A 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança Climática (COP30), realizada entre 10 e 21 de novembro de 2025 em Belém (PA), encerrou-se sob um misto de avanços diplomáticos e frustrações profundas. Pela primeira vez realizada no Brasil e na região amazônica, a conferência atraiu líderes mundiais, especialistas climáticos, representantes da sociedade civil e povos tradicionais. Foram mais de 190 países envolvidos em uma intensa disputa por consensos que hoje moldam as perspectivas de ação climática no próximo ciclo de negociações globais.

Ao longo de quase duas semanas, Belém se tornou palco de debates calorosos, protestos nas ruas e negociações tensas nos bastidores. A atmosfera da conferência refletiu o contexto global: um planeta que enfrenta recordes de temperatura, eventos extremos mais frequentes e uma janela estreita para limitar o aquecimento a 1,5 °C, meta central do Acordo de Paris.

O que foi decidido e o Pacote de Belém

A COP30 terminou com a aprovação do chamado “Pacote de Belém”, um conjunto de 29 documentos aprovados por consenso por 195 países. O texto refletiu consensos amplos em temas como transição justa, gênero, tecnologia e financiamento climático, mas deixou em aberto — e de forma controversa — algumas das questões mais urgentes do regime climático.

Entre os avanços, destacou-se a triplicação do financiamento para adaptação climática, uma medida considerada crucial para que países vulneráveis possam enfrentar impactos como secas severas, enchentes e erosão costeira. Também foram lançados novos instrumentos, como o Mecanismo de Belém para a Transição Justa Global e o Acelerador de Implementação Global, com foco em soluções de mitigação e adaptação escaláveis.

Outro resultado foi o estabelecimento de indicadores voluntários para medir avanços em adaptação, com 59 métricas que serão utilizadas pelos países para monitorar progresso. Esses indicadores, embora não vinculantes, representam um passo importante para dar maior clareza às ações de adaptação nos próximos anos.

Fósseis e transição energética: omissões e caminhos voluntários

A questão da eliminação gradual dos combustíveis fósseis — petróleo, carvão e gás — foi o tema mais debatido e controverso da conferência. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a COP30 defendendo um “mapa do caminho” para a transição energética baseado na meta dos 1,5 °C.

Entretanto, a proposta de um plano vinculante foi bloqueada por países produtores de petróleo e gás, e o texto final evitou qualquer linguagem obrigatória. Em vez disso, foram anunciados roadmaps voluntários, sem força legal. Para muitos observadores, essa ausência de metas firmes esvazia a ambição necessária para conter as emissões.

Financiamento climático: promessa e lacunas

O texto final reconheceu a necessidade de triplicar os recursos para adaptação até 2035, mas não detalhou como isso será feito nem quem arcará com os custos. Em entrevista ao InfoAmazonia, Melanie Robinson, do World Resources Institute, comentou que “este texto não parece responder à urgência que os países em desenvolvimento vêm pedindo”.

Apesar das lacunas, houve avanços técnicos: por exemplo, o limite de financiamento por país aumentou de US$ 20 milhões para US$ 40 milhões, abrindo margem para uma atuação mais robusta dos mecanismos internacionais.

Brasil: entre o protagonismo e as críticas

O Brasil celebrou a realização da COP30 como um marco histórico. A escolha de Belém visou posicionar a Amazônia no centro da política climática global. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, afirmou que “o espírito que construímos aqui permanece em cada sala de aula, laboratório, comunidade florestal e cidade costeira”.

No entanto, organizações como o Inesc avaliaram que o desempenho brasileiro foi insuficiente. Cristiane Ribeiro, do Inesc, declarou que “as decisões tomadas não respondem com a ambição necessária ao tamanho do desafio climático”.

Sociedade civil e protestos

A COP30 registrou uma das maiores mobilizações sociais da história das conferências climáticas. Milhares participaram da Marcha Global pelo Clima em Belém. Grupos indígenas, quilombolas, juventudes e movimentos sociais se organizaram para exigir justiça climática, preservação territorial e ações concretas contra os fósseis.

Durante a semana decisiva, houve protestos com palavras de ordem, ocupações simbólicas e críticas contundentes à lentidão dos governos. A mensagem principal era clara: não há mais tempo para adiamentos.