Por Victor Maurício ( @professorvictormauricio )
O cessar-fogo entre EUA, Israel e Irã abriu uma pausa de duas semanas na guerra após Donald Trump recuar, na noite de 7 de abril, da ameaça de que “uma civilização inteira morrerá esta noite” caso Teerã não aceitasse suas condições. A trégua foi anunciada horas antes do prazo fixado pela Casa Branca e prevê, no centro do entendimento, a reabertura condicionada do Estreito de Ormuz e a continuidade das negociações em Islamabad, com mediação do Paquistão.
O acordo não encerra a crise. Washington apresenta a pausa como “resultado de superioridade militar e diplomática”. O Irã trata o cessar-fogo como prova de resistência e tenta convertê-lo em concessões concretas sobre sanções, segurança e soberania. A Europa recebeu a notícia com alívio, mas cobrou a transformação da trégua em compromisso de ambos os lados. No mercado, o petróleo caiu após o anúncio, mas a cautela permanece porque a implementação do acordo ainda é incerta.
O que Trump disse antes e depois do cessar-fogo
Antes do acordo, Trump elevou a retórica. Segundo o The Guardian e a Reuters, o presidente ameaçou bombardear infraestrutura civil iraniana e publicou que “uma civilização inteira morrerá esta noite” se o Irã não cedesse. O ultimato previa a reabertura do Estreito de Ormuz até a noite de 7 de abril.
Pouco antes do prazo, o presidente mudou de posição e anunciou que aceitaria suspender os ataques por duas semanas, desde que o Irã concordasse com a “abertura completa, imediata e segura” do estreito. Depois, passou a descrever a decisão como um “grande dia para a paz mundial” e como prova de que os objetivos militares dos Estados Unidos teriam sido cumpridos.
Na leitura do governo americano, a trégua não representa recuo, mas passagem da fase militar para a diplomática. Segundo a CNN, trata-se de uma tentativa da Casa Branca de vender o acordo como “vitória total e completa”.
O que o Irã disse
O chanceler Abbas Araghchi confirmou a aceitação do cessar-fogo e informou que, por duas semanas, a passagem segura pelo Estreito de Ormuz será possível mediante coordenação com as Forças Armadas iranianas. Ao mesmo tempo, Teerã evitou tratar o acordo como rendição. A posição iraniana, expressa por autoridades e pela mídia estatal, é a de que o país resistiu ao ultimato e obrigou Washington a negociar.
Nos dias anteriores à trégua, o Irã já havia indicado que não aceitaria um simples cessar-fogo temporário sem discutir o fim da guerra, a suspensão de sanções e garantias mais amplas. A Reuters informou que Teerã considerava as negociações “incompatíveis com ultimatos e ameaças de cometer crimes de guerra”.
Quais são os pontos centrais da proposta iraniana
O plano iraniano, descrito por veículos como The Guardian, Reuters e Al Jazeera, foi apresentado como base de negociação. Entre os pontos centrais, estão:
- suspensão de sanções primárias e secundárias impostas ao Irã;
- reconhecimento da soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz;
- garantia de passagem segura mediante coordenação com Teerã;
- fim dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e seus aliados;
- liberação de ativos iranianos congelados no exterior;
- reconstrução e reparações pelos danos da guerra;
- formalização do entendimento em instrumento com respaldo internacional;
- em versões divulgadas em persa, aceitação do enriquecimento nuclear iraniano.
O ponto mais sensível é justamente o programa nuclear. Em versões em inglês do texto iraniano, essa exigência teria desaparecido, o que mostra que a proposta ainda circula com ambiguidades e margem para disputa política.
Quais são os pontos defendidos pelos EUA
Do lado americano, a proposta transmitida por mediadores previa um caminho em duas etapas: cessar-fogo imediato e negociação de um acordo final em prazo curto. A Reuters relatou que o desenho geral incluía reabertura do Estreito de Ormuz, discussão sobre limites ao programa nuclear iraniano, restrições a mísseis balísticos e mecanismos para encerrar as hostilidades.
Os Estados Unidos também insistem em manter a trégua condicionada ao comportamento iraniano no estreito. Em outras palavras, o cessar-fogo é tratado por Washington como reversível. Se Teerã não cumprir os termos, a Casa Branca deixa aberta a possibilidade de retomada da pressão militar.
Como está a mediação do Paquistão
O Paquistão se tornou o principal canal entre Washington e Teerã. Segundo a Reuters e a Al Jazeera, o governo de Shehbaz Sharif pediu duas semanas para que a diplomacia avançasse e propôs que as negociações seguintes ocorram em Islamabad. O general Asim Munir, chefe do Exército paquistanês, atuou como elo direto com autoridades americanas e iranianas.
O papel paquistanês vai além da transmissão de mensagens. À Al Jazeera, Ishtiaq Ahmad, professor emérito de Relações Internacionais da Quaid-i-Azam University, afirmou: “Um mensageiro transmite, mas o Paquistão moldou a sequência, o timing e o enquadramento das propostas.”
Na mesma reportagem, Betul Dogan-Akkas, professora de Relações Internacionais da Universidade de Ancara, avaliou que o perfil do Paquistão se tornou útil porque as divisões entre potências regionais abriram espaço para um mediador que falasse com todas as partes. Já Qamar Cheema, diretor executivo do Sanober Institute, disse que Islamabad ganhou credibilidade com Teerã ao condenar os ataques americanos e, ao mesmo tempo, manter canais com Washington.
O que os países europeus estão dizendo
A reação europeia foi de apoio à trégua, mas sem repetir o discurso triunfal da Casa Branca. A Reuters registrou que Ursula von der Leyen afirmou que o cessar-fogo traz a “desescalada muito necessária” e que as negociações precisam continuar em busca de uma solução que promova a estabilidade da região.
O The Guardian informou que líderes de dez países, entre eles Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha, defenderam avanço rápido para uma solução negociada. Emmanuel Macron pediu a retomada segura do tráfego em Ormuz e maior abrangência do acordo. Keir Starmer defendeu que a pausa seja sustentada e convertida em compromisso permanente. Pedro Sánchez adotou tom mais crítico e afirmou que o alívio momentâneo não apaga “o caos, a destruição e as vidas perdidas”.
O que muda agora
O principal efeito imediato do cessar-fogo foi a redução do risco de bombardeio americano de larga escala contra infraestrutura civil iraniana e a expectativa de retomada do fluxo energético no Golfo. A Euronews destacou que o petróleo recuou e os mercados europeus subiram após o anúncio, refletindo a percepção de alívio. Mesmo assim, investidores continuam cautelosos porque o entendimento ainda é provisório.
No plano político, o quadro segue aberto. O Irã quer transformar a pausa em alívio de sanções, garantias formais e reconhecimento de suas condições estratégicas. Os EUA querem usar a trégua para pressionar por limites nucleares e militares. Israel aceitou a pausa no front iraniano, mas manteve ressalvas sobre a frente libanesa. A Europa pressiona por acordo realista e permanente. Por fim, o Paquistão tenta utilizar a diplomacia para aliviar as tensões.
O cessar-fogo entre EUA, Israel e Irã interrompeu a escalada mais grave da crise, mas não resolveu seus fatores centrais. A ameaça de Trump expôs até onde Washington estava disposto a ir. A resposta iraniana mostrou que Teerã quer negociar sem abrir mão de pontos considerados estratégicos. A Europa tenta evitar que a trégua seja apenas uma pausa entre duas rodadas de ataques. E o Paquistão, ao assumir a mediação, passou a ocupar papel central na tentativa de transformar pressão militar em acordo político. Por enquanto, a trégua reduz o risco imediato. Mas o verdadeiro teste começará nas negociações sobre sanções, programa nuclear, segurança regional e controle do Estreito de Ormuz.
Assista nosso vídeo sobre o Irã
Referências
- The Guardian – US and Iran agree to provisional ceasefire as Tehran says it will reopen strait of Hormuz
- The Guardian – European leaders welcome US-Iran ceasefire
- Al Jazeera – How Pakistan managed to get the US and Iran to a ceasefire
- Reuters – EU welcomes US-Iran ceasefire, urges efforts to create lasting agreement
- Reuters – Iran, US receive plan to end hostilities, immediate ceasefire
- Reuters – Iran rejects ceasefire as Trump ramps up threats ahead of deadline
- Reuters – Iran has formulated its response to ceasefire proposals
- Euronews – Iran ceasefire pushes oil prices down as markets remain cautious
- CNN Brasil – Trump reivindica “vitória total e completa” após cessar-fogo com Irã
- Comissão Europeia – Statement on the ceasefire and de-escalation
- BBC News Brasil – cobertura sobre o cessar-fogo entre EUA e Irã
- DW – live coverage on the Iran war and US claims of victory
- G1 – Trump adia ultimato contra o Irã
- Haaretz – Trump pauses Iran war, says Tehran’s proposal is workable basis

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