativa, que valoriza o engajamento compreensivo com os significados locais. Já a e, ao buscar estabelecer “padrões éticos comuns”, desconsidera a pluralidade de sistemas morais e formas de vida existentes nas diferentes culturas humanas.
25 – B
O texto apresenta um contraste clássico entre duas correntes do pensamento filosófico da Grécia Antiga: os sofistas e Sócrates. Os sofistas eram mestres itinerantes que ensinavam a retórica e a oratória, cobrando por suas lições. Seu objetivo principal era formar cidadãos eficazes na vida pública, especialmente na política e nos tribunais, por meio da persuasão verbal, muitas vezes independentemente da busca pela verdade. Para eles, a verdade era relativa, e o saber tinha valor prático e imediato.
Já Sócrates se opunha radicalmente a esse modelo. Sua filosofia era voltada para a reflexão crítica e ética e baseada na maiêutica, método que consistia em estimular o interlocutor a chegar ao conhecimento por meio do questionamento e do diálogo. Para Sócrates, o verdadeiro saber não era algo que se transmitia de forma pronta ou ornamental, mas algo que emergia de dentro do indivíduo por meio da autocompreensão. Assim, enquanto os sofistas priorizavam a eficiência argumentativa com fins práticos, Sócrates buscava a verdade e a formação moral do sujeito.
As alternativas incorretas não correspondem aos elementos centrais do texto. A letra a, ao mencionar a valorização da tradição, ignora que nem os sofistas nem Sócrates se baseavam nesse critério — ambos buscavam romper com saberes tradicionais. A c, que trata da negação da cidadania, é totalmente deslocada, já que tanto sofistas quanto Sócrates atuaram dentro do contexto político e social da pólis. A opção d, ao falar em revelação, remete a concepções religiosas ausentes no pensamento dos dois grupos. E a e, ao sugerir adoção religiosa como fundamento ético, confunde a filosofia grega com doutrinas teológicas posteriores, o que não se aplica ao contexto da Atenas clássica.
26 – D
A teoria da mais-valia, elaborada por Karl Marx em sua obra O Capital, é um dos pilares da crítica marxista ao sistema capitalista. Segundo Marx, o trabalhador vende sua força de trabalho em troca de um salário, mas, durante sua jornada, produz mais valor do que aquele que recebe. Esse valor excedente — que não é remunerado — é apropriado pelo capitalista, e constitui o lucro do sistema. Marx denomina essa diferença de mais-valia, evidenciando que a acumulação de capital ocorre por meio da exploração do trabalho assalariado, ainda que essa relação seja formalmente livre e contratual.
Essa lógica revela que, no capitalismo, a riqueza de uma minoria é sustentada pela extração contínua do valor gerado por uma maioria trabalhadora. O capitalista, ao comprar a força de trabalho por um valor (o salário), espera que o trabalhador produza um valor superior a esse custo. Esse excedente, ou mais-valia, é reinvestido, ampliando o capital acumulado e mantendo a reprodução ampliada do sistema. A teoria da mais-valia, portanto, não apenas denuncia a desigualdade estrutural do capitalismo, mas explica como ela se reproduz historicamente.
As alternativas incorretas não se relacionam diretamente com o conceito marxista. A letra a, ao focar na divisão técnica do trabalho, aborda um aspecto da organização produtiva que pode estar presente tanto no capitalismo quanto em outros sistemas, mas não explica a lógica da exploração apontada por Marx. A b, sobre a autonomia do trabalhador, contradiz o próprio texto, que evidencia o caráter explorador da relação capital-trabalho. A c, ao mencionar lógica meritocrática, ignora que Marx criticava a ideia de que riqueza resulta exclusivamente de mérito individual — para ele, trata-se de uma relação de classe. Já a e, que trata da substituição por tecnologias, remete a outra categoria marxista (a tendência à substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto), mas não se vincula diretamente ao conceito de mais-valia.
27 – A
A expansão da fronteira agrícola no Brasil, especialmente com a monocultura da soja e da criação de gado, tem provocado uma série de impactos socioambientais, sobretudo em regiões como o domínio amazônico e o cerrado, notadamente a partir da década de 1970. A prática do desmatamento para o cultivo de soja e a substituição de florestas por áreas agrícolas afetam diretamente o ciclo hidrológico, que depende da cobertura vegetal para o equilíbrio da umidade e das chuvas. Florestas tropicais como a Amazônia têm papel fundamental no processo de evapotranspiração, responsável pela liberação de umidade na atmosfera. Quando essas áreas são desmatadas para dar lugar a grandes plantações mecanizadas, esse processo é interrompido, reduzindo a formação de chuvas e contribuindo para alterações climáticas regionais e até continentais.
Além disso, o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras de soja impacta negativamente os ecossistemas locais e a saúde das populações tradicionais, como retratado no texto. Os efeitos relatados pela comunidade munduruku — como vômitos, tontura, e dificuldades respiratórias — estão associados à contaminação por pesticidas, fenômeno comum nas regiões onde há sobreposição entre terras indígenas e propriedades agrícolas.
As demais alternativas são inconsistentes com a realidade apresentada. A letra b está errada ao afirmar que há redução nas emissões de gases estufa, quando, na verdade, o desmatamento e as queimadas ampliam essas emissões. A c, que menciona modificação das características topográficas, confunde processos geológicos com atividades antrópicas — o cultivo da soja não altera a topografia em sentido estrito. A alternativa d está equivocada ao sugerir manutenção de colheitas sustentáveis, pois a monocultura da soja promove desequilíbrio ecológico e inviabiliza práticas tradicionais de subsistência. Já a e, ao afirmar a atenuação de conflitos indígenas, ignora que o avanço do agronegócio frequentemente intensifica as tensões entre comunidades originárias e produtores rurais, como exemplificado no próprio texto.
28 – E
O texto descreve as motivações da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910, um dos episódios mais emblemáticos da história social e militar do Brasil republicano. Os marinheiros — em sua maioria negros, pobres e ex-escravizados ou filhos de ex-escravizados — se insurgiram contra os castigos físicos que continuavam a ser aplicados na Marinha, especialmente o uso da chibata (espécie de chicote). Essa prática era uma herança dos tempos da escravidão e simbolizava a continuidade de um regime de punição desumanizante mesmo após a abolição em 1888 e a proclamação da República em 1889.
O castigo corporal, embora abolido formalmente, ainda era praticado de forma arbitrária e severa pelos oficiais da Marinha, o que reforçava as desigualdades raciais e hierárquicas. Os marinheiros, além de viverem em péssimas condições, enfrentavam jornadas exaustivas e ausência de canais formais para denunciar abusos. Assim, a revolta liderada por João Cândido Felisberto representou não apenas uma contestação à violência institucional, mas também uma luta por cidadania, dignidade e respeito.
As alternativas incorretas deturpam os aspectos centrais da revolta. A a, ao mencionar ascensão na carreira, não contempla o ponto principal do movimento, que foi a abolição dos castigos físicos, embora as limitações de mobilidade social estivessem presentes. A b está equivocada ao afirmar que a violência era “premiada”; o texto aponta a impunidade dos oficiais, não sua premiação. A opção c, que fala em incentivo à insubordinação, inverte a relação de causa e efeito: a insubordinação foi resposta aos abusos, e não promovida por eles. Já a d erra ao supor que os castigos descumpriam o código militar, quando, na verdade, muitos castigos estavam formalmente previstos, embora fossem eticamente condenáveis e juridicamente questionados por poucos.
29 – C
A classificação apresentada no texto é baseada na teoria do sociólogo Max Weber, que identificou três tipos ideais de dominação legítima: a dominação tradicional, a carismática e a legal-racional. A dominação tradicional está ligada à legitimidade baseada em costumes e tradições, como em monarquias hereditárias. A carismática se funda na devoção pessoal a líderes excepcionais, cuja autoridade deriva de qualidades extraordinárias percebidas por seus seguidores. Já a dominação legal-racional, considerada por Weber como característica das sociedades modernas, se sustenta em normas legais impessoais, ou seja, a autoridade é exercida por meio de cargos institucionais e regras previamente estabelecidas.
Nas instituições contemporâneas — como o Judiciário, os sistemas burocráticos do Estado, universidades, empresas e órgãos administrativos — prevalece esse tipo de organização. A legitimidade da autoridade reside na obediência ao ordenamento jurídico, e não em atributos pessoais ou tradições culturais. O poder, portanto, é exercido por meio de regras formais, e não pelo arbítrio dos indivíduos. Essa estrutura permite maior previsibilidade, eficiência e racionalidade, elementos valorizados na administração moderna.
As demais alternativas se equivocam em relação à classificação de Weber. A letra a, ao mencionar normas consuetudinárias e vínculos familiares, remete à dominação tradicional, típica de ordens sociais pré-modernas. A b descreve com precisão a dominação carismática, mas esta não é a forma predominante nas instituições atuais. A d, ao falar em mitos fundadores, propõe um critério simbólico que não se enquadra entre os tipos weberianos de dominação legítima. Já a e confunde o papel do carisma em lideranças políticas com a estrutura permanente das instituições, que operam com base em regras impessoais, não em lideranças individualizadas.
30 – D
A instauração do calendário revolucionário em 1793, durante a Revolução Francesa, foi uma medida simbólica e política que refletia a tentativa dos revolucionários de romper com os valores, instituições e referências culturais do Antigo Regime. Criado durante o período jacobino, o novo calendário substituiu o calendário gregoriano, tradicionalmente vinculado à Igreja Católica e à monarquia, por uma contagem temporal baseada em princípios racionais e naturalistas. Os meses passaram a ter nomes ligados à natureza e às estações do ano (como Vendemiário, Brumário e Frimário), cada mês com exatamente 30 dias, organizados em semanas de 10 dias (décadas), o que também eliminava o domingo como dia sagrado, enfraquecendo a presença religiosa na vida cotidiana.
Essa mudança fazia parte de um conjunto mais amplo de reformas promovidas pelos jacobinos, que buscaram estabelecer uma nova ordem social e política pautada pelos ideais de razão, igualdade e laicidade. O calendário revolucionário, portanto, é um exemplo de como os revolucionários tentaram não apenas alterar a estrutura do Estado, mas também os costumes, a linguagem, a estética e a percepção do tempo, como forma de forjar uma nova identidade nacional.
As alternativas incorretas se afastam do contexto. A a, ao mencionar “descontentamento com o ritmo das mudanças sociais”, inverte a lógica: o calendário não expressa lentidão, mas sim o ímpeto transformador dos revolucionários. A b está errada porque o calendário foi instaurado sob influência dos jacobinos, não dos girondinos, que eram mais moderados. A C incorre ao citar o “poder do monarca”, quando, em 1793, a monarquia já havia sido abolida e o rei Luís XVI executado. Por fim, a E, ao falar em “questionamento do calendário de feição burguesa”, erra ao atribuir à burguesia um calendário tradicional que, na verdade, era herdado da tradição eclesiástica e da monarquia cristã — alvo direto dos revolucionários.
31 – C
O texto destaca que a Inteligência Artificial tende a transformar o mundo do trabalho, especialmente ao automatizar tarefas repetitivas, o que pode gerar desemprego estrutural — caracterizado pela substituição de trabalhadores cujas funções se tornam obsoletas. Nesse contexto, a atuação do Estado deve focar na qualificação profissional da força de trabalho, preparando os indivíduos para novas demandas do mercado, sobretudo em áreas que exigem habilidades cognitivas, criativas e sociais mais complexas, como as exercidas por professores e gestores. Assim, o aumento dos subsídios para programas de qualificação laboral surge como a medida mais eficaz para reduzir os impactos negativos da automação e promover a reinserção produtiva de trabalhadores em setores menos vulneráveis à substituição por máquinas.
32 – B
O terraceamento é uma técnica milenar de manejo do relevo que consiste na construção de degraus ou patamares nas encostas, com o objetivo de diminuir a velocidade da água da chuva, permitindo maior infiltração e evitando a erosão. Ao suavizar a declividade do terreno, essa prática reduz significativamente o escoamento superficial e impede o arraste de partículas do solo, favorecendo a conservação dos solos em regiões de relevo acidentado. Assim, o impacto direto sobre o meio físico é a redução dos processos erosivos, garantindo maior sustentabilidade à atividade agrícola em áreas montanhosas e íngremes. As demais alternativas estão incorretas: a) A salinização está relacionada ao uso excessivo de irrigação em regiões áridas, não ao terraceamento. c) O escoamento superficial é reduzido, e não elevado, devido à retenção de água nos degraus. d) Os movimentos de massa podem ser atenuados, mas não erradicados — pois dependem de vários fatores geológicos e climáticos. e) A desertificação ocorre em áreas semiáridas com uso intensivo e degradante do solo, e não é causada por terraceamento, mas sim por práticas agrícolas inadequadas.
33 – A
Durante o regime militar, a ocupação da Amazônia foi orientada por uma lógica desenvolvimentista, marcada por uma visão utilitária dos recursos naturais. A floresta passou a ser tratada como “vazio demográfico” e seus recursos como obstáculos a serem transformados em ativos econômicos por meio de obras de infraestrutura (como a Transamazônica), projetos agropecuários e grandes hidrelétricas. O lema “integrar para não entregar” sintetizava essa mentalidade, que priorizava a exploração imediata e desconsiderava os impactos ambientais e sociais a longo prazo. As demais alternativas estão incorretas: b) embora tenha havido expansão agropecuária, a agricultura intensiva e tecnificada não foi o principal vetor da ocupação inicial; c) o manejo sustentável nunca foi prioridade nesse contexto de forte intervenção estatal; d) longe de resolver a concentração fundiária, os incentivos à ocupação agravaram os conflitos agrários na região; e) os povos indígenas foram sistematicamente desrespeitados e deslocados, com suas culturas ignoradas ou ameaçadas por projetos estatais.
34 – C
A Crise do Petróleo da década de 1970 provocou uma profunda transformação nas economias ocidentais, que passaram a enfrentar o fenômeno da estagflação — estagnação econômica combinada com inflação elevada. Para reduzir os custos de produção e manter a competitividade, muitos países e empresas multinacionais deram início à reorganização territorial da produção. Esse processo consistiu na descentralização industrial, com a transferência de etapas produtivas para países com mão de obra mais barata e menores custos operacionais, especialmente no Sul global, possibilitada pelo avanço do meio técnico-científico-informacional. Assim, a nova lógica da produção passou a depender cada vez mais de redes globais e cadeias produtivas fragmentadas, promovendo uma nova divisão internacional do trabalho. As demais alternativas estão incorretas: a) não houve uma exclusão de territórios socialistas, que permaneceram atuantes no cenário global até o fim da Guerra Fria; b) não se buscou aproximação com aliados soviéticos, já que o contexto era de polarização geopolítica; d) o fortalecimento das economias asiáticas foi uma consequência da reorganização produtiva, e não seu objetivo; e) houve, na verdade, um movimento de desconcentração industrial, não de aumento da concentração nos países centrais.
35 – E
Segundo Manuel Castells, a sociedade contemporânea está estruturada em redes digitais globais, em que os fluxos de informação, capital e poder operam em tempo real e de forma interdependente. Nesse novo modelo social, o espaço virtual assume papel central na organização da vida coletiva, transformando a atuação de instituições, movimentos sociais e indivíduos. A alternativa correta é, portanto, a reorganização da vida coletiva por estruturas flexíveis e descentralizadas, pois a sociedade em rede rompe com hierarquias rígidas e centralizadas, promovendo uma forma de organização baseada na conectividade, horizontalidade e fluidez. As demais alternativas estão incorretas: a) ao contrário do que afirma, o modelo em rede permite maior conexão entre periferias e centros, embora de forma assimétrica; b) as tecnologias digitais tornam-se cada vez mais centrais, e não diminuem em importância; c) embora haja automação em diversos processos, a sociedade em rede também intensifica trocas simbólicas e interação humana por meios digitais; d) o processo descrito por Castells aponta para uma hiperconectividade global, e não para a fragmentação territorial da informação.
36 – C
Em 2023, as regiões com menores índices de urbanização continuam sendo aquelas com maior presença de atividades rurais tradicionais, dificuldades de infraestrutura e menor inserção nos fluxos globais de capital e informação. Nesse contexto, a África Subsaariana e o subcontinente indiano destacam-se como áreas com baixa taxa de urbanização, segundo dados da ONU-Habitat. A África Subsaariana, apesar do crescimento de cidades, ainda possui uma maioria rural, enquanto países como Índia, Bangladesh e Nepal, embora populosos, mantêm significativa parcela de suas populações em áreas rurais. Assim, a alternativa correta é a letra c. As demais opções estão incorretas por generalizarem regiões com realidades urbanas distintas: a) O Sahel e a África Austral possuem níveis urbanos variáveis — a África do Sul, por exemplo, é altamente urbanizada. b) O Chifre da África tem índices baixos, mas o ocidente africano apresenta urbanização crescente em países como Nigéria e Gana. d) O entorno do Mediterrâneo e do Mar Vermelho inclui países como Egito, Turquia e Arábia Saudita, com urbanização acima da média global. e) A porção setentrional da África (como Marrocos e Argélia) e o sudeste asiático (como Tailândia, Malásia e Indonésia) são regiões já bastante urbanizadas.
37 – E
O texto de E. P. Thompson descreve um tipo de organização do tempo baseada nas exigências concretas das tarefas produtivas, principalmente em contextos pré-industriais e comunitários. Nesse tipo de sociedade, as atividades não são reguladas por relógios ou cronogramas fixos, mas sim pela necessidade das tarefas — como colher antes das tempestades, cuidar de animais, manter fornalhas acesas. Trata-se do que Thompson denomina de “tempo orientado à tarefa”, em oposição ao tempo mecânico e abstrato introduzido com a industrialização. Nesse regime, as fronteiras entre trabalho e descanso são pouco definidas, pois o tempo é vivido conforme a urgência das atividades, e não segundo uma lógica comercial do tempo como mercadoria. Por isso, a alternativa correta é a letra e: separação menos perceptível entre as horas de trabalho e as de descanso. As demais estão incorretas: a) o tempo é marcadamente importante, ainda que não por relógios. b) há associação clara entre tempo e tarefa. c) o tempo mecânico ainda não é dominante nesse contexto. d) o tempo ainda não é tratado como mercadoria, o que caracteriza o modo de produção industrial.
38 – D
Na filosofia de Santo Agostinho, especialmente em sua concepção de iluminação divina, o conhecimento verdadeiro não se encontra no mundo sensível, sujeito a erros e ilusões, mas na interioridade da alma humana, onde a verdade é iluminada por Deus. A razão e a moral, portanto, têm seu fundamento nessa luz divina que orienta o intelecto para o conhecimento das verdades eternas. Assim, a obtenção do saber depende da abertura da alma para essa iluminação interior. As demais alternativas estão incorretas: a) a filosofia agostiniana incorpora elementos do pensamento grego, mas subordina-os à fé cristã; b) os sentidos não são a fonte primária do conhecimento verdadeiro para Agostinho; c) a experiência mística não é entendida como oposição à ciência, mas como caminho de compreensão divina; e) a imitação de ações heroicas não é o fundamento da ética agostiniana, que se baseia na busca da verdade e do bem supremo em Deus.
39 – E
A aplicação do termo “universal” ao sufrágio exclusivamente masculino no século XIX revela a naturalização de mecanismos de exclusão política, já que a participação eleitoral era negada às mulheres e a outros grupos sociais, mesmo após o fim das exigências censitárias. O discurso da igualdade política restringia-se aos homens, reforçando uma concepção limitada de cidadania que, ao ser chamada de “universal”, legitimava a exclusão como algo natural e não problemático para a época. As demais alternativas estão incorretas: a) não havia uma visão inclusiva real, pois o sistema ainda era restritivo; b) a democracia plena não se consolidava diante da exclusão de mulheres; c) a questão central não era apenas o reconhecimento das limitações, mas a sua aceitação implícita; d) o alcance dos direitos eleitorais continuava restrito e não amplo.
40 – D
O modelo patriarcal descrito por Gilberto Freyre, originado no contexto rural colonial e adaptado ao cenário urbano, contribuiu para a naturalização de relações de dependência na esfera política, como o clientelismo e o mandonismo, que reproduzem a lógica de subordinação e autoridade centralizada típica da Casa-Grande. Essa permanência histórica explica práticas sociais e políticas contemporâneas que mantêm hierarquias rígidas e limitam a participação democrática plena. As demais alternativas estão incorretas: a) o modelo patriarcal inibia, e não fortalecia, a mobilização popular; b) o sistema educacional brasileiro historicamente foi excludente e elitista; c) o poder religioso não foi substituído pelo jurídico, mas coexistiu com ele; e) a autogestão comunitária é incompatível com a estrutura hierárquica e centralizada do patriarcado.
41 – D
Os escudos cristalinos são formações geológicas antigas compostas predominantemente por rochas ígneas e metamórficas, resultantes de longos processos tectônicos e erosivos. Essas áreas são ricas em minerais metálicos, como o minério de ferro — amplamente explorado em regiões como o Quadrilátero Ferrífero (MG) — e a bauxita, principal minério para a produção de alumínio, encontrada em áreas como o Pará. Destacamos o Projeto Carajás, localizado no sul do Pará, área riquíssima em minérios. As demais alternativas estão incorretas: a) o petróleo é encontrado principalmente em bacias sedimentares, não em escudos cristalinos; b) o gás natural está associado a formações sedimentares, e o silício, apesar de ser abundante, não é o recurso estratégico típico dessas estruturas; c) xisto e carvão mineral também estão ligados a bacias sedimentares; e) carvão vegetal não é um recurso geológico, e a água potável não é exclusiva desse tipo de formação.
42 – D
A marginalização da influência indígena na culinária brasileira decorre de um processo de apagamento etnocêntrico, no qual a contribuição das práticas e saberes indígenas foi subestimada ou invisibilizada em favor de modelos alimentares considerados “superiores” segundo valores eurocêntricos. Embora a alimentação indígena tenha sido essencial para a sobrevivência e adaptação dos colonizadores, ela foi gradualmente relegada a um papel secundário nas narrativas históricas e culturais. As demais alternativas estão incorretas: a) o uso cerimonial de alguns alimentos indígenas não explica a marginalização cultural mais ampla; b) as práticas de preparo não eram um obstáculo para sua valorização; c) os alimentos indígenas são nutricionalmente ricos, incluindo mandioca, milho e diversas frutas; e) a substituição por padrões culinários europeus é consequência do etnocentrismo, não a causa primária da exclusão.
43 – C
Para David Hume, a causalidade não é uma relação necessária existente objetivamente na natureza, mas uma expectativa subjetiva que se forma a partir da experiência repetida de eventos que ocorrem em sequência. Essa regularidade observada leva a mente humana a associar um fenômeno ao outro como causa e efeito, embora não exista uma prova racional de que essa ligação seja universal e imutável. Assim, a noção de causalidade é fruto do hábito mental, não de uma conexão lógica ou metafísica inerente ao mundo. As demais alternativas estão incorretas: a) Hume nega que a causalidade seja uma imposição racional necessária; b) rejeita a ideia de leis universais e imutáveis fundamentadas na experiência sensível; d) não restringe sua crítica ao campo moral; e) a concepção de “condição transcendental” é característica da filosofia kantiana, não da empirista.
44 – D
A pintura “Descobrimento da América”, de Johann Moritz Rugendas, retrata a chegada de Colombo ao continente em 1492, mas foi produzida no início do século XIX, num contexto em que o Romantismo europeu projetava sobre a América uma visão idealizada da natureza e dos povos nativos. A alternativa correta é a letra d, pois os indígenas aparecem representados como parte indissociável do cenário natural, em harmonia com a paisagem exuberante, o que reflete a concepção romântica que os via como “bons selvagens”, integrados à mata tropical e distantes de qualquer caracterização realista ou histórica. As demais alternativas estão incorretas porque não há na obra qualquer questionamento da perspectiva eurocêntrica, já que Colombo e seus homens ocupam posição central e heroica; o colonizador não tem papel secundário, mas domina visualmente a cena; a figuração dos nativos não é realista, e sim idealizada, sem referência a culturas específicas; e a natureza não foi concebida segundo padrões europeus em termos de vegetação, mas sim como um espaço simbólico de exotismo, em que os indígenas se confundem com a própria paisagem.
45 – C
O conceito de “novas ruralidades” envolve a diversificação das funções e usos do espaço rural, indo além da produção agropecuária tradicional para incluir atividades ligadas ao lazer, à cultura, à preservação ambiental e outros serviços do setor terciário. O turismo rural é um exemplo claro desse processo, pois incorpora elementos da vida no campo como atrativo para visitantes, gerando renda adicional e fortalecendo a conexão entre áreas urbanas e rurais. As demais alternativas estão incorretas: a) a produção orgânica é uma forma de agricultura tradicional adaptada a práticas sustentáveis, mas não representa, por si só, uma diversificação funcional ampla; b) a criação intensiva mantém-se ligada ao modelo agropecuário convencional; d) o controle biológico é técnica agrícola voltada ao manejo de pragas; e) a irrigação ecológica é método de produção agrícola sustentável, mas sem a mesma característica de diversificação econômica e social que marca as novas ruralidades.
46 – C
A canção “A Rita”, de Chico Buarque, lançada em 1966, é interpretada como um exemplo de uso de alegorias para criticar o contexto político durante a ditadura militar brasileira. O compositor recorre à metáfora de um rompimento amoroso para simbolizar a perda de direitos, a repressão e a supressão de liberdades — especialmente no campo cultural. Ao mencionar perdas materiais e simbólicas, assim como a “mudez” e a ausência de um “violão”, há referência velada ao aparato de censura que limitava a expressão artística e impunha restrições à produção cultural. As demais alternativas não condizem com o sentido alegórico central: a) não há menção à crítica antirreligiosa; b) não se trata de proibição específica de estilos musicais, mas de restrições mais amplas; d) não aborda criminalidade ou violência doméstica; e) a perda de perspectivas juvenis não é o eixo principal da metáfora construída.
47 – C
Em Durkheim, “fato social” designa padrões de agir, pensar e sentir que são exteriores aos indivíduos, coercitivos (impõem-se sob pena de sanções) e gerais (difundidos no corpo social). Por isso ele recomenda “tratar os fatos sociais como coisas”: não como estados psíquicos privados, mas como realidades objetivas, observáveis nas normas, instituições e costumes. Exemplos clássicos são a língua que falamos, as regras do trânsito, o calendário escolar, o dinheiro, as leis e os códigos morais; todos existiam antes de cada pessoa, moldam condutas e, quando violados, acionam sanções formais (multas, punições legais) ou informais (reprovação, ridicularização). Essa tríade — exterioridade, coercitividade e generalidade — permite distinguir o social do individual e afastar explicações psicologizantes. Logo, um comportamento é compreendido como fato social quando exerce influência coletiva por meio de normas que orientam as práticas cotidianas, articulando-se ao tecido institucional (família, escola, igreja, direito, mercado). Assim, a alternativa correta capta o núcleo do conceito: a força normativa do coletivo sobre os indivíduos.
As demais alternativas não se ajustam ao quadro durkheimiano. A opção (a) esvazia justamente a dimensão de exterioridade e de coerção, reduzindo as condutas à vontade individual. (b) desloca o foco para interpretações pessoais, mas, para Durkheim, a variabilidade subjetiva não define o social; o definidor é a normatividade coletiva. (d) confunde grande escala com socialidade: interesses privados podem afetar muitos, porém não se tornam fatos sociais se carecem de generalidade e de regra impessoal. (e) remete a motivações inconscientes da psique, campo típico da psicologia/psicanálise, ao passo que Durkheim quer uma explicação sociológica que privilegie estruturas, normas e instituições.
48 – E
O conceito de domínio morfoclimático, formulado pelo geógrafo Aziz Ab’Sáber, refere-se a uma grande unidade paisagística brasileira que integra, de forma articulada, três elementos fundamentais: morfologia (formas de relevo predominantes), clima (regime de temperaturas e chuvas) e vegetação (formações vegetais associadas). Essa abordagem busca compreender a paisagem como resultado da interação entre fatores físicos e biológicos ao longo do tempo geológico e histórico. O Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros é caracterizado por relevos ondulados e colinosos, com encostas convexas e interflúvios arredondados, originados de longos processos de intemperismo químico e erosão. Esses terrenos estão associados a rochas cristalinas antigas, especialmente do embasamento pré-cambriano, e ocorrem principalmente na faixa atlântica do Brasil, desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, avançando em áreas do interior. A vegetação original desse domínio é a Mata Atlântica, uma floresta tropical densa, latifoliada e perene, extremamente biodiversa e adaptada a solos geralmente profundos, mas ácidos e pobres em nutrientes. Essa floresta apresenta múltiplos estratos, abundância de epífitas (como bromélias e orquídeas) e grande variedade de espécies endêmicas. No que diz respeito ao clima, a maior parte da área se insere no tropical úmido ou subtropical úmido, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano, ou seja, não há estação seca definida. Essa regularidade pluviométrica é explicada pela atuação constante de massas de ar úmidas vindas do Atlântico, como a Massa Tropical Atlântica e, no inverno, a influência da Massa Polar Atlântica, que, ao encontrar as barreiras orográficas da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira, provoca chuvas orográficas.
49 – A
A fala de Hilda Amalia Garcés evidencia a importância da preservação da memória histórica como forma de resistência à negação das violações cometidas pela ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Ao afirmar que negar os acontecimentos é “como dizer que o que passamos não existiu”, a ex-presa política destaca que o apagamento desses eventos representa não apenas uma distorção histórica, mas também uma revitimização daqueles que sofreram torturas, prisões arbitrárias e desaparecimentos forçados. Essa postura se insere na lógica da luta contra a banalização de traumas sociais, pois busca impedir que crimes de Estado sejam relativizados ou esquecidos, reforçando a necessidade de reconhecimento, justiça e reparação. A preservação da memória não é apenas um ato de registro factual, mas um instrumento fundamental para a consolidação da democracia e a prevenção de novas violações de direitos humanos. As demais alternativas estão incorretas: b) não se trata de superar individualmente eventos traumáticos, mas de enfrentar coletivamente a tentativa de apagamento histórico; c) o “direito ao esquecimento” contraria o posicionamento expresso no relato, que é de enfrentamento e não de esquecimento; d) não há celebração da diversidade interpretativa, mas uma crítica às leituras que negam ou minimizam as violências; e) a crítica não se restringe a políticas estatais de preservação histórica, mas ao negacionismo de modo geral.
50 – A
O bônus demográfico corresponde a uma fase específica da transição demográfica, quando a População em Idade Ativa (PIA) — composta por pessoas de 15 a 64 anos — está proporcionalmente maior que a população considerada dependente, isto é, crianças de até 14 anos e idosos com 65 anos ou mais. Podemos identificar isso visualmente nas pirâmides que tem o corpo maior que a base e o topo. Com menos crianças para sustentar e ainda com uma proporção relativamente pequena de idosos, a estrutura populacional concentra-se em adultos em idade produtiva, o que potencializa o crescimento econômico se houver políticas adequadas. Esse processo não é automático: para que o bônus se traduza em desenvolvimento, o país precisa garantir empregos de qualidade, investimentos em educação e capacitação profissional, saúde pública, inclusão social e estímulo à produtividade, de modo a transformar o contingente populacional ativo em capital humano capaz de sustentar o progresso econômico e social. Segundo José Eustáquio Diniz, especialista em demografia, “Nas primeiras décadas do envelhecimento, a população jovem diminui, mas a idosa, com mais de 65 anos, ainda não aumenta muito. É esse período que chamamos de 1º bônus demográfico, porque tem muita gente no meio da pirâmide, em idade de trabalhar. A proporção de gente em idade de trabalhar aumenta, e a proporção de dependentes, diminui. É nesse momento em que os países dão um salto no desenvolvimento”. Na sua avaliação, os países devem “enriquecer antes de envelhecer”: “O país só enriquece antes de envelhecer. Não tem nenhuma história de 1 país que conseguiu enriquecer –quando eu falo enriquecer é acabar com a pobreza, com a fome– depois que envelheceu. Tem que fazer isso antes de envelhecer ou antes de ser plenamente envelhecido”. (Citações retiradas da matéria publicada pelo site poder360).
51 – D
O conceito de “homem cordial” elaborado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil é frequentemente mal interpretado como sinônimo de gentileza ou simpatia, mas, na verdade, está ligado à predominância de vínculos pessoais, afetivos e familiares na organização social e política brasileira. Para o autor, a cordialidade se manifesta quando normas impessoais, próprias da esfera pública, são constantemente relativizadas em função de relações privadas. Isso significa que decisões que deveriam se pautar pela universalidade da lei e pelo interesse coletivo acabam submetidas a laços de amizade, favores ou compadrio. Essa característica, longe de garantir uma sociedade republicana, reforça práticas como o clientelismo e o patrimonialismo, em que os limites entre o público e o privado se tornam difusos. Nesse sentido, a alternativa correta é a d), pois o “homem cordial” contribui para a confusão entre as esferas públicas e privadas na condução dos assuntos comuns, dificultando o fortalecimento de instituições impessoais e modernas. As demais alternativas estão incorretas: a) A separação rigorosa entre interesses individuais e coletivos não se estabelece, justamente porque esses limites se embaralham; b) A ética meritocrática não é fortalecida, mas fragilizada, já que prevalecem critérios pessoais sobre o mérito; c) A autoridade institucional não se sobrepõe, e sim cede espaço às relações informais; e) As normas jurídicas baseadas na impessoalidade permanecem fragilizadas diante da prevalência de vínculos pessoais.
52 – D
Os chamados “rios voadores” são massas de ar carregadas de água que partem da Amazônia e transportam grandes volumes de umidade para regiões distantes, como o Centro-Oeste, o Sudeste e até o Sul do Brasil, influenciando diretamente o regime de chuvas e garantindo a disponibilidade hídrica para a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano. Quando ocorre o desmatamento, a cobertura vegetal responsável pela evapotranspiração diminui, reduzindo o volume de água liberado para a atmosfera e, consequentemente, a intensidade dos rios voadores. Essa diminuição repercute no regime de chuvas de diversas regiões, gerando secas mais prolongadas e instabilidade climática. A consequência socioeconômica disso é a perda do poder de consumo, uma vez que a escassez de chuvas compromete a produção industrial e agrícola, eleva os preços dos alimentos e dos produtos, impacta a geração de energia elétrica — com aumento de tarifas — e provoca retração no poder de compra da população. É preciso lembrar que os salários não acompanham a inflação e o aumento de preço dos produtos, o que produz a redução no poder de compra da população. Portanto, a alternativa correta é a d). As demais alternativas estão incorretas: a) A salinização está ligada ao excesso de irrigação em áreas áridas, e não ao fenômeno dos rios voadores; b) A grilagem se refere à apropriação ilegal de terras e não tem relação direta com o transporte atmosférico de umidade; c) A laterização é um processo pedogenético em climas tropicais úmidos, mas não implica redução da umidade atmosférica; e) A arenização é um processo de degradação dos solos, comum no Sul do Brasil, mas não interfere na dinâmica atmosférica dos rios voadores.
53 – C
A Constituição de 1934 foi um marco no campo educacional brasileiro, pois, pela primeira vez, estabeleceu a obrigatoriedade do ensino primário, gratuito e acessível inclusive aos adultos. Esse avanço deve ser entendido no contexto de um país que, nos anos 1930, passava por acelerado processo de industrialização e urbanização, o que exigia uma população minimamente alfabetizada para atender às demandas do mundo do trabalho e à inserção produtiva nas cidades. O objetivo central dessa medida não era apenas promover cidadania, mas sobretudo garantir a formação de mão de obra qualificada para a indústria, atendendo às necessidades de um novo modelo econômico em construção, baseado na industrialização e na diversificação produtiva. Além disso, a obrigatoriedade escolar contribuiu para a ampliação da participação social e para a difusão de valores de nacionalidade e solidariedade, conforme o espírito da Constituição da época. Portanto, a alternativa correta é a c). As demais alternativas estão incorretas: a) A Constituição de 1934 antecede o Estado Novo (1937-1945), portanto não foi elaborada para formar militantes alinhados ao regime autoritário de Vargas; b) Embora a carta de 1934 tenha buscado diminuir a hegemonia da Igreja na educação, seu objetivo principal estava mais ligado à organização do sistema educacional e à modernização do Estado, não a um enfrentamento direto à religiosidade; d) Não havia naquele momento um “complexo industrial-militar” no Brasil, sendo essa uma leitura anacrônica; e) Ao contrário, a instituição da obrigatoriedade do ensino buscava reduzir desigualdades, ainda que a aplicação prática tenha esbarrado em limites estruturais e sociais.
54 – D
Na ética de Kant, a liberdade moral não consiste em seguir regras externas ou em agir conforme desejos particulares, mas em agir de acordo com princípios que a própria razão reconhece como válidos universalmente. Essa é a base do conceito de autonomia: o ser humano só é verdadeiramente livre quando legisla moralmente para si, guiado pela razão, e não por inclinações, pressões externas ou tradições herdadas. Nesse sentido, o agir ético kantiano exige que a conduta do indivíduo seja avaliada pela sua universalidade, ou seja, se a máxima de sua ação pode ser transformada em uma lei válida para todos. Esse princípio é conhecido como imperativo categórico, que formula a moralidade como algo incondicional, independente das consequências ou de interesses pessoais. Portanto, a alternativa correta é a d) uso da razão para formular princípios válidos universalmente. As demais alternativas estão incorretas: a) Submeter-se a valores comunitários herdados significa heteronomia, ou seja, agir por determinação externa, o que é contrário à autonomia kantiana; b) Avaliar consequências aproxima-se do utilitarismo (Bentham, Mill), não da ética kantiana, que se baseia no dever e não nos resultados; c) Agir por inclinações naturais é agir movido por desejos ou sentimentos, o que não garante universalidade nem moralidade; e) Aceitar tradições morais socialmente transmitidas significa novamente agir por heteronomia, e não pela razão autônoma.
55 – E
O gráfico evidencia que a matriz elétrica brasileira permanece altamente dependente da hidroeletricidade: historicamente, as hidrelétricas responderam por cerca de dois terços a quatro quintos da geração do país, o que mantém o Brasil entre os sistemas mais limpos do mundo em termos de emissões do setor elétrico, ainda que essa participação venha caindo com a entrada de outras renováveis. Nos dados mais recentes, a hidreletricidade segue como a principal fonte, mas o peso relativo tem oscilado conforme o regime de chuvas e a expansão das demais fontes; por exemplo, em junho de 2024 a geração hidráulica representou 58,8% do total, dentro de um quadro em que as renováveis (hidro, eólica, solar e biomassa) somaram 93,5% da eletricidade gerada. No gráfico é possível notar também como os combustíveis fósseis não apresentam tanta relevância na matriz elétrica. Em momentos de baixa pluviosidade, no entanto, o país costuma acionar as termelétricas, que via de regra queimam gás natural ou diesel (fósseis).
56 – C
“O Fardo do Homem Branco”, escrito por Rudyard Kipling em 1899, é uma das expressões mais emblemáticas do pensamento que justificou o neocolonialismo no final do século XIX e início do XX. Nessa lógica, os povos colonizados eram vistos como atrasados, inferiores ou incapazes de alcançar o progresso por conta própria, sendo, portanto, “dever” das potências europeias — e posteriormente dos Estados Unidos — levá-los à civilização, ao trabalho e à ordem social. Esse raciocínio se baseia no darwinismo social, corrente de pensamento que extrapolou as ideias de Charles Darwin sobre a seleção natural para o campo social e político, interpretando as diferenças entre sociedades como se fossem hierarquias naturais e inevitáveis. Assim, justificava-se a dominação colonial como um processo “necessário” e benéfico, onde os povos colonizados deveriam ser “guiados” pelas potências hegemônicas. As demais alternativas não se encaixam: multilateralismo (a) refere-se à cooperação entre vários países em organismos internacionais, algo oposto ao espírito unilateral e impositivo do colonialismo; doutrina Truman (b) é uma política da Guerra Fria, muito posterior ao contexto do poema; relativismo cultural (d) defende o respeito à diversidade cultural, sendo totalmente contrário à imposição etnocêntrica do fardo civilizatório; e internacional socialismo (e) se refere às teorias socialistas de solidariedade entre trabalhadores, o que também contrasta com a visão hierárquica e racista apresentada no poema.
57 – C
Os filósofos pré-socráticos inauguraram uma nova maneira de pensar, marcada pela busca de explicações racionais, universais e necessárias para a realidade, em contraste com as narrativas míticas tradicionais, que atribuíam os fenômenos naturais à vontade de deuses ou seres sobrenaturais. Essa mudança foi decisiva para o nascimento da filosofia e da ciência na Grécia Antiga, pois deslocou o centro da explicação do plano divino para o plano da natureza (physis). Assim, em vez de compreender, por exemplo, os relâmpagos como manifestações da fúria de Zeus, buscava-se entender sua causa em termos de processos naturais. Cada filósofo pré-socrático propôs um princípio fundamental (arché) para explicar a origem e a constituição de todas as coisas: Tales de Mileto apontava a água, Anaxímenes o ar, Heráclito o fogo e a mudança constante, enquanto Parmênides destacava a permanência do ser. Ainda que suas respostas fossem variadas e muitas vezes rudimentares, o que os unificava era a postura crítica e racional frente ao mundo, abrindo caminho para o pensamento científico e filosófico posterior. As demais alternativas não se adequam: a) sugere continuidade de mitos, quando houve ruptura; b) fala em reinterpretação de dogmas religiosos, mas o objetivo era justamente separar-se da religião; d) refere-se à institucionalização do saber religioso, que não corresponde ao movimento pré-socrático; e) mantém os deuses como responsáveis pelas leis naturais, algo que esses pensadores procuraram superar.
58 – D
Na teoria crítica desenvolvida por Jürgen Habermas, a sociedade moderna se organiza em duas dimensões distintas: o “sistema”, que compreende os mecanismos administrativos, políticos e econômicos regidos por lógicas instrumentais de poder e dinheiro; e o “mundo da vida”, que corresponde ao espaço das relações sociais cotidianas, da linguagem, da cultura e da reprodução simbólica da sociedade. O problema, segundo o autor, surge quando ocorre a chamada “colonização do mundo da vida”, isto é, quando os mecanismos sistêmicos passam a interferir e dominar os processos de comunicação, reduzindo a possibilidade de construção coletiva de sentidos e comprometendo a autonomia dos indivíduos. Para Habermas, a democracia só pode se consolidar se for garantida a primazia dos processos de comunicação intersubjetiva livres de coerções externas. Isso significa preservar os espaços de diálogo simbólico – como família, escola, comunidade e esfera pública – contra a invasão de critérios econômicos e burocráticos que tendem a transformar interações humanas em relações utilitaristas ou mercadológicas. A emancipação comunicativa se realiza justamente quando os indivíduos podem se relacionar de maneira racional e crítica, em condições de igualdade, sem que a lógica do capital ou do poder político distorça a troca de argumentos. As alternativas incorretas não refletem o núcleo da teoria habermasiana: a) supervaloriza o papel das instituições jurídicas, que, embora importantes, não são suficientes sem a base comunicativa; b) defende a expansão da burocracia, quando Habermas a vê como fator de colonização; c) propõe universalização de padrões econômicos, justamente um risco para o mundo da vida; e) sugere substituir a comunicação por critérios técnicos, que também reforçam a dominação sistêmica.
59 – A
O grafite de Banksy, localizado na Cisjordânia, faz referência direta ao muro construído por Israel a partir de 2002, conhecido como “Barreira de Separação” ou “Muro da Cisjordânia”. Oficialmente, o governo israelense justifica sua construção como medida de segurança contra atentados, mas, para a comunidade internacional e para os palestinos, o muro representa um instrumento de segregação populacional, pois restringe a circulação, fragmenta territórios e dificulta o acesso de palestinos a recursos básicos, como trabalho, saúde e educação. Ao utilizar o símbolo universal do “corte aqui”, Banksy sugere que esse muro deveria ser “recortado” ou removido, ironizando a naturalização de uma barreira que aprofunda a exclusão social e espacial. A simplicidade do traço e a escolha de um ícone comum a qualquer consumidor global reforçam o impacto da obra: ela transforma uma barreira política e militar em algo que pode – e deve – ser desfeito. As alternativas incorretas não se adequam ao sentido do grafite: b) o legado colonial está relacionado à dominação histórica europeia sobre povos colonizados, mas não é o foco imediato da obra; c) a intolerância religiosa existe no contexto, mas o muro não é construído em função do conflito religioso, e sim de uma disputa territorial e política; d) a ação de grupos separatistas radicais não é o alvo da crítica, já que Banksy denuncia o muro em si; e) imigração ilegal também não corresponde, pois o tema não é a entrada de refugiados, mas a segregação entre israelenses e palestinos.
60 – C
O texto descreve o modelo produtivo desenvolvido por Henry Ford no início do século XX, conhecido como fordismo, que revolucionou a indústria ao introduzir a produção em massa baseada na linha de montagem. Nessa lógica, o processo de fabricação é fragmentado em etapas específicas e repetitivas, de modo que cada trabalhador se responsabiliza por uma única tarefa. Assim, em vez de um grupo fabricar um carro inteiro, cada operário executava apenas uma parte do processo, como instalar rodas, vidros ou portas, enquanto o produto passava por uma esteira mecânica. Esse método aumentou significativamente a produtividade, reduziu os custos de produção e tornou possível baratear os automóveis, ampliando o acesso ao consumo. Outro aspecto central do fordismo, destacado no texto, foi a valorização relativa da mão de obra: Ford reduziu a jornada de trabalho e aumentou os salários, possibilitando que os próprios trabalhadores se tornassem consumidores dos produtos que fabricavam. Essa estratégia gerou a chamada demanda efetiva, fundamental para sustentar a lógica da produção em massa. Assim, a grande inovação de Ford não foi criar novas tecnologias, mas sim reorganizar as já existentes dentro de um sistema racionalizado de trabalho. As alternativas incorretas não correspondem ao modelo descrito: a) estoque zero e b) produção flexível referem-se ao toyotismo, surgido no Japão no pós-guerra, caracterizado pela produção enxuta e adaptável à demanda; d) terceirização laboral é uma prática mais associada ao período da acumulação flexível e à globalização; e) desconcentração produtiva também é posterior, ligada à fragmentação espacial da produção em cadeias globais.
61 – A
O relato do padre jesuíta de 1619 descreve os quilombos (também chamados de mocambos), que eram comunidades formadas por africanos escravizados que fugiam das fazendas, engenhos e minas em busca de liberdade. Para o missionário europeu, essas práticas eram vistas como uma ameaça à ordem colonial, já que a fuga implicava perda de mão de obra e ataques às bases econômicas da colônia. Entretanto, do ponto de vista histórico, os quilombos constituíam uma das formas mais importantes de resistência ao sistema escravista, representando a luta pela autonomia, pela preservação cultural e pela sobrevivência fora da lógica da exploração. É importante destacar que os quilombos não eram apenas locais de refúgio, mas também espaços de organização social, econômica e cultural, onde práticas africanas se mesclavam com elementos indígenas e, em alguns casos, até europeus. O Quilombo dos Palmares, em Alagoas, é o exemplo mais conhecido: chegou a reunir milhares de pessoas, sob liderança de figuras como Ganga Zumba e Zumbi, tornando-se símbolo da luta contra a escravidão.
62 – C
Os dobramentos modernos correspondem às grandes cadeias montanhosas que se formaram durante a era Cenozoica, especialmente no período Terciário, razão pela qual também recebem esse nome. A sua origem está diretamente relacionada à tectônica de placas, mais especificamente ao movimento convergente, quando duas placas litosféricas colidem. Esse processo gera intensa compressão, provocando o soerguimento e o dobramento das camadas sedimentares acumuladas nas bordas continentais ou nos fundos oceânicos. Como resultado, formam-se cordilheiras de grande altitude, como os Andes, formados pelo encontro da Placa de Nazca com a Placa Sul-Americana, ou o Himalaia, fruto da colisão da Placa Indiana com a Placa Euroasiática. Esse tipo de estrutura é caracterizado por atividade tectônica recente e, portanto, ainda apresenta dinamismo geológico: ocorrência de vulcanismo, terremotos e instabilidade sísmica, já que as áreas de contato entre placas são zonas de grande liberação de energia. Além disso, por serem geologicamente jovens, esses relevos apresentam altitudes elevadas, encostas íngremes e forte influência sobre o clima regional. As demais alternativas não se aplicam: a) o distanciamento tectônico está ligado às dorsais oceânicas, e não às cadeias orogênicas; b) a sedimentação de rochas recentes ocorre em bacias sedimentares, não em dobramentos modernos; d) a dinâmica erosiva em áreas de encosta é consequência posterior da formação dos dobramentos, mas não sua causa; e) a contração dos relevos pré-cambrianos está associada a formações muito mais antigas, como os escudos cristalinos.
63 – A
O excerto descreve que os gêneros agrícolas e o pescado eram trazidos por escravos e outros trabalhadores e vendidos por lavradores, consignatários, negociantes e quitandeiras “sem o menor abrigo, apenas algumas pequenas barracas volantes ou algum chapéu de sol”. Essa imagem evidencia como o trabalho braçal, essencial ao abastecimento do Rio de Janeiro no fim do século XIX, era realizado em condições adversas, com esforço físico intenso, pouca proteção e quase nenhum reconhecimento social, configurando a constante depreciação do trabalho cotidiano. A letra b está incorreta porque não havia plena liberdade de comércio nem garantia de ascensão social; a atividade era marcada por dependências e limitações impostas por intermediários. A letra c também não é adequada, pois, embora existissem relações entre lavradores, consignatários e quitandeiras, o texto não enfatiza uma organização comercial formalmente hierarquizada, mas sim a dureza material do ofício. A letra d erra ao sugerir centralidade feminina na produção agrícola, já que as quitandeiras atuavam principalmente na revenda urbana, e não na lavoura. Por fim, a letra e não se aplica porque o comércio descrito é voltado ao consumo local e não controlado por empresários do setor agroexportador. Assim, a característica principal ressaltada é a precariedade e o desprestígio do trabalho braçal cotidiano, confirmando a alternativa a.
64 – D
No texto, Georg Simmel descreve como, na oficina medieval, o trabalho era voltado diretamente ao freguês: o produto era confeccionado de forma personalizada e envolvia uma relação de proximidade entre produtor e consumidor. Esse vínculo garantia um sentido de pertencimento mútuo à mercadoria, que carregava tanto a identidade do produtor quanto as necessidades e expectativas do comprador. O século XIX, entretanto, trouxe profundas transformações com a Revolução Industrial e a ascensão da produção fabril em larga escala. A produção deixou de ser personalizada para se tornar padronizada, mecanizada e seriada, orientada para um mercado amplo e anônimo. Nesse novo contexto, o trabalhador perde o domínio sobre o processo produtivo e vê sua atividade fragmentada em tarefas repetitivas e especializadas, o que Karl Marx definiu como alienação do trabalho: o operário não se reconhece no produto final, que passa a pertencer integralmente ao capitalista, e sua atividade torna-se uma extensão das máquinas. As demais alternativas não correspondem à interpretação correta: a) padrões de consumo conscientes são fenômenos recentes ligados ao consumo sustentável, não ao século XIX; b) sistemas altamente artesanais remetem ao período anterior, já em declínio; c) a sindicalização foi uma reação posterior às condições fabris, não a causa imediata da mudança; e) mecanismos de controle mercantil dizem respeito mais à regulação comercial do que à ruptura na relação entre produtor, consumidor e mercadoria.
65 – C
O processo de modernização da agricultura no Brasil, intensificado a partir da década de 1960, representou uma verdadeira transformação estrutural no campo. A introdução de máquinas agrícolas, fertilizantes químicos e agrotóxicos — elementos associados à chamada Revolução Verde — buscava aumentar a produtividade e integrar o setor agropecuário ao modelo industrial e urbano de desenvolvimento. Essa lógica foi favorecida por políticas estatais de crédito rural, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura, como estradas e silos, que consolidaram a formação de um complexo agroindustrial. Contudo, esse processo não se deu de forma homogênea. Os principais beneficiados foram os grandes proprietários de terras, que tinham condições de acessar financiamentos e adquirir insumos modernos. Como consequência, observou-se a ampliação da concentração fundiária, já que pequenos agricultores, incapazes de competir com a nova lógica produtiva, foram frequentemente expulsos de suas terras ou incorporados como mão de obra barata. Ao mesmo tempo, a modernização incentivou a ocupação de novas áreas, especialmente no Cerrado e na Amazônia, intensificando o desmatamento, a grilagem e os conflitos fundiários com populações tradicionais, indígenas e comunidades quilombolas. As demais alternativas não refletem corretamente os impactos: a) fala em desconcentração fundiária, mas o que ocorreu foi justamente o oposto; b) estatização de terrenos devolutos não foi característica central do processo, e a elevação da dívida externa esteve mais relacionada a outros setores do modelo desenvolvimentista; d) a modernização reforçou o modelo de monoculturas exportadoras, em vez de reduzi-las; e) embora tenha havido degradação ambiental, não se pode falar em fortalecimento da policultura, já que prevaleceu a especialização produtiva.
66 – C
Para Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômaco, a felicidade (eudaimonia) constitui o fim último da vida humana, aquilo que todos os homens buscam como realização plena. Diferentemente de uma noção passageira de prazer ou da simples posse de bens materiais, a felicidade aristotélica está relacionada ao pleno desenvolvimento da natureza racional do ser humano, ou seja, à capacidade de viver segundo a razão e em conformidade com a virtude. Nesse sentido, a vida boa (bios theoretikos) implica uma prática constante de hábitos virtuosos, que equilibram emoções e ações, e a busca pela excelência tanto moral (ligada ao caráter e às virtudes éticas, como coragem, justiça e temperança) quanto intelectual (associada às virtudes dianoéticas, como sabedoria e prudência). As demais alternativas não expressam corretamente o pensamento aristotélico: a) o filósofo não defende a negação completa dos bens materiais, mas sim o seu uso equilibrado; b) a tradição política pode ser relevante, mas não determina a ética individual, que deve nascer do exercício racional; d) a renúncia aos desejos é uma perspectiva mais próxima do estoicismo ou do budismo, e não do aristotelismo; e) Aristóteles não vincula a felicidade ao cumprimento de normas divinas, já que sua filosofia é racional e não teológica.
67 – C
O texto destaca que os povos indígenas desenvolveram, ao longo de séculos, um profundo conhecimento sobre a biodiversidade e, em especial, sobre os efeitos terapêuticos das plantas medicinais. Esse saber tradicional não se fundamenta em experimentações laboratoriais típicas da ciência moderna, mas em uma prática empírica cumulativa, transmitida de geração em geração, na qual a observação dos efeitos, a experimentação cotidiana e a relação simbiótica com a natureza desempenham papel central. Assim, esses saberes constituem um sistema medicinal tradicional, reconhecido atualmente pela Organização Mundial da Saúde como uma fonte legítima e valiosa para a saúde coletiva e para a pesquisa científica contemporânea. As demais alternativas não refletem corretamente essa realidade: a) o conhecimento indígena não se limita a um uso economicista, mas expressa uma lógica integrada de cuidado com a saúde e preservação ambiental; b) não há descuido com a medicina, mas sim outra forma de sistematização do conhecimento, distinta da medicina acadêmica ocidental; d) o aproveitamento não é restrito à biodiversidade local, mas, pelo contrário, demonstra uma ampla diversidade de usos; e) não há oposição entre ciência e saberes tradicionais, e sim um potencial de complementaridade, cada vez mais reconhecido pela biomedicina e pela farmacologia.
68 – D
O texto base relata a retomada das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita, dois dos principais atores regionais do Oriente Médio, historicamente rivais em disputas políticas, religiosas e estratégicas. O elemento central destacado na questão é o fato de a China ter intermediado o acordo, o que sinaliza uma mudança significativa no equilíbrio geopolítico global. Tradicionalmente, potências ocidentais como os Estados Unidos e países europeus desempenhavam o papel de mediadores em conflitos da região. A entrada da China como protagonista demonstra a consolidação de novos pólos de poder, em um cenário de multipolaridade, no qual diferentes atores disputam influência econômica, política e diplomática. As demais alternativas não são adequadas: a) não se trata de democratização dos regimes, que continuam sendo de caráter autoritário e teocrático; b) embora a China possua enorme peso econômico, a ênfase do caso é geopolítica e diplomática, não meramente econômica; c) o acordo não elimina conflitos militares nem garante uma política pacifista geral, apenas restabelece laços diplomáticos; e) a China não exerce hegemonia bélica no Oriente Médio, mas sim influência política e econômica.
69 – C
O texto descreve um processo típico dos centros urbanos em que áreas antigas e, muitas vezes, degradadas passam a receber investimentos em infraestrutura, serviços e habitação, atraindo uma população de renda mais elevada, geralmente ligada à classe média e alta. Esse movimento acarreta a valorização imobiliária e a consequente expulsão indireta das populações de baixa renda, que não conseguem arcar com o aumento dos custos de moradia e do custo de vida nessas regiões. Esse fenômeno é conhecido como gentrificação. As outras alternativas não se encaixam: a) conurbação refere-se à fusão física de duas ou mais cidades próximas, criando uma mancha urbana contínua; b) revitalização diz respeito apenas à melhoria de uma área urbana degradada, sem necessariamente implicar deslocamento populacional; d) refuncionalização é o reaproveitamento de uma área urbana para novos usos (por exemplo, transformar um armazém em centro cultural); e) segregação socioespacial é um conceito mais amplo que descreve a separação das classes sociais no espaço urbano, mas não especifica o mecanismo descrito no texto, que é justamente a gentrificação.
70 – C
O texto descreve o princípio fundamental do ceticismo filosófico, sobretudo em sua formulação helenística. Para os céticos, como Pirro de Élis e, mais tarde, Sexto Empírico, a busca por uma verdade absoluta é inútil, pois as percepções humanas e os discursos filosóficos estão sempre sujeitos à dúvida e à contradição. Diante disso, o caminho para a ataraxia (tranquilidade da alma) consiste em suspender o juízo (epoché), ou seja, evitar afirmar ou negar categoricamente qualquer proposição sobre a realidade última. Essa postura impede a angústia resultante da tentativa de alcançar certezas inalcançáveis e permite viver em equilíbrio com base apenas nas aparências sensíveis e nas convenções práticas do cotidiano. As demais alternativas estão incorretas: a) a negação da experiência empírica não corresponde ao ceticismo, pois o cético aceita a experiência como guia pragmático, apenas não a absolutiza como verdade última; b) a rejeição da lógica não se aplica, já que muitos céticos utilizavam a argumentação racional para mostrar as contradições das teses dogmáticas; d) a adesão incondicional às crenças religiosas tradicionais contradiz a proposta cética, que evita qualquer compromisso dogmático; e) a submissão à autoridade dos mestres dogmáticos vai contra o espírito de questionamento crítico que caracteriza o ceticismo.
71 – A
O climograma é referente a uma cidade de clima subtropical, caracterizado por ausência de estações secas e amplitude térmica anual considerável (maior que todos os outros climas brasileiros). A latitude e as massas de ar são os fatores climáticos que explicam a variação de temperatura anual e os índices pluviométricos elevados. Primeiramente é necessário fazer uma diferenciação entre fatores climáticos e elementos climáticos. Os fatores climáticos são as condições geográficas e ambientais que determinam as características do clima de uma região, como latitude, altitude, relevo, continentalidade/maritimidade, massas de ar e vegetação. Já os elementos climáticos são as manifestações mensuráveis do clima, como temperatura, pressão atmosférica, ventos, umidade e precipitação. Dessa forma, os fatores climáticos influenciam diretamente os elementos, explicando as diferenças climáticas observadas entre diferentes lugares. É importante entender que todos os fatores climáticos estão agindo ao mesmo tempo e em conjunto, mas normalmente um ou dois fatores têm mais relevância para determinar o comportamento dos elementos (temperatura e pluviosidade, no caso do climograma). No caso do clima subtropical do Sul do Brasil, os dois fatores principais que explicam sua dinâmica são a latitude e as massas de ar. A latitude exerce grande influência sobre as temperaturas, já que o Sul se encontra em maiores latitudes em relação ao restante do território brasileiro. Essa posição implica maior variação na inclinação dos raios solares ao longo do ano, o que explica a amplitude térmica anual mais elevada em comparação a outras regiões do país. Assim, o Sul apresenta estações do ano mais bem definidas, com invernos frios e verões quentes. Além disso, a região é constantemente influenciada por diferentes massas de ar úmidas, como a Massa Tropical Atlântica (quente e úmida), a Massa Polar Atlântica (fria e úmida), justificando os índices pluviométricos constantes durante o ano. Portanto, a análise do climograma de uma cidade no Sul do Brasil permite compreender que os elevados índices pluviométricos e a significativa amplitude térmica são consequências diretas da interação entre os fatores latitude e massas de ar, os quais condicionam os elementos climáticos da região, especialmente a temperatura e a precipitação.
72 – C
O enunciado apresenta a crítica de Frantz Fanon à forma como médicos franceses tratavam os pacientes norte-africanos no período colonial. Segundo o autor, havia uma postura de desvalorização e descrédito em relação às queixas desses indivíduos, que eram interpretadas como fingimento ou exagero. Esse processo se relaciona a uma visão etnocêntrica, isto é, a interpretação dos sintomas a partir de padrões culturais e linguísticos exclusivamente ocidentais, que desconsideravam as formas próprias de expressão dos colonizados. As incorretas são: (a) está incorreta porque Fanon não atribui o problema à ausência de técnicas modernas, mas sim ao modo como eram aplicadas; (b) é equivocada, já que os africanos buscavam tratamento, não havia repulsa; (d) não está relacionada ao texto, que trata de saúde e colonização, e não de direitos trabalhistas; (e) é incorreta, pois Fanon não fala em superioridade científica real, mas em uma visão imposta e excludente.
73 – B
O texto base apresenta como Getúlio Vargas construiu uma relação direta com as massas trabalhadoras por meio das cartas enviadas à Presidência. Esse vínculo transmitia a ideia de proximidade com o povo, mas, na prática, reforçava a centralização do poder, já que o Legislativo havia sido dissolvido e a representação sindical estava enfraquecida. Esse tipo de relação é característico do populismo, modelo político no qual o líder busca estabelecer um elo direto com a população, sobretudo com os trabalhadores, criando a imagem de “pai dos pobres”, mas ao mesmo tempo restringindo os canais institucionais de participação democrática. Assim, a alternativa correta é b) populismo, pois o texto evidencia justamente esse mecanismo de proximidade simbólica entre governante e governados, típico da estratégia varguista. As demais alternativas estão incorretas: o fascismo (a) corresponde a um regime autoritário europeu do século XX, distinto do caso brasileiro; o trabalhismo (c), apesar de associado a Vargas, refere-se mais a uma doutrina e a um partido criado depois, não à prática populista em si; o presidencialismo (d) é apenas o sistema de governo, não uma estratégia política; e o desenvolvimentismo (e) remete ao modelo econômico adotado a partir da década de 1950, não à relação política com as massas.
74 – A
O trecho apresentado de Jean-Paul Sartre sintetiza um dos pilares do existencialismo: a ausência de fundamentos externos ou transcendentais para justificar a ação humana. Quando Sartre afirma que “o homem está só, sem desculpas”, ele quer dizer que, sem a existência de Deus, não há valores universais pré-estabelecidos que determinem a conduta; cada indivíduo é livre e, portanto, responsável por inventar a si mesmo a cada escolha. Esse quadro gera o sentimento de angústia porque a liberdade absoluta implica também responsabilidade total — não há a quem atribuir culpas ou delegar decisões. Nesse sentido, a angústia existencial não deriva de impotência, mas justamente do peso da liberdade e da necessidade de criar valores em um mundo desprovido de referenciais absolutos. As incorretas: b) porque Sartre parte da premissa de que não existe Deus, portanto não há valores religiosos universais que fundamentem a moral; c) incorreta, já que o existencialismo não concebe o homem como impotente, mas como radicalmente livre; d) incorreta, pois o problema não é a dúvida sobre o mal, mas a responsabilidade de criar critérios de julgamento em um mundo sem valores transcendentes; e) incorreta, pois não se trata especificamente de uma recusa à ética burguesa, mas de uma ausência geral de fundamentos externos universais.
75 – B
O texto apresentado descreve a chegada dos candangos ao planalto central e o crescimento espontâneo de núcleos urbanos improvisados em torno do canteiro de obras de Brasília. Esse processo revelou uma contradição: enquanto o Plano Piloto, concebido por Lúcio Costa, foi planejado dentro de uma lógica modernista, racional e hierarquizada, o crescimento populacional não previsto pela concepção urbanística levou à formação de áreas periféricas desordenadas, depois reorganizadas em cidades-satélites como Taguatinga. Dessa forma, o surgimento das cidades-satélites não pode ser entendido como um avanço planejado das políticas de habitação, nem como desenvolvimento socioeconômico equilibrado, mas como resultado da limitação do projeto urbanístico-modernizador. O Plano Piloto priorizava as funções administrativas e os setores planejados, mas não oferecia soluções adequadas para acolher os trabalhadores migrantes, que eram fundamentais para a construção da capital. Assim, o processo expôs um caráter excludente da modernização, relegando os trabalhadores a áreas periféricas.
76 – C
O escudo cristalino é uma das formações geológicas mais antigas da Terra, formada predominantemente por rochas ígneas e metamórficas. Essas estruturas se originaram ainda no Pré-Cambriano e no início da era Paleozóica e correspondem a cerca de 36% da área emersa do território brasileiro. Sua principal importância econômica está na concentração de minerais metálicos, já que processos geológicos intensos, como metamorfismo e magmatismo, contribuíram para a formação de depósitos de grande valor comercial. Entre os recursos mais explorados nessas áreas destacam-se o minério de ferro, presente em jazidas expressivas no Quadrilátero Ferrífero (MG) e na Serra dos Carajás (PA), e a bauxita, utilizada na produção de alumínio, encontrada em abundância na região amazônica, especialmente no município de Oriximiná (PA).
Por outro lado, os combustíveis fósseis, como petróleo, gás natural e carvão mineral, estão associados principalmente às bacias sedimentares, que ocupam a maior parte do território brasileiro e surgiram em períodos geológicos posteriores. Nessas formações, a deposição de matéria orgânica ao longo de milhões de anos criou condições favoráveis à geração de hidrocarbonetos, diferentemente dos escudos cristalinos, que não possuem tais características. Dessa forma, quando se pensa na relação entre geologia e recursos econômicos, é fundamental compreender que os escudos cristalinos representam o potencial mineral metálico do país, enquanto as bacias sedimentares concentram os recursos energéticos fósseis. Nesse sentido, a alternativa correta é “minério de ferro e bauxita”, pois ambos os recursos estão diretamente ligados às formações cristalinas e sustentam parte significativa da economia brasileira, tanto pelas exportações de ferro para a indústria siderúrgica mundial quanto pela exploração da bauxita que alimenta o setor metalúrgico de alumínio. As demais alternativas apresentam recursos relacionados a ambientes sedimentares, como petróleo, gás natural, carvão mineral e sal-gema, ou a rochas calcárias, que também não são típicos desse tipo de estrutura.
77 – A
O “Período Especial em Tempos de Paz” em Cuba foi consequência direta do colapso da União Soviética e do bloco socialista no início da década de 1990. Durante décadas, Cuba havia mantido uma estreita relação econômica com a URSS, que garantia ao país a compra de açúcar a preços acima do mercado internacional, além do fornecimento de petróleo, fertilizantes, máquinas agrícolas e diversos bens industriais em condições extremamente favoráveis. Com o desmantelamento dessa potência aliada, a ilha perdeu seu principal parceiro comercial e fornecedor estratégico, o que gerou um colapso repentino em sua economia altamente dependente do bloco socialista. Nesse contexto, os efeitos foram profundos: escassez de alimentos, falta de combustível, colapso parcial do transporte urbano e agrícola, bem como queda acentuada no nível de vida da população. As medidas adotadas pelo governo cubano — como hortas urbanas, substituição de tratores por bois e racionamento — refletiam a tentativa de adaptação forçada a um cenário de isolamento econômico e de redução drástica das importações. É verdade que sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos desde a década de 1960 contribuíram para agravar a situação, mas a crise que marcou o Período Especial se explica, principalmente, pela súbita interrupção do apoio soviético e pela ausência de novos aliados capazes de substituir o papel desempenhado pela URSS. Assim, a alternativa correta é “desmantelamento político de potências aliadas”, pois o rompimento da rede de apoio socialista foi o gatilho imediato da crise cubana nos anos 1990. Esse episódio ilustra como a dependência externa pode tornar uma economia nacional extremamente vulnerável a transformações geopolíticas globais.
78 – D
A proposta filosófica de Nietzsche, apresentada em Assim Falou Zaratustra, tem como ponto central a crítica àquilo que o autor denominou de “moral de rebanho”, isto é, a submissão a valores herdados da tradição cristã e que, segundo ele, reprimiam a potência criadora e afirmadora da vida. Para Nietzsche, a modernidade ocidental sofria com o niilismo, isto é, o vazio existencial provocado pela perda de fundamentos absolutos após a “morte de Deus”. Nesse cenário, o “super-homem” não é um ser dotado de força física ou dominação política, mas alguém capaz de romper com verdades universais e transcendentais, afirmando a vida em sua totalidade — inclusive no sofrimento — e criando seus próprios valores. Dessa forma, o “super-homem” expressa a ideia de que a liberdade humana deve ser vivida em sua radicalidade, com plena responsabilidade, sem recorrer a dogmas, normas externas ou referências transcendentes. Trata-se de uma postura existencial de afirmação da singularidade e de construção de novos parâmetros éticos, em oposição às verdades herdadas e ao conformismo coletivo.
79 – B
O conflito descrito no texto é a Guerra dos Seis Dias, travada em junho de 1967 entre Israel e uma coalizão árabe liderada por Egito, Síria e Jordânia. O estopim foi a escalada do nacionalismo árabe sob Gamal Abdel Nasser, que defendia abertamente a destruição do Estado de Israel, ao mesmo tempo em que bloqueava o Estreito de Tiran, fundamental para a navegação israelense. A guerra durou apenas seis dias e resultou em uma vitória esmagadora de Israel, que conquistou vastos territórios estratégicos: a Faixa de Gaza e a Península do Sinai (Egito), as Colinas de Golã (Síria) e a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (Jordânia). Essa vitória representou não apenas uma mudança no equilíbrio militar da região, mas também uma transformação espacial profunda, com a expansão territorial de Israel e o início da ocupação de áreas palestinas que até hoje são motivo de intensos conflitos. A consequência espacial imediata foi, portanto, a ampliação das fronteiras israelenses e a intensificação da questão dos refugiados palestinos, que se tornou um dos pontos centrais do conflito árabe-israelense. As incorretas: a) A Guerra do Golfo (1990–1991) não teve relação direta com Israel, mas sim com a invasão do Kuwait pelo Iraque e a posterior intervenção de uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos. Além disso, a ocupação judaica não diminuiu nesse contexto, uma vez que o conflito ocorreu em outro cenário geopolítico, ligado ao Golfo Pérsico e não à disputa árabe-israelense. Portanto, essa associação é incorreta; c) A Guerra do Yom Kippur (1973) foi um confronto entre Israel, Egito e Síria, quando os dois países árabes atacaram Israel de surpresa para tentar recuperar os territórios perdidos em 1967. Embora o conflito tenha levado a negociações posteriores, como os Acordos de Camp David, não houve redistribuição de territórios palestinos. O objetivo principal foi a recuperação das áreas ocupadas por Israel, como a Península do Sinai, e não a reorganização espacial da Palestina; d) A Guerra de Suez (1956) teve como causa imediata a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, que anteriormente estava sob controle britânico e francês. O conflito envolveu Egito contra uma aliança de França, Reino Unido e Israel. Não houve nacionalização de poços de petróleo pela Liga Árabe, mas sim a disputa estratégica pelo canal, vital para o comércio internacional e para o transporte de petróleo. Assim, o enunciado não corresponde ao evento; e) A Guerra de Independência (1948) ocorreu logo após a criação do Estado de Israel, quando países árabes vizinhos atacaram a nova nação. O resultado foi a consolidação territorial de Israel e a fuga ou expulsão de centenas de milhares de palestinos, originando o problema dos refugiados. Nesse contexto, não houve retração dos espaços israelenses, mas sim expansão do controle israelense além do que estava previsto no Plano de Partilha da ONU de 1947. Logo, a alternativa apresenta uma descrição equivocada.
80 – D
O poema que circulava entre os partidários da Confederação do Equador (1824) expressa com clareza o sentimento de contestação ao poder centralizador de D. Pedro I e a defesa da autonomia das províncias. Por isso, a alternativa correta é a d) tensões entre centralismo político e autonomia provincial. O movimento, iniciado em Pernambuco e irradiado para outras províncias do Nordeste, tinha como base o descontentamento com a outorga da Constituição de 1824, que instituiu o Poder Moderador e concentrou amplos poderes nas mãos do imperador, rompendo expectativas de participação política mais descentralizada e aproximada das elites regionais. A defesa da república e da liberdade no poema traduz o espírito de resistência às imposições do centro, reforçando o caráter federalista e separatista da revolta. As demais alternativas, entretanto, não se aplicam corretamente ao contexto: a a) fala em disputas entre elites locais pelo controle político, o que de fato existia, mas o texto revela algo mais amplo — a contestação contra o modelo imperial centralizador, e não apenas rivalidades regionais. A b) sugere acordos entre o Nordeste e a Corte, quando, ao contrário, o texto evidencia ruptura e rejeição à autoridade imperial. A c) menciona limites do ideário republicano entre as classes dirigentes, mas os versos demonstram entusiasmo e adesão ao projeto republicano, sem ressaltar suas restrições. A e) refere-se a debates sobre vínculos com a metrópole, mas em 1824 a independência já estava consolidada e a questão central era a relação entre as províncias e o governo imperial, não com Portugal. Assim, o poema revela que os confederados denunciavam a opressão política exercida pelo imperador e defendiam um modelo político alternativo, em que as províncias pudessem gozar de maior liberdade e autogoverno.
81 – E
O texto de Heleieth Saffioti evidencia que a inserção da mulher no mercado de trabalho brasileiro foi um processo marcado por avanços, mas também por permanências de desigualdades estruturais. Nesse sentido, a alternativa correta é a e) manutenção de desigualdades de gênero associadas à divisão de esferas produtivas e reprodutivas, pois a autora destaca que, mesmo diante da ampliação da participação feminina no mundo produtivo e da conquista de direitos trabalhistas específicos, as mulheres continuam a enfrentar a sobrecarga da dupla jornada, que limita suas possibilidades de ascensão profissional e perpetua a desigualdade. As demais alternativas não se ajustam ao conteúdo do texto. A a) fala em eliminação das barreiras estruturais e paridade plena, mas o texto justamente enfatiza que tais barreiras permanecem e que a igualdade não foi alcançada. A b) sugere equiparação de funções e superação de papéis tradicionais, quando, na verdade, o texto mostra a persistência da divisão sexual do trabalho e a concentração feminina em cargos de menor prestígio. A c) afirma incorporação plena em cargos de direção, mas os dados revelam que as mulheres ainda são minoria em espaços de poder e decisão. Já a d) indica substituição da lógica patriarcal por uma gestão inclusiva, mas o texto reforça que a lógica patriarcal continua a estruturar as relações de gênero no mercado de trabalho.
82 – E
O assassinato de George Floyd, como destaca o texto, não pode ser interpretado apenas como um ato isolado de violência policial, mas sim como manifestação de um fenômeno mais profundo: o racismo estrutural. Por essa razão, a alternativa correta é a e) funcionamento cotidiano de mecanismos institucionais que reproduzem discriminações raciais, pois, de acordo com Silvio Almeida, esse conceito revela que o racismo é parte constitutiva da sociedade e se reproduz nas práticas institucionais, no acesso desigual a serviços básicos e na perpetuação de estigmas que afetam populações negras. Nesse sentido, a violência policial é apenas uma das expressões visíveis de um sistema de exclusão que opera de forma difusa e cotidiana. As demais alternativas não se ajustam ao texto. A a), que aponta a ausência de controle sobre forças armadas e de segurança, reduz o problema a uma questão de fiscalização e governança, sem abarcar o caráter estrutural da discriminação. A b) relaciona o fenômeno à criminalidade urbana e à concentração em periferias, mas esse é um efeito da desigualdade e não a essência do racismo estrutural discutido pelo autor. A c) menciona a falência do modelo neoliberal, mas o texto não associa diretamente a violência racial à política econômica, e sim a práticas históricas e institucionais. Já a d) sugere que a raiz do problema estaria no déficit de investimentos em segurança e infraestrutura, quando, na verdade, a crítica central é que as próprias instituições, ainda que existam investimentos, operam de maneira discriminatória.
83 – D
A alternativa correta é a d) a fluidez das conexões e a multiplicidade de sentidos na produção social, pois o conceito de rizoma, desenvolvido por Deleuze e Guattari, rompe com a lógica hierárquica e linear de organização do saber, defendendo que os processos culturais, políticos e subjetivos se desenvolvem de maneira múltipla, não centralizada e aberta a encontros imprevisíveis. Essa metáfora permite compreender as sociedades contemporâneas como redes de interações descentralizadas, em que os sentidos não são fixos, mas sim constantemente recriados em diferentes direções, o que dialoga diretamente com o mundo digital, a globalização e os fluxos culturais que atravessam fronteiras. As demais alternativas apresentam interpretações equivocadas do conceito. A a) fala em revalorização de instituições tradicionais, mas o rizoma justamente rompe com essa rigidez e questiona modelos fixos de autoridade. A b) sugere substituição do pensamento abstrato por modelos empíricos, quando, na verdade, a proposta rizomática é tanto conceitual quanto prática, não implicando essa oposição. A c) insiste em uma organização vertical, orientada por hierarquias, mas o rizoma é horizontal, descentralizado e aberto a múltiplas conexões. Já a e) atribui ao Estado a centralidade das relações, o que contradiz a ideia de redes móveis e difusas, em que o poder não se concentra em um único polo mediador.
84 – C
O chamado “Protecionismo Verde” ocorre justamente quando países desenvolvidos, sob o argumento de defesa ambiental, impõem barreiras comerciais a exportações de nações em desenvolvimento. No caso apresentado, Macron condiciona a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia ao cumprimento de metas ambientais pelo Brasil, o que revela como a pauta ambiental também pode ser instrumentalizada em disputas comerciais. As demais alternativas estão incorretas porque não correspondem ao fenômeno descrito. A a) trata da desregulamentação de acordos ambientais, mas o movimento descrito no texto é o oposto: a imposição de regras mais rígidas. A b) fala em flexibilização de compromissos climáticos por blocos desenvolvidos, mas a União Europeia, no caso, cobra maior rigor ambiental, e não flexibilização. A d) sugere exportação de tecnologias sustentáveis em cooperação, o que não está em jogo na polêmica; o foco é a restrição de mercados. Já a e) menciona subsídios verdes de países em desenvolvimento, mas o Brasil, como exemplo citado, busca justamente ampliar suas exportações agrícolas, não adotar subsídios nesse formato.
85 – D
A alternativa correta é a d) a ampliação do debate sobre justiça social, articulando reivindicações raciais, econômicas e políticas, porque as diferentes estratégias do movimento negro nos EUA nos anos 1960, longe de apenas fragmentarem a luta, também possibilitaram a expansão de pautas. Enquanto Martin Luther King Jr. defendia o combate pacífico e baseado na igualdade formal, grupos como os Panteras Negras incorporavam demandas ligadas à classe trabalhadora, à redistribuição de renda e ao combate à violência policial, criando uma agenda ampla que conectava racismo, exploração econômica e desigualdade política. Isso pressionou o Estado a aprovar legislações como o Civil Rights Act (1964) e o Voting Rights Act (1965), que representaram conquistas históricas. As demais alternativas estão incorretas porque não traduzem adequadamente os resultados desse processo. A a) sugere enfraquecimento da luta, quando na realidade a pluralidade de discursos contribuiu para fortalecer diferentes dimensões do movimento. A b) apresenta a ideia de oposição entre pautas de classe e identitárias, mas o que se deu foi uma tentativa de articulação entre ambas, sem prejuízo absoluto do engajamento coletivo. A c) aponta incorporação de discursos conservadores, o que não ocorreu; pelo contrário, as lideranças religiosas progressistas, como King, estavam alinhadas com a defesa de justiça social. Já a e) afirma que os protestos de rua foram substituídos por ações parlamentares, o que não condiz com a realidade, já que os atos de massa continuaram fundamentais para pressionar mudanças legais.
86 – C
A alternativa correta é a c) o aumento do custo de produção no território estadunidense. As tarifas impostas pelo governo Trump sobre produtos chineses encareceram a importação de insumos e componentes fundamentais para a indústria norte-americana. Como consequência, muitas empresas viram seus custos de produção subir, reduzindo a competitividade no mercado internacional e, em alguns casos, repassando parte desse aumento ao consumidor. Além disso, setores como o agrícola também foram prejudicados pelas tarifas retaliatórias da China, que afetaram as exportações de produtos como soja e milho dos EUA. As demais alternativas estão incorretas porque não representam efeitos diretos da guerra comercial. A a) não se sustenta, já que não houve fortalecimento da presença industrial chinesa dentro dos EUA, mas sim tensões comerciais crescentes. A b) sugere substituição automática por manufaturas do México e do Canadá, mas o processo não ocorreu dessa forma, pois as cadeias globais de valor são complexas e não podem ser realocadas rapidamente. A d) está incorreta porque não houve criação de acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia; pelo contrário, as relações comerciais também tiveram atritos. Já a e) não corresponde ao cenário, visto que o impacto maior foi sobre o comércio bilateral EUA-China e não sobre o investimento externo em países asiáticos aliados aos EUA.
87 – A
A alternativa correta é a a) surgimento de interesses locais conflitantes com a metrópole. O texto destaca o crescimento demográfico e econômico de cidades como o Rio de Janeiro no final do século XVIII, além das políticas pombalinas de incentivo a comerciantes luso-brasileiros. Esses fatores levaram ao fortalecimento de setores locais, sobretudo mercantis, que passaram a ter maior peso econômico e social e, com isso, criaram interesses próprios. Tais interesses, muitas vezes, entravam em choque com os da metrópole, principalmente porque a Coroa portuguesa ainda mantinha um rígido sistema de monopólios e privilégios comerciais. Esse cenário abriu espaço para tensões políticas que, nas décadas seguintes, contribuíram para a busca por maior autonomia colonial e, mais tarde, para o movimento de independência. As demais alternativas estão incorretas porque não correspondem ao processo descrito. A b) não é adequada, pois o texto não indica questionamento direto da estrutura escravagista, que continuava sendo a base da economia colonial. A c) está equivocada, já que o fortalecimento dos comerciantes locais implicava justamente em interesses que nem sempre se alinhavam aos de Portugal, fragilizando vínculos em vez de reforçá-los. A d) não se sustenta, pois o crescimento populacional e mercantil ampliava, ao contrário, o dinamismo do mercado interno. Já a e) não procede, porque o processo descrito está relacionado à integração e expansão do comércio, não ao isolamento econômico regional.
88 – E
O texto mostra que o processo da Partilha da África foi sustentado por uma lógica colonial baseada na ideia de superioridade cultural europeia, que negava a legitimidade das tradições africanas e justificava a ocupação com o argumento de que seria necessário “civilizar” os povos locais. Essa concepção, que naturalizava a violência colonial, está diretamente relacionada ao chamado etnocentrismo eurocêntrico, no qual os valores de uma cultura dominante são impostos a outras como supostamente universais e superiores, reforçando a dominação política e econômica. As demais alternativas não se aplicam ao contexto: a a) está incorreta porque o processo descrito não valorizava, mas sim negava os saberes ancestrais africanos. A b) também não corresponde, pois o texto não trata de resistência cultural, mas de dominação colonial. A c) não se sustenta, já que não houve defesa do pluralismo, e sim a sua negação. A d) também está errada, porque não houve troca horizontal de conhecimentos, mas imposição vertical de valores.
89 – C
O empirismo, representado por Locke e Hume, parte da ideia de que o ser humano não possui conteúdos inatos, mas que todo conhecimento advém da experiência — seja ela interna (reflexão) ou externa (percepção sensorial). Locke utiliza a metáfora da tábula rasa para indicar que a mente é como uma folha em branco a ser preenchida pelas experiências, enquanto Hume reforça que todas as ideias têm origem em impressões sensíveis, isto é, percepções vívidas do real. As demais alternativas não condizem com a doutrina empirista. A a) está incorreta porque a subordinação do juízo moral à vontade divina é própria do pensamento religioso ou teológico, e não do empirismo, que se ancora na experiência. A b) também é equivocada, pois, embora Hume tenha questionado a universalidade das noções de causalidade, os empiristas não negam a possibilidade de conhecimentos universais, mas sim a origem deles fora da experiência. A d) é incompatível porque atribuir à razão ideias inatas é a base do racionalismo cartesiano, e não do empirismo. Já a e) contraria diretamente o núcleo da teoria empirista, visto que a percepção sensível é justamente a via de acesso fundamental ao conhecimento.
90 – D
Durante os governos militares, a Amazônia foi incorporada à estratégia de segurança nacional a partir da ideia de “integrar para não entregar”. Essa concepção levou à implementação de obras monumentais, como a rodovia Transamazônica, e de projetos de colonização agrícola, incentivando a migração de trabalhadores do Sul e do Sudeste para ocupar áreas de fronteira agrícola. A ênfase estava na ocupação rápida e produtiva do território, associada a um discurso de desenvolvimento econômico e de reforço da soberania, mas que negligenciava tanto os impactos ambientais — como o desmatamento em larga escala — quanto os direitos das populações indígenas e tradicionais. As demais alternativas não correspondem à realidade histórica do período. A a) está incorreta porque o regime militar, em vez de valorizar os povos indígenas, promoveu sua marginalização, com expulsões e massacres em função da expansão da fronteira agrícola e da construção de rodovias. A b) é equivocada, já que a prioridade foi a construção de rodovias (como a Transamazônica e a Cuiabá-Santarém), e não de ferrovias, além de não haver preocupação com sustentabilidade. A c) também não se aplica, pois o modelo de urbanização incentivado não teve como foco as cidades médias, mas a colonização agrícola e a abertura de novas frentes pioneiras, que muitas vezes resultaram em cidades espontâneas sem planejamento adequado. Por fim, a e) não corresponde à realidade, já que não houve substituição das atividades agropecuárias por reflorestamento ou bioeconomia; ao contrário, houve incentivo à agropecuária extensiva, sobretudo à pecuária, como forma de consolidar a ocupação territorial.
91 – A
Em sociedades que enfrentam forte queda da taxa de natalidade e envelhecimento populacional, como o Japão, um dos principais efeitos é a redução da população economicamente ativa. Isso compromete a base contributiva da previdência social e aumenta a pressão sobre os sistemas de saúde e assistência. Nesse contexto, políticas de imigração podem funcionar como medida compensatória, ao atrair trabalhadores em idade produtiva que ajudam a suprir lacunas no mercado de trabalho e equilibrar a pirâmide etária, reduzindo os impactos do envelhecimento populacional. Portanto, diante de um cenário de queda populacional acentuada, a imigração se apresenta como uma política complementar essencial, capaz de compensar parte das perdas demográficas e manter a sustentabilidade econômica e social do país. As demais alternativas não correspondem de forma adequada ao problema demográfico descrito. A b), elevação dos salários de trabalhadores qualificados, pode melhorar a retenção de mão de obra em setores estratégicos, mas não resolve o desequilíbrio populacional de longo prazo, já que não aumenta diretamente o número de nascimentos nem compensa a diminuição da população ativa. A c), imposição de regras para o planejamento familiar, além de contradizer a lógica de incentivo à natalidade, não teria efeito positivo nesse caso, pois o problema é a queda nos nascimentos, não o excesso. A d), normas mais brandas para adoção, pode oferecer soluções individuais importantes, mas não altera de forma significativa a estrutura demográfica de um país inteiro. Já a e), implementação de programas de pleno emprego em áreas metropolitanas, pode melhorar as condições sociais, mas não ataca diretamente o desafio da baixa natalidade e do envelhecimento.
92 – D
O processo de modernização agrícola ocorrido no Brasil a partir da década de 1970, especialmente com a expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado, implicou a substituição de grandes áreas de vegetação nativa por monoculturas mecanizadas, como soja, milho e algodão. Esse modelo, impulsionado por políticas estatais de crédito e infraestrutura, favoreceu a lógica do agronegócio exportador e transformou o espaço agrário brasileiro, ao mesmo tempo em que gerou impactos socioambientais, como perda de biodiversidade, degradação dos solos e conflitos fundiários. As demais alternativas não correspondem ao fenômeno descrito: a) desvalorização das planícies litorâneas do Sudeste não ocorreu; pelo contrário, essas áreas permaneceram integradas às dinâmicas produtivas, especialmente na fruticultura e no setor sucroalcooleiro; b) intensificação do povoamento tradicional nas fronteiras da Amazônia foi resultado de outros fluxos migratórios e políticas de colonização, sobretudo nos anos 1980, mas não é o foco da modernização agrícola iniciada nos cerrados do Centro-Oeste; c) formação de cinturões industriais no Centro-Oeste não ocorreu, já que a expansão foi essencialmente agropecuária e não industrial; e) expansão da agricultura camponesa voltada ao consumo interno não se consolidou nesse período, pois a lógica predominante foi justamente a da agricultura moderna, mecanizada e voltada ao mercado externo.
93 – E
Conforme Milton Santos, o meio técnico-científico-informacional, base da globalização, não se distribui de forma homogênea, mas sim seletiva, privilegiando os territórios mais valorizados pelo sistema hegemônico. Essa seletividade acentua desigualdades, produzindo uma verdadeira “geografia da exclusão”, na qual muitos lugares sofrem os impactos das transformações globais sem usufruir de seus benefícios, o que aprofunda a fragmentação social e territorial. Assim, a compreensão central do texto é que a lógica seletiva do meio técnico-científico-informacional resulta no aprofundamento das disparidades no acesso ao progresso e na exclusão de territórios inteiros da plena participação no processo global. Já a alternativa a) é incorreta, pois afirma que ocorre uma equalização entre países centrais e periféricos, quando o autor justamente enfatiza a intensificação das desigualdades. A alternativa b) também é equivocada, pois sugere uniformização dos modos de vida urbanos, quando Santos defende que a globalização contemporânea aprofunda diferenças a partir de uma racionalidade seletiva. A opção c) erra ao propor uma integração autônoma das economias locais, já que, na visão do geógrafo, a autonomia é limitada pelas imposições do mercado global. Do mesmo modo, a alternativa d) não procede, pois afirma que haveria desconexão das estratégias de controle político, mas, ao contrário, a globalização é marcada pela centralização do poder e pela imposição de interesses hegemônicos.
94 – D
O AI-5, promulgado em 1968, marcou o momento mais autoritário da ditadura militar brasileira, centralizando o poder no Executivo e retirando garantias fundamentais da cidadania. Com o fechamento do Congresso Nacional, a suspensão de direitos políticos, a cassação de mandatos e o fortalecimento da repressão, houve um claro rompimento com os princípios democráticos, já que as instituições políticas perderam autonomia e a sociedade civil teve suas liberdades drasticamente reduzidas. Esse ato simboliza o auge do endurecimento do regime e consolidou o período mais repressivo da ditadura. As demais alternativas estão incorretas porque distorcem o papel histórico do AI-5. A opção a) é incorreta, pois o Legislativo foi enfraquecido, e não fortalecido, com o fechamento do Congresso. A alternativa b) também não procede, já que não houve ampliação de direitos civis, mas sim sua suspensão. A opção c) é equivocada porque o AI-5 representou justamente o fortalecimento do autoritarismo, restringindo ainda mais a participação política. Por fim, a alternativa e) está incorreta, visto que não ocorreu revalorização das liberdades individuais, mas sim sua supressão em nome de uma concepção rígida de segurança nacional.
95 – D
O estudo mostra que populações periféricas — majoritariamente negras e pobres — estão mais expostas a riscos ambientais e têm menos acesso a benefícios urbanos, como áreas verdes e equipamentos de lazer. Esse fenômeno é conhecido como racismo ambiental, conceito que designa a desigualdade estrutural na distribuição dos impactos e benefícios ambientais, atingindo de forma desproporcional grupos historicamente marginalizados. Nesse sentido, o problema não é apenas ambiental, mas também social e político, pois evidencia a reprodução de hierarquias de classe e raça no espaço urbano. As demais alternativas não contemplam adequadamente a lógica estrutural apontada no texto. A opção a) exclusão fundiária por critérios de mercado é limitada, já que, embora o mercado imobiliário influencie a segregação, o texto enfatiza desigualdades raciais e sociais mais amplas. A alternativa b) vulnerabilidade socioeconômica transitória está incorreta, pois o processo descrito não é passageiro, mas estrutural e persistente. Já a c) pressão demográfica sobre espaços urbanos não explica a distribuição desigual, visto que não se trata apenas de adensamento populacional, mas de um padrão de injustiça ambiental. Por fim, a alternativa e) especulação imobiliária centrada em metrópoles globais não é pertinente, porque o texto não aborda metrópoles internacionais nem apenas a lógica da valorização imobiliária, mas a exclusão ambiental interna às cidades brasileiras.
96 – D
Para Spinoza, Deus não é um ser transcendente, separado do mundo e que o governa de fora, mas a própria substância infinita que se manifesta em tudo o que existe. Trata-se de uma visão panteísta, segundo a qual Deus e natureza se confundem: Deus é a totalidade da realidade e todos os seres são modos de sua expressão. Essa concepção rompe com a ideia de um Deus pessoal e julgador, substituindo-a por uma noção imanente de divindade, inseparável do cosmos. As demais alternativas não correspondem ao pensamento de Spinoza. A opção a) existência de um criador transcendente e moralmente julgador é característica das tradições teístas clássicas, mas Spinoza nega justamente essa transcendência. A alternativa b) centralidade da fé revelada na compreensão da natureza divina também não é adequada, pois seu sistema é racionalista e baseado no método dedutivo, não na fé religiosa. Já a c) ideia de um ente infinito que intervém no destino humano é incompatível com sua filosofia, uma vez que Deus não interfere de modo pessoal na vida dos homens. Por fim, a e) personificação divina como fundamento da ordem cósmica está incorreta, pois Spinoza rejeita qualquer forma de antropomorfismo aplicado a Deus.
97 – C
O texto evidencia que o avanço chinês não se restringiu apenas a uma expansão industrial quantitativa, mas esteve diretamente vinculado à formação de capital humano qualificado em áreas de ponta, como engenharia, robótica e inteligência artificial. Essa estratégia estatal de priorizar setores estratégicos por meio da educação técnica e científica possibilitou que a China superasse antigas potências industriais em segmentos de alta complexidade tecnológica, consolidando-se como referência global em inovação. Assim, a trajetória chinesa demonstra que a ascensão do país no cenário econômico internacional foi impulsionada pela valorização contínua da capacitação intelectual e pela concentração de esforços estatais em áreas estratégicas de alta complexidade tecnológica, o que lhe conferiu vantagem competitiva na economia global. As demais alternativas não expressam a realidade apresentada. A opção a) substituição de práticas industriais tradicionais por redes locais de subsistência está incorreta, pois o modelo chinês visou justamente a modernização tecnológica em escala global, e não a produção local de caráter artesanal. A alternativa b) expansão da produção voltada exclusivamente ao setor primário exportador não corresponde ao contexto, já que a China buscou diversificar e sofisticar sua base produtiva, indo além da exportação de matérias-primas. A opção d) dependência de tecnologias estrangeiras para fortalecimento de sua base produtiva é equivocada, pois embora a China tenha inicialmente importado tecnologia, seu projeto central foi reduzir essa dependência e criar soluções próprias. Já a alternativa e) manutenção de políticas econômicas voltadas à autossuficiência alimentar não está em pauta no trecho, uma vez que o foco destacado é o investimento em setores de inovação e tecnologia.
98 – B
O movimento de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro, não representava apenas uma manifestação religiosa, mas também uma experiência comunitária alternativa ao abandono social e político imposto aos sertanejos. O arraial reunia milhares de pessoas em um espaço autônomo, baseado em valores de solidariedade e cooperação, o que despertava o receio das elites agrárias e da recém-instalada República, pois ameaçava a ordem fundiária e o controle político tradicional. Esse temor de uma organização popular fora da lógica estatal foi um dos fatores centrais que levaram à violenta repressão de Canudos, considerada uma das maiores tragédias sociais da Primeira República. Portanto, o massacre de Canudos reflete a reação das elites políticas e econômicas diante do surgimento de uma organização popular autônoma, vista como ameaça à ordem social, política e fundiária da Primeira República. As demais alternativas apresentam incorreções que não condizem com o contexto histórico. A opção a) resistência ao domínio religioso do catolicismo ultramontano está equivocada, já que Canudos não se opôs à Igreja Católica, mas sim foi uma experiência religiosa popular enraizada no catolicismo tradicional, em sintonia com práticas messiânicas sertanejas. A alternativa c) imposição da reforma agrária por parte de grupos insurgentes não procede, pois não havia, no movimento, uma proposta explícita de redistribuição de terras, embora a simples existência do arraial desafiasse os interesses dos grandes proprietários. A opção d) substituição da monarquia por uma república de caráter socialista é anacrônica, visto que Canudos não defendia um modelo socialista nem tinha projeto político institucionalizado, mas, ao contrário, era contrário à República recém-instalada e ligado a tradições monárquicas. Por fim, a alternativa e) aliança entre o clero e o exército para conter revoltas messiânicas não se aplica, já que o movimento de Canudos não contou com apoio institucional da Igreja, sendo inclusive hostilizado por parte do clero oficial.
99 – D
A lógica do trabalho plataformizado, descrita por Ricardo Antunes, rompe com a forma tradicional de emprego ao deslocar o trabalhador de uma condição de assalariado protegido por legislações trabalhistas para a de prestador de serviço mediado por aplicativos. Essa transformação, apresentada sob o discurso de inovação e flexibilidade, na prática contribui para a precarização do trabalho, já que os vínculos empregatícios deixam de ser formalizados, os direitos sociais — como férias, 13º salário, jornada regulada e previdência — são desconsiderados, e a instabilidade econômica passa a marcar a vida profissional dos trabalhadores. Assim, o trabalho mediado por plataformas digitais representa uma reconfiguração do mundo laboral marcada pelo enfraquecimento das relações formais de emprego e pela intensificação da precarização, configurando um cenário de sucateamento dos direitos trabalhistas historicamente conquistados. As demais alternativas não se ajustam ao cenário descrito. A opção a) ampliação de espaços institucionais de participação coletiva não se verifica, pois as plataformas digitais tendem a fragmentar a classe trabalhadora, dificultando a construção de espaços de organização coletiva, como sindicatos. A alternativa b) modernização dos mecanismos de seguridade social também não corresponde, já que o fenômeno é marcado pela redução, e não pela ampliação, da proteção social. Já a opção c) reorganização dos contratos com base em estabilidade financeira está equivocada, pois os contratos na lógica plataformizada se caracterizam exatamente pela ausência de estabilidade, substituída pela volatilidade das demandas. Por fim, a alternativa e) valorização da autonomia profissional em setores especializados aparece como um discurso recorrente, mas na realidade grande parte dos trabalhadores enfrenta jornadas extensas, baixa remuneração e dependência total dos algoritmos, o que desmente a ideia de autonomia plena.
100 – E
O texto enfatiza que as comunidades quilombolas do Maranhão desenvolvem práticas baseadas em saberes ancestrais, como a agricultura familiar de base agroecológica e o extrativismo não predatório. Essas práticas permitem o uso equilibrado dos recursos naturais, preservando os biomas locais (Cerrado e Amazônia) ao mesmo tempo em que fortalecem a identidade cultural e a resistência frente a pressões externas. Isso caracteriza um modelo de sustentabilidade que alia preservação ambiental e valorização de modos de vida tradicionais, em contraste com a lógica predatória do agronegócio ou da mineração. Portanto, a prática quilombola descrita no texto está ancorada na organização socioambiental sustentável, orientada por conhecimentos tradicionais que conciliam uso responsável da natureza, manutenção da biodiversidade e resistência cultural. As demais alternativas não correspondem ao que o texto descreve. A opção a) exploração intensiva de áreas economicamente marginais está equivocada, já que a prática relatada é de baixo impacto, sem uso intensivo dos recursos. A alternativa b) substituição de práticas ancestrais por modelos de agronegócio é o oposto do que ocorre, pois o texto mostra a manutenção de práticas tradicionais em oposição à pressão do agronegócio. Já a opção c) eliminação de vínculos culturais em nome da competitividade também não se aplica, uma vez que a ênfase é justamente no fortalecimento dos laços culturais e comunitários. Por fim, a alternativa d) dinamização de cadeias produtivas ligadas ao consumo de massa não aparece, pois o foco não é o mercado em larga escala, mas sim a subsistência comunitária e a preservação ambiental.