Gabarito referente ao Simulado 1 do Projeto ENEM 2025

Resposta da questão 1: [D]
A Lei nº 601, de 1850, conhecida como Lei de Terras, foi um marco jurídico na estruturação do regime fundiário brasileiro. Promulgada no contexto pós-extinção do tráfico negreiro (também em 1850), essa legislação proibia a aquisição de terras devolutas por outros meios que não a compra, extinguindo, portanto, a possibilidade de apropriação por posse (a chamada “sesmaria” ou simples ocupação). Essa medida teve como principal consequência a concentração fundiária, pois restringiu o acesso à terra àqueles que dispunham de capital para comprá-la — ou seja, às elites econômicas da época. Trabalhadores livres recém-libertos e imigrantes pobres ficaram à margem do processo de acesso à terra, o que inviabilizou o surgimento de uma ampla classe de pequenos proprietários rurais no país. A Lei de Terras consolidou a terra como mercadoria e excluiu os pobres do acesso ao território nacional, preparando o Brasil para receber o trabalho livre, mas sem garantir as condições de autonomia dos trabalhadores rurais. A legislação também teve papel crucial na formação de um modelo agrário excludente, cuja herança se reflete nas desigualdades fundiárias que persistem até os dias atuais.

Resposta da questão 2: [A]
A participação de Maria Quitéria de Jesus no processo da Independência do Brasil é um caso simbólico que evidencia a estrutura social rígida e excludente do período, especialmente em relação às mulheres e às camadas populares. O fato de Maria Quitéria — uma mulher, filha de lavradores pobres — ter precisado disfarçar-se de homem para participar do conflito armado mostra que a estrutura militar era rigidamente hierarquizada e patriarcal, excluindo pessoas com base em gênero e posição social. Esse episódio não representa uma aceitação institucional das mulheres nos ofícios militares, mas sim uma exceção que confirma a regra da exclusão social: só foi possível graças à camuflagem da identidade feminina. Ou seja, sua experiência denuncia os limites da participação popular e os obstáculos impostos por normas sociais e institucionais rígidas, que restringiam profundamente a mobilidade de grupos subalternos, sobretudo mulheres, pobres e não brancos. Além disso, a trajetória de Maria Quitéria se insere num contexto mais amplo da luta pela independência em que, apesar do discurso nacionalista, a participação popular era controlada e vigiada pelas elites, e os privilégios sociais se mantinham intactos. O caso ilustra, portanto, como a ordem social tradicional foi mantida mesmo diante da ruptura política com Portugal, revelando a persistência da rigidez hierárquica da estrutura social brasileira oitocentista.

Resposta da questão 3: [C]
A moral kantiana, conforme apresentada na obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes, baseia-se no imperativo categórico, que exige que qualquer máxima pessoal (ou princípio de ação) deva poder ser universalizada — ou seja, deve ser válida como norma para todos os seres racionais. No exemplo proposto por Kant, a pessoa considera fazer uma promessa falsa de pagamento, mesmo sabendo que não poderá cumpri-la. Esse tipo de ação é eticamente condenável, pois, se a máxima que a sustenta fosse universalizada (ou seja, se todos passassem a prometer algo sem intenção de cumprir), a própria ideia de promessa perderia o sentido. Assim, a contradição está no fato de que a ação depende de uma regra que seria destruída se todos a seguissem. O ato, portanto, não pode ser moral, já que fere a exigência de universalidade do dever moral. Kant distingue claramente entre ações por dever (que obedecem a uma lei moral universalizável) e ações por interesse ou inclinação. A falsa promessa revela um interesse particular, instrumentalizando o outro como meio para um fim pessoal, o que também contraria outro princípio fundamental do pensamento kantiano: o ser humano deve ser sempre tratado como fim em si mesmo, e nunca como meio para alcançar objetivos individuais.

Resposta da questão 4: [B]
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), aprovada em 1948, surgiu no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, como resposta às atrocidades cometidas durante o conflito, especialmente o Holocausto. Redigida sob a liderança da ONU, a DUDH foi um marco na institucionalização dos direitos fundamentais da pessoa humana em escala global. O principal avanço trazido pela declaração foi o de colocar a dignidade humana acima da soberania absoluta dos Estados. Ainda que não tenha juridicamente superado a soberania estatal (portanto, a letra “A” está incorreta), ela introduziu normas morais universais que pressionam os países a respeitarem valores como igualdade, liberdade, segurança, proteção à vida e à integridade física, independentemente de nacionalidade, cor, religião, sexo, origem ou classe social. Essa nova concepção permitiu visibilidade internacional a grupos historicamente oprimidos e vulneráveis, como minorias étnicas, religiosas, migrantes, mulheres, crianças, pessoas com deficiência, refugiados e populações submetidas a regimes autoritários. Além disso, a DUDH fundamentou o surgimento de outras convenções e tratados posteriores (como a Convenção sobre os Direitos das Crianças e a Convenção contra a Tortura), que aprofundaram o compromisso com a proteção dos direitos desses grupos.

Resposta da questão 5: [D]
O texto destaca a assimetria nas relações comerciais entre Brasil e China, em que o Brasil exporta majoritariamente commodities (produtos primários) — como soja, minério de ferro e petróleo — enquanto importa da China bens industrializados de alto valor agregado, como máquinas e equipamentos tecnológicos. Esse tipo de relação revela um modelo de dependência estrutural, em que o país exportador de matéria-prima permanece numa posição periférica, enquanto o país que detém tecnologia, ciência e capacidade produtiva complexa ocupa o centro da dinâmica econômica global. Nesse contexto, reduzir a assimetria exige que o Brasil deixe de ser apenas fornecedor de produtos brutos e passe a competir nos mercados globais com produtos de maior valor agregado. Para isso, é necessário investir em pesquisa científica, inovação tecnológica, formação de mão de obra qualificada e estrutura logística e produtiva nacional.

Resposta da questão 6: [B]
A salinização dos solos, especialmente em regiões semiáridas como o Polígono das Secas no Nordeste brasileiro, é intensificada pela adoção de técnicas agrícolas inadequadas, sendo a irrigação sem drenagem eficiente um dos principais fatores agravantes. Quando a água é aplicada em excesso nos cultivos, parte dela evapora antes de ser absorvida pelas plantas ou infiltrar-se completamente no solo. Esse processo de evaporação acelera a concentração de sais minerais na superfície, uma vez que a água evapora, mas os sais permanecem. Com o tempo, essa salinização compromete a fertilidade do solo, reduz a produtividade agrícola e, em casos extremos, pode torná-lo completamente improdutivo. Essa situação é especialmente crítica em regiões com alta evapotranspiração e baixos índices pluviométricos, como é o caso do semiárido nordestino. A alternativa “a” está incorreta porque o plantio de espécies exóticas como o pinus, embora possa causar desequilíbrios ambientais como acidificação e perda de biodiversidade, não tem relação direta com o processo de salinização descrito no texto. Além disso, a prática do pousio — ou descanso do solo — diz respeito à recuperação da fertilidade, não à salinização especificamente. A alternativa “c” menciona a construção de açudes, que é uma prática comum no semiárido para armazenamento de água. No entanto, embora os açudes possam modificar o regime hídrico da bacia, sua relação com a salinização do solo não é direta, já que eles não envolvem necessariamente a irrigação do solo com drenagem inadequada, que é o ponto central do texto. A alternativa “d” trata do desmatamento de áreas de preservação permanente, um problema ambiental grave por causar erosão e assoreamento, mas que também não guarda relação com a salinização dos solos discutida na questão. O assoreamento afeta corpos d’água, não a salinidade do solo agrícola. Por fim, a alternativa “e” erra ao sugerir que o uso de fertilizantes orgânicos seria o responsável pelo acúmulo de sais. Na verdade, fertilizantes orgânicos, como esterco ou compostagem, têm menor potencial de salinização quando comparados aos fertilizantes químicos. Mesmo assim, a salinização citada no texto tem como causa principal o manejo da água e não a adubação.

Resposta da questão 7: [A]
O processo descrito no texto refere-se à degradação química do solo, provocada principalmente pela lixiviação — ou seja, a lavagem dos nutrientes presentes nas camadas superiores do solo pela ação da água da chuva ou irrigação. Esse fenômeno ocorre especialmente em solos explorados intensivamente pela agricultura, sem reposição adequada de nutrientes. Quando os elementos nutritivos (como cálcio, potássio e magnésio) são removidos e não repostos, ocorre o empobrecimento químico, o que leva à substituição desses nutrientes por íons tóxicos, como o alumínio. A presença desse elemento, em particular, está associada ao aumento da acidez do solo (redução do pH), tornando-o menos fértil e até mesmo prejudicial ao desenvolvimento das plantas. A alternativa “b”, que menciona a ampliação da salinidade, está incorreta porque o texto não trata do acúmulo de sais solúveis, típico de regiões áridas e semiáridas ou de áreas irrigadas com drenagem deficiente. Salinização e acidificação são processos distintos, com causas e efeitos diferentes. A alternativa “c” refere-se à formação de voçorocas, que são processos de erosão avançada causados por escoamento superficial concentrado, formando sulcos profundos no solo. No entanto, a questão não trata de erosão física do solo, mas de degradação química, o que invalida essa opção. A alternativa “d” também está incorreta, pois a “remoção da camada superior” (erosão laminar) não é mencionada no texto. Embora a retirada de nutrientes possa ocorrer com a colheita, o foco do texto está na lixiviação vertical, e não na remoção física pela ação da água na superfície. Por fim, a alternativa “e”, que sugere intensificação do escoamento superficial, não é compatível com a dinâmica descrita, pois o processo destacado está relacionado à infiltração da água no solo, e não ao seu escoamento pela superfície.

Resposta da questão 8: [A]
A representação da relação entre patrão e empregado como semelhante a uma relação familiar — com o patrão ocupando o papel de uma figura paterna e o trabalhador o de um “filho obediente” — foi uma construção ideológica das elites durante a República Velha, especialmente no contexto da transição do trabalho escravo para o trabalho livre. Essa imagem buscava naturalizar a desigualdade social e mascarar os conflitos de classe inerentes à nova ordem capitalista em formação. Ao difundir a ideia de que o patrão agia com benevolência e orientação moral, pretendia-se suavizar as tensões e evitar que os trabalhadores reconhecessem sua condição de exploração como um problema estrutural e político, esvaziando, assim, o potencial de mobilização social. Essa estratégia de despolitização das relações de trabalho era funcional à manutenção da hierarquia social e à contenção de demandas por direitos.
A alternativa “b” está incorreta porque, embora a Justiça do Trabalho no Brasil realmente tenha se consolidado apenas na Era Vargas (década de 1930), o texto não menciona qualquer tentativa de contornar sua atuação. Na República Velha, sequer existia um sistema jurídico trabalhista formalizado. A alternativa “c” propõe a separação entre os âmbitos público e privado como estratégia para aumentar a eficiência, o que não corresponde ao objetivo da construção da imagem mencionada. Pelo contrário, o discurso paternalista visava justamente integrar os trabalhadores à lógica privada da dominação, evitando sua organização política autônoma. A alternativa “d” menciona o descumprimento de leis trabalhistas conquistadas pelos operários, o que é anacrônico, já que tais legislações só começaram a ser implementadas de fato a partir da década de 1930. No contexto da República Velha, não havia legislação protetiva robusta a ser burlada. Por fim, a alternativa “e” está equivocada ao sugerir que a imagem da relação paternalista entre patrão e empregado buscava compensar economicamente a ausência de indenização pela abolição da escravidão. Apesar de esse ter sido um tema relevante na época, o foco da construção simbólica era disciplinar os trabalhadores livres, e não restaurar perdas econômicas das elites por meio dessa representação.

Resposta da questão 9: [A]
O processo descrito no texto refere-se à segregação socioespacial, fenômeno característico das grandes metrópoles brasileiras. Trata-se da lógica de distribuição desigual da população no espaço urbano, em que os grupos de maior renda concentram-se nas áreas centrais e melhor estruturadas — onde há mais empregos, infraestrutura e serviços —, enquanto as camadas populares são empurradas para as periferias urbanas ou até mesmo para municípios vizinhos. Essa ocupação periférica é marcada por maior precariedade e por longos deslocamentos diários até os centros, agravados por sistemas de transporte público ineficientes. A segregação não é apenas territorial, mas também social e simbólica, refletindo o acesso desigual à cidade e seus benefícios, como analisado por autores como Milton Santos e Marcelo Lopes de Souza, que discutem a lógica excludente do modelo urbano brasileiro. A alternativa “b”, que menciona emancipação territorial, não se aplica ao contexto, pois esse termo diz respeito à separação de áreas administrativas (como a transformação de um distrito em município), o que não é o foco do texto. O problema apresentado está ligado à redistribuição desigual da população dentro do tecido metropolitano, e não à autonomia política de áreas periféricas. A alternativa “c” está incorreta ao propor a ideia de uma conurbação planejada. A conurbação, embora possa ocorrer entre municípios próximos, geralmente se dá de maneira desordenada nas grandes regiões metropolitanas brasileiras, marcada pela ausência de políticas públicas integradas. O texto, ao destacar os problemas de mobilidade e de acesso desigual aos serviços urbanos, mostra justamente os efeitos de uma expansão urbana sem planejamento adequado. A opção “d”, que fala em metropolização tardia, não é pertinente. O processo de metropolização no Brasil iniciou-se de forma intensa a partir da década de 1950, impulsionado pelo êxodo rural, pela industrialização e pela urbanização acelerada. O texto descreve um estágio mais consolidado desse processo, e não seu início ou “atraso”.
Já a alternativa “e”, expansão vertical, remete ao crescimento urbano por meio da construção de prédios e edifícios de múltiplos andares, geralmente associados à densificação de áreas centrais. O texto não aborda esse tipo de verticalização, mas sim a expansão horizontal periférica, marcada pela distância dos centros e pela precarização das condições de vida.

Resposta da questão 10: [C]
O texto evidencia a agência feminina na África Ocidental, destacando a presença marcante de mulheres comerciantes com autonomia, mobilidade e perícia nos negócios — características que remontam ao século XV e são recorrentes nas fontes históricas da região. Esse retrato pode ser diretamente relacionado à atuação das mulheres negras no contexto urbano do Brasil escravista, especialmente entre os séculos XVIII e XIX, quando muitas delas atuaram como vendedoras ambulantes, quitandeiras e pequenas comerciantes nas ruas das cidades coloniais. Mesmo sob o peso do racismo e da escravidão, essas mulheres desempenhavam papel fundamental na circulação de mercadorias e no abastecimento dos centros urbanos, como Salvador, Rio de Janeiro e Recife, sendo muitas vezes responsáveis pela comercialização de alimentos, ervas medicinais e quitutes. Essa atuação também refletia elementos de resistência cultural e de preservação de práticas trazidas da África, inclusive no modo de organização do trabalho e nas redes de sociabilidade urbana. Portanto, há um elo direto entre o protagonismo feminino africano no comércio e a presença significativa das mulheres negras no cotidiano econômico das cidades coloniais brasileiras. A alternativa “a” está incorreta porque, embora houvesse limitações legais e repressão ao comércio de ambulantes em alguns momentos, africanos escravizados e libertos tiveram presença significativa nas ruas, especialmente no comércio informal, e não houve uma proibição generalizada desse tipo de atividade. A alternativa “b”, apesar de parcialmente verdadeira, é genérica e menos precisa. O foco do texto está nas mulheres comerciantes, e não na convivência indistinta entre homens e mulheres de diferentes origens, o que dilui o protagonismo feminino abordado na fonte. A opção “d” erra ao afirmar que houve dissolução dos hábitos culturais africanos, quando na realidade muitos desses costumes foram preservados e adaptados, inclusive nas práticas de comércio e na religiosidade afro-brasileira, como mostram diversos estudos etnográficos e históricos. A alternativa “e” menciona a entrada de imigrantes portugueses no pequeno comércio, o que realmente ocorreu, sobretudo no século XIX, mas não é o ponto central da questão nem corresponde à relação estabelecida entre a experiência africana e o contexto urbano do Brasil escravista.

Resposta da questão 11: [C]
Os escudos cristalinos citados no texto — Escudo das Guianas e Escudo Brasileiro — são formações geológicas antigas compostas por rochas magmáticas e metamórficas, extremamente relevantes do ponto de vista econômico-mineral. Essas estruturas são ricas em minerais metálicos, como ferro, manganês, ouro, bauxita, níquel e cobre. O Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais, por exemplo, situado no Escudo Brasileiro, é uma das maiores províncias minerais do mundo, especialmente de minério de ferro. Já a Serra dos Carajás, no Pará, inserida no Escudo das Guianas, abriga a maior jazida de ferro em operação do planeta, além de grandes reservas de manganês, cobre e ouro. Esse tipo de substrato rochoso não favorece a formação de combustíveis fósseis, tampouco de sal-gema ou calcário em grandes proporções, que estão mais associados a bacias sedimentares, como as do Paraná, do Parnaíba e a Bacia Amazônica. As águas termais também não são uma característica associada aos escudos cristalinos, mas sim a regiões de maior instabilidade geológica, como áreas com atividade vulcânica ou falhas recentes.
A alternativa “a” está incorreta porque, embora algumas áreas de escudos possam apresentar águas subterrâneas, águas termais não são um recurso típico dessas formações geológicas. A alternativa “b” erra ao mencionar afloramentos de sal-gema, que ocorrem em bacias sedimentares, onde houve acúmulo de sedimentos marinhos e posterior evaporação, formando depósitos de sais. A opção “d”, que trata de calcário agrícola, também é equivocada, pois esse recurso é mais abundante em regiões de origem sedimentar, onde predominam rochas calcárias, como na Bacia do Paraná. A alternativa “e” está incorreta porque reservas de combustíveis fósseis (como petróleo, gás natural e carvão mineral) estão associadas à presença de matéria orgânica soterrada em bacias sedimentares, não sendo formadas nos escudos cristalinos, que são maciços antigos, pobres em fósseis e material orgânico.

Resposta da questão 12: [C]
No contexto político do século XIX no Brasil, o excerto evidencia como as elites regionais — temerosas da desordem social em uma sociedade escravocrata — optaram por apoiar a centralização do poder na figura do Estado monárquico. Essa escolha estratégica garantiu-lhes estabilidade frente ao risco de revoltas sociais e fortaleceu os vínculos entre as regiões. Assim, o fortalecimento do Estado centralizado contribuiu para a formação de uma identidade nacional, promovendo um sentimento de solidariedade entre diferentes províncias e ajudando a constituir uma nação unificada, mesmo que sob o controle das elites agrárias. A alternativa “a”, embora o Partido Conservador tenha se beneficiado do centralismo monárquico, extrapola a interpretação direta do texto ao apontar sua “predominância” como resultado da aliança, o que não está explicitado como consequência no fragmento apresentado. A opção “b” está incorreta porque os ideais republicanos são justamente o oposto da centralização monárquica defendida no texto. O apoio das elites ao Império visava evitar mudanças políticas profundas, como aquelas associadas ao republicanismo. A alternativa “d” erra ao vincular o apoio das elites ao Estado imperial com a elaboração de leis abolicionistas. Pelo contrário, muitas elites resistiram ao fim da escravidão e só apoiaram leis abolicionistas quando já estavam pressionadas por revoltas, greves e mobilizações sociais. Já a alternativa “e” é imprecisa, pois as revoltas regenciais (como a Cabanagem, a Balaiada e a Sabinada) ocorreram justamente num período de fragilidade do poder central — durante o Período Regencial (1831–1840) — e não como consequência da aliança entre as elites e o Estado monárquico, que só foi consolidada após a ascensão de D. Pedro II ao trono com o Golpe da Maioridade (1840).

Resposta da questão 13: [B]
A análise marxista apresentada no excerto do Manifesto do Partido Comunista identifica que a sociedade burguesa moderna, resultante do declínio do feudalismo, não extinguiu os conflitos sociais — apenas os reconfigurou. O capitalismo industrial substituiu as antigas relações de servidão por uma nova forma de antagonismo entre burguesia (classe proprietária dos meios de produção) e proletariado (classe trabalhadora). O núcleo da exploração nessa nova configuração é a propriedade privada dos meios de produção, que permite à burguesia extrair mais-valia do trabalho operário e perpetuar desigualdades sociais profundas. Assim, o conflito social descrito no texto decorre diretamente da exploração da propriedade privada como base da estrutura capitalista. A alternativa “a” está incorreta porque o texto refere-se à constituição histórica da sociedade burguesa no século XIX, e não à implementação de políticas neoliberais, que são típicas do final do século XX e que, apesar de aprofundarem desigualdades, não são o foco do argumento marxista apresentado. A opção “c” trata da abertura comercial, mas isso é uma prática econômica ligada à inserção no comércio exterior e não à estrutura de classes e à luta de classes propriamente dita, que é o cerne da crítica marxista. A alternativa “d” menciona a repressão a movimentos sindicais, que pode ser uma consequência da luta de classes, mas não é a causa fundamental do conflito apontado no texto. Marx localiza essa causa na estrutura econômica e na posse dos meios de produção, e não apenas nas manifestações políticas ou repressivas. Já a alternativa “e” fala em consolidação da democracia representativa, um processo político que pode coexistir com desigualdades de classe, mas que não é mencionado nem implicado no texto. A crítica de Marx, inclusive, é que tal democracia é formal e não elimina as contradições entre burguesia e proletariado.

Resposta da questão 14: [C]
O texto de Iris Marion Young estabelece um contraste entre duas concepções contemporâneas de democracia: a democracia deliberativa e a democracia ativista. A primeira se baseia na ideia de que os conflitos políticos podem e devem ser solucionados por meio do diálogo racional, com vistas à construção de consensos que sejam satisfatórios para todos os envolvidos. Já a segunda concepção, crítica à primeira, enfatiza que as desigualdades estruturais nas sociedades reais comprometem a possibilidade de uma deliberação justa, pois beneficiam os mais poderosos. Diante disso, a alternativa proposta é a ação crítica e mobilização das minorias que se opõem às estruturas dominantes.
Portanto, a democracia deliberativa valoriza a busca pelo consenso, enquanto a democracia ativista reconhece a importância da ação política das minorias organizadas para desafiar as assimetrias de poder.
A alternativa “a” está errada porque “decisão da maioria” e “uniformização de direitos” não capturam os princípios fundamentais de nenhuma das duas concepções citadas. A deliberação não é simplesmente decisão majoritária, e o ativismo não busca uniformizar, mas sim combater desigualdades estruturais. A alternativa “b” é incorreta porque organização de eleições é uma característica da democracia representativa tradicional, e o texto não menciona o anarquismo como base da democracia ativista. A alternativa “d” erra ao sugerir que a democracia deliberativa se apoia na fragmentação da participação, quando na verdade ela prega a participação coletiva e racional. Embora a desobediência civil possa ser um instrumento usado por ativistas, ela não resume a concepção de democracia ativista como um todo.
A alternativa “e” está equivocada: imposição de resistência e monitoramento da liberdade não são conceitos diretamente atribuídos às concepções discutidas no texto. O foco da democracia ativista está na oposição crítica, e não em vigiar liberdades individuais.

Resposta da questão 15: [E]
O sistema de compensação de carbono descrito no texto, em que empresas ou países compram créditos gerados por ações de recuperação ambiental para neutralizar suas emissões de gases de efeito estufa, é um exemplo clássico da mercantilização da natureza. Esse processo ocorre quando elementos naturais – como a capacidade de absorção de CO₂ por florestas – são transformados em mercadorias negociáveis no mercado internacional. Trata-se de uma tentativa de conciliar economia e meio ambiente por meio de mecanismos de mercado, como os créditos de carbono estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto, acordado na COP-3 em 1997. Embora o objetivo seja reduzir as emissões e combater o aquecimento global, críticos apontam que esse modelo pode permitir que grandes emissores continuem poluindo, desde que tenham capacidade financeira para adquirir compensações, o que levanta debates éticos e políticos sobre justiça ambiental e responsabilidade climática. A alternativa “a” está incorreta porque formação de cartéis refere-se à associação de empresas para controlar preços ou produção de um bem, o que não se aplica ao caso da comercialização de créditos ambientais. A alternativa “b” é equivocada, pois o sistema de créditos de carbono não se configura como um monopólio, uma vez que é aberto à participação de diferentes países, empresas e organizações. A alternativa “c” erra ao afirmar que há supressão da poluição. O sistema visa compensar as emissões, e não necessariamente eliminá-las – ou seja, as emissões continuam, mas são “neutralizadas” por ações mitigadoras. A alternativa “d” é incorreta, pois o processo descrito não envolve legalização de territórios, mas sim ações sobre emissões de carbono e iniciativas ambientais com valor econômico atribuído.

Resposta da questão 16: [C]
Durante o Estado Novo (1937–1945), o governo de Getúlio Vargas buscou centralizar o poder e fortalecer o Estado nacional, e para isso precisou ampliar o controle e o conhecimento sobre o território brasileiro. A criação de órgãos como o IBGE, o Conselho Nacional de Geografia, o Conselho Nacional de Cartografia e o Conselho Nacional de Estatística fazia parte de um projeto de Estado desenvolvimentista e nacionalista que pretendia produzir informações técnicas e científicas sobre o país – tanto no que se refere às suas diversidades regionais, como às condições econômicas, sociais e geográficas de sua população e território. Esse conhecimento estatístico e cartográfico tinha uma função política clara: subsidiar a tomada de decisões estatais, como a formulação de políticas públicas, a ocupação de “vazios demográficos” (como no Centro-Oeste), e o planejamento de infraestrutura e industrialização. A territorialização do poder, nesse sentido, era vista como uma ferramenta de integração nacional, reforçando o controle do Estado sobre regiões distantes e pouco articuladas à lógica central do poder federal. A alternativa “a” está incorreta porque o objetivo do Estado Novo não era a preservação da paisagem dos sertões, mas sim sua ocupação produtiva e incorporação ao projeto nacional.
A opção “b” é equivocada porque o controle populacional não era uma prioridade naquele momento, tampouco se relaciona diretamente com a criação dos órgãos mencionados. A letra “d” não se sustenta, pois conter o êxodo rural não era o foco da criação de tais instituições, embora o fenômeno urbano começasse a se intensificar. O planejamento territorial era voltado mais à integração do país e ao incentivo à interiorização.

Resposta da questão 17: [B]
A intensa ocupação agropecuária do bioma Pampa, especialmente no estado do Rio Grande do Sul, tem gerado impactos ambientais relevantes, sendo a arenização dos solos um dos processos mais característicos e preocupantes da região. Esse fenômeno ocorre principalmente em áreas de clima mais seco e vegetação campestre, onde o uso inadequado do solo — como o sobrepastoreio, a monocultura sem rotação adequada, a supressão da cobertura vegetal nativa e o revolvimento excessivo do solo — causa a degradação da estrutura superficial, facilitando o carreamento de partículas finas e o surgimento de manchas arenosas semelhantes a desertos. Esse processo, embora semelhante à desertificação, possui características próprias e está mais relacionado à perda de matéria orgânica, à compactação do solo e à perda de nutrientes. Com o tempo, solos antes férteis tornam-se pobres, instáveis e com menor capacidade de reter água, comprometendo a produtividade e a biodiversidade local.
A alternativa “a”, embora pareça plausível à primeira vista, está incorreta porque a uniformização da cobertura vegetal diz respeito principalmente ao avanço do agronegócio em outros biomas, como o Cerrado, onde há substituição da vegetação nativa por cultivos de larga escala (como soja ou milho), mas não descreve o processo específico mais marcante no Pampa. A letra “c”, que trata da alteração da incidência solar, não tem relação com o impacto direto da atividade agropecuária nos biomas, sendo irrelevante no contexto do enunciado. A alternativa “d”, eutrofização dos cursos de água, ocorre quando há excesso de nutrientes (como nitrogênio e fósforo) nos corpos d’água, geralmente por uso indiscriminado de fertilizantes. Embora seja um problema em muitas áreas agrícolas do Brasil, não é o principal impacto registrado no Pampa. Por fim, a opção “e”, sobre ampliação das queimadas controladas, é mais característica de práticas agrícolas e pecuárias em regiões como o Cerrado e partes da Amazônia, onde a queima de pastagens é comum, mas não define os impactos predominantes no Sul do Brasil.

Resposta da questão 18: [C]
A implantação de parques públicos se enquadra como uma das principais Soluções Baseadas na Natureza (SbN), recomendadas no texto para mitigar os impactos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras. Essas soluções consistem no uso estratégico de elementos naturais (como vegetação, solo e água) para resolver problemas urbanos e ambientais, promovendo, ao mesmo tempo, benefícios sociais, econômicos e ecológicos. Parques urbanos e outras áreas verdes contribuem para: Redução das ilhas de calor, ao diminuir a temperatura local com sombreamento e evapotranspiração; Melhoria da drenagem urbana, ao permitir a infiltração da água da chuva e evitar alagamentos; Aumento da biodiversidade, por oferecerem habitat para espécies nativas; Promoção do bem-estar social, ao funcionarem como espaços de lazer e convivência, especialmente em bairros vulneráveis. A alternativa “a”, criação de faixas sinalizadoras, é uma medida de orientação no espaço urbano, útil para a segurança viária, mas não interfere diretamente nas causas ou soluções para os problemas climáticos descritos. A opção “b”, incineração de resíduos sólidos, pode gerar novos impactos ambientais ao liberar poluentes na atmosfera, não representando uma ação sustentável ou diretamente relacionada à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nas cidades.
Já a verticalização de espaços centrais (alternativa “d”) é uma política urbana ligada à densificação habitacional, não sendo, por si só, uma solução climática, podendo até intensificar os problemas se não for acompanhada de medidas sustentáveis. Por fim, a construção de estacionamentos privados (letra “e”) agrava o problema, pois contribui para a impermeabilização do solo, aumentando o escoamento superficial da água da chuva e a ocorrência de enchentes, além de incentivar o uso de veículos individuais, um dos vetores das emissões de gases do efeito estufa.

Resposta da questão 19: [D]
A análise do gráfico indica uma queda contínua da taxa de fecundidade no Brasil entre 1960 e 2020, passando de 6,3 filhos por mulher para 1,5, com a projeção de estabilização desse índice até 2050. Essa mudança profunda nas dinâmicas demográficas do país está diretamente relacionada à crescente participação feminina no mercado de trabalho, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980. Nesse período, houve ampliação do acesso à educação, ao planejamento familiar e à inserção das mulheres em atividades produtivas fora do espaço doméstico, fatores que influenciaram diretamente a decisão de ter menos filhos. Outras alternativas não apresentam a mesma força explicativa. A alternativa “A”, que menciona a flexibilização do aborto, não é válida no contexto brasileiro, pois a legislação sobre o tema continua restritiva. A alternativa “B”, envelhecimento da população, é na verdade uma consequência da queda da fecundidade e do aumento da longevidade, não sua causa. A alternativa “C”, que trata de gravidez precoce, aponta um problema persistente, mas que afeta segmentos específicos da população e não justifica a tendência geral de redução da fecundidade. Já a alternativa “E”, diminuição dos benefícios da licença-maternidade, não se sustenta empiricamente, visto que esse fator não sofreu alterações estruturais significativas que explicassem a queda da taxa ao longo das décadas. Portanto, o fator determinante é mesmo a participação crescente da mulher no mercado de trabalho.

Resposta da questão 20: [B]
O texto de Jean-Claude Schmitt evidencia como o cristianismo primitivo procurou se afastar de práticas ligadas ao culto dos mortos, frequentemente associadas a crenças anteriores e a tradições politeístas. Ao ressaltar que “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” e que “os mortos devem sepultar os mortos”, o cristianismo desloca o foco do contato contínuo com os antepassados (prática comum em religiões pagãs) para a promessa escatológica da ressurreição, especialmente aquela anunciada na figura de Cristo. A figura do fantasma, portanto, não encontra lugar nessa tradição, já que ela sugere um retorno indevido dos mortos ao mundo dos vivos, o que conflita com a doutrina cristã da ressurreição final e do juízo.
A alternativa correta aponta justamente essa perspectiva: a religião cristã rejeita representações do além que estejam em desacordo com sua teologia, como as crenças politeístas em espíritos e divindades múltiplas, muitas vezes ligadas ao mundo dos mortos. Por isso, o cristianismo reafirma a separação entre vivos e mortos e reinterpreta a morte sob uma lógica distinta das práticas religiosas anteriores.
As demais alternativas apresentam desvios interpretativos. A alternativa “A”, ao falar na extinção de rituais funerários, não condiz com a prática cristã, que manteve e ressignificou tais rituais. A “C” menciona o exorcismo, prática marginal e não central no argumento do texto. A alternativa “D” trata da crença em demônios, mas o texto não afirma que essa crença foi combatida ou enfraquecida; ao contrário, o cristianismo medieval manteve essas representações. Já a alternativa “E” menciona contato mediúnico transcendental, que se aproxima mais do espiritismo moderno do que da doutrina cristã tradicional. Portanto, a alternativa “B” é a única que articula corretamente a intenção da tradição cristã de afastar-se das crenças politeístas anteriores.

Resposta da questão 21: [B]
O texto descreve uma prática característica da política expansionista inglesa no século XVI, que não seguiu o mesmo modelo colonizador inicial das potências ibéricas — especialmente Espanha e Portugal — baseadas em conquista territorial direta e exploração organizada de colônias. A estratégia da Inglaterra nesse período, como exemplificado na atuação do corsário Francis Drake, envolvia principalmente ações de pirataria contra os domínios espanhóis, com o aval da Coroa britânica, numa tentativa de enfraquecer o poderio espanhol e inserir-se no circuito das riquezas americanas. A atuação de Drake não se limitava ao roubo direto; ela também representava o início de tentativas mais amplas de estabelecer bases ultramarinas, como o apoio ao sultão de Ternate contra os portugueses, o que revela a intenção inglesa de construir uma presença comercial e estratégica nos territórios disputados. Essas ações sinalizam que o objetivo da Inglaterra era, sobretudo, apropriar-se das riquezas que fluíam das Américas para as metrópoles ibéricas, ainda que de maneira indireta, já que a Inglaterra só iniciou seu processo colonizador de fato posteriormente, com maior organização no século XVII. As demais alternativas estão fora de contexto. A alternativa “A” é vaga e não específica à política externa inglesa do século XVI. A “C” é incorreta porque as ações descritas eram ilegais sob o ponto de vista do direito internacional vigente, e não visavam legalizar a ocupação de possessões ibéricas, mas sim sabotá-las. A “D” não se sustenta, pois a Inglaterra estava em confronto, e não em articulação diplomática, com outras potências europeias, especialmente as católicas. A “E” erra ao indicar o fortalecimento das rotas de comércio como objetivo principal, quando o foco era a apropriação de riquezas e a contestação da hegemonia ibérica no Atlântico. Por isso, a alternativa “B” é a mais precisa.

Resposta da questão 22: [B]
O texto trata de um saber construído por meio da vivência cotidiana e da observação empírica do ambiente natural por parte dos sertanejos do semiárido brasileiro. Esse conhecimento, transmitido oralmente entre gerações, está fundamentado na percepção sensível dos fenômenos naturais — como a cor da lua, a presença de nuvens e a posição de astros — e estabelece relações entre esses sinais e as condições climáticas futuras, especialmente a previsão de chuvas ou secas. Esse tipo de saber é caracterizado como conhecimento tradicional ou popular, distinto do conhecimento científico formal, pois não se baseia em métodos laboratoriais ou modelos matemáticos padronizados, mas sim na experiência acumulada, na observação atenta e contínua, e na construção de sentidos a partir da realidade concreta. Trata-se, portanto, de uma experiência perceptiva, em que a sensibilidade, a intuição e o acúmulo empírico de vivências ambientais formam a base para interpretações e previsões sobre o clima. A alternativa “A” está incorreta porque o conhecimento descrito não decorre da técnica científica moderna, com metodologia sistematizada e validação por pares. A opção “C” erra ao sugerir uma negação das tradições, quando, na verdade, o texto as valoriza como forma legítima de compreender o mundo. Já a alternativa “D” não se aplica, pois não há padronização cultural, e sim a valorização de práticas específicas do sertanejo. Por fim, a “E” também não condiz com o enunciado, uma vez que o conhecimento popular é plural, localizado e não busca a uniformização das informações, mas sim responde às realidades locais.

Resposta da questão 23: [B]
A dinâmica espacial apresentada no mapa diz respeito à interiorização da expansão da fronteira agrícola no Brasil, especialmente nas décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000. Essa expansão foi impulsionada principalmente pela mecanização do setor primário, que permitiu o avanço das atividades agropecuárias em regiões antes consideradas pouco produtivas ou inacessíveis. O processo foi viabilizado por políticas de incentivo estatal, como os projetos de colonização da ditadura militar, além da ampliação das rodovias e da modernização tecnológica no campo, com uso intensivo de máquinas, sementes modificadas e insumos químicos, principalmente no Centro-Oeste e depois no Matopiba. A alternativa “A” está incorreta porque a fragmentação da rede urbana diz respeito a uma distribuição dispersa e desarticulada das cidades, o que não é o foco do mapa. A opção “C” também não condiz com a imagem, pois o mapa não trata da criação de reservas ecológicas, mas sim da ocupação produtiva do espaço. A alternativa “D” é incorreta porque, ao contrário de uma estagnação, houve crescimento do mercado interno e externo como motor da expansão agrícola. A letra “E” erra ao associar o fenômeno à produção fabril, quando o avanço espacial retratado no mapa se refere claramente ao setor agropecuário.

Resposta da questão 24: [A]
O trecho citado apresenta um cenário de medo, insegurança e arbitrariedade extrema, em que pessoas são presas, fuziladas ou simplesmente desaparecem em meio a um contexto de repressão violenta. A ideia de que a violência se “organiza” posteriormente, mas que no início há um uso ainda mais indiscriminado da força, revela uma prática política sistematizada de perseguição e eliminação de opositores. Isso remete diretamente à institucionalização da repressão como política estatal, característica marcante do regime militar brasileiro a partir de 1964, especialmente após o Ato Institucional n° 5 (AI-5) de 1968, que legalizou práticas de censura, prisões arbitrárias, cassações e tortura como instrumentos de controle social e político. A alternativa “B” está incorreta porque, embora a censura tenha sido de fato um dos mecanismos utilizados pelo regime, o texto não trata do controle da informação, mas da repressão física e violenta. A “C” também não se aplica, pois a propaganda não é mencionada nem sugerida no excerto. A opção “D” erra ao falar de conformismo, já que o foco do texto é o terror e a brutalidade como forma de conter resistências. Por fim, a letra “E” está incorreta porque o bipartidarismo, embora tenha sido uma das estruturas criadas pela ditadura, não está relacionado com o conteúdo do texto. Portanto, o trecho reflete de forma clara a institucionalização da repressão estatal, com práticas como tortura, execuções sumárias e desaparecimentos forçados, como instrumentos centrais da política de segurança nacional durante a Ditadura Militar.

Resposta da questão 25: [C]
A disputa simbólica entre as duas Coreias por meio de alto-falantes, mastros de bandeira e transmissões de propaganda se insere em um contexto histórico de divergências político-ideológicas entre dois Estados que emergiram da Guerra Fria com orientações completamente opostas: a Coreia do Norte, com um regime comunista autoritário, e a Coreia do Sul, com uma orientação capitalista liberal. O paralelo simbólico narrado no texto (como a instalação de mastros cada vez maiores ou o uso de propaganda sonora) revela tensões ideológicas persistentes desde a divisão da península coreana ao fim da Segunda Guerra Mundial, consolidada após a Guerra da Coreia (1950–1953), quando o conflito armado entre os dois blocos terminou sem um tratado de paz formal. A alternativa “A” está incorreta porque o conflito não é motivado por disputas culturais ou identitárias de atores sociais, e sim por Estados-nação. A “B” erra ao supor um caráter étnico-racial, inexistente nesse contexto. A opção “D” trata de atores privados, o que não se aplica, pois são ações estatais e militares. Já a letra “E” não possui relação com questões ambientais ou sustentáveis.

Resposta da questão 26: [A]
O trecho de Cornelius Castoriadis enfatiza que, embora o capitalismo busque transformar os trabalhadores em simples extensões das máquinas — executando ordens de forma mecânica — ele só pode funcionar graças à dimensão simbólica e criativa da atividade humana, que resiste à completa desumanização. A “atividade propriamente humana” mencionada no texto remete à capacidade dos sujeitos de produzir significados, imaginar, interpretar e criar, mesmo quando subjugados por um sistema que tende a reificá-los. Essa dimensão simbólica está justamente em elaborar significações e valores que conferem sentido à vida e ao mundo social, transcendendo a materialidade das relações produtivas. É isso que torna possível, inclusive, o funcionamento contínuo das estruturas capitalistas, que dependem da adesão simbólica — ainda que parcial e inconsciente — dos sujeitos. A alternativa “B” está incorreta por sugerir relações lúdicas que ignoram o aspecto transformador e crítico do simbólico. A “C” reduz o simbólico a práticas de interesse mútuo, que são apenas parte da sociabilidade. A “D” refere-se a um uso retórico da linguagem, sem vínculo com a produção de sentido coletivo. A “E” limita-se à caridade, que é uma prática moral específica, e não abarca a complexidade simbólica da crítica castoriadiana ao capitalismo.

Resposta da questão 27: [A]
No contexto da filosofia platônica, a legitimidade do exercício do poder reside na prática da virtude, especialmente na virtude da justiça, que é central na obra A República. Platão propõe que os verdadeiros governantes devem ser os filósofos, não por buscarem poder ou honrarias, mas por compreenderem o Bem e viverem de forma justa, orientando-se por princípios éticos e racionais. Esses “reis-filósofos” seriam os mais aptos a governar porque teriam alcançado o conhecimento verdadeiro e conduziriam a pólis com sabedoria e retidão. O trecho do texto reforça essa ideia ao afirmar que esses governantes “desprezam as honras” convencionais e valorizam a retidão e a justiça, colocando-se a serviço delas. Isso exclui qualquer forma de poder baseada em interesse próprio, riqueza, hereditariedade ou vontade da maioria. Portanto, o poder é legitimado pela prática da virtude, especialmente a justiça, e não por fatores externos ou materiais. A alternativa “B” está incorreta porque o poder, para Platão, não decorre do consenso de uma elite, mas sim da excelência moral e intelectual do governante. A “C”, que sugere decisão da maioria, se refere à democracia, regime criticado por Platão por dar voz aos não preparados para governar. A “D”, ao propor a riqueza como critério, contradiz o ideal platônico de desprendimento material. E a “E”, que remete à hereditariedade, seria própria de uma aristocracia de sangue, não da aristocracia do espírito, como propõe Platão.

Resposta da questão 28: [A]
Durante o reinado de D. Pedro II, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) teve como principal objetivo construir uma narrativa de nação que fortalecesse a unidade do Império do Brasil e ajudasse a consolidar um sentimento nacional. A estrutura centralizadora do instituto, com sede na Corte (Rio de Janeiro) e filiais nas províncias que enviavam documentos à capital, reforça o papel da historiografia e da geografia como ferramentas de construção do Estado nacional. Essa narrativa buscava legitimar o poder imperial e criar um passado comum para os diversos grupos que compunham a população brasileira.
A alternativa “B” está incorreta porque o IHGB não se propunha a discutir ou resolver as desigualdades sociais, que eram amplamente mantidas e ignoradas pelas elites imperiais. A “C” também está errada, pois não havia um combate às injustiças coloniais, mas sim uma tentativa de reinterpretar esse passado de forma conciliadora, por vezes laudatória. A “D”, que menciona o abolicionismo, é equivocada: o IHGB não teve papel central na defesa do fim da escravidão, que era uma instituição ainda amplamente aceita pelas elites participantes do Instituto. Por fim, a “E” é imprecisa, uma vez que a proposta do IHGB era justamente uniformizar e idealizar a identidade nacional, muitas vezes apagando ou minimizando a diversidade étnica e cultural do país.
.

Resposta da questão 29: [B]
A relação estabelecida no texto entre o desmatamento da Amazônia e a redução das chuvas no Sudeste está diretamente associada ao conceito dos chamados “rios voadores”, grandes fluxos de vapor d’água que se formam na floresta amazônica a partir da evapotranspiração das árvores e são transportados por correntes de ar em direção ao centro-sul do Brasil. A supressão da vegetação interfere nesse processo, diminuindo o volume de umidade que chega ao Sudeste e agravando os períodos de seca, como já apontado por pesquisadores como Philip Fearnside. Por isso, a alternativa “B” está correta ao mencionar a redução do volume dos rios voadores como fator explicativo para o problema apresentado.
A alternativa “A”, que fala sobre o redirecionamento dos ventos alísios, está incorreta porque esses ventos sopram predominantemente de leste para oeste e influenciam mais diretamente o clima equatorial e tropical atlântico, não sendo o principal mecanismo de transporte de umidade da Amazônia para o Sudeste. A alternativa “C” erra ao apontar o deslocamento de massas de ar polares, pois essas massas estão relacionadas a frentes frias vindas do sul e não ao transporte de umidade da floresta. Já a alternativa “D”, que menciona a Cordilheira dos Andes, incorre em erro ao considerar que ela retém umidade nesse processo; pelo contrário, a cordilheira atua como barreira, impedindo que a umidade amazônica chegue ao Pacífico, redirecionando-a para o interior do Brasil. Por fim, a alternativa “E”, ao tratar de gradientes de pressão, aborda um fenômeno mais amplo e genérico, sem conexão direta com o impacto do desmatamento sobre os fluxos específicos de umidade que formam os rios voadores.

Resposta da questão 30: [A]
O texto apresentado explicita as diversas violências sistemáticas impostas aos africanos escravizados durante todo o processo de tráfico transatlântico, desde a captura no interior do continente africano até o seu ajustamento forçado ao regime escravocrata no Brasil. Essas práticas violentas foram parte integrante de um sistema estruturado por potências europeias ao longo da expansão colonial. Diante disso, a alternativa “A” está correta, pois as formas de violência citadas derivam da intensificação do expansionismo ultramarino, principalmente a partir do século XV, quando os países ibéricos, como Portugal e Espanha, estabeleceram rotas comerciais e de colonização pelo Atlântico, criando as bases do sistema escravista nas Américas. A demanda por mão de obra nas colônias resultou na institucionalização do tráfico negreiro como um negócio lucrativo que submetia milhões de africanos a condições degradantes e desumanas. A alternativa “B” está incorreta porque, embora a exploração indígena também tenha ocorrido, o texto refere-se exclusivamente à violência sofrida por africanos escravizados. A alternativa “C” erra ao associar o processo descrito à catequese jesuítica, que, embora envolvida em aspectos do processo colonial, não explica a lógica mercantil e expansionista do tráfico. Já a alternativa “D”, que menciona contratos comerciais, está desvinculada da estrutura maior de dominação imperialista que sustentava o tráfico. Por fim, a alternativa “E”, ao apontar a contração da economia ibérica, ignora o papel central da expansão marítima e comercial como fator determinante para o surgimento e desenvolvimento da escravidão africana nas Américas.

Resposta da questão 31: [E]
O trecho de Lygia G. Santos revela uma crítica ao modelo de desenvolvimento historicamente adotado na Amazônia, que priorizou a expansão econômica imediata em detrimento da preservação ambiental. A articulação entre diversos agentes — como elites nacionais e transnacionais, tecnocracia, colonos e garimpeiros — revela um padrão de ocupação predatório, baseado no desmatamento e na apropriação de recursos naturais sem a devida preocupação com sua renovação ou com os impactos socioambientais. Esse modelo se opõe frontalmente à lógica de um desenvolvimento sustentável, cujo objetivo é compatibilizar crescimento econômico com a conservação dos recursos naturais e o respeito à diversidade socioambiental. Por isso, a alternativa “E” é a correta, pois se refere ao desenvolvimento que promove a conservação de recursos, justamente o que está ausente nas estratégias descritas no texto. As demais alternativas não estão adequadas ao conteúdo apresentado: a alternativa “A” erra ao falar em empregos formais, já que grande parte da ocupação na região é informal, como nos garimpos e frentes de expansão agrícola. A alternativa “B” menciona lucros imediatos, que são justamente uma característica do modelo criticado, não uma oposição a ele. A alternativa “C” também reforça a lógica extrativista, mencionando a maximização da atividade de extração, o que é parte do problema. Já a alternativa “D” trata da dependência econômica, que embora possa ser debatida, não é o foco da crítica do autor no trecho apresentado — que está mais voltado aos impactos ambientais e à multiplicidade de interesses que comprometem a sustentabilidade.

Resposta da questão 32: [B]
O texto de Eduardo Galeano apresenta Bartolomeu de Las Casas como uma figura profundamente ambígua aos olhos das diferentes camadas sociais da América colonial. De um lado, era odiado pelos colonizadores, especialmente os filhos dos conquistadores, que se sentiam lesados pelas Leis Novas (1542), promulgadas pelo imperador Carlos V a partir das denúncias de Las Casas. Essas leis visavam restringir o trabalho forçado dos indígenas e representavam, para os colonos, uma perda econômica significativa, pois os privava da mão de obra indígena para minas e lavouras. De outro lado, Las Casas é descrito como “voz dos mudos”, ou seja, um defensor dos povos indígenas, que eram tratados de forma brutal. Sua atuação como clérigo e sua produção escrita — especialmente a Brevísima relación de la destrucción de las Indias — serviram como denúncia dos abusos cometidos pelos espanhóis contra os nativos. Assim, ele era respeitado e admirado por aqueles que se beneficiavam de sua defesa — os povos originários — embora fosse duramente criticado por aqueles que lucravam com o sistema colonial de exploração. Portanto, a alternativa correta é “B”, já que o texto evidencia que Las Casas era detestado pelos colonizadores e respeitado pelos povos do lugar. As demais alternativas distorcem o conteúdo do texto: a alternativa “A” sugere um antagonismo entre reis e religiosos que não está presente; a “C” contradiz o texto, que mostra que os governantes atenderam às denúncias do bispo; a “D” erra ao mencionar “invasores da Espanha” (o próprio Las Casas era espanhol); já a “E” se equivoca ao dizer que ele era desacatado pelos excluídos e valorizado por comerciantes de escravos — justamente o oposto da realidade descrita.

Resposta da questão 33: [A]
O texto de Michel Foucault expõe como o sistema penal moderno se organiza de forma seletiva e estratégica, refletindo e reforçando as desigualdades de classe. Ele mostra que, com o avanço da sociedade capitalista, houve uma divisão entre dois tipos de ilegalidade: a dos bens, mais comum entre as classes populares (como o roubo), e a dos direitos, mais associada às classes dominantes (como fraude fiscal e evasão de impostos). Essa distinção resulta em tratamentos judiciais distintos, com punições mais severas e imediatas para os crimes contra a propriedade e formas mais brandas, negociáveis e institucionalmente protegidas para os crimes cometidos pelas elites. Portanto, o trecho destaca como o poder punitivo moderno não se aplica igualmente a todos, mas sim de forma calculada, conforme os interesses e posições das diferentes classes sociais. Isso configura um sistema no qual o judiciário não apenas pune, mas também “administra” as ilicitudes, priorizando a repressão dos pobres e acomodando os crimes das elites por meio de multas, transações ou perdões administrativos. Com isso, a alternativa correta é a letra “A”, pois a expressão “gestão das ilicitudes pelo sistema judicial” sintetiza a lógica do texto: o sistema judicial não busca suprimir todas as ilegalidades, mas administrá-las conforme as hierarquias sociais e os interesses políticos e econômicos. As demais alternativas apresentam leituras equivocadas: a “B” erra ao sugerir um modelo equânime de sanções, que o texto explicitamente refuta; a “C” ignora a crítica de Foucault à ideia de penalização severa como princípio universal; a “D” incorre em erro ao falar em justiça social, quando o texto descreve justamente sua ausência; já a “E” foca em “hierarquização cultural”, o que não é o ponto central da análise, que trata de uma hierarquização de classe no tratamento das ilegalidades.

Resposta da questão 34: [A]
O texto retrata a rotina da cidade de Belém, capital do Pará, marcada por altos índices de precipitação ao longo de todo o ano, com destaque para a incerteza do horário da chuva, mas não de sua ocorrência. Esse padrão climático é característico das áreas próximas à linha do Equador, que apresentam clima equatorial úmido, com chuvas frequentes e abundantes, geralmente no período da tarde, devido à atuação da convecção térmica provocada pela alta temperatura e pela grande evapotranspiração da floresta. Esse comportamento climático é favorecido pela baixa latitude, já que Belém está situada próxima à Linha do Equador. Nessas regiões equatoriais, a incidência solar é intensa ao longo de todo o ano, o que aumenta a evaporação e contribui para a formação de nuvens carregadas e chuvas convectivas quase diárias. Assim, o fator geográfico determinante é a baixa latitude, que permite elevada incidência solar e mantém temperaturas elevadas o suficiente para alimentar o ciclo constante de chuvas. A alternativa “A” é a correta, pois identifica o fator geográfico que favorece as condições de clima equatorial observadas na cidade de Belém. As demais alternativas estão incorretas: a alternativa “B” erra ao mencionar a elevada altitude, pois Belém está ao nível do mar; a “C”, ao falar em fraca insolação, ignora o fato de que a região recebe alta radiação solar; a “D” trata de continentalidade, que diz respeito ao afastamento do mar, o que não se aplica, já que Belém está próxima ao litoral; e a “E”, ao mencionar refletividade (albedo), trata de um fator relevante em climas áridos e em superfícies como gelo ou áreas desmatadas, o que não corresponde à realidade úmida e florestal de Belém.

Resposta da questão 35: [A]
A crise de 1929, desencadeada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, teve repercussões globais e afetou intensamente o Brasil, cuja economia estava fortemente atrelada à exportação de café. A queda nos preços agrícolas internacionais, mencionada no texto, já era um sinal claro da fragilidade do modelo agroexportador. Com a ascensão de Getúlio Vargas em 1930, o Estado brasileiro passou a adotar uma postura mais intervencionista e nacionalista na economia, buscando reduzir a dependência externa e fortalecer o mercado interno. Nesse contexto, uma das principais estratégias adotadas foi o incentivo à industrialização interna voltada à substituição das importações. Como os produtos industrializados estrangeiros tornaram-se mais caros ou escassos em razão da crise global, criou-se uma oportunidade para desenvolver a indústria nacional, especialmente nos setores de bens de consumo. O governo passou a promover políticas de proteção tarifária, criação de instituições de fomento e investimentos em infraestrutura, além de incentivar a produção fabril nos centros urbanos em expansão.
Portanto, a alternativa “A” é a correta, pois traduz a diretriz econômica adotada pelo Estado brasileiro como resposta à crise de 1929: a substituição de importações por meio da industrialização nacional.
As demais alternativas não se alinham ao processo histórico descrito. A “B”, sobre nacionalização de empresas estrangeiras, não corresponde à política adotada no período, já que o capital estrangeiro continuou atuando, especialmente na indústria de base. A “C”, referente à venda de terras para pequenos produtores, não foi uma medida central na política econômica da Era Vargas. A alternativa “D” menciona o estímulo à imigração para as indústrias, mas, nesse período, o fluxo imigratório já havia diminuído, especialmente com o advento das leis restritivas e da crise internacional. Por fim, a “E”, que fala sobre financiamento ao setor terciário, não expressa a prioridade do governo, que estava focado na industrialização e na infraestrutura.

Resposta da questão 36: [C]
O Movimento Negro Unificado, conforme descrito no excerto de Guimarães, propôs uma ruptura com o mito da democracia racial — ideia fortemente disseminada no Brasil a partir dos anos 1930, segundo a qual haveria uma convivência harmoniosa entre brancos, negros e indígenas, sem racismo estrutural. O movimento contestou esse mito, denunciando a persistência de desigualdades raciais enraizadas nas relações sociais cotidianas e nas instituições. Uma das principais estratégias foi a ampliação da identidade negra, incorporando a noção de que todos com alguma ascendência africana deveriam ser considerados “negros” — e não apenas os de pele mais escura. Essa reconfiguração identitária tinha como finalidade fortalecer a coesão política e social do grupo racializado, ampliando a base de luta contra o preconceito e a exclusão. Nesse sentido, a alternativa correta é “combater discriminações étnicas”, pois o objetivo principal do movimento era justamente denunciar e enfrentar as formas de racismo estrutural e institucionalizadas, promovendo uma nova consciência racial que confrontasse o silêncio histórico sobre o racismo brasileiro. As demais alternativas não se aplicam ao foco do movimento: a “A”, que menciona privilégios de classe, não aborda diretamente o combate ao racismo; a “B”, sobre injustiças econômicas, apesar de vinculada à temática da desigualdade, não expressa o cerne do movimento tal como exposto no texto; a “D”, que fala de preconceitos religiosos, desvia totalmente do conteúdo apresentado; e a “E”, sobre desigualdades culturais, embora tangencie a questão identitária, não expressa com precisão o enfrentamento direto ao racismo.

Resposta da questão 37: [B]
O personagem Gerineldo, descrito por Gabriel García Márquez, representa uma postura determinista, marcada pela resignação e pelo conformismo. Ele vive submetido à previsibilidade e ao controle racional de todas as possibilidades, como se o mundo fosse um sistema fechado, onde o acaso e a liberdade não têm espaço. Sua relação com os objetos do apartamento é marcada por cálculos, inventários e estatísticas — ele se rende à ideia de que tudo já está previsto, exceto o que nunca aconteceu, o que o leva à paralisia diante da vida. Essa postura contrasta fortemente com o pensamento existencialista de Jean-Paul Sartre. Para Sartre, a existência precede a essência: o ser humano está lançado no mundo, em uma realidade contingente, mas dotado de total liberdade para atribuir sentido à sua existência. A facticidade (aquilo que nos é dado — nascimento, passado, lugar) não limita a liberdade humana, mas é justamente o pano de fundo sobre o qual o sujeito se projeta, escolhe e transforma sua situação. A liberdade, portanto, é inescapável e fundadora. Dessa forma, o contraste entre os textos evidencia que Gerineldo nega a possibilidade de transcendência, ou seja, de superar a situação dada por meio da liberdade e da ação. Enquanto Sartre defende que somos condenados a ser livres, Gerineldo se entrega ao determinismo da repetição e do controle absoluto. As demais alternativas não se aplicam: a “A”, que menciona o inconsciente, está mais associada à psicanálise do que ao existencialismo; a “C”, sobre conhecimento difuso, não é pertinente ao contraste central; a “D”, sobre a fugacidade da vida, não é o cerne do dilema existencial apresentado; e a “E”, ao falar de evolução biológica, foge completamente do campo da filosofia existencialista.

Resposta da questão 38: [E]
O texto de Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt descreve a cidade medieval como um espaço urbano multifuncional que concentra abundância demográfica, práticas econômicas monetarizadas, valores culturais e arquiteturas defensivas. Essa descrição revela que, mesmo diante do crescimento das atividades produtivas e comerciais, a cidade ainda mantinha certos elementos herdados de sua configuração original. Nesse sentido, embora o texto destaque características ligadas ao dinamismo urbano — como a prática criativa do trabalho, o gosto pelo negócio e o luxo, e a presença de trocas comerciais —, ele também aponta para a preservação das estruturas espaciais de defesa, como muralhas, portas, ruas estreitas e torres, elementos típicos do urbanismo medieval, voltados à proteção da cidade contra ataques externos. Esse aspecto arquitetônico simboliza o medo constante de invasões e o controle da circulação, aspectos ainda presentes mesmo durante o florescimento do artesanato e do comércio. Portanto, a cidade medieval é apresentada como um espaço onde a modernização econômica convive com estruturas tradicionais de proteção. As demais alternativas não se sustentam: a alternativa “A” está incorreta porque a emancipação da cidade em relação à realeza foi limitada e muitas cidades medievais continuaram subordinadas ao poder monárquico ou feudal; a alternativa “B” erra ao sugerir a aceitação generalizada das práticas usurárias pelos religiosos, o que não condiz com a oposição oficial da Igreja à usura nesse período; a alternativa “C” é equivocada, já que as cidades não se tornaram independentes da produção agrícola rural; e a “D” está incorreta, pois o ordenamento corporativo dos ofícios (guildas e corporações de ofício) foi mantido e até fortalecido no ambiente urbano medieval.

Resposta da questão 39: [B]
O texto evidencia o perfil majoritário da população carcerária brasileira entre 2005 e 2012: homens jovens, negros, com baixa escolaridade, condenados principalmente por crimes patrimoniais. Esses dados revelam um padrão estrutural de exclusão social que antecede o crime e denuncia a seletividade do sistema penal, que recai com mais rigor sobre as camadas sociais mais vulneráveis. Nesse contexto, a estratégia mais coerente para enfrentar essa realidade não está na ampliação da repressão ou do encarceramento, mas sim na promoção de políticas públicas voltadas à inclusão social, como o acesso à educação de qualidade, à profissionalização, ao emprego, à moradia digna e à justiça restaurativa. A literatura sociológica crítica, como a de Loïc Wacquant e Michel Foucault, reforça a ideia de que o sistema penal tende a reproduzir desigualdades já existentes na estrutura social, funcionando como mecanismo de controle das classes subalternas. Assim, a alternativa “B” apresenta a resposta mais adequada, pois ações inclusivas podem quebrar o ciclo de exclusão e criminalização da juventude periférica. As demais alternativas não contribuem efetivamente para a resolução do problema: a alternativa “A”, ao tratar do Código Civil, não se relaciona com a política criminal e penitenciária; a “C”, ao sugerir a redução da maioridade penal, reforça a lógica punitivista e ignora as causas estruturais do encarceramento juvenil; a “D”, embora a corrupção política seja um problema relevante, não tem relação direta com o perfil da população carcerária discutido; por fim, a alternativa “E” aprofunda a lógica de encarceramento em massa, cujos efeitos já se mostraram ineficazes na redução da violência.

Resposta da questão 40: [E]
A fórmula do amor fati, elaborada por Nietzsche, expressa uma atitude filosófica de afirmação radical da vida tal como ela é, com todos os seus aspectos — dor, caos, acaso, imperfeições e limites. O indivíduo não deve apenas aceitar o inevitável (fatum), mas amá-lo, desejar que tudo se repita exatamente da mesma forma. Isso representa uma ruptura com a tradição cristã, que, para Nietzsche, nega o mundo terreno em nome de uma promessa transcendente, como o paraíso ou a salvação da alma. Dessa forma, a crítica se dirige especialmente à consagração da realização humana ao campo transcendental, ou seja, à ideia de que o sentido da vida e a verdadeira recompensa se encontram além deste mundo, numa realidade pós-morte. Nietzsche denuncia isso como uma moral de negação da vida, de ressentimento, e propõe em seu lugar uma ética afirmativa e trágica, inspirada nos valores da antiguidade grega pré-socrática, como o dionisíaco. Portanto, a alternativa “E” é a correta, pois expressa esse alvo central da crítica nietzschiana: a transcendência cristã como fuga da realidade. As demais alternativas não se aplicam: a alternativa “A” não tem relação com o conteúdo do texto, pois Nietzsche não critica práticas sociais de cunho afetivo; a “B” trata de ciência, que não é o ponto de tensão aqui; a “C” confunde a crítica à tradição cristã com elogios aos cultos pagãos, o que não é o foco do conceito de amor fati; e a “D” está incorreta porque Nietzsche, ao contrário, valorizava muitos elementos da filosofia antiga, especialmente os trágicos gregos.

Resposta da questão 41: [E]
O texto apresenta um dos fundamentos da moral socrática: a associação entre sabedoria, virtude e prática do bem. Para Sócrates — conforme descrito por Xenofonte — ninguém pratica o bem de forma ignorante, e toda ação justa e virtuosa decorre do conhecimento. Assim, agir corretamente depende da posse do saber, e os que erram o fazem por ignorância, e não por maldade deliberada. Portanto, a vida virtuosa está vinculada à busca e ao cultivo do saber como única forma de realizar ações justas e boas. Essa é a base da ética intelectualista de Sócrates, segundo a qual o conhecimento da verdade leva inevitavelmente à prática da virtude, pois quem conhece o bem não pode agir de outra forma. Dessa forma, a alternativa que melhor representa essa visão é “E) persecução da verdade como forma de agir corretamente”. As alternativas “A”, “B”, e “D” confundem a ética socrática com noções estoicas ou epicuristas, centradas no sofrimento, prazer ou serenidade da alma, o que não corresponde ao pensamento de Sócrates. Já a alternativa “C”, embora filosófica, diz respeito à physis como fonte de conhecimento, o que se relaciona mais à filosofia pré-socrática (como Heráclito ou Anaximandro), e não à moral socrática propriamente dita.

Resposta da questão 42: [A]
O método intelectual empregado por Descartes é o da dúvida metódica, que consiste em duvidar de todas as crenças que possam conter qualquer incerteza, com o objetivo de encontrar uma verdade indubitável que sirva como base para o conhecimento seguro. No trecho citado, ele afirma que, embora possa duvidar da existência de todas as coisas, não pode duvidar da existência de si mesmo enquanto pensa — daí a célebre conclusão “penso, logo existo” (cogito, ergo sum). Esse procedimento racional, exposto nas Meditações Metafísicas, é fundamental para a constituição do pensamento moderno, pois estabelece um ponto de partida firme, racional e autoconsciente para todo conhecimento verdadeiro. Assim, o objetivo da dúvida não é o ceticismo puro, mas a busca de um fundamento absolutamente certo e confiável para a construção das ciências. Portanto, a alternativa correta é “a) identificar um ponto de partida para a consolidação de um conhecimento seguro”. As demais alternativas incorrem em erros de interpretação: A alternativa “B” se refere a um procedimento indutivo típico do empirismo (como em Bacon), não ao racionalismo cartesiano. A “C” menciona necessidades humanas e saber empírico, o que não se aplica ao método de Descartes. A “D” foca na valorização da memória, que não é o ponto central do projeto cartesiano. E a “E” trata da análise de totalidades estruturadas, o que remete mais a abordagens fenomenológicas ou hermenêuticas, e não ao racionalismo fundacional de Descartes.

Resposta da questão 43: [C]
A autora Mary Wollstonecraft, pioneira do pensamento feminista moderno, faz uma crítica contundente ao modelo educacional do século XVIII, que limitava o papel da mulher à sedução e à obediência, reduzindo-a a um ideal estético e afetivo idealizado por homens. No excerto apresentado, ela defende que as mulheres não devem aspirar apenas ao amor romântico, mas sim buscar uma ambição mais elevada, exigindo respeito por suas capacidades intelectuais e virtudes morais. O centro da crítica está na denúncia de uma educação que molda as mulheres para agradar, em vez de desenvolver suas potencialidades humanas. Assim, o texto reivindica o reconhecimento da mulher como sujeito racional, autônomo e digno de respeito em sua totalidade, e não apenas como objeto de desejo. Ao atacar o sistema educacional e os manuais escritos por homens, Wollstonecraft propõe que as mulheres ocupem um espaço de valor social construído por méritos próprios. Dessa forma, o que está em jogo no texto não é a reinvindicação por direitos políticos ou econômicos específicos, mas sim a valorização do papel social das mulheres para além da estética e da função doméstica, o que torna correta a alternativa “C”. A alternativa “A” trata de participação política, tema que, embora presente em outras obras feministas, não é o foco direto do excerto. A alternativa “B” refere-se a ganhos salariais, pauta posterior às críticas ilustradas por Wollstonecraft. A “D” menciona distinções biológicas, o que não é abordado no texto. A “E” trata da ocupação de cargos públicos, também ausente no trecho analisado.

Resposta da questão 44: [C]
O texto apresenta uma oposição entre duas instituições importantes do contexto colonial luso-americano: a Companhia de Jesus e o Tribunal do Santo Ofício. De um lado, os jesuítas defendiam uma estratégia missionária de acomodação e adaptação cultural, isto é, aceitavam certas manifestações simbólicas dos povos indígenas para facilitar a conversão ao catolicismo. De outro, a Inquisição promovia a ideia de pureza absoluta da fé cristã, rejeitando qualquer sincretismo ou desvio doutrinário. Esse dissenso se manifestou claramente em episódios nos quais os jesuítas permitiram ou até estimularam a ressignificação de elementos religiosos indígenas, integrando-os ao discurso cristão — por exemplo, quando permitiam que deuses indígenas fossem assimilados como santos católicos. Essa prática, vista como uma forma de facilitar a aceitação do cristianismo pelos povos nativos, era duramente criticada pela Inquisição, que interpretava tais atitudes como heresia ou idolatria. Assim, a alternativa correta é a letra “C”, pois aponta para a ressignificação dos panteões indígenas — prática que ilustra o embate entre a adaptabilidade missionária dos jesuítas e o rigor doutrinário inquisitorial. As demais alternativas não se alinham ao contexto apresentado no texto. A alternativa “A” trata do comércio ultramarino, que não está em pauta. A “B” menciona a condenação da escravidão africana, tema ausente no excerto. A “D” fala de núcleos de catequese, mas essa prática era comum tanto entre os jesuítas quanto outros grupos, não ilustrando o conflito citado. Já a alternativa “E” refere-se à incorporação de indígenas nas forças militares, o que não tem relação com o conteúdo religioso discutido.

Resposta da questão 45: [D]
O trecho extraído de A Política, de Aristóteles, afirma que o ser humano é naturalmente um animal político, ou seja, um ser que vive em coletividade e que realiza sua natureza por meio da vida em sociedade. Nesse contexto, o Estado não existe apenas para prover necessidades materiais básicas (como segurança e defesa), mas tem como fim essencial a promoção da virtude e da felicidade por meio da ciência, isto é, do conhecimento e da formação moral dos cidadãos. Essa visão está associada ao ideal grego de uma vida ética e racional, em que a paideía (educação formativa) desempenha papel central na constituição do cidadão virtuoso. Para Aristóteles, a cidade é o espaço privilegiado onde os indivíduos podem atingir sua plenitude, e isso se dá por meio da atuação ética no coletivo. Assim, o Estado deve proporcionar as condições para o florescimento moral e intelectual dos indivíduos. Portanto, a alternativa correta é “d) vida ética, proporcionando a formação moral dos cidadãos.” As demais alternativas distorcem a perspectiva aristotélica: a alternativa “A” remete à justiça divina e à salvação eterna, conceitos ligados à tradição cristã, não à filosofia aristotélica; a “B” refere-se à teoria moderna da separação dos poderes, especialmente de Montesquieu; a “C” traz uma noção de propriedade como direito natural, vinculada ao pensamento de John Locke; e a “E” aborda o direito de resistência a governos impopulares, algo presente no contratualismo moderno, especialmente em Locke e Rousseau, mas ausente na obra de Aristóteles.