No limiar da revolução tecnológica impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), o mundo assiste a uma escalada sem precedentes na demanda por infraestrutura digital. Os data centers, centros de processamento de dados em larga escala, tornaram-se peças-chave para viabilizar serviços de nuvem, IA generativa e plataformas digitais. O Brasil, inserido nesse novo contexto, busca atrair investimentos, promover conectividade e assumir protagonismo digital — mas enfrenta grandes desafios relacionados à soberania, sustentabilidade e regulação.
O que são data centers e por que estão crescendo no Brasil?
Data centers são instalações físicas que armazenam, processam e gerenciam grandes volumes de dados. Com a expansão da IA, esses centros tornaram-se essenciais para treinar modelos generativos, manter plataformas online e garantir a segurança das redes. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 175 data centers, concentrados principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas.
Segundo o Nexo Jornal, o país tornou-se atrativo por combinar incentivos fiscais, recursos naturais e políticas públicas voltadas ao setor. A criação do ReD@ta, regime especial de tributação, evidencia esse esforço governamental. No entanto, a instalação de data centers em regiões com vulnerabilidades hídricas e sociais levanta sérias questões sobre justiça ambiental e planejamento urbano.
Soberania digital e a “nuvem soberana” no Brasil
A soberania digital refere-se ao controle nacional sobre dados estratégicos, sistemas informacionais e plataformas digitais. O conceito de “nuvem soberana” surge como resposta à dependência tecnológica de países do Norte Global. O Brasil, através de instituições como o IBGE, já planeja migrar sistemas para ambientes controlados internamente, reduzindo riscos de interferência estrangeira.
Reportagem do Nexo Jornal aponta que o país busca proteger dados sensíveis sob legislação nacional. Entretanto, como destaca a Revista Fórum, muitos acordos com empresas estrangeiras ainda transferem o controle efetivo para fora do país, revelando um descompasso entre o discurso de soberania e a prática contratual.
Colonialismo digital: como o Brasil se insere na lógica global?
De acordo com o artigo de FURTADO & CUNHA (2024), a instalação de data centers em países periféricos como o Brasil reproduz dinâmicas coloniais. As empresas se beneficiam de legislações flexíveis, baixos custos operacionais e incentivos públicos, sem, muitas vezes, contrapartidas reais para o desenvolvimento local.
Reportagens do Intercept relatam como populações locais são excluídas dos processos decisórios e enfrentam impactos socioambientais significativos, enquanto os dados gerados são monetizados por corporações estrangeiras. A assimetria tecnológica e o “extrativismo informacional” colocam o Sul Global novamente em posição de subordinação.
Casos regionais: Ceará, Rio Grande do Sul e novos polos digitais
O estado do Ceará tornou-se exemplo da contradição entre progresso tecnológico e escassez de recursos. O projeto do data center do TikTok, em Caucaia, promete alta performance computacional, mas é alvo de críticas por ser instalado em região com histórico de estiagem. Segundo o Intercept, moradores e povos indígenas não foram consultados adequadamente.
No Rio Grande do Sul, a cidade de Eldorado do Sul aprovou um megaprojeto para abrigar uma “cidade data center”. A iniciativa recebe isenções fiscais e apoio institucional, mas enfrenta questionamentos sobre impactos ambientais e falta de transparência. Há sempre o alerta para o risco de priorizar infraestrutura digital em detrimento de direitos básicos da população local.
Impactos ambientais e desigualdades sociais
Data centers exigem imensa quantidade de energia elétrica e água para resfriamento. Em artigo publicado na Carta Capital, especialistas apontam que a expansão desordenada dessas infraestruturas pode comprometer os recursos naturais e agravar desigualdades. A Repórter Brasil destaca ainda que, em cidades como Gravataí (RS), comunidades vulneráveis enfrentam escassez hídrica enquanto data centers recebem água de reuso e energia subsidiada.
Além disso, como alerta a Interdisciplinar USP, a concentração de infraestrutura digital em regiões específicas pode intensificar a desigualdade territorial e ampliar o abismo digital entre os centros urbanos e as periferias.
Necessidade de regulação no setor de data centers
Atualmente, o Brasil discute o PL 3.018/2024, que visa estabelecer diretrizes para a instalação e operação de data centers com foco em IA. O projeto abrange eficiência energética, sustentabilidade e segurança de dados. No entanto, análises apontam que o texto ainda carece de clareza técnica e mecanismos eficazes de fiscalização.
Durante eventos como o promovido pelo LIDE, ministros como Flávio Dino e Luís Roberto Barroso reforçaram a importância de uma regulação que inclua proteção de direitos, transparência algorítmica e soberania digital. A aprovação de marcos legais sólidos é fundamental para garantir que o crescimento do setor seja equilibrado e inclusivo.
Caminhos para um futuro digital sustentável
O Brasil está diante de uma encruzilhada: ou consolida uma política pública que combine desenvolvimento tecnológico, justiça social e preservação ambiental, ou corre o risco de repetir modelos extrativistas sob a bandeira da inovação.
Investimentos em infraestrutura digital precisam ser acompanhados por regulação robusta, participação social, distribuição equitativa de benefícios e salvaguardas ambientais. A soberania digital, longe de ser apenas uma expressão política, deve traduzir-se em práticas concretas que coloquem o interesse público acima do lucro privado.
Se bem conduzida, a transformação digital pode ser aliada da democracia e do bem-estar coletivo. Caso contrário, os data centers no Brasil se tornarão monumentos de um progresso que exclui, concentra e desgasta os territórios mais vulneráveis.
Referências
FURTADO, Renato & CUNHA, Simone. Inteligência artificial, data centers e colonialismo digital: Impactos socioambientais e geopolíticos a partir do Sul Global. Liinc em Revista, Rio de Janeiro, v. 20, n. 02, e7272, nov 2024.
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2025/06/01/brasil-data-centers-corrida-global
https://www.cartacapital.com.br/tag/data-centers