O aumento no preço das passagens aéreas ganhou força no Brasil e no exterior com a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Além disso, a alta do petróleo e a pressão sobre o querosene de aviação elevaram os custos do setor. No Brasil, o problema ganhou novo peso após o reajuste de cerca de 55% no querosene de aviação (QAV) anunciado pela Petrobras para abril. Ao mesmo tempo, o IPCA-15 (índice que busca prever a inflação) de março já havia mostrado alta de 5,94% nas passagens aéreas.

Esse encarecimento ocorre em um momento de forte instabilidade no Oriente Médio. Por isso, companhias aéreas revisam preços, ajustam oferta e tentam preservar a demanda. O efeito já aparece no bolso do consumidor. Também afeta o turismo e a conectividade aérea.

Aumento no preço das passagens aéreas e os efeitos da guerra contra o Irã

A relação entre o conflito e a alta das tarifas passa pelo combustível. A Reuters informou que o preço do QAV saltou em poucas semanas. Ele saiu de uma faixa entre US$ 85 e US$ 90 por barril para algo entre US$ 150 e US$ 200. Nesse contexto, o impacto sobre o setor foi imediato.

Em uma atividade na qual o combustível responde por até um quarto dos custos operacionais, a mudança alterou projeções financeiras. Além disso, a alta levou companhias a rever malha e preços. Outra reportagem da Reuters mostrou que as empresas já começaram a elevar tarifas e cortar capacidade.

Antes do conflito, a indústria aérea projetava lucro global recorde de US$ 41 bilhões em 2026. No entanto, com a disparada do combustível, esse cenário passou a ser revisto. Isso ocorre porque o setor depende da manutenção da demanda para seguir rentável.

Querosene de aviação mais caro pressiona o bolso do passageiro

No Brasil, a situação ganhou contornos mais agudos após a sinalização de forte reajuste no querosene de aviação. Segundo a Reuters, a alta anunciada veio na esteira da valorização global do petróleo. Assim, a crise externa chegou rapidamente ao mercado doméstico.

A pressão já aparece nos índices de preços. O IBGE informou que o IPCA-15 de março ficou em 0,44%. Já as passagens aéreas subiram 5,94%. Esse foi o maior impacto individual da prévia da inflação no mês. O dado é relevante porque foi registrado antes do reajuste de abril no QAV.

De acordo com a CNN Brasil, a Associação Brasileira de Empresas aéreas (Abear) alertou que, somados os reajustes de março e abril, o querosene de aviação passou a responder por 45% dos custos operacionais das companhias aéreas. A entidade afirmou que a medida tem “consequências severas” sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços.

Esse quadro tende a produzir dois efeitos simultâneos. O primeiro é o encarecimento das passagens. O segundo é a menor oferta em trechos de baixa rentabilidade. Além disso, em mercados com pouca concorrência, o reajuste pode ser ainda mais perceptível para o consumidor final.

O que dizem especialistas e executivos do setor aéreo

Em entrevista citada pela Reuters, Manuel Irarrazaval, diretor financeiro do Grupo Abra, afirmou que o aumento anunciado pela Petrobras será “moderado” na comparação com a disparada internacional do combustível. Ainda assim, ele reconheceu que o grupo precisa elevar preços em cerca de 10% para cada aumento de US$ 1 por galão no querosene de aviação.

À CNN Brasil, Daniel Borges, CEO da Route Investimentos, afirmou: “O consumidor vai sentir isso direto no valor da tarifa, mas também em um fenômeno que estamos vendo muito: a redução da oferta de voos para destinos menos lucrativos, o que encarece ainda mais as passagens por falta de concorrência”.

Em reportagem da Exame, Bruno Corano, CEO da Corano Capital, afirmou: “É uma relação direta. Depois de folha de pagamento, combustível é o principal custo. Isso vai com certeza afetar as passagens. Eu imagino que nas próximas horas a gente já veja as companhias aéreas anunciando aumentos, e eles possivelmente vão ser imediatos. É o repasse de custos”.

Na Europa, o cenário é semelhante. Segundo o The Guardian, Kenton Jarvis, CEO da easyJet, disse que a empresa não estava prevendo nenhum problema de abastecimento no momento. No entanto, ele alertou que os passageiros deveriam comprar com antecedência. Isso porque o vencimento dos mecanismos de proteção contratados pelas companhias tende a abrir espaço para tarifas mais altas.

Dados mostram que a alta não é apenas percepção

Os números reunidos pelas reportagens ajudam a dimensionar o problema. A Reuters registrou que a Azul elevou o preço médio das passagens reservadas em mais de 20% ao longo de três semanas. Além disso, a empresa reduziu em 1% sua capacidade doméstica no segundo trimestre.

A Exame informou que o reajuste de cerca de 55% no QAV fez o combustível saltar da faixa de R$ 3 mil para R$ 5 mil. Por isso, o mercado já associa esse movimento a uma tendência de repasse para as tarifas. A mesma reportagem destacou que o barril do Brent ultrapassou US$ 115 no contexto da crise.

No exterior, o The Guardian informou, com base no monitor da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), que o preço do querosene de aviação estava 94% acima da média anual no fim da semana anterior. Portanto, a pressão sobre as tarifas não se limita ao Brasil. Ela também afeta grandes companhias europeias e americanas.

Governo busca alternativas para conter a alta das tarifas

O governo federal discute medidas para reduzir parte da pressão sobre o setor. Segundo a Reuters e a Exame, o Ministério de Portos e Aeroportos encaminhou propostas para reduzir PIS/Cofins sobre o QAV. Além disso, estuda diminuir o IOF incidente sobre operações das aéreas e cortar o imposto de renda sobre leasing de aeronaves.

Essas medidas podem aliviar custos ao longo do tempo. No entanto, não eliminam o impacto imediato do petróleo mais caro. Na prática, a velocidade do repasse ao consumidor dependerá de vários fatores. Entre eles estão a demanda, a ocupação dos voos, a concorrência entre companhias e a duração da crise no Oriente Médio.

O que pode acontecer com as passagens aéreas nos próximos meses

No curto prazo, o cenário mais provável é de continuidade da pressão sobre os preços. As companhias tentam equilibrar repasse de custos e preservação da demanda. Porém, a margem para absorver choques dessa magnitude é limitada. Por isso, o aumento no preço das passagens aéreas tende a seguir no centro do debate econômico.

Até dezembro de 2025, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmava que a tarifa aérea doméstica média havia caído 11% em termos reais em três anos. Ainda assim, a guerra contra o Irã interrompeu esse ambiente de alívio relativo. Como resultado, o transporte aéreo voltou ao centro da pressão inflacionária.

Para o passageiro, o efeito prático é claro. Há menos previsibilidade e maior dificuldade para encontrar tarifas baixas. Enquanto a crise no Oriente Médio continuar pressionando o petróleo, o custo de voar deve seguir elevado no Brasil e no mundo.

Referências