Estados Unidos e Irã sinalizaram nos últimos dias que estão próximos de um acordo provisório para encerrar a guerra iniciada em fevereiro de 2026, mas as versões divulgadas por Washington e Teerã ainda revelam divergências importantes sobre o Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano, a liberação de ativos congelados e o alcance regional do cessar-fogo. Segundo a Reuters, autoridades dos dois lados afirmaram que um memorando de entendimento pode ser assinado nos próximos dias, com mediação do Paquistão e possível participação diplomática da Suíça. O texto em discussão prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, a suspensão do bloqueio naval norte-americano contra portos iranianos e a abertura de uma nova fase de negociações sobre o programa nuclear do Irã.
O acordo, se confirmado, representaria a tentativa mais concreta de interromper um conflito que já provocou ataques diretos entre Estados Unidos, Irã e Israel, fechamento parcial de uma das principais rotas energéticas do planeta e instabilidade nos mercados globais de petróleo. O Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã, é responsável pela circulação de cerca de um quinto do petróleo e do gás comercializados no mundo. Por isso, qualquer compromisso sobre sua reabertura tem efeito imediato sobre preços internacionais, fretes, seguros marítimos e segurança energética de países importadores.
A negociação ocorre em meio a uma contradição: ao mesmo tempo em que as partes dizem estar próximas de um acordo, novos incidentes militares continuam ocorrendo. A Reuters informou que forças norte-americanas abateram drones iranianos que, segundo Washington, seguiam em direção ao Estreito de Ormuz e representavam ameaça ao tráfego comercial. O Comando Central dos EUA afirmou que “a rota internacional de comércio permanece aberta para trânsito”. O Irã, por sua vez, sustenta que mantém capacidade de controlar o fluxo pelo estreito e que não abrirá mão de sua posição estratégica.
A CNN noticiou que o governo iraniano prevê que:
- Haja um novo cessar-fogo de 60 dias em ‘todas as frentes’, incluindo o Líbano;
- O Estreito de Ormuz seja reaberto imediatamente;
- A retirada do bloqueio naval que os EUA fazem na entrada de Ormuz;
- As Sanções ao Irã sejam flexibilizadas progressivamente;
- O compromisso do Irã em não obter uma arma nuclear.
A Reuters afirmou que o governo estadunidense deseja que:
- O Estreito de Ormuz seja reaberto;
- O programa nuclear iraniano seja desmantelado;
- O Irã não receba dinheiro de seus ativos congelados pelas sanções até que cumpra sua parte do acordo.

Os interesses são claros. Para o Irã, o acordo deve ser tratado como uma trégua ampla, com suspensão de hostilidades em várias frentes, incluindo o Líbano, onde o Hezbollah atua como aliado de Teerã. Para os Estados Unidos, o ponto central é condicionar qualquer benefício econômico à comprovação de que o Irã cumprirá compromissos concretos, especialmente sobre seu programa nuclear e o financiamento de grupos armados regionais.
A disputa simbólica também aparece no tema de Ormuz. Embora o acordo preveja a reabertura da passagem marítima, o Irã insiste que seguirá tendo papel decisivo no controle do tráfego. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi declarou que “Nossa espada sempre pairará sobre o Estreito de Ormuz.”. O Irã busca aceitar algum grau de normalização do comércio marítimo, mas preservar o estreito como instrumento de dissuasão. Para Teerã, Ormuz é uma ferramenta geopolítica capaz de pressionar Estados Unidos, Israel, países do Golfo e mercados internacionais.
Para o governo Trump, o acordo tem também dimensão interna. A Reuters apontou que a guerra se tornou um problema político para a Casa Branca, em meio ao aumento dos combustíveis e à queda de popularidade do presidente. Parte dos republicanos teme que a impopularidade do conflito afete as eleições de meio de mandato. Ao mesmo tempo, setores mais duros do partido podem criticar qualquer acordo visto como favorável demais ao Irã. Por isso, a Casa Branca insiste que o Irã só terá acesso a ativos congelados e alívio de sanções após cumprir sua parte.
A negociação, portanto, não representa uma paz definitiva, mas uma tentativa de construir uma saída provisória para uma guerra que já afetou segurança energética, comércio global, alianças regionais e política interna norte-americana. O cessar-fogo pode reduzir a intensidade dos ataques e reabrir Ormuz, mas deixa em aberto os pontos mais sensíveis: o futuro do programa nuclear iraniano, o papel do Hezbollah, a liberdade de ação de Israel, o controle do estreito e o ritmo da flexibilização das sanções. O acordo pode encerrar uma fase da guerra, mas dificilmente encerra a disputa geopolítica entre Estados Unidos e Irã.
Victor Maurício (13.06.2026)
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Referências:
Irã diz que acordo para encerrar conflito com os EUA ‘nunca esteve tão próximo’. BBC News Brasil. 12 jun 2026
Acordo entre EUA e Irã inclui reabertura de Ormuz e nova trégua, diz imprensa dos 2 países; veja pontos. G1. 12 jun. 2026.
Governo Trump detalha termos de acordo provisório com o Irã. CNN Brasil. 12 jun. 2026.
Iran and the new Persian Gulf equilibrium. Chatham House. 11 jun. 2026.
Iranian foreign minister says deal with U.S. ‘never been closer’. Axios. 12 jun. 2026.
Iran peace deal looms, new military action flares near Strait of Hormuz. Reuters. 13 jun. 2026.
Irã diz se aproximar de acordo com EUA e afirma que venceu a guerra. Poder360. 12 jun. 2026.
US and Iran have agreed to wording of a deal to end their war, Pakistan’s prime minister says. Associated Press. 12 jun. 2026.
US military says it downed Iranian attack drones – as it happened. The Guardian. 12 jun. 2026.