O aquecimento dos oceanos atingiu um novo recorde em julho de 2026. A temperatura média da superfície oceânica fora das regiões polares chegou a 20,96°C, segundo o Copernicus Climate Change Service. Foi o maior valor registrado para julho desde o início da série de dados. No Brasil, o avanço do aquecimento reforça a pressão pela implementação de políticas de adaptação climática.
O quadro conecta duas dimensões da mudança climática. De um lado, oceanos mais quentes alteram ecossistemas e influenciam o sistema climático. Do outro, governos precisam preparar cidades, infraestrutura e populações para eventos extremos que já ocorrem.
O Brasil passou a organizar essa resposta no Plano Clima 2024–2035. O governo define o documento como principal instrumento nacional para orientar ações de mitigação e adaptação. O Plano Clima Adaptação reúne uma Estratégia Nacional e 16 planos setoriais e temáticos.
Aquecimento dos oceanos registra novos recordes
O recorde de julho prolongou uma tendência observada nos meses anteriores. Em junho de 2026, a média oceânica entre 60° Sul e 60° Norte havia alcançado 20,86°C. Também foi o maior valor registrado para aquele mês.
Em julho, a média subiu para 20,96°C. O valor superou os 20,89°C registrados em julho de 2023. Desde 19 de junho, a temperatura diária dessa faixa oceânica permaneceu em níveis recordes para cada dia do ano.
Parte dessa elevação ocorre durante o desenvolvimento do El Niño no Pacífico Equatorial. Entretanto, o fenômeno natural atua sobre um planeta que já acumula calor devido à elevação das concentrações de gases de efeito estufa.
Samantha Burgess, responsável estratégica pela área climática do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, resumiu essa tendência em análise divulgada pelo Copernicus: “Junho de 2026 destacou a profundidade das mudanças climáticas. A Europa Ocidental registrou o junho mais quente de sua história e continuou registrando temperaturas recordes nos oceanos do mundo”.
Em 2025, o conteúdo de calor dos oceanos até dois mil metros de profundidade atingiu seu maior valor desde o início dos registros, em 1960. Cada um dos últimos nove anos estabeleceu um novo recorde nesse indicador.
Por que o aquecimento dos oceanos importa para o Brasil
Os oceanos absorvem a maior parte do excesso de energia acumulado no sistema climático. Esse mecanismo reduz temporariamente o aquecimento atmosférico, mas transfere parte do problema para os mares.
A elevação da temperatura afeta ecossistemas marinhos, contribui para ondas de calor oceânicas e interfere na capacidade dos oceanos de armazenar carbono. O processo também se relaciona com a elevação do nível médio do mar.
Para um país com extensa faixa costeira, as implicações incluem erosão, ressacas e riscos para áreas urbanizadas próximas ao litoral. O impacto depende das condições locais e da capacidade de adaptação de cada território.
À CNN Brasil, Marcus Polette, professor da Universidade do Vale do Itajaí e integrante da rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas, afirmou que:: “A integração entre ciência, planejamento territorial, governança e adaptação climática será determinante para aumentar a capacidade de resposta dos territórios diante de eventos extremos.”
Segundo os pesquisadores ouvidos pela CNN Brasil, medidas preventivas incluem monitoramento meteorológico e oceanográfico, revisão de planos de contingência e mapeamento de áreas vulneráveis. Também estão entre as alternativas investimentos em drenagem urbana e recuperação de ecossistemas costeiros.
Adaptação climática no Brasil ganha estrutura nacional
A discussão sobre o aquecimento dos oceanos ajuda a explicar por que a adaptação climática passou a ocupar espaço maior na política pública brasileira.
Mitigação e adaptação cumprem funções diferentes. A mitigação busca reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento. A adaptação procura diminuir os danos provocados por mudanças que já ocorrem ou são esperadas.
O Plano Clima Adaptação estabelece ações com horizonte até 2035. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, seu principal objetivo é reduzir a vulnerabilidade do país.
O documento procura articular políticas federais com estados e municípios. Entre os setores envolvidos estão cidades, saúde e outras áreas expostas aos impactos climáticos.
Essa articulação é importante porque um mesmo fenômeno produz efeitos diferentes dependendo do território. Uma onda de calor, por exemplo, representa riscos distintos conforme renda, infraestrutura urbana, disponibilidade de áreas verdes e acesso aos serviços públicos.
Financiamento ainda está entre os desafios
A existência de planos, porém, não significa que as medidas sejam automaticamente executadas. Organizações ligadas ao Observatório do Clima apontam o financiamento como uma das condições para transformar planejamento em adaptação efetiva.
Thaynah Gutierrez, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista, afirmou em ao Observatório do Clima: “Estamos falando de um país continental, com 5,5 mil municípios, e que, para conseguir coordenar ações de adaptação, precisa de mais do que um plano robusto do Governo Federal. Precisa de uma interlocução interfederativa muito robusta”.
Gutierrez também afirmou que “é preciso conectar o plano de contingência de cada município ao plano da Secretaria de Educação do estado, aos planos da Saúde, da Assistência Social e do Ministério da Fazenda”,
O governo federal afirma que o Plano Clima inclui mecanismos para articular recursos públicos, privados e internacionais. Entre as áreas consideradas prioritárias estão resiliência urbana, restauração florestal e transição energética.
A iniciativa AdaptaCidades também busca aproximar a estratégia nacional das administrações locais. O programa oferece apoio técnico para estados e municípios elaborarem planos de adaptação e avaliarem riscos climáticos.
Adaptação não substitui redução das emissões
O avanço da agenda de adaptação não reduz a necessidade de cortar emissões de gases de efeito estufa.
As duas políticas precisam ocorrer simultaneamente. Medidas de adaptação podem reduzir mortes e prejuízos diante de enchentes, secas, calor ou elevação do mar. Elas não interrompem, porém, o processo responsável pelo aumento da temperatura global.
Da mesma forma, uma redução futura das emissões não elimina os riscos já produzidos pelo aquecimento acumulado.
O recorde recente dos oceanos torna essa relação mais evidente. O Brasil precisa reduzir sua contribuição para o aquecimento e, simultaneamente, preparar seus territórios para condições climáticas diferentes das registradas no passado.
A questão central, portanto, deixou de ser apenas elaborar planos. O desafio passa pela capacidade de transformar diagnósticos científicos em orçamento, infraestrutura, prevenção e políticas públicas aplicadas nos locais de maior vulnerabilidade.