O acordo Israel-Hamas após dois anos de conflito

Dois anos após o ataque coordenado do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a resposta militar israelense que devastou a Faixa de Gaza, um novo acordo de cessar-fogo foi anunciado e assinado no Egito, reunindo chefes de governo e chanceleres de países árabes e europeus, sob patrocínio dos Estados Unidos. Segundo registros jornalísticos desta semana, a cerimônia, marcada por forte presença internacional, consolidou o que a Casa Branca descreve como a primeira fase de um roteiro mais amplo, ancorado em medidas humanitárias, dispositivos de segurança e metas para troca de prisioneiros e libertação de reféns, além de um monitoramento internacional e retirada escalonada de tropas em áreas densamente povoadas. Ainda que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não tenha comparecido, a assinatura contou com a presença de líderes europeus e árabes, e enfatizou o papel central de Washington no desenho do acordo. Em entrevista, Donald Trump reforçou o caráter condicional da trégua e afirmou que “Israel poderia retomar combates” se o Hamas descumprisse etapas, sinalizando que se trata de um processo em fases, não de um fim definitivo do conflito.

1) O que foi acordado e o que já foi realizado

De forma geral, há roteiro em etapas que combina cessar-fogo, libertação de reféns, troca de prisioneiros, retirada gradual de tropas israelenses de zonas densas e supervisão internacional para coordenação humanitária e de segurança. Já no primeiro pacote de medidas, foram libertados 20 reféns israelenses e entregues 4 corpos de reféns falecidos (o Hamas alega que não sabe a localização dos demais). Por outro lado, Israel procedeu à libertação de prisioneiros palestinos. Além disso, foram anunciados passos para um comitê internacional de supervisão humanitária e o início de retiradas graduais de áreas como Cidade de Gaza e Khan Younis. Em termos políticos, Washington ressalta que o Hamas não deverá exercer papel de governança em Gaza e que a desmilitarização é uma meta explícita do plano, com monitoramento independente. Nessa linha, Trump disse que Israel “poderia retornar às ruas [de Gaza] assim que eu disser” caso o Hamas não cumpra o previsto.

Entretanto, multiplicaram-se as tensões de implementação. A Reuters informou que Israel e Hamas trocaram acusações de violações do acordo, sobretudo sobre entrega de corpos de reféns, e citou que a reabertura de Rafah seria para circulação de pessoas, enquanto a ajuda humanitária continuaria pela Kerem Shalom, organização sob controle israelense. Assim, apesar do cessar-fogo formal, pendências sensíveis e disputas narrativas persistem e podem contaminar as fases seguintes.

2) O papel de Donald Trump na negociação

A assinatura no Egito e as declarações posteriores consolidaram o protagonismo de Donald Trump no arranjo. À CNN, o presidente dos EUA vinculou a sustentação do cessar-fogo ao comportamento do Hamas, dizendo que as forças israelenses poderiam voltar às ruas de Gaza “assim que eu disser” caso o grupo descumpra desarmamento e entrega de reféns. Em outra fala, Trump afirmou que “59 países fazem parte disso”, destacando a amplitude do apoio internacional. O plano de 20 pontos citado por Washington prevê monitoramento independente, desmilitarização e o afastamento do Hamas da governança de Gaza.

3) Quem vai governar a Faixa de Gaza?

Este é o nó central. O plano americano rejeita o Hamas como gestor de Gaza e prevê desmilitarização e monitoramento internacional em fases. Contudo, ainda não está definido quem ocupará o vácuo de poder, se uma administração tecnocrática palestina vinculada à Autoridade Palestina, se uma força interina internacional ou uma combinação. A Reuters cita a criação de um organismo internacional (um “board”) ligado aos EUA e a discussão de uma força de estabilização. Do lado palestino, o Hamas resiste a abrir mão de controle, e há disputas com clãs e milícias locais, sobretudo onde Israel iniciou retiradas.

4) Como está Gaza agora: as primeiras consequências do cessar-fogo

O cessar-fogo reduziu a intensidade dos combates, porém não eliminou a violência. Na última semana, reportagens apontaram confrontos e execuções públicas atribuídas a integrantes do Hamas contra rivais, como forma de reafirmação de poder. Um vídeo publicado na segunda-feira (13/10) mostrava um grupo de combatentes do Hamas executando um grupo de oito homens. “Acredito que o Hamas vem tentando mobilizar suas forças, utilizando as do Ministério do Interior, para afirmar e consolidar seu controle”, disse Fawaz Gerges, professor de relações internacionais na London School of Economics, em entrevista à BBC. “Nas zonas sob seu controle, o Hamas poderá destruir vários clãs, gangues, invasores e milícias porque suas forças são mais experientes, mais habilidosas e mais determinadas”, acrescentou Gerges.

Especialista em segurança internacional e vice-coordenador executivo do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp, Héctor Luis Saint-Pierre afimou ao Jornal da Unesp que: “Não se trata de um acordo de paz, mas de um cessar-fogo. Há uma suspensão de um combate que pode prosseguir a qualquer momento. O conflito é permanente, já dura mais de 70 anos. Mais do que uma guerra, é um genocídio, como definido pelo Tribunal Penal Internacional. Pode ser algo transitório como uma chuva de verão, mas é um alívio. Estava morrendo muita gente inocente, muita gente passando fome”, diz.

Saint-Pierre pensa que o líder israelense poderá aproveitar a trégua, que será vigiada e controlada, para operar em outras frentes. “A questão de Netanyahu é expandir a guerra para o Oriente Médio. Já houve ataques na Cisjordânia, é possível que continuem. Estão bombardeando a Síria e estabelecendo bases para isolar o Irã, que, na visão de Netanyahu, seria o inimigo principal de Israel”, diz.

Texto: Prof. Victor Maurício. As referências utilizadas encontram-se no final do post

Nesse primeiro vídeo, explicamos rapidamente a história do conflito na Palestina.

Nesse outro vídeo, há uma explicação sobre os atores que estiveram envolvidos no conflito desde o início em 7 de outubro de 2022.

Neste outro vídeo, falamos sobre um episódio super importante com gerou consequências globais: a crise do petróleo. Tema sempre com potencial de aparecer em provas.

Referências utilizadas no texto:

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2025/10/06/conflito-israel-hamas-dois-anos-em-cinco-pontos

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2025/10/10/chaves-entender-acordo-paz-faixa-gaza

https://www.aljazeera.com/news/2025/10/17/what-are-the-six-main-problems-a-ceasefire-has-brought-benjamin-netanyahu

https://www.aljazeera.com/news/2025/10/6/ceasefire-or-empty-promises-gazas-displaced-speak-out-on-trumps-plan

https://www.reuters.com/world/middle-east/israel-hamas-trade-blame-over-truce-deal-violations-rafah-border-reopening-2025-10-16

https://www.reuters.com/world/middle-east/ceasefire-offers-israel-opportunity-end-its-international-isolation-2025-10-17

https://www.reuters.com/world/middle-east/israel-hamas-trade-blame-over-truce-deal-violations-rafah-border-reopening-2025-10-16

https://www.reuters.com/world/middle-east/gaza-needs-massive-boost-emergency-aid-after-ceasefire-un-relief-chief-says-2025-10-15

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9310vqqzdeo

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3dnevk5llgo

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/trump-a-cnn-israel-pode-retomar-combate-em-gaza-se-hamas-descumprir-acordo

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-como-hamas-continua-sendo-uma-ameaca-mesmo-com-cessar-fogo-em-gaza

https://edition.cnn.com/2025/10/16/middleeast/hostage-bodies-israel-hamas-war-intl

https://edition.cnn.com/2025/10/15/politics/hamas-warning-trump-israel-gaza

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/10/13/lideres-mundiais-assinam-cessar-fogo-gaza.ghtml

https://www.dw.com/pt-br/sem-netanyahu-nem-hamas-trump-assina-cessar-fogo-em-gaza/a-74331892

https://www.dw.com/pt-br/o-que-diz-o-acordo-de-paz-entre-israel-e-o-hamas/a-74288110

https://www.dw.com/pt-br/israel-e-hamas-negociam-detalhes-finais-para-troca-de-ref%C3%A9ns/a-74323750