Este conto faz parte do livro Maledicências, publicado em 2025 pelo selo ViraLata Editorial.

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O BONECO ( por Vinícius Canabarro )

Muito estranho: ontem, deitei-me com a sensação de estar incompleto. Não! Na verdade, fui para a cama sentindo-me cheio, mas as coisas foram diminuindo aqui dentro, como se estivessem desaparecendo. Nem mesmo consegui dormir. Minha mente estava abarrotada de pensamentos e lembranças aleatórias, desconexas entre si, mas não que isso importasse para minhas aflições.

De manhã, quando decidi que já era hora de desistir de tentar descansar, nem que fosse por uns míseros minutos, senti meu coração desacelerar e as ideias que giravam em minha cabeça se harmonizaram. Foi um alento. Respirei fundo, como se assim pegasse impulso para começar as rotinas. Retirei a coberta de cima de mim, sentei-me na borda da cama e coloquei meus pés no chão, juntando coragem para me levantar.

Assim que me pus de pé, não senti dor, mas algo estava errado. A sensação de incompletude havia retornado e, junto com ela, desequilíbrio e náusea. Olhei para baixo e minha perna direita havia se desprendido do corpo como uma peça mal presa de manequim. Desesperado, caí no chão me debatendo e minha perna esquerda se desprendeu logo em seguida. Que angústia!

Fiquei deitado por horas, ou talvez tenha sido somente por alguns segundos, não lembro bem. No intuito de reagir, recostei-me na lateral da cama e consegui puxar a coberta para o chão. Abri o tecido o melhor que pude, coloquei minhas pernas dentro e tentei preparar uma trouxa. Desta forma, conseguiria carregá-las para onde quer que eu fosse buscar ajuda.

Peguei as pontas da coberta para dar um nó e, neste momento, meu braço direito escapuliu lá para dentro. Fiquei atônito! Tratei de me recompor o melhor que pude, segurei firme uma das pontas com a mão que me restava, a outra com os dentes e fechei bem. Comecei a chorar como nunca e pude observar minhas lágrimas encharcando a trouxa. Pensei: “Merda! O que é isso que está acontecendo?”.

Encaixei o nó na boca e comecei a me arrastar pelo chão para fora do quarto. Cheguei até a porta e, depois de muito custo, consegui girar a maçaneta. Ao conseguir abrir, o último braço se desprendeu. Quase gritei com o susto, mas me contive. Meu instinto me fez cerrar a mandíbula o mais forte possível para não deixar o embrulho escapar. Infelizmente, meus dentes também despencaram, espalhando-se como um saco de moedas rasgado.

Apertei as gengivas e senti o sangue jorrar por elas, junto a um fluxo incontrolável de saliva. Comecei a suar também. Ao me arrastar até a borda da escada, um rastro enorme de fluidos se formou. Parecia a cena de um crime bárbaro. Eu precisava continuar, mas percebi que era cada vez mais difícil avançar. Virei a cabeça, olhei para trás e pude perceber que minha cintura havia se desencaixado. “AAARRRGGGHHH…”.

Do alto da escada, encarei o caminho à frente e travei: “Eu não consigo! Não sou capaz!”. Mais algum tempo esperando ali e respirei fundo novamente. Olhei lá para baixo outra vez e vi a mistura dos meus fluidos escorrendo lentamente, descendo degrau por degrau.

Hipnotizado com aquele movimento, concentrei-me em fazer um único impulso que me fizesse escorregar pelos líquidos e me levasse direto para o andar inferior, para que eu pudesse sair. Queria ir lá para fora, nem que para tal eu precisasse me arrastar como um verme.

De repente, senti uma série de pancadas secas enquanto tudo girava: minha cabeça tinha se soltado e caía escada abaixo.

Pude notar que a trouxa caiu junto com minha cabeça. Durante a queda, o nó se desfez e meus membros rolaram um por cima do outro. O braço que estava lá dentro deu uma tapa na minha cara e fez meus olhos escaparem. Tudo ficou escuro. Quando aterrissamos, achei que tivesse acabado e fiquei em paz. Engano! Minha mente logo se encheu de lembranças e pensamentos novamente. E, por cima de tudo, uma voz crescia dentro de mim: “Preciso me recompor! Vou me atrasar para o trabalho!”.

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